O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 121

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 121

A reunião logo terminou e a escuridão profunda da noite cobriu o acampamento. O silêncio reinava enquanto a maioria do grupo ia dormir.

— Na sua idade, você deveria estar dormindo para crescer, Comandante. Se perder suas horas de sono, não vai ficar mais alto, sabia? — Kerra resmungou, com o rosto cheio de insatisfação enquanto era arrastado para fora por Caron.

Eles estavam de volta à clareira onde haviam compartilhado bebidas antes. Naquela noite, a lua brilhava excepcionalmente forte. Graças ao trabalho anterior de Kerra em limpar as árvores circundantes, o luar brilhante iluminava a clareira por completo.

— Eu já sou mais alto que você — Caron retrucou secamente.

— Não dá para discutir com fatos, né? — Kerra deu de ombros.

— Chega. Você trouxe sua espada? — Caron perguntou.

— Claro — Kerra respondeu, assentindo enquanto sacudia levemente sua bainha. Ele perguntou com um sorriso malicioso: — Está planejando dançar com espadas sob o luar ou algo assim?

— Algo parecido — Caron disse, mostrando um sorriso astuto enquanto olhava para Kerra.

Kerra não pôde deixar de recordar a sugestão brutal anterior de Caron.

— Só precisamos incutir medo. Fazer eles pensarem: "Se eu pisar aqui de novo, estou morto". Além disso, se adicionarmos o nome da Família Ducal de Leston à mistura... Acabou.

A primeira vez que Kerra ouviu essas palavras, ele pensou que era algo típico de um Comandante dizer.

Cinquenta anos atrás, quando Cain era o comandante da Guarda Imperial, ele lidava com as coisas da mesma maneira. Sejam criminosos implacáveis ou rebeldes perturbando a paz do império, suas soluções sempre foram ousadas, diretas e brutais.

As memórias daqueles dias ainda permaneciam vivamente na mente de Kerra. — Algumas coisas nunca mudam — ele murmurou, um sorriso irônico curvando seus lábios.

Segurando a Guilhotina, Caron franziu a testa levemente e perguntou: — O que isso quer dizer?

— Quer dizer que você sempre teve o hábito de desembainhar sua espada quando algo te incomoda. É por isso que não tinha aliados no Palácio Imperial — Kerra disse.

— É porque eu era um ex-escravo — Caron respondeu secamente.

— …É nisso que você realmente acredita? — Kerra perguntou, seu tom assumindo um tom mais sério.

A verdade por trás do motivo pelo qual os nobres desprezavam Cain não era tão simples. Embora seu status de ex-escravo certamente contribuísse, havia algo mais — algo muito mais profundo.

Não era ódio. Era medo. Os nobres temiam Cain, o escravo que se tornou comandante da Guarda Imperial. E a razão era incrivelmente simples.

— Você era um lunático que não ouvia a razão — Kerra comentou, balançando a cabeça.

Uma história em particular se destacou. Era a história de como Cain havia brutalmente assassinado um herdeiro de uma prestigiosa família nobre no coração da capital.

Matar um nobre, mesmo para um comandante da Guarda Imperial, era um crime imperdoável. O incidente provocou indignação entre a aristocracia, e Cain foi preso nas masmorras do palácio por dois meses como punição.

Superficialmente, parecia ser o pior tipo de transgressão. Mas Kerra sabia a verdade por trás da história.

— Você é um lunático com um senso de justiça e curiosidade irritantemente grandes — ele murmurou em voz baixa.

O nobre que Cain havia matado não era um herdeiro qualquer. Aquele homem havia cometido atos hediondos, começando por agredir uma mulher plebeia que já estava prometida. Quando seu noivo o confrontou, o nobre silenciou o homem, enterrando-o.

Não parou por aí, no entanto. O nobre apagou não apenas a família da mulher, mas também a família do noivo, eliminando-as da face da terra em um único dia.

Assim que Cain descobriu a verdade, ele agiu sem hesitação. Ele encontrou o nobre e o puniu no local. Esse incidente marcou a primeira vez que o comandante da Guarda Imperial nascido escravo matou um nobre de alta patente.

— Foram umas cinco vezes depois disso? Os nobres finalmente calaram a boca depois que você brandiu sua espada como um louco — Kerra disse, então sorriu amargamente enquanto as memórias do passado passavam por sua mente. Ele continuou: — Há uma razão para te chamarem de Cão Louco do Palácio Imperial, Comandante.

— Bem, eles não paravam de me irritar. Como isso é culpa minha? Culpe aqueles bastardos, não eu — Caron respondeu sem rodeios.

