
Capítulo 130
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 130
Cinco dias depois, no templo da Árvore do Mundo em Galad...
— Então... Aquela garota é a cria de Etyron [1], — a regente murmurou baixinho, com o olhar fixo na pequena e adorável menina aninhada nos braços de Caron.
Aqua estava profundamente adormecida, seu sorriso sereno a fazia parecer completamente em paz, como se nada no mundo a incomodasse. Apenas a visão dela era suficiente para trazer uma sensação de calor e calma para aqueles que a observavam.
— Eu estava considerando deixá-la sob seus cuidados, — disse Caron.
— Posso colocar minha mão sobre ela por um momento? — perguntou a regente gentilmente.
— Claro, — respondeu Caron.
A regente se aproximou e cuidadosamente colocou a mão na cabeça de Aqua.
*Whoosh.*
Um leve zumbido ressoou enquanto mana pura se reunia na ponta de seus dedos e era rapidamente absorvida pelo pequeno corpo de Aqua.
Momentos depois, a regente assentiu e disse: — Para uma cria de Etyron, sua mana é incrivelmente pura.
— Os elfos mantêm o princípio da culpa herdada? — Caron perguntou, inclinando a cabeça.
— A transgressão de um pai é sua própria. Não pode manchar o filho. Não somos como os humanos, — respondeu a regente firmemente.
— Bem, isso é um alívio, — disse Caron com uma risada suave, sua mão acariciando gentilmente as costas de Aqua. Ele acrescentou: — Ela me chama de pai.
— Isso faria sentido, — observou a regente. — Posso sentir sua mana dentro do coração de dragão dela.
Aqua tinha sete anos, então, com base no tempo, Caron imaginou que se alinhava aproximadamente com quando ele havia destruído a Pedra da Promessa no Castelo Azureocean. Ele se perguntou se havia uma conexão entre esse evento e o nascimento de Aqua.
— Você sabe por que minha mana está imbuída no coração de dragão de Aqua? — Caron perguntou.
A regente balançou a cabeça lentamente e respondeu: — Uma cria não é algo que a Mãe poderia ter planejado. Ela pode saber algo, mas não compartilhou comigo.
— Eu acho que ela está deliberadamente escondendo isso de você, — disse Caron, em tom especulativo.
— Perdão? — respondeu a regente.
— Bem, não é possível? Se ela quisesse nos impulsionar a reviver a Árvore do Mundo mais rápido, ela poderia estar retendo informações de propósito... — Caron compartilhou seus pensamentos.
Kerra, que estava perto, deu a ele um olhar fulminante. Ele perguntou secamente: — Você acha que todo mundo no mundo é como você, Comandante?
Apenas os presentes ali sabiam da reencarnação de Caron, e é por isso que Kerra se dirigiu a ele tão casualmente.
— Você se esqueceu do segundo princípio da Guarda Imperial, Kerra? Não confie em ninguém além de si mesmo, — Caron gracejou com um sorriso.
— Ah, sim, Comandante. Você aderiu tão bem a esse princípio que acabou morto, — Kerra retrucou.
Ignorando sua alfinetada, Caron se virou para a regente e disse: — Kerra também ficará aqui. Ele é como um pai para Aqua.
— Por favor, me chame de tio dela, — Kerra interrompeu.
— Não. Isso vai apenas bagunçar a árvore genealógica. Você é o cuidador. É melhor do que ficar preso nas montanhas, não é? Além disso, eles têm um ótimo vinho de frutas aqui, — disse Caron.
Ao ouvir falar de vinho de frutas, a expressão de Kerra se iluminou consideravelmente. Ele era simples como sempre.
A regente deu um leve sorriso divertido com a troca infantil deles. Ela disse educadamente: — Seríamos gratos por ter Sir Kerra Acht conosco. Vou garantir que acomodações adequadas sejam preparadas para que você possa ficar confortável.
— Ah, e você está livre para passar perto do covil de Etyron agora. Eu o arrumei no caminho para cá, — Caron acrescentou casualmente.
A visão dos monstros que fervilhavam ao redor do covil recuando para dentro dele ao único comando de Aqua de "Entrem" foi nada menos que espetacular. O covil de Etyron, há muito proibido, não era mais uma ameaça. Com seus perigos eliminados, um atalho entre Galad e a Vila Eär foi efetivamente aberto.
Claro, a decisão não havia sido tomada puramente para os elfos. Este era meramente um passo preparatório para a próxima "proposta" de Caron.
