
Capítulo 105
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 105
Ao entrarem na Grande Floresta do Sul, uma nova paisagem começou a se desdobrar. Diferente das terras devastadas pela guerra dos reinos do sul, a floresta fervilhava de vida. Animais vagavam livremente, e as plantas cresciam com uma vitalidade incomparável às terras de fora.
— Parece que todos vocês estão bem impressionados — Orion comentou com um leve sorriso nos lábios, notando Caron e os outros olhando ao redor com evidente admiração.
— Onde a bênção da Mãe toca, rende frutos abundantes — explicou. — É por isso que tanta vida se enraizou aqui.
— Elfos são os únicos não-humanos aqui? — Caron perguntou, sua curiosidade despertada.
— Você já considerou que o termo "não-humano" é um pouco... centrado no humano? — Orion indagou.
— É um ponto justo — Caron concedeu rapidamente. — Então, existem outras espécies sapientes além dos elfos?
Orion balançou a cabeça levemente e respondeu: — Não são apenas os elfos. Algumas outras raças vivem aqui. Por exemplo, a Tribo das Feras, particularmente a Tribo da Lebre, se estabeleceu aqui. A população deles é pequena, então vivem em uma vila unida. São caçadores habilidosos e, ocasionalmente, vêm a Galad para vender o que caçaram.
— Tribo da Lebre, hein? — Caron ponderou. — Agora que você mencionou, eu resgatei alguém da Tribo do Gato quando ajudei Neria.
Orion riu e disse: — Mais caridoso do que aparenta, pelo visto.
Caron estreitou os olhos ao perguntar: — ...Do que aparenta?
— Bem, seu rosto não tem exatamente uma fisionomia caridosa, sabe? — Orion respondeu.
— Fisionomia é superstição — Caron retrucou. — Comparado aos elfos, todos os humanos devem parecer pouco atraentes. Isso significa que os humanos são uma raça ruim?
Orion assentiu solenemente e disse: — Claro. Os rostos da humanidade são prova da fisionomia. A natureza dos humanos é egoísta e má. Estou errado?
— Vocês são um bando de racistas — Caron murmurou.
— Concordo — Orion admitiu.
Caron percebeu que havia esquecido brevemente o quanto os elfos desprezavam os humanos. A teimosia deles o deixou um pouco desconfortável. Ele se perguntou se os elfos de Galad sequer os receberiam bem ou se seriam pouco cooperativos. Mas Orion pareceu sentir sua preocupação.
— Todos vocês serão tratados como hóspedes de honra entre nós, então não há necessidade de se preocupar — Orion garantiu. — Cooperaremos totalmente, para que possam ficar à vontade.
— Agora que penso nisso, você não é nada como a minha primeira impressão de você. Naquela época, você parecia pronto para nos matar — Caron comentou com uma risada.
— Não é natural cuidar dos amigos? Por que a surpresa? — Orion respondeu com um sorriso de canto.
Apesar do caos que surgiu com o fragmento do Rei Demônio, Caron agora estava recebendo muito apoio depois de superar aquela provação. Talvez sua sorte agora estivesse equilibrando a terrível vida passada que ele havia suportado.
— Vocês não têm inimigos aqui? — Caron perguntou. Um lugar tão abundante como este dificilmente estaria livre de forças hostis.
Orion olhou para ele pensativamente e murmurou: — Hmm...
— ...Além de humanos, quero dizer — Caron acrescentou.
— De vez em quando, vemos criaturas como orcs ou trolls atravessando as montanhas Rahal do leste. Mas os mais perigosos são... os nagas, que às vezes invadem a Grande Floresta do Sul através do Mar do Sul — Orion explicou.
— Nagas... Já ouvi falar deles — Caron respondeu, intrigado.
Os nagas[1] eram uma raça marinha com brânquias, adequada para a vida no oceano. Sob o mar quente do sul, eles construíram uma civilização própria. Ninguém imaginaria que tal raça representaria uma ameaça à Grande Floresta.
— Eles invadem a floresta porque desejam o poder da Mãe — Orion explicou.
— Mas por que habitantes do mar se importariam? — Caron perguntou.
Orion suspirou e continuou: — É uma longa história, então serei breve. Nagas são uma raça que nasce quando elfos sucumbem à mana negra. Eles também anseiam pelo poder da Mãe.
Isso era novo para Caron. Ele nunca havia encontrado tal história de origem em nenhum livro antes.
Orion continuou com uma expressão amarga escurecendo seu rosto: — Eles desejam corromper a Mãe com sua própria mana.
— Estou supondo que é um tipo diferente de mana, então? — Caron perguntou.
— Mana do fundo do mar é uma fusão de mana negra e mana regular. Apenas os nagas podem usá-la, então, naturalmente, temos que lutar contra eles — Orion respondeu.
O interesse de Caron foi despertado. Uma fusão de mana negra e mana regular... Isso significaria que os nagas retêm sua racionalidade, apesar de serem contaminados pela mana negra.
Parece que eles são semelhantes a orcs ou ogros, Caron pensou. Embora essa informação não fosse imediatamente útil, valia a pena saber, especialmente dada a natureza reservada dos elfos.
— Talvez viver em um lugar tão abundante nem sempre seja ideal — Caron disse.
— Concordo — Orion assentiu.
Enquanto Caron e Orion compartilhavam seus pensamentos, a distante cidade de Galad gradualmente surgiu à vista. Caron esperava uma modesta vila élfica aninhada na floresta, mas ele foi rapidamente provado errado.
Muralhas imponentes circundavam a cidade, com várias estruturas altas elevando-se além delas. Caron sentiu uma sensação de admiração, semelhante ao que havia experimentado quando viu a capital do império de longe pela primeira vez. Então seu olhar caiu sobre uma enorme árvore imponente atrás das muralhas da cidade, e ele não pôde deixar de soltar uma exclamação silenciosa.
— ...A Árvore do Mundo.
A árvore maciça parecia alcançar o céu, emanando um fluxo constante e poderoso de mana para a área circundante.
— É um pouco cedo para se impressionar, Caron Leston — Orion disse, divertido.
— A cidade é muito maior do que eu esperava — Caron respondeu.
— É o último bastião do nosso povo. Naturalmente, é bem grande. Pela sua reação, parece que você subestimou nossa civilização — Orion disse.
— De forma alguma. Eu estava apenas... surpreso, só isso — Caron respondeu.
Orion sorriu suavemente com as palavras de Caron, então convocou um espírito de fogo.
Whoosh.
O espírito ganhou vida com uma chama branca e flutuou para o céu. Momentos depois, um brilho quente emergiu das muralhas da cidade, iluminando-as.
— Lindo — Leon murmurou por trás, sua voz mal acima de um sussurro.
A luz era realmente linda. Diferente do brilho artificial dos fogos dos fanáticos, essa luz era quente, como o sol.
A voz de Orion assumiu um tom gentil e reverente ao dizer: — Esta luz é para honrar nossos guerreiros caídos.
Caron voltou seu olhar para os elfos atrás dele, particularmente em direção aos corpos de guerreiros caídos embalados por espíritos. Quase metade dos elfos que se aventuraram da floresta haviam perecido, mas os sobreviventes não mostravam sinais de luto. Como Orion, todos usavam expressões calmas enquanto seguiam em frente.
— Nossos camaradas caídos simplesmente retornaram ao abraço da Mãe — Orion explicou. — Seria errado mostrar tristeza diante de seus corpos. Somente com corações calmos podemos deixá-los descansar em paz. É assim que honramos aqueles que vieram antes de nós.
Ele lentamente se virou para Caron e seu grupo. — Com novos amigos agora os acompanhando, acredito que nossos camaradas caídos estão se regozijando. Então, por causa deles... Por favor, sorriam.
Caron ofereceu um leve sorriso, então disse: — Esse não é um pedido difícil.
Orion sorriu de volta e disse calorosamente: — Bem-vindos a Galad mais uma vez, amigos.
A luz suave os guiou para dentro da cidade.
Caron e seu grupo entraram em Galad junto com os elfos, e Caron não pôde deixar de soltar uma exclamação suave. — Uau.
Ele olhou ao redor para a paisagem urbana dentro das muralhas de Galad. Havia estradas bem conservadas e edifícios se misturando harmoniosamente com as árvores. Mas não era apenas isso. Elfos caminhavam pelas ruas e espíritos de várias cores flutuavam ao redor; espalhados entre eles estavam membros de outras raças, incluindo a Tribo da Lebre.
— É como uma pintura — Leo murmurou, admirando a cena que realmente parecia uma obra de arte.
— Olha, tem fadas também! — Leon exclamou.
Pequenas fadas, não maiores que uma mão, empoleiravam-se nas cabeças dos espíritos das árvores. As criaturinhas adoráveis traziam um sorriso interminável ao rosto de Leon. Até mesmo o gigante Utula parecia cativado.
— Esta é a cidade mais harmoniosa e bonita que já vi! — Utula declarou, ainda olhando em admiração com a boca aberta.
Aqui, não havia vestígios da discriminação com que Caron havia se preocupado. Aqueles que faziam contato visual com seu grupo colocavam a mão direita sobre o peito e se curvavam levemente ao passar.
— Essa é uma saudação de respeito — Orion explicou. — Todos vocês são dignos de sua honra.
Caron coçou a bochecha timidamente e disse: — Acho que talvez tenha julgado os elfos mal.
— Se alguém chegasse com um humano não convidado... Bem, teria sido diferente — Orion disse.
— O que teria acontecido então? — Caron perguntou curiosamente.
— Então eu poderia ter tido o privilégio de ver aquele humano pendurado na forca na praça — Orion respondeu com um sorriso de canto.
— Gulp! — Leo soluçou em resposta. Orion riu e deu um tapinha nas costas de Leo.
— É uma piada élfica. Apenas caçadores de escravos acabam na forca. Quaisquer refugiados que fugiram para cá para salvar suas vidas são detidos brevemente e então enviados para o leste, onde há uma vila de refugiados administrada por humanos — Orion disse.
— Entendo... Eu pensei que os elfos apenas executavam todos os humanos à vista. Eu tinha ouvido rumores de que se um humano pisasse aqui, não viveria para ver outro dia — Caron respondeu.
— ...Você acha que somos tão cruéis quanto vocês, humanos? — Orion perguntou. — Qualquer um que se atreveu a fugir para nós apesar desses rumores veio aqui para sobreviver. Matá-los iria contra os desejos da Mãe, Caron.
Com essa explicação simples, Orion enfiou a mão em sua capa e puxou uma medalha de prata gravada com a imagem de uma árvore. Ele entregou uma medalha para cada membro do grupo de Caron.
— Nossa audiência com o regente é amanhã — Orion explicou. — Então vocês estão livres para passar o dia de hoje como quiserem. Esta medalha permitirá que vocês acessem qualquer instalação sem custo algum.
Caron sorriu, enfiando a medalha no bolso enquanto dizia: — Um passe livre, hein? Isso é bom. Ah, eu estava esperando enviar uma mensagem para o Castelo Azureocean. Existe algum elfo por aqui que possa usar magia de comunicação?
— Há uma estação de retransmissão na praça — Orion respondeu. — É usada principalmente para entregas de encomendas, mas eles também lidam com comunicações. Eles têm as coordenadas do Castelo Azureocean, então você pode enviar sua mensagem para lá.
— Como vocês têm as coordenadas... Ah, certo, você mencionou que meu avô já esteve aqui antes — Caron disse.
— Não se preocupe, a magia élfica é excelente — Orion garantiu. — Eu virei buscá-los amanhã, então espero que todos descansem bem até lá.
Os elfos teriam muito o que fazer, já que acabavam de retornar de sua expedição. Depois de transmitir tudo o que era necessário para Caron e seu grupo, Orion conduziu os membros da patrulha para longe.
Caron observou a patrulha partir e suspirou suavemente, então se virou para seu grupo e perguntou: — Então... Existe alguma coisa que algum de vocês gostaria de fazer?
Utula foi o primeiro a responder à pergunta de Caron. — Meu machado e minhas grevas apanharam muito! Preciso ir à forja para reparos.
Considerando a intensidade das batalhas recentes, não era surpresa que o equipamento de todos tivesse sofrido alguns danos. Leo e Leon assentiram em concordância com Utula.
— Preciso passar na forja também — Leon disse.
— O mesmo aqui, Caron — Leo acrescentou. — Ei, você não deveria ir também? Agora que penso nisso, sua armadura provavelmente foi a que mais sofreu.
Leo lembrou-se da arma do Rei da Matança que havia perfurado a armadura de Caron durante sua escaramuça. Mas Caron apenas deu de ombros com um sorriso e respondeu: — Oh, minha armadura pode se reparar sozinha, na verdade.
— Certo... Você tem Kavana, certo? — Leo suspirou. — Os anciãos seniores são generosos com você. Tudo o que eles nos deram foi uma espada...
— Se você acha que é injusto, você terá que ficar mais forte — Caron respondeu brincando.
— Hah! Equipamento bom não deveria ser dado para pessoas mais fracas? Dizem que profissionais de verdade não dependem de seu equipamento — Leo disse.
— Isso é bobagem. Quanto mais forte você é, melhor o equipamento que você usa — Caron riu, dissipando facilmente o raciocínio distorcido de Leo.
Ele então se dirigiu ao grupo, dizendo: — Certo, vocês três vão cuidar de seus reparos na forja, e eu vou para reportar ao Castelo Azureocean. Vamos nos encontrar aqui em uma hora. Leon, estou contando com você para manter todos fora de problemas.
— Você pode contar comigo, Caron — Leon respondeu confiantemente. — Mas ei, posso dizer só uma coisa?
— Claro, vá em frente — Caron disse.
— Normalmente, o encrenqueiro por aqui... é você — Leon apontou.
— Uh... Ahem! — Caron tossiu.
— Só dizendo. Vejo vocês em breve — Leon disse.
Com isso, os outros partiram para a forja, e Caron se viu sozinho nas ruas movimentadas.
— Não tenho muita certeza se consigo me comunicar com eles — ele murmurou. Mas se não, sempre haveria uma maneira de resolver as coisas. Assentindo para si mesmo, Caron foi direto para a praça principal da cidade.
Quando chegou, não pôde deixar de rir. Ele murmurou: — Talvez eu devesse ter me preocupado mais comigo mesmo.
O mercado ao redor da praça estava lotado de lojas, elfos correndo e vendedores enérgicos tentando atrair clientes. O mais assustador de tudo, cada placa estava escrita em élfico.
Intimido, Caron colocou uma mão no punho de sua espada. Ele lembrou que tinha seu próprio tradutor pessoal.
— Guillotine, encontre o lugar rápido — ele ordenou.
Um momento depois, Guillotine respondeu, soando um tanto irritada: — '...E como eu deveria fazer isso?'
— Você entende élfico, não entende?
— Sim, eu consigo entender élfico falado. Mas como diabos eu deveria ler isso? Talvez pense antes de começar a dar ordens. Honestamente, você espera tanto de uma espada.'
O ditado sobre ser cortado pela própria lâmina parecia bem apropriado. Caron franziu a testa e disse: — Acho que meu tradutor é analfabeto... Que decepcionante, Guillotine.
— Você está maluco? Espadas são para derrubar inimigos, não para traduções! Se você quer traduções, vá encontrar um tradutor!
Caron suspirou. Ele agora estava, oficialmente, perdido. Mas ele não tinha outra escolha. Ele disse: — Acho que vou ter que ir com... pantomima.
E assim, Caron começou a tentar se comunicar com os elfos que passavam usando pantomima. Levou cerca de trinta minutos antes que rumores começassem a circular pela praça de Galad sobre o estranho humano que havia aparecido.
[1] - Geralmente, isso se refere a pessoas meio cobra na fantasia, mas o autor optou por dar o nome de Nagas ao povo peixe deste mundo. ☜