— Bem, pelo menos nesta vida, você pode fazer o que quiser — Kerra disse, desembainhando sua espada e jogando a bainha levemente no chão. Ele olhou para Caron e sorriu. — Nesta vida, você pode decepar quantas cabeças quiser.

— Eu já decepei algumas no meu caminho para cá — Caron respondeu com indiferença.

— Claro que sim — Kerra murmurou. — Você é consistente como sempre.

O título de Cão Louco grudou no Comandante como uma segunda pele, mas sua loucura sempre teve um alvo — os corruptos.

Talvez estivesse ligado às histórias que Cain havia compartilhado enquanto bebiam, histórias de seu tempo como escravo. Mas havia uma coisa que Kerra sabia com certeza: Que Caron Leston, o outrora temido Cain Latorre, era uma boa pessoa.

— Por mais louco que possa ser... Você é um bom homem, Comandante. Eu posso garantir isso — Kerra disse.

A fúria do Comandante nunca foi virada para as pessoas. Só atingiu aqueles que abandonaram sua humanidade. Como agora.

— Só espero que a vingança não te consuma por completo — Kerra acrescentou, sua voz baixa, mas resoluta.

— Você já sabia que existe a chance de o Imperador Malevolente ainda estar vivo? — Caron perguntou.

— Eu não sabia — Kerra admitiu. — Mas se você ainda está vivo, não é exatamente descabido pensar que aquele bastardo também possa estar.

Seus lábios se torceram em um sorriso irônico enquanto ele apontava a ponta de sua lâmina em direção a Caron e dizia: — Certo, Comandante. Apenas me diga o que precisa.

Não havia como Caron ter pedido uma espada a essa hora da noite sem razão. Kerra sabia disso. E, como se confirmasse sua suspeita, Caron exalou suavemente e extraiu uma energia estranha de sua espada, Guilhotina.

Saaaahhh...

Fumaça roxa começou a vazar da lâmina, seu brilho sinistro fazendo Kerra fazer uma careta. Ele disse: — Essa energia... É disso que você estava falando antes, não é?

— É o mana do Massacre — Caron explicou. — Até agora, eu só o mantive selado dentro da lâmina. Eu não o absorvi completamente.

Se a sede de sangue pudesse tomar uma forma de mana, seria esta — um poder sombrio e opressivo que se agarrava ao ar como uma névoa sufocante.

— Só de olhar para isso, me faz pensar que provavelmente é terrível para você. Por que você o manteve por perto? — Kerra perguntou.

Caron sorriu, assentindo levemente enquanto dizia: — Para dar uma mordida.

— ...Depois de todo o inferno que você passou com o Imperador Malevolente em sua vida anterior, você está falando sério ainda— — Kerra começou, mas foi interrompido.

— Cuidado com suas palavras. Daquela vez, foi forçado em mim. Desta vez, é diferente — Caron interrompeu.

— Como é diferente? — Kerra perguntou.

Caron deu uma pequena sacudida em sua espada e disse: — Minha espada pode absorver magia negra.

— Espere, o quê? É uma espada demoníaca? — Kerra perguntou.

— Esta é a espada que nosso fundador usou — Caron explicou.

— Vamos manter esse pequeno detalhe longe do Duque Halo, certo? Como esperado da espada do fundador, até sua aparência grita "obra-prima". É uma arma lendária, tudo bem — Kerra disse, então estreitou os olhos antes de perguntar: — Então, o que você precisa que eu faça?

— É simples — Caron respondeu, sua postura mudando enquanto segurava sua lâmina em uma posição de guarda média. A ponta da Guilhotina brilhava com fumaça violeta, torcendo e enrolando como uma coisa viva.

— Eu preciso que você corte o mana do Massacre em pedaços pequenos. É um pouco cedo para deixar isso para as crianças — Caron disse, sua voz carregada de um tom prático.

— Mas há cavaleiros de 8 estrelas no Castelo Azureocean — Kerra rebateu, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, então você está sugerindo que eu marche até os anciãos da família e diga: "Com licença, eu vou absorver a aura de um Rei Demônio, então você poderia me ajudar com isso?". Acha que eles ficariam emocionados em ajudar, seu pequeno bastardo? — O sarcasmo de Caron atingiu como um tapa, suas palavras seguidas por um zumbido baixo.

Whoosh!

O Mana Azure que emanava de Caron começou a se enrolar ao redor da névoa violeta. A aura sinistra pulsava como se ainda possuísse uma vontade própria, liberando uma onda de intenção assassina que arrepiou o ar.

Kerra sentiu-o picar contra sua pele, seus lábios se curvando em um leve sorriso enquanto ele comentava: — Isso é sede de sangue suficiente para transformar um homem comum em um demônio furioso. Então, como exatamente você quer que eu te ajude com isso?

Caron sorriu divertido e disse: — Você já sabe como.

— Ah, claro. Minha área de especialização — Kerra respondeu, sua voz gotejando profissionalismo fingido.

Whoosh!

Uma onda imponente de mana explodiu de Kerra, sacudindo o ar ao redor deles. Sua presença se tornou palpável, pesada como uma montanha pressionando a clareira. Em meio à tensão crepitante, ele lambeu os lábios, seu sorriso se alargando.

— Bem, eu fiquei um pouco desapontado antes por não poder te dar uma surra adequada. Mas já que você está se oferecendo agora, estou mais do que feliz em ajudar. Embora, o barulho não vai acordar os outros lá em cima? — Kerra perguntou.

— Quem se importa? Contanto que não acordemos a Aqua, estamos bem — Caron respondeu sem perder o ritmo.

Kerra ajustou sua pegada em sua espada, estudando Caron cuidadosamente, e disse: — Também parece que você está quase prestes a alcançar 7 estrelas.

— Com dois cavaleiros de 7 estrelas do outro lado, eu tenho que equilibrar o jogo de alguma forma. Eu não posso depender de você para tudo, posso? — Caron respondeu.

— Bem, você não está tão atencioso hoje? Veja o quanto você cresceu, Comandante — Kerra disse.

Com as palavras de Kerra, inúmeras pétalas começaram a se materializar de sua lâmina, esvoaçando para fora e enchendo o ar. Era a Forma de Espada Imperial 7: Flores Caindo.

As pétalas, forjadas a partir de pura energia da espada, giravam em todas as direções para criar um espetáculo de tirar o fôlego, mas mortal. De pé em meio à cascata, Kerra travou os olhos com Caron e falou em um tom baixo e deliberado: — Cinquenta anos de lições condensadas, chegando agora. Morda e prepare-se.

— Vamos com menos conversa e mais ataque. Estou ficando com sono — Caron respondeu, seu tom tão seco como sempre.

— Só não venha me implorar para parar depois — Kerra retrucou, seu sorriso se aguçando.

Momentos depois...

Ping, ping!

As pétalas convergiram, seu brilho mortal chovendo sobre Caron como uma tempestade implacável.


Três dias se passaram em um piscar de olhos.

No terceiro dia após o grupo de Caron ter entrado em contato com Kerra, eles chegaram à extremidade sul da Grande Floresta, na chamada Costa Silenciosa.

— Andem logo, seus bastardos! — um pirata gritou enquanto a prancha batia na areia.

— O chefe disse que quem sair por último vai ser rasgado em pedaços! — outro gritou.

— Se não querem morrer, se apressem!

Assim como o ancião da Vila Eär, Barad, havia previsto, a rota marítima havia se aberto. A barreira erguida pelos elfos para bloquear o desembarque havia sido completamente destruída. Os piratas invadiram a praia, sem serem impedidos por qualquer resistência.

Bessic, o líder da Tripulação Pirata Tubarão Branco e o Sexto Herói sob a Rainha Pirata, observou seus homens desembarcarem com um sorriso grotesco. Ele se virou para Edward, o Quarto Herói, e disse: — Nós vamos liderar a vanguarda, Edward.

— Faça como quiser — Edward respondeu friamente.

— Como discutimos, cada um pega seus próprios despojos. Não venha choramingar depois sobre dividir as coisas igualmente — Bessic disse.

— Bessic, não se esqueça de que estamos aqui sob as ordens da Rainha. Os despojos podem esperar até que a missão seja concluída — Edward disse, seu tom afiado e inflexível.

Bessic franziu a testa, seu olhar fixo em Edward. O físico menor do homem e sua tez pálida dificilmente pareciam de pirata.

Bastardozinho convencido, Bessic pensou.

Edward não era nada como ele. Enquanto Bessic havia conquistado sua reputação temível dominando os mares do sul, Edward era um dos muitos que a Rainha havia recrutado pessoalmente. Ele era um forasteiro, não um verdadeiro pirata. Pior ainda, ele era um daqueles tipos que eram ferozmente leais à Rainha, dispostos a jogar fora seu antigo título de cavaleiro para servi-la.

Essa lealdade transbordava para cada membro da tripulação de Edward. Eles não eram como outros piratas; eles eram elitistas. Pequeno em número, mas meticulosamente organizado, o grupo de Edward operava com precisão militar, recrutando escravos para remar e tripular, enquanto seus marinheiros se concentravam na navegação e gerenciamento.

