O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 115

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 115

Eär era uma vila tranquila, aninhada nos limites mais ao sul da Grande Floresta. Diferente da agitada cidade de Galad, Eär exalava um charme pastoral. E, no entanto, um grupo inesperado de visitantes havia chegado, perturbando sua paz.

Barad, o ancião de Eär, estava sentado com os visitantes. Eles não vieram de mãos vazias; trouxeram notícias que poderiam virar a vila inteira de cabeça para baixo.

"Então, os piratas e os nagas formaram uma aliança temporária", disse Barad, sua voz carregada de descrença. "É uma história difícil de acreditar. Sem o testemunho de Earlin, eu poderia ter duvidado de suas palavras."

Seu rosto estava marcado com profundas rugas de preocupação, o que era compreensível. A notícia trazida pelo gigante solitário e três humanos era nada menos que alarmante: piratas e nagas estavam planejando um ataque conjunto à Grande Floresta.

"...Isto não é bom", Barad murmurou para si mesmo. "Os mares do sul da Grande Floresta são protegidos por proteções mágicas colocadas por invocadores de espíritos", explicou ele. "Em circunstâncias normais, as proteções são suficientes para repelir suas intrusões. No entanto, em três dias, uma eclipse lunar total é esperado. Com ele vem a maré alta, e é quando o mana dos nagas está no seu auge."

Caron franziu a testa, sua voz calma, mas firme, enquanto perguntava: "E o que acontece então?"

"A rota marítima que selamos com as proteções se reabrirá temporariamente", respondeu Barad. "Normalmente, seus números são pequenos o suficiente para que as patrulhas da vila possam lidar com eles. Mas se os piratas unirem forças com os nagas... Não posso garantir o resultado."

Ele tomou um gole de seu chá de ervas, suas mãos tremendo ligeiramente. Seus dedos enrugados, marcados pelas rugas da idade, traíam seu mal-estar.

"Uma força de mais de mil piratas terá apenas um lugar para desembarcar", continuou Barad. "A Costa Silenciosa. Fica a cerca de duas horas daqui a pé."

Sobre a mesa diante deles, havia um mapa da área. O único consolo era que a vila estava longe do alcance dos canhões dos piratas.

Caron exalou suavemente, seus olhos fixos em Barad, então perguntou: "Quantas tropas você pode reunir agora?"

"A patrulha tem 150 membros. Mesmo que recrutemos moradores, não teremos mais de trezentos lutadores capazes de combate real", respondeu Barad.

"Não é um número pequeno", comentou Caron, "Mas comparado às forças deles, é insuficiente."

"Elfos jovens partem para Galad", acrescentou Barad. "Apenas crianças e aposentados permanecem na vila."

"Então, até mesmo os elfos vão para as cidades em busca de oportunidades", ponderou Caron. "Não muito diferente dos humanos."

Caron entendeu a situação instantaneamente. Sem recorrer a uma linguagem grandiosa, a realidade era simples.

"Estamos condenados", a voz de Guillotine ecoou brutalmente na mente de Caron.

E era verdade. Eles estavam condenados. Eles não podiam impedir esse ataque.

Reforços de Galad estavam fora de questão. Quando chegassem, os piratas já teriam atacado. Pior ainda, o objetivo exato dos piratas permanecia um mistério.

Sem saber o seu objetivo, preparar uma defesa era quase impossível. A pouca informação que tinham — reunida através de Pluto — revelava apenas o armamento da frota pirata.

Mas, assim que o desespero ameaçou se instalar na sala, a voz de Barad cortou o silêncio com um brilho de esperança.

"Claro... Não é como se estivéssemos totalmente despreparados para tal evento", disse ele, recuperando a compostura.

"Bem, esse é o tipo de coisa que você deveria dizer antes", disse Caron secamente.

"Perdoe-me", respondeu Barad. "Nossa vila instalou várias estruturas defensivas em antecipação a situações como esta."

"Então, por que você parecia que já tinha perdido tudo?", perguntou Caron, arqueando uma sobrancelha.

"Suponho que o medo vem mais facilmente com a idade", admitiu Barad com um leve sorriso.

Ele então começou a explicar as defesas da vila. Para resumir, elas consistiam em várias medidas importantes: proteções defensivas, torres movidas a espíritos e rotas de evacuação subterrâneas.

Depois de revisar todas as medidas defensivas da vila, Guillotine murmurou mais uma vez: "Hmm, talvez não estejamos completamente condenados ainda."

Esta era uma vila conectada às raízes da Árvore do Mundo. Não era surpresa que tivessem preparado contramedidas para as invasões periódicas dos nagas.

"Se ao menos tivéssemos um pouco mais de mão de obra", Caron murmurou com pesar, estalando a língua.

Os piratas certamente tinham números do seu lado, mas, no fim das contas, eles ainda eram apenas piratas. Mesmo que alguns deles fossem elites, o combate terrestre não era o seu forte.

Por outro lado, os elfos empunhavam Magia Espiritual, bem como magia regular, um tipo de força de combate altamente valiosa e rara para os padrões humanos.

Se lutarmos com a vila em nossas costas, podemos ter uma chance, pensou Caron. Pelo menos, esse era o caso se os piratas fossem sua única preocupação.

...Isso supondo que deixemos os nagas fora da equação. Os nagas eram completamente desconhecidos para Caron. Tudo o que ele sabia era que eles dependiam fortemente da magia.

"Acho que preciso entender melhor os nagas", disse Caron, seu tom pensativo.

"Eles usam uma forma de mana chamada Magia Abissal, alimentada pelo mar profundo", explicou Barad. "Embora suas habilidades mágicas sejam formidáveis, sua força física é surpreendentemente medíocre. Essa fraqueza se torna especialmente evidente em terra."

"E, no entanto, eles ainda foram capazes de ameaçar consistentemente os elfos. Essa Magia Abissal deve ser incrivelmente perigosa", comentou Caron.

"É um poder semelhante a uma maldição", respondeu Barad gravemente. "Você entenderá por que digo isso se algum dia vê-la em ação."

Os nagas e piratas juntos poderiam ser uma combinação muito mais perigosa do que o esperado. O que faltava aos piratas eram forças de combate de alto nível, como magos. Se os nagas preenchessem essa lacuna, a sinergia poderia ser desastrosa.

Pior ainda, já havia relatos de dois Heróis entre o inimigo, que tinham poder equivalente a cavaleiros de 7 Estrelas. Guerreiros desse calibre mudavam o jogo; sua presença por si só poderia distorcer todo o campo de batalha.

Não importa o quão otimista Caron visse a situação, as chances permaneciam contra eles. O que o deixou com apenas uma conclusão: havia apenas uma carta para jogar para mudar as coisas.

Resolvendo seus pensamentos, Caron se levantou de seu assento e disse: "Esta foi uma discussão valiosa, Ancião."

Barad, usando um leve sorriso, deu-lhe um aceno solene e disse: "Quando você retornar aos nossos parentes em Galad, por favor, transmita nossos cumprimentos. Diga-lhes que defendemos a vila até o último momento."

Caron piscou, surpreso com a repentina despedida do ancião. Ele perguntou: "Hã? Do que você está falando?"

"...Você não está deixando a vila?", perguntou Barad, inclinando ligeiramente a cabeça.

Caron zombou e cruzou os braços, dizendo: "Você acha tão pouco de nós assim?"

Embora a situação fosse terrível, se as coisas corressem conforme o planejado, eles ainda teriam uma chance.

Kerra, pensou Caron.

Se aquele cara, que a essa altura já deveria ter alcançado 8 Estrelas, se juntasse a eles, isso mais do que compensaria todas as outras variáveis.

"Eu não sou o tipo de cara que abandona seus amigos, Ancião", declarou Caron firmemente.

Esta era uma oportunidade perfeita para garantir uma dívida de gratidão dos elfos sem sequer suar a camisa. Ele nunca deixaria isso escapar por entre os dedos.

"Confie em mim", acrescentou ele, com um sorriso malicioso se espalhando pelo seu rosto.

***

Felizmente, o orbe de comunicação na casa do ancião ainda estava conectado a Galad. Graças a isso, Caron conseguiu contatar Orion sem muita dificuldade.

Quando Orion ouviu o relato da situação por Caron, ele não conseguiu esconder sua indignação. Ele rosnou: "...Não consigo acreditar que aqueles piratas vis se uniram aos malditos nagas."

A fúria em sua voz era palpável do início ao fim, mas, apesar de sua raiva, o julgamento de Orion permaneceu afiado como uma navalha.

"Caron, pegue os aldeões restantes e deixe esse lugar. Não há necessidade de arriscar tudo para proteger a vila", instruiu Orion.

"Mas é aqui que estão as raízes da Árvore do Mundo. Podemos realmente desistir disso tão facilmente?", perguntou Caron, seu tom duvidoso.

"As raízes não podem ser corrompidas por essa escória tão rapidamente. É um processo que leva muito tempo. Mesmo que percamos esse lugar por agora, podemos recuperá-lo depois. Eu pessoalmente liderarei uma força para interceptá-lo, então nos encontre no ponto médio", disse Orion.

A avaliação calma de Orion refletia uma perspectiva mais ampla, priorizando o longo prazo sobre o imediato. De muitas maneiras, sua estratégia era a mais segura.

"Então, você está dizendo que não tem problema em abandonar a vila?", perguntou Caron secamente.

"Sim", respondeu Orion sem hesitação.

"Tudo bem. No pior cenário, vamos recuar. Isso é bom o suficiente por agora", disse Caron com um aceno de cabeça.

"Você parece ter um plano", disse Orion.

"É mais uma ideia do que um plano", disse Caron com um pequeno sorriso. "Me dê dois dias. Eu entrarei em contato com você então, e decidiremos se prosseguimos com a evacuação."

"Entendido", respondeu Orion.

A comunicação terminou ali, e Caron saiu da casa do ancião sem demora. Assim que abriu a porta, viu seus companheiros esperando por ele do lado de fora.

"Como foi? Todos reuniram algo útil?", perguntou ele.

Antes de se encontrar com Barad, Caron havia instruído seus companheiros a coletar informações sobre Kerra. A localização marcada no mapa do regente ficava a apenas cerca de uma hora de caminhada da Vila Eär, então ele presumiu que os moradores saberiam alguma coisa.

E, como esperado, o palpite de Caron estava correto.

"Há uma pequena colina a sudeste. Aparentemente, até os espíritos evitam a área", relatou Leon. "Alguns caçadores atestaram isso."

"Há quanto tempo está assim?", perguntou Caron, intrigado.

"Há um bom tempo, parece. Cerca de três meses. Até os monstros se afastam dela", respondeu Leon.

A informação era peculiar. Um lugar que até os monstros evitavam cheirava a algo suspeito. Era o esconderijo perfeito para Kerra. Não era a primeira vez que Caron encontrava um lugar assim.

O covil, pensou Caron.

O covil do Dragão Amaldiçoado Etyron tinha sido semelhante. Era um lugar que nenhum outro monstro ousava se aproximar. Mas desta vez, a situação era diferente. Naquela época, eles tinham a opção de evitá-lo. Desta vez, evitar não era uma opção. Não importava quais perigos estivessem à espreita, eles tinham que romper.

"Só para vocês saberem, não temos muito tempo", disse Caron, olhando para seus companheiros. "Temos três dias. Os piratas e nagas atacarão então."

O grupo acenou sombriamente com a cabeça para suas palavras.

"Nosso trabalho é simples", continuou Caron. "Nós encontramos Kerra e, juntos, eliminamos os nagas e piratas. É isso. Fácil, certo?"

O chamado plano era ridiculamente simplista.

Leon franziu a testa ligeiramente e disse: "Kerra Acht... Você realmente acha que ele vai cooperar conosco? Não vamos esquecer, ele é quem escapou da nossa vigilância. Nós nem sabemos por que ele fugiu."

"Nós descobriremos suas razões assim que o encontrarmos", respondeu Caron confiantemente.

"Ele era um cavaleiro do Imperador Malevolente. Há uma boa chance de que ele abrigue intenções traiçoeiras", apontou Leon.

Suas preocupações eram válidas. Para aqueles que desconhecem a história completa, Kerra facilmente pareceria um vilão.

Mesmo Caron não podia descartar completamente a possibilidade de que Kerra tivesse mudado. Cinquenta anos eram muito tempo — tempo suficiente para alterar qualquer homem. Ainda assim, ele tinha uma razão para acreditar que Kerra ajudaria.

Porque é exatamente quem ele é, pensou Caron.

Kerra era um homem com um coração bondoso, alguém teimoso demais para abandonar os outros. Ele era o tipo de pessoa que escolheria morrer junto em vez de sobreviver sozinho. Esse era o Kerra que Caron lembrava.

"Ele vai nos ajudar. Tenho certeza disso", disse Caron firmemente.

Leon não insistiu mais, acenando com a cabeça enquanto dizia: "Se você está tão confiante, eu confiarei em você."

"Não vai me perguntar mais nada, Leon?", Caron provocou.

"Há certeza em sua voz. Que outra razão eu preciso?", respondeu Leon.

Os outros acenaram em concordância com Leon.

"Se eu começar a discutir, você apenas levantará seus punhos novamente", acrescentou Leon, balançando a cabeça. "Eu prefiro não levar um soco, Caron. Faça o que quiser."

"Kerra Acht... Eu me lembro dele como um guerreiro de grande honra. O pensamento de encontrar tal lenda me excita", disse Utula, seu tom transbordando de admiração.

A confiança deles nele era clara, e Caron não pôde deixar de sorrir. Ele disse decisivamente: "Tudo bem, vamos nos mover."

Não havia razão para atrasar. E assim, eles partiram em direção ao esconderijo de Kerra sem hesitação.

***

Uma hora depois...

A pequena montanha aninhada a sudeste da Vila Eär estava diante deles.

"Caron, você tem certeza de que é aqui?", perguntou Leo, apertando sua espada, Sylphid, firmemente em uma mão.

Caron soltou um suspiro baixo, balançando a cabeça, então disse: "Eu admito, isso não é o que eu esperava."

"...Você disse que seria fácil", respondeu Leon, seu tom perigosamente calmo.

"Bem, é fácil se você pensar que é — espere, Leon, por que você está apontando sua espada para mim de repente?", perguntou Caron.

"Porque foi meu erro confiar em você", disse Leon, sua voz fria. "Então, vamos pagar na mesma moeda com uma boa facada. Isso é justo, certo?"

Eles pensaram que encontrar Kerra seria uma missão rápida e direta.

Caron suspirou profundamente e murmurou: "Ha... Minha vida é sempre assim."

Ele virou seu olhar para frente, sua expressão sombria.

Whoosh.

Uma dúzia de golens massivos emergiu das sombras, seus movimentos precisos enquanto levantavam suas armas em direção a Caron e seus companheiros.

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