
Capítulo 122
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 122. O Que Você Pode Fazer?
O local ficava a cerca de uma hora de caminhada ao sul da Vila Eär. Caron e seu grupo se posicionaram em um ponto estratégico, observando os piratas avançando rapidamente à distância.
— Eles estão se movendo mais rápido do que eu esperava — Leo comentou, franzindo as sobrancelhas enquanto observava a horda desorganizada.
Os piratas não mostravam nem um pingo de disciplina, mas seu número puro — perto de mil — combinado com seu moral elevado, era uma ameaça por si só.
Boom!
Uma a uma, as armadilhas colocadas anteriormente pelos elfos estavam sendo desmanteladas. Embora os piratas carecessem de disciplina, também não eram amadores. Eles enviavam veteranos experientes para limpar cuidadosamente o caminho.
Com um leve sorriso nos lábios, Caron inclinou ligeiramente a cabeça e disse: — Bem, eles são os piratas da Rainha. Lidar com algumas armadilhas deve estar dentro de suas capacidades.
As armadilhas, criadas pelos elfos, dependiam fortemente de magia elemental — usando as forças da natureza para ativá-las. Algumas foram projetadas para acender chamas através de espíritos de fogo, enquanto outras visavam emaranhar com vinhas ou desencadear avalanches de detritos. E, no entanto, neste momento, as armadilhas não estavam produzindo o efeito desejado.
Era como Barad os havia alertado: Os espíritos elementais da floresta estavam severamente enfraquecidos.
— ...Aquelas criaturas, são nagas, certo? — Leo perguntou.
— Sem dúvida — Leon respondeu, acenando em direção a um grupo de figuras escamosas entre os piratas. — Não parecem simplesmente encantadoras?
Caron seguiu o gesto de Leo, seu olhar se fixando nos nagas. Esses seres escamosos espreitavam na retaguarda da força pirata, exalando uma energia sinistra e opressiva. Suas orelhas pontudas indicavam seu parentesco distante com os elfos, mas era aí que a semelhança terminava.
Sua pele em tons de azul, coberta de escamas, cintilava fracamente, e seus olhos dourados e penetrantes irradiavam um brilho malévolo. A visão deles enviou um arrepio involuntário pela espinha de Caron.
"O poder do abismo é próximo da magia negra, Mestre", a voz de Guillotine ecoou fracamente na mente de Caron. "Ele consome e corrompe tudo o que toca."
A observação de Guillotine era muito precisa. A magia que emanava dos nagas — uma força distorcida extraída do fundo do mar — não era um poder comum.
Crrrack!
Uma árvore atingida pelo alcance da magia murchou instantaneamente, sua casca rachando e descascando como se tivesse envelhecido por séculos em meros momentos. O poder era nada menos que profano.
— Isso não será fácil — Caron murmurou, acenando lentamente enquanto observava a cena.
O poder dos nagas excedeu suas expectativas. Eles efetivamente anularam o maior trunfo dos elfos — seus espíritos elementais. Embora os piratas e nagas não parecessem estar trabalhando juntos em perfeita harmonia, os nagas mais do que compensaram a falta de habilidade mágica dos piratas.
— Hmm — Caron soltou um leve suspiro, sua expressão pensativa. Para um estranho, poderia parecer hesitação, mas não era o caso.
Leo, parado ao lado dele, franziu a testa enquanto olhava para Caron. — ...Então, Caron. Você realmente vai usar isso? — ele perguntou hesitante, seu tom desconfortável.
Ele estava se referindo à nova habilidade que Caron havia revelado ao grupo apenas no dia anterior. O simples pensamento disso fez Leo estremecer. Essa habilidade foi a razão pela qual seu plano original — de ter Kerra liderando o ataque — havia sido alterado.
Caron respondeu com um aceno de cabeça confiante, como se a pergunta fosse desnecessária. Ele respondeu com um sorriso irônico: — Claro. Quando mais eu usaria, se não agora?
— Bem, você não está errado... mas ainda assim, é perturbador — Leo murmurou, claramente inquieto.
Caron mudou seu olhar para Leo, totalmente ciente do que o estava incomodando. Não era apenas hesitação ou dúvida — era medo da nova habilidade.
Esse poder não era algo que Caron havia simplesmente tropeçado. Ele surgiu depois que ele absorveu fragmentos dos remanescentes de Slaughter [1] com a ajuda de Kerra.