— Regente, — Caron começou.
— Fale livremente, — respondeu a regente.
— Agora, nós e os elfos... Bem, somos praticamente parentes em tudo, menos no sangue, não diria? — Caron disse, com a língua já exercendo seu charme.
— A batalha com o Fragmento da Carnificina, eu meio que não pude evitar, mas a luta com a Rainha Pirata? Isso era algo que eu poderia ter evitado. No entanto! Impulsionado por um coração justo determinado a salvar os elfos, eu voluntariamente empunhei minha espada— — Caron continuou, mas foi interrompido pela regente.
— Caron Leston, — disse a regente, em tom severo.
— Sim? — perguntou Caron.
— Apenas me diga o que você quer. Qual é o problema com a explicação complicada? — respondeu a regente.
Felizmente, ela havia desenvolvido uma imunidade à retórica de Caron, cortesia do recente incidente do "roubo do Orvalho da Árvore do Mundo".
Ao ouvir a pergunta afiada da regente, Caron riu sem graça e disse: — Quase morri lutando contra a Rainha. Ainda estou cuidando de algumas lesões internas. Então, se eu pudesse ter apenas mais uma gota do Orvalho, ficaria muito grato.
A regente exalou suavemente e respondeu: — ...Tudo bem.
Isso era algo que ela já havia previsto. Ela sabia que Caron não era do tipo que fazia coisas perigosas por generosidade.
— Oh, muito obrigado! — exclamou Caron, com um largo sorriso.
— Isso é tudo? — perguntou a regente.
— Haha! Claro que não, — respondeu Caron.
Naquele momento, algo inacreditável aconteceu. Ele enfiou a mão no casaco e puxou um longo pergaminho. O pergaminho, coberto de escrita, era tão extenso que quase tocou o chão.
— Enquanto viajava para Galad, imaginei um futuro radiante para o Ducado de Leston e os elfos trabalhando juntos. Sempre que uma ideia surgia, eu anotava... Haha, acabou se tornando uma lista bem grande, — disse ele, rindo.
A regente se perguntou o que Caron estava tramando agora, e sua expressão só ficou mais perplexa enquanto Caron continuava.
— Pegue Locassi, o reino dos nagas, como um exemplo. Seu príncipe herdeiro, uma figura de imensa influência, se ofereceu como refém para manter o pacto de não agressão. Isso significa que uma rota para os mares foi aberta para nós, — explicou Caron.
— Mesmo que os mares sejam acessíveis, isso não muda muito, Caron Leston. Não temos intenção de interagir com outras raças por enquanto— — respondeu a regente firmemente, mas foi interrompida por Caron.
— Eu escrevi vários recursos que faltam em Galad, — Caron interrompeu, ignorando convenientemente sua refutação. — Começando com minério de ferro, especiarias... Oh, a lista é longa. Gostaria de dar uma olhada? Eu até importunei Orion para obter detalhes. Você não acreditaria no quanto Galad carece.
Ele leu a lista com gestos exagerados antes de exibir um sorriso deslumbrante.
— Regente, eu entendo sua relutância em se envolver com humanos. Mas o que acha disso? Apenas forme laços com o Ducado de Leston, — ele propôs, acenando com o pergaminho para dar ênfase.
Os lábios da regente se curvaram em um sorriso fraco e conhecedor antes que ela dissesse: — Suspeito que a lista de coisas que o ducado precisa de nós supera em muito o que precisamos do ducado. Estou errada?
— Amigos realmente precisam somar cada coisinha? — Caron rebateu brincando.
— Parece que você está propondo uma aliança. Essas coisas precisam ser claras para evitar mal-entendidos mais tarde, — disse a regente.
A regente era, de fato, uma governante. Ela não deu a Caron a chance de escolher o caminho mais fácil. Ainda assim, sua falta de recusa direta sugeria que ela estava aberta a negociações — se os termos fossem certos.
Os lábios de Caron se curvaram para cima enquanto ele respondia suavemente: — Sejam humanos ou monstros, eu garantirei que ninguém ouse machucar os elfos.
— Você está sugerindo cooperação militar? — perguntou a regente cautelosamente.
— Bem, isso acabaria dependendo do chefe da minha família, — disse Caron, dando de ombros levemente. — Mas posso prometer uma coisa sem dúvida...
Ele cerrou o punho e falou com uma sinceridade que nem mesmo a regente pôde ignorar. — Qualquer um que ameace os elfos será dilacerado pelas minhas presas primeiro.
A regente assentiu lentamente, seu olhar firme, então disse: — Isso será suficiente.
E com isso, a aliança entre o Ducado de Leston e os elfos foi forjada.
***
Após sua reunião com a regente, o grupo de Caron imediatamente começou os preparativos para retornar. Não havia razão para atrasar mais. Desde entregar o relatório de sobrevivência sobre Kerra Acht até abordar a aliança com os elfos, as tarefas que os aguardavam no Castelo Azureocean eram incontáveis.
No portão oeste de Galad, o grupo de Caron estava diante de Kerra, Aqua e Orion, totalmente pronto para partir.
— Papai, — Aqua chamou.
Caron se ajoelhou para abraçar Aqua gentilmente, sorrindo enquanto o fazia, então perguntou: — Não vai me pedir para ficar desta vez, hein?
— Sim! Eu sei que não posso deixar esta floresta e não quero atrapalhar, — Aqua respondeu sinceramente.
— Você é uma garota esperta, — disse Caron.
A verdade por trás do nascimento de Aqua, a pequena cria que o chamava de "Papai", viria naturalmente à tona assim que eles restaurassem a Árvore do Mundo.
Enquanto Caron abraçava Aqua, uma conversa ridícula ecoou por trás.
— Se Aqua é filha de Caron e Etyron, isso faz de Caron marido de Etyron? — Utula perguntou com um senso de lógica bizarro.
— Hmm, isso faz sentido, — Leo concordou.
— O marido de um dragão tirano? Isso é incrível, — disse Utula.
— Combina com Caron, não acha— — Leo acrescentou, mas o som de uma bainha de espada batendo em suas cabeças interrompeu suas reflexões.
Era, como sempre, trabalho de Leon repreendê-los com uma carranca. Ela retrucou: — Vocês dois não pensam antes de dizer as coisas em voz alta na frente de uma criança!
Aqua riu enquanto observava, dizendo: — Leon, Leo e Tio Utula são tão engraçados! Você não acha, papai?
— Desculpe por eles. Da próxima vez que eu os trouxer, vou garantir que sejam mais bem educados, — disse Caron com fingida resignação.
— Você vai trazê-los com certeza, certo? Promete! — Aqua perguntou, seus olhos brilhando de esperança.
— Eu prometo, — respondeu Caron, fazendo um juramento de mindinho com ela.
Se pudesse, ele adoraria levar Aqua para casa com ele. Ele tinha certeza de que seus pais a mimariam infinitamente. Mas por enquanto, ele tinha que suprimir esse desejo. Aqua ainda precisava de tempo aqui na floresta.
— Ainda não é minha hora, — disse Aqua, apertando a mão de Caron com força enquanto sorria. — Algum dia, serei capaz de ajudá-lo, papai. Não se preocupe comigo. Estou apenas feliz por ter conseguido te ver. E eu sou muito boa em esperar!
— Estou tão orgulhoso de você, — disse Caron, sua voz cheia de orgulho. Suas palavras resolutas lhe deram força renovada.
Depois de bagunçar o cabelo de Aqua, ele se virou para Kerra e disse: — Estou contando com você para cuidar da ‘minha’ Aqua.
Com os olhos arregalados, Kerra disse: — Não se preocupe com isso. Eu vou cuidar dela muito bem.
— Ah, algo que você queira que eu transmita ao meu avô? — Caron perguntou com fingida polidez.
— Esqueça seu avô. Apenas venha aqui, — Kerra respondeu com um grande sorriso antes de puxar Caron para um abraço esmagador. Ele disse provocadoramente: — Ligue sua função de cancelamento de ruído, garoto.
— Você pede demais, — murmurou Caron enquanto Pluto envolvia ambos em um leve véu de escuridão.
— Foi bom te ver de novo, Comandante, — disse Kerra, sua sinceridade evidente.
Caron o empurrou gentilmente para longe e sorriu, então disse: — Ficando sentimental na sua velhice, hein? Que nojo, seu bastardo.
— Envelhecer te torna sem vergonha, — Kerra retrucou, coçando a cabeça com uma risada. Então, em um tom mais suave, ele acrescentou: — Mantenha contato. Fica chato por aqui.
— Apenas cuide bem de Aqua, — disse Caron firmemente.
— Ah, e... Posso pedir um favor? — Kerra acrescentou, seu tom incomumente cauteloso.
Caron assentiu lentamente e disse: — Claro, qualquer coisa.
— Se você encontrar Hugo e Beatrice, por favor, dê meus cumprimentos. Ver você me lembrou deles, — disse Kerra.
— Eu já estava planejando procurar por quaisquer vestígios deles assim que voltasse, — respondeu Caron.
Vendo que Kerra havia sobrevivido, parecia provável que os outros dois também estivessem vivos. Já que ele estaria viajando para restaurar a Árvore do Mundo de qualquer maneira, procurar por eles ao longo do caminho não seria muito difícil. Os registros de seus últimos locais conhecidos ainda devem estar no Castelo Azureocean.
— Não se preocupe muito com eles, — disse Kerra com um leve sorriso. — Esses dois poderiam sobreviver mesmo que você os jogasse no meio de um deserto.
— Eles não ficaram presos em um deserto uma vez durante uma missão? — Caron provocou.
— Hah, foi? Minha memória está ficando turva na minha velhice. Talvez seja hora de eu finalmente esticar as canelas, — Kerra respondeu, rindo.
Os dois trocaram brincadeiras antes de cair em um breve e confortável silêncio.
— Vá em frente, Comandante, — disse Kerra suavemente.
— Tudo bem, estou indo agora, — respondeu Caron.
O véu sombrio que os havia envolvido se dissipou, e Caron se virou para se juntar ao seu grupo.
Leo olhou por cima do ombro e perguntou: — Sobre o que você estava falando com Sir Kerra?
— Ele disse para garantir que você seja mais bem treinado da próxima vez que eu trouxer você junto. Aparentemente, você é muito convencido, — Caron respondeu, sorrindo.
— O quê?! — Leo exclamou.
Caron rapidamente resumiu a intromissão de Leo; ele então se virou para olhar para Orion, que estava perto, e disse: — Você não precisava nos dar um até logo desta vez.
Os olhos de Orion se arregalaram em surpresa quando ele perguntou: — Do que você está falando? Você não ouviu? Eu estou indo com você para o Castelo Azureocean.
— ...Por quê? — Caron perguntou, confuso.
— Fui encarregado de entregar uma carta pessoal da regente. É uma boa oportunidade para ter uma noção do clima atual do continente. Ah, e eu planejo trazer Neria junto. Lady Foina mencionou que ela a tem mantido segura, — explicou Orion.
— Ah, Neria, — Caron murmurou, lembrando-se da elfa que ele havia resgatado em Reben. Parecia que ela estava se dando bem com Foina.
— Por que parece que eu ganho um carona extra cada vez que paramos em algum lugar? — ele murmurou.
— Caron! Eu não sou um carona! — Utula protestou.
— Utula, eu nem estava falando de você, — Caron rebateu.
— Ahem, — Utula fingiu indiferença, mas ficou em silêncio.
E assim, Orion se juntou oficialmente ao grupo que seguia para o Castelo Azureocean.
*Uivo.*
O grupo montou os lobos que Orion havia preparado com antecedência, com as rédeas nas mãos. Quando começaram a se mover, Kerra de repente saudou Caron.
— ...Aquele bastardo, — Caron murmurou baixinho, sorrindo enquanto retribuía a saudação.
Momentos depois, a voz alegre de Aqua soou. — Papai! Leon! Leo! Tio Utula! Vocês todos têm que voltar para visitar!
O grupo acenou entusiasticamente para Aqua, seus sorrisos largos e calorosos.
— Fofura é o melhor, — murmurou Leon.
— Posso ser o pai dela, Caron? — disse Leo.
— Eu ainda sou apenas ‘tio’, hein? Da próxima vez, vou fazê-la me chamar de algo melhor, — Utula acrescentou dramaticamente.
— Hmm, eu admito, filhotes são bem cativantes, — disse Caron.
Cada um deles deixou um comentário de despedida; Caron riu suavemente, acenando para si mesmo enquanto dizia: — Vamos voltar.
Com isso, as despedidas estavam completas, e o grupo de Caron partiu mais uma vez. Assim terminou sua jornada na Grande Floresta do Sul.
— Para o Castelo Azureocean, — Caron declarou.
Com sua tarefa explosiva e superdimensionada a reboque, o grupo fixou seus olhos em casa.
[1] **Cria de Etyron:** Etyron é um dragão tirano, e "cria" se refere ao seu filhote.