
Capítulo 114
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 114
O líder da Tripulação Pirata Tubarão Branco e o Sexto Herói a serviço da Rainha Pirata, Bessic, estava sentado nos aposentos do capitão, carrancudo enquanto tomava um drinque. Seu humor estava péssimo.
Nossa tripulação poderia ter lidado com isso sozinha. Precisávamos mesmo trazer aquele bastardo do Edward para isso?, pensou Bessic.
A tarefa em mãos era um simples ataque a uma pequena vila élfica ao longo da costa. Era uma oportunidade fácil de conseguir uma vitória pessoal. Além disso, era uma chance de monopolizar os lucros lucrativos da captura de elfos.
Se ele tivesse conseguido reivindicar os elfos para si, aumentar sua tripulação pirata para uma força ainda maior estaria ao seu alcance. Mas seus doces sonhos foram despedaçados pelo decreto da Rainha Pirata.
"Você é apenas meu cão. Você late quando eu mando latir e se deita quando eu mando deitar. Nem se preocupe em pensar; seu cérebro é só cheio de músculos inúteis. Entendeu?"
"...Droga!", rosnou Bessic.
Crash!
Ele bateu com o punho na mesa, estilhaçando-a em pedaços. O violento acesso de raiva pouco fez para acalmar sua fúria fervente, no entanto.
Não era só que a Rainha Pirata não confiava nele o suficiente para completar a missão sozinho. O que mais doía era que ela tinha enviado Edward, de todas as pessoas, para acompanhá-lo. Edward, o próprio homem que competia abertamente com ele sob o comando dela!
Eu não me importo com filhotes ou qualquer uma dessas bobagens!, pensou Bessic.
A Rainha Pirata havia ordenado que ele procurasse por algo chamado "Filhote"[1], entregando-lhe uma escama do tamanho da palma da mão como a chave para sua missão. Agora ele brincava distraidamente com a escama, com a testa franzida em frustração.
Por que ela simplesmente não deixa os piratas serem piratas? O que diabos ela está pensando?, pensou Bessic. Mas quanto mais ele pensava sobre isso, mais irritado ele ficava.
Quando ele se juntou às fileiras dela, ele tinha grandes expectativas. Mas esses sentimentos já haviam se desgastado há muito tempo, substituídos por nada além de exasperação com seus constantes maus-tratos—tratando-o como um garoto de recados.
Ele tomou outro gole de sua bebida, afogando sua raiva na bebida, quando a porta se abriu de repente.
Bessic olhou furiosamente para o ajudante que havia invadido seus aposentos.
"Chefe! A equipe de perseguição que foi atrás do elfo retornou, mas..." um dos ajudantes gritou, mas não conseguiu continuar.
"Mas o quê?", rosnou Bessic.
"Apenas um deles voltou e... Algo está errado com ele. Ele fica divagando bobagens e insiste que tem que relatar diretamente a você", respondeu o ajudante.
"Ha! Esses bastardos inúteis parecidos com vermes continuam encontrando novas maneiras de me decepcionar", zombou Bessic.
Ele havia enviado uma equipe de dez homens atrás de um elfo solitário. Não qualquer elfo, mas um elfo que havia sido atingido pelo próprio dardo paralisante de Bessic. Não havia como ter ido muito longe. Deveria ter sido a tarefa mais simples: trazer sua cabeça e pronto.
"Traga aquele bastardo que veio sozinho para mim. Agora", ordenou Bessic, sua voz fria e baixa.
A mera ideia de alguém estragar uma missão tão fácil fez uma espessa onda de desprazer subir por sua garganta.
"Eu já o tinha esperando do lado de fora dos aposentos do capitão, por precaução", respondeu o ajudante antes de sair e arrastar um homem trêmulo para dentro da sala.
Bessic pegou o enorme machado de batalha que estava ao seu lado e voltou seu olhar penetrante para o homem. "Que diabos aconteceu com você?", ele perguntou, sua voz carregada de ameaça.
O rosto do homem havia se tornado um cinza doentio e sinistro. Seu corpo se contraía incontrolavelmente e baba escorria incessantemente de sua boca. O cheiro de urina encheu o ar—ele claramente havia se molhado.
"C-Chefe..." Wigo gaguejou, sua voz tremendo. "P-Por favor... Poupe minha vida... Eu sinto que vou morrer..."
A expressão de Bessic escureceu. "O que aconteceu com o resto da tripulação?", ele perguntou friamente.
"Eles... Eles estão todos mortos..." Wigo respondeu.
"Por quem?", rosnou Bessic.
Slice!
Sem hesitação, seu enorme machado desceu, cortando o braço direito do homem. Sangue jorrou da ferida aberta, acumulando-se no chão.
"Seu pedaço de imundície inútil! Você não conseguiu nem lidar com uma tarefa simples—" Bessic parou no meio da frase, olhando para seu subordinado.
O homem não gritou. Apesar da agonia que ele devia estar sentindo por ter seu braço cortado, nenhum som escapou de seus lábios.
"...Hah!", Bessic estreitou os olhos, as engrenagens em sua mente girando. Algo sobre isso parecia estranho. Ele estava desconfiado desde o momento em que este único sobrevivente retornou. Agora, com o homem parado diante dele, suas dúvidas se solidificaram.
"Seu idiota. Você deveria ter morrido lá atrás", disse Bessic.
Whoosh!
O machado cortou o ar mais uma vez, desta vez cortando o pescoço do homem completamente.
Thud.
O corpo sem cabeça de Wigo caiu no chão e, por um momento, o silêncio reinou. Mas então—
Squelch.
Uma substância escura e sombria vazou do cadáver, contorcendo-se e enrolando-se como uma coisa viva. A massa negra rapidamente se condensou, formando uma bola perfeitamente esférica. Mana densa e opressiva emanava dela.
Bessic não hesitou. Ele estendeu a mão e agarrou a bola com um aperto áspero e inflexível. Um sorriso sinistro se espalhou em seu rosto enquanto ele a examinava.
"Então, é assim que é", murmurou Bessic ao perceber algo.
A bola irradiava mana que pertencia a alguém. Ele não conseguia dizer se era mana regular ou mana negra, mas uma coisa estava clara.
"Minha tripulação não morreu pelas mãos de alguns elfos", disse Bessic.
Quem quer que tenha feito isso plantou algo em seu subordinado e o enviou de volta vivo de propósito. Elfos não operavam assim. Eles matavam rápida e limpaente. Mas este método era muito mais cruel, muito mais calculista. Era o tipo de coisa que piratas fariam.
"...Parece que alguém interessante entrou no jogo", Bessic riu enquanto virava a bola em suas mãos.
Ele podia sentir o olhar de alguém além da esfera, observando-o. Isso não era apenas paranoia. Era seu instinto, aprimorado ao longo de anos de sobrevivência, que gritava que ele estava sendo observado.
"Não há como essa pessoa se dar a todo esse trabalho apenas por um voyeurismo barato", ponderou Bessic sobre a bola.
Então, a porta se abriu.
"Chefe!", gritou o ajudante, correndo para dentro da sala. Seus olhos se voltaram para o cadáver no chão e ele recuou em choque antes de recuperar rapidamente a compostura. "Chefe, os homens que entraram em contato com aquele cadáver—estão todos agindo estranho! Eles estão curvados, tremendo de medo como se algo os possuísse!"
"Então, você está dizendo que é contagioso?", perguntou Bessic, seu tom calmo, mas com uma pitada de ameaça.
"Parece... que sim", confirmou o ajudante inquieto.
Bessic olhou de volta para a bola e sorriu, então disse: "Como eu pensava... Você é como nós."
Quem quer que fosse este oponente, eles eram tão traiçoeiros, tão implacáveis, dispostos a fazer o que fosse preciso para vencer.
"Mate aqueles que estão agindo estranho. Cortem suas cabeças e joguem-nas no mar", ordenou Bessic sem hesitação.
O ajudante assentiu sombriamente e saiu para cumprir a ordem.
Voltando sua atenção para a bola, Bessic a infundiu com sua própria mana.
Crack!
A esfera se estilhaçou sob seu poder, seus fragmentos se dissolvendo no nada.
"Isso pode apenas animar as coisas", murmurou Bessic com um sorriso cruel.
A Tripulação Pirata Tubarão Branco havia sofrido uma perda e ele se certificaria de pagar de volta integralmente.
Whoosh!
Uma onda de mana de 7 Estrelas ondulou através dele.
***
Flicker.
A visão que Pluto estava compartilhando foi abruptamente cortada.
Caron, percebendo a tensão em Pluto, dispensou o espírito. Um leve sorriso brincou em seus lábios enquanto ele murmurava: "Aquele homem que parece um urso tem instintos aguçados."
A coisa que Caron havia plantado dentro de Wigo nada mais era do que um clone de Pluto. Embora ele tivesse previsto as várias maneiras pelas quais as habilidades de Pluto poderiam ser utilizadas, vê-lo em ação havia excedido em muito suas expectativas.
"Eu vou precisar usar esse truque com mais frequência", comentou ele, já considerando as possibilidades. Embora o poder de Pluto fosse limitado em áreas sem escuridão, esta aplicação bem-sucedida abriu um mundo de novas estratégias. Caron podia ver como Pluto compensaria muitas de suas próprias deficiências.
As informações que aquele pirata me deu parecem ser verdadeiras, pensou Caron.
Para o crédito dele, o pirata tinha feito a parte dele. Assim que Wigo havia escapado de Caron, ele tinha feito uma linha reta de volta para a frota dele. Isso permitiu que Caron verificasse as informações fornecidas.
Mas, acima de tudo, aprender sobre as habilidades de Bessic, o Sexto Herói da Rainha Pirata, foi a percepção mais valiosa.
Um pirata de 7 Estrelas, hein?, ponderou Caron.
Esse era um nível de poder que tornava alguém capaz de derrubar até mesmo cavaleiros habilidosos com facilidade. Era uma presença adequada para um dos pilares do domínio do Mar do Sul.
"Caron", Leon chamou, interrompendo seus pensamentos. Ela estava ajudando uma elfa a caminhar em direção a ele, apoiando-a pelo braço. "A elfa está acordada."
Caron olhou para a elfa, notando sua tez melhorada. Ela ainda estava fraca, mas parecia muito melhor do que antes.
"Por que eu sempre encontro elfos em circunstâncias tão terríveis?", murmurou Caron para si mesmo. De Foina a Neria, Orion e agora esta, cada encontro tinha sido tudo menos comum.
"Você consegue falar a língua humana?", ele perguntou diretamente à elfa.
A elfa murmurou algo em sua própria língua, fazendo Caron fazer uma careta. Ninguém no grupo falava élfico fluentemente.
Naquele momento, a voz familiar e desinteressada de Guillotine ecoou em sua cabeça.
"Ela está dizendo: 'Obrigado por me salvar, meu benfeitor'."
Caron ergueu uma sobrancelha e perguntou: "Você não consegue gerenciar a tradução bidirecional?"
"Você acha que isso vai funcionar? Ela nem consegue me ouvir, seu idiota", disse Guillotine irritantemente.
"Então faça acontecer. Por que você é tão inútil para uma assim chamada espada demoníaca?", Caron retrucou. Ele suspirou, voltando-se para a elfa, já se perguntando se ele precisaria recorrer a gesticular como um tolo.
"Deixe comigo!", Utula gritou repentinamente do nada, pescando algo de sua cintura. Era um livro com uma capa de couro marrom.
"Você poderia, por favor, ser normal e guardar os livros em sua mochila?", Leo gemeu, beliscando a ponte de seu nariz.
Utula estufou o peito, parecendo imensamente orgulhoso, e disse: "Um verdadeiro guerreiro sempre mantém um livro por perto. Acho que você precisa ler mais, Leo."
"Eu não sou estúpido, seu gigante!", Leo retrucou.
"Não, mas você não tem conhecimento. Você já ouviu o ditado: 'Conhecimento é poder'?", Utula respondeu.
Leo olhou furiosamente, enquanto Caron observava silenciosamente a troca, tentando não rir da sabedoria pesada de Utula.
Leo ficou congelado, de boca aberta, atordoado pela inesperada alfinetada verbal. Enquanto isso, Utula permaneceu imperturbável e se voltou para Caron com um ar confiante.
"Este é um livro básico de élfico", anunciou Utula, segurando um livro. "Eu o comprei durante minha última visita a Galad. Enquanto treinava em reclusão, eu o pratiquei pouco a pouco. Eu consegui aprender algumas frases simples. Ah, mas eu não consigo entender o élfico falado ainda. Eu só consigo falar."
"...Utula", Caron começou.
"O que é, Caron?", Utula perguntou, inclinando a cabeça em curiosidade.
"Você é mais inteligente do que parece", disse Caron.
A fala lenta usual de Utula e sua estrutura enorme do tamanho de uma casa lhe davam um ar de desajeitamento que era difícil de ignorar. Qualquer um que o encontrasse pela primeira vez provavelmente presumiria que ele era mais músculo do que cérebro.
"Os gigantes devem viajar pelo continente para cumprir suas tarefas! Para isso, devemos aprender muitas línguas", explicou Utula orgulhosamente.
Um gigante poliglota—era uma imagem incomum, uma que não se encaixava nas expectativas. Mas Caron decidiu deixar de lado suas dúvidas por enquanto.
"Ótimo. Eu vou lidar com a compreensão das respostas dela. Pergunte a ela como ela acabou sendo perseguida por piratas", instruiu Caron.
"Entendido", disse Utula, caminhando em direção à elfa. Segurando o livro básico em uma mão, ele gesticulou animadamente enquanto tentava se comunicar.
A elfa o observou por um momento antes de responder suavemente. Guillotine não perdeu tempo em traduzir as palavras dela na mente de Caron.
"Ela diz que testemunhou navios naga ao lado de navios piratas humanos. Então ela tentou retornar para seu povo imediatamente, mas os piratas estavam em seu encalço em pouco tempo."
"...Nagas?", Caron ecoou, sua expressão escurecendo.
Orion o havia alertado sobre eles antes. Eles eram criaturas que governavam os mares ao sul da Grande Floresta e eram inimigos mortais dos elfos. E nagas desprezavam humanos tanto quanto. Então Caron não conseguia entender por que eles se alinhariam com piratas humanos.
Este não era mais apenas um problema de piratas. Era uma ameaça iminente.
Por que diabos Kerra está escondida em um lugar como este?, Caron pensou enquanto colocava as peças do quebra-cabeça em sua mente.
Havia a toca do dragão que eles tinham passado antes, os piratas e agora os nagas. Até mesmo a localização que o regente tinha fornecido para o esconderijo de Kerra era convenientemente perto da aldeia próxima.
Uma coincidência poderia ser desculpável, mas tantas?
Não, é impossível, Caron pensou com crescente certeza.
Isso não era uma coincidência.
"Isso era inevitável", murmurou ele para si mesmo.
O que quer que estivesse acontecendo, estava centrado na região ao sul da Grande Floresta, e os sinais eram claros demais para ignorar.
Balançando a cabeça lentamente, Caron fixou seu olhar na elfa e disse decisivamente: "Leve-nos para a vila. Agora mesmo."
O tempo estava se esgotando.
[1] - Filhote: No contexto da história, refere-se a algo ou alguém de grande importância para a Rainha Pirata, possivelmente um artefato ou ser com potencial significativo.