Sssshhh.
Pluto materializou-se da mão de Caron, a entidade sombria escorregando sem esforço antes de se empoleirar em seu ombro.
— Não há melhor hora ou lugar para testá-lo — Caron disse.
Leo suspirou em concordância relutante e disse: — Você está certo sobre isso.
— Exatamente. É agora ou nunca — Caron respondeu, seu tom firme.
Leon estalou a língua e disse: — Você é como um mago das trevas agora. Todo esse ódio por eles — era apenas auto-aversão disfarçada?
Antes que Caron pudesse responder, as palavras de Leon arrancaram uma leve risada de Leo, que acrescentou em voz baixa: — Eu entendo por que Leo está preocupado, Caron. Honestamente, esse poder... É aterrorizante.
— Concordo — Utula disse, sua expressão escurecendo ainda mais. — É brutal demais para ser considerado honroso.
Não era apenas Leo. Todos os companheiros de Caron haviam testemunhado essa nova habilidade por si mesmos, e isso os perturbou a todos.
O poder tinha uma semelhança impressionante com os temidos olhos demoníacos que o Rei Demônio do Massacre [1] já havia empunhado — uma força que o próprio Caron havia absorvido apenas com Pluto como um canal. Até mesmo Caron achou o poder muito pesado para assumir diretamente, passando-o para Pluto.
E, no entanto, ninguém no grupo disse a Caron para não usá-lo. Todos sabiam o quão valiosa essa habilidade poderia ser em sua situação atual.
Se eles fossem descrevê-lo simplesmente, o poder era...
— A Essência do Massacre [1].
Funcionava muito como os olhos demoníacos, induzindo um frenesi em qualquer ser que entrasse em contato com a escuridão de Pluto. Era semelhante aos feitiços de manipulação mental dos magos, mas infinitamente mais sombrio em natureza. O poder, extraído dos remanescentes da aura de um rei demônio, era tão malévolo quanto se esperaria.
Observando os piratas avançando à distância, Leon murmurou: — Ainda assim, vou admitir... Combina com você.
O grupo até deu um nome à habilidade de Caron. Era um termo que encapsulava sua essência perfeitamente: "Raiva". Não havia palavra mais adequada para descrever o poder.
Com o comentário de Leon, Caron estalou a língua em aborrecimento e soltou um longo suspiro. — De todos os nomes legais que vocês poderiam ter escolhido, vocês escolheram "Raiva"?
— Bem, as pessoas enlouquecem quando entram em contato com isso, não é? — Leon respondeu secamente.
— Tecnicamente, apenas se tocarem em Pluto — Caron disse.
— É a mesma coisa — Leon interrompeu com um encolher de ombros. — De qualquer forma, parabéns, Caron. Você é oficialmente um cão raivoso agora.
Caron sabia que suas provocações eram um véu fino para sua preocupação. Ele não estava cego ao desconforto em seus olhos, nem era imune à natureza perturbadora do poder. Era realmente uma força assustadora.
Claro, não era uma habilidade todo-poderosa. Não tinha efeito sobre aqueles de considerável força — magos do quinto círculo ou cavaleiros 5-Star e acima podiam resistir à sua influência.
Mas esta não era uma batalha contra elites. Não importava o quão experientes fossem aqueles piratas, veteranos endurecidos por inúmeras batalhas no mar, Caron duvidava que muitos entre eles pudessem suportar os efeitos da Raiva. E era precisamente por isso que ele planejava usá-la.
— Há muitos objetos de teste. Que conveniente — Caron murmurou baixinho enquanto seu olhar permanecia nos piratas que se aproximavam.
Leo estremeceu e olhou para ele, então disse: — Sério, Caron, pare de dizer coisas assim! Você soa exatamente como um mago das trevas.
Imperturbável, Caron respondeu em um tom uniforme: — Leo, isto é guerra.
— Sim, eu sei disso — Leo murmurou relutantemente.
— Se não os matarmos, eles nos matarão — Caron explicou.
Na guerra, a questão não era como você vencia. Porque perder significava perder tudo, o que realmente importava era simplesmente vencer — por todos os meios necessários.
As palavras sombrias de Caron pairaram no ar por um momento antes que seus companheiros lentamente acenassem em concordância.
Leo e Leon, em particular, entenderam. Suas missões passadas no Reino do Sul os ensinaram a dura realidade da guerra. Não era heroico, não era nobre — era sobrevivência em sua forma mais feia.
Caron embainhou sua espada antes de quebrar o silêncio dizendo: — Mais uma coisa, só para ficarmos claros.
O brilho frio de Guillotine capturou a luz enquanto Caron desembainhava a lâmina. Ele fixou seus companheiros com um olhar frio e continuou: — Guerra não é um duelo sagrado. É o inferno. Confio que todos entendam o que quero dizer.
O grupo trocou olhares solenes, seu silêncio dizendo muito.
A mão esquerda de Caron estendeu-se para acariciar as costas de Pluto, o gesto calmo, mas intencional. Em voz baixa, ele deu uma ordem. — Pluto, vou precisar da sua ajuda.
Miau!
Com um único salto ágil, Pluto saltou do ombro de Caron e derreteu-se nas sombras, desaparecendo em um instante.
Caron olhou para cima, seu olhar afiado fixando-se nos piratas à distância. Eles estavam se movendo para capturar o filhote — a adorável Aqua que haviam jurado proteger.
Escória como aquela merecia misericórdia?
Claro que não.
Um sorriso malicioso curvou-se nos cantos dos lábios de Caron. — Bem-vindos ao inferno — ele murmurou em voz baixa.
O cão raivoso mostrou suas presas aos invasores.
A tripulação pirata sob o comando de Bessic alcançou a periferia da vila élfica com pouca resistência.
— Chefe! Aquela é a vila dos elfos ali — um de seus tenentes relatou, apontando para frente. — Mas não parece que podemos invadi-la diretamente.
— Por que não? — Bessic exigiu, estreitando os olhos.
— Há uma barreira defensiva massiva em torno de toda a vila. Pode ser melhor esperar que os nagas a desativem — o tenente começou, mas antes que pudesse terminar, Bessic franziu a testa, segurando seu enorme machado de batalha. Com um movimento rápido, ele o balançou amplamente.
Whmmmm!
A mana da borda do machado avançou, correndo em direção à barreira.
Boom!
O escudo translúcido manteve-se firme, repelindo a força do ataque. A carranca de Bessic se aprofundou enquanto ele examinava a barreira ainda intacta.
— Coisa teimosa — ele murmurou. — O que os nagas disseram sobre isso?
— Eles estimam que levará vinte minutos para neutralizar a barreira, chefe. Mas... — O tenente hesitou antes de continuar. — Você não acha que todo esse ataque parece... fácil demais?
— O que você quer dizer? — Bessic perguntou, seu tom afiado.
— Bem, elfos não são do tipo que se entregam sem lutar. Não parece certo, chefe. Não houve resistência, nenhuma contramedida...
As preocupações do tenente eram válidas. Nenhum elfo tentou impedi-los enquanto se aproximavam da vila.
Bessic, no entanto, bufou em desdém e disse: — Isso é porque sem seus preciosos espíritos, os elfos não são nada.
— No mínimo, eles deveriam ter tentado táticas de atraso ou algo assim — o tenente disse.
— Você é novo nesse tipo de trabalho? — Bessic rebateu, seu tom gotejando irritação.
Suas forças somavam mais de mil, reforçadas pelo poder misterioso dos nagas. Até mesmo os elfos devem ter percebido que não tinham chance contra tais adversidades.
— Quantas pessoas marcham voluntariamente para a morte? Nenhuma. Eles provavelmente estão planejando se entrincheirar na vila — Bessic explicou, seu olhar mudando de volta para a barreira. — Esse escudo torna isso óbvio. Eles estão se preparando para uma última resistência.
O tenente acenou cautelosamente.
— Eles estão esperando reforços de Galad — Bessic continuou, recordando o que os nagas lhe haviam dito sobre a cidade élfica.
Mas os reforços não importariam, porque no momento em que as tropas de Galad chegassem, já seria tarde demais.
— Nossa missão estará completa até então — Bessic disse com um sorriso malicioso. — Teremos arrasado aquela vila e seguido em frente.
Não levaria mais de um dia para transformar a vila em cinzas. No momento em que a principal força élfica chegasse, não haveria mais nada para salvar.
Quanto ao filhote, esse era o problema de Edward. O cão leal da Rainha poderia farejá-lo sozinho.
— Capturar esta vila sozinho será suficiente para cumprir nosso propósito — Bessic disse com confiança. — Nem mesmo a Rainha poderá reclamar.
Ele se virou para seu tenente e disse: — Diga aos filhotes para verificarem suas armas uma última vez. Quando essa barreira cair, eu mesmo abrirei o caminho. Entendido?
— Sim, chefe! — o tenente latiu, ficando em sentido.
Apesar do temperamento ruim de Bessic, seus homens o seguiam sem hesitação. A razão era simples — Bessic sempre liderava pela frente. A visão dele investindo na batalha, seu enorme machado de batalha abrindo caminho através dos inimigos, tornou-se um símbolo de confiança para sua tripulação.
E desta vez não seria diferente.
— Diga aos nagas para se apressarem — Bessic ordenou com seu machado de batalha pendurado sobre o ombro, permitindo que um sorriso se curvasse em seus lábios.
Se isso der certo, eu posso finalmente ganhar minha independência, Bessic pensou.
Se ele pudesse capturar elfos suficientes, não haveria mais necessidade de permanecer sob o controle da Rainha. Os nagas já haviam separado os mares para ele, e o pensamento de liderar sua frota para o leste através das águas abertas parecia cada vez mais tentador.
Ao contrário dos mares do sul dominados pela Rainha, as águas do leste eram relativamente indomáveis, com apenas tripulações piratas espalhadas. Se ele combinasse essa oportunidade com a fortuna que faria vendendo escravos élficos...
Não há regra dizendo que eu não posso me tornar o governante dos mares do leste, Bessic pensou.
Enquanto ele se entregava a esse doce sonho, um grito agudo irrompeu das fileiras traseiras.
— AAAAAHHHH!
O grito repentino e penetrante arrancou Bessic de seus pensamentos. Ele se virou para ver seus homens em caos.
— Que diabos está acontecendo?! — ele gritou.
A cena era incompreensível. Alguns de seus tripulantes começaram a atacar seus camaradas sem aviso, brandindo armas em arcos selvagens e sem sentido.
— Esse bastardo perdeu a cabeça?! — um dos piratas gritou.
— O que há de errado com ele?! — outro pirata gritou.
O motim não tinha lógica. Era como se eles tivessem sido possuídos, seus ataques frenéticos se espalhando como um incêndio. A cada piscar de olhos, mais de seus homens se juntavam à loucura, voltando suas armas contra aliados.
Observando o caos se desenrolar, os instintos de Bessic se inflamaram. É ele.
Aquele homem implacável. Aquele que havia plantado algo dentro de seu companheiro de tripulação e o enviado de volta ao navio como uma bomba-relógio. Tinha que ser obra dele novamente.
— Matem-nos! Derrubem os enlouquecidos, agora! — Bessic rugiu, levantando seu enorme machado de batalha para trazer ordem à carnificina.
Mas assim que ele se preparava para atacar, uma voz — uma voz jovem, quase zombeteira — escorregou em seus ouvidos. — De novo com a matança? Você realmente é um bastardo sem coração.
As palavras enviaram um arrepio pela espinha de Bessic. Ele se virou rapidamente, procurando a fonte.
E então ele o viu.
Emergindo silenciosamente da sombra de uma árvore próxima, estava um jovem vestido com uma elegante armadura negra. Seu cabelo dourado cintilava sob a luz do sol, e seus olhos azuis penetrantes carregavam um brilho perigoso. A espada em sua mão, irradiando um brilho azul escuro, refletia a ameaça em seu olhar.
— Você gosta do meu presente? — o homem perguntou, seu tom leve, quase brincalhão. — Raiva, eles chamam. Meus amigos inventaram esse nome, na verdade.
Não havia um pingo de sinceridade em sua voz.
— Prazer em conhecê-lo, Bessic, o Sexto Herói — ele acrescentou, um sorriso se curvando em seus lábios.
— Você... Quem é você? — Bessic rosnou, segurando seu machado com mais força.
O sorriso do homem se alargou quando ele disse: — Caron Leston.
— O quê?
— Esse é o meu nome. Eu apreciaria se você se lembrasse dele.
O diabo sorriu para Bessic.
[1] - Slaughter e Massacre são a mesma entidade, traduzida de formas diferentes.