— Não se esqueça — Edward disse firmemente — a Rainha nos ordenou priorizar a segurança da cria.

O tom autoritário irritou os nervos de Bessic. Rangendo os dentes, ele olhou para o bigode de Edward e zombou. — Se você falar assim de novo, ordens da Rainha ou não, eu vou arrancar seus olhos e dar para os peixes comerem.

A tensão na cabine aumentou instantaneamente. Seus tenentes trocaram olhares desconfortáveis, mas Edward permaneceu impassível, respondendo calmamente: — Você realmente vai deixar seu orgulho atrapalhar a missão? Piratas como você estão além da minha compreensão.

— A Rainha que você serve também é uma pirata — Bessic retrucou.

— Ela está muito além dos piratas comuns. Suas ambições superam qualquer coisa que você possa compreender — Edward disse.

— Ha! Que bobagem. Pirata é pirata. Deixe-me te dar um conselho — Bessic disse com uma risada. Flexionando seus músculos grossos, ele se aproximou de Edward, cuspindo uma golfada de catarro no chão ao lado dele. Ele disse: — Se você decidiu ser um pirata, aja como um. Pare de fingir ser algum cavaleiro justo.

Era um insulto flagrante, mas Edward apenas suspirou e encontrou o olhar de Bessic, então disse: — Não há como raciocinar com você, não é? Se não fossem pelas ordens da Rainha, você já estaria morto.

Bessic riu, sua voz rouca e zombeteira. — Para um cachorrinho de colo, você tem alguma contenção. Eu esperava que você viesse para cima de mim, espumando pela boca. — Ele alcançou o enorme machado de batalha que estava ao lado dele e disse: — Fique para trás e observe. Eu vou te mostrar o que é um pirata de verdade.

— A Rainha nos instruiu a esperar até que os nagas enfraquecessem os espíritos elementais — Edward o lembrou, sua voz firme.

— Confiar nesses aberrações com cabeça de peixe? — Bessic zombou, segurando o cabo de seu machado de batalha. — É o suficiente para o único trabalho deles ser enfraquecer os espíritos elementais. Rainha isso, Rainha aquilo — sempre a Rainha! Por que esperar quando eu posso mostrar a eles como é o poder de verdade? — Bessic disse.

Com seus espíritos elementais diminuídos, os elfos não eram mais um obstáculo. Para Bessic, eles não passavam de despojos fáceis, esperando para serem reivindicados.

Afinal, este não era Galad ou qualquer outro grande reduto élfico. Era apenas uma aldeia remota. Não havia como alguém de força real estar lá. Uma invasão rápida, um rápido saque de despojos, e esta missão terminaria em pouco tempo.

Bessic olhou para Edward, um sorriso zombeteiro aparecendo em seus lábios. — Eu não sou um covarde como você — ele disse, sua voz gotejando desprezo.

Sem esperar por uma resposta, Bessic riu e pulou no ar. Suas pernas poderosas o impulsionaram através do convés enquanto ele saltava sobre vários dos navios em direção à costa. Ao aterrissar levemente na praia, suas botas levantaram areia.

Os piratas que haviam desembarcado antes instintivamente levantaram suas armas, engolindo em seco. A expressão no rosto de seu líder não era apenas intensa — era totalmente sinistra.

— Hmmm. — Bessic soltou um suspiro baixo enquanto examinava sua tripulação. Lentamente, ele levantou seu enorme machado de batalha acima de sua cabeça e rugiu: — Quem capturar um elfo pode ficar com ele! Estão me ouvindo, seus idiotas? Vendam-nos, matem-nos, comam-nos — eu não me importo! Eles são seus para fazerem o que quiserem com eles!

Com essas palavras, a praia entrou em erupção em caos.

— Ooooooooh!

— Chefe! Você está falando sério?

Os piratas comemoraram loucamente, seus rostos iluminados com ganância e ambição. Para muitos deles, esta era a oportunidade de uma vida — uma chance de mudar suas fortunas.

Observando a excitação febril se espalhar entre seus homens, Bessic assentiu, um sorriso satisfeito estampado em seu rosto.

É disso que se trata ser um pirata, ele pensou.

A promessa de recompensas esmagadoras — essa era a essência da pirataria. A motivação para reivindicar essas recompensas por qualquer meio necessário, sem hesitação ou escrúpulos, definia quem eles eram.

— Vamos fazer algo grande, seus bastardos loucos! — Bessic gritou, sua voz ecoando pela costa.

Naquele momento, nenhum deles sabia o que estava por vir.

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