
Capítulo 83
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 83
Os soldados atrás de Sir Decal começaram a murmurar ansiosamente.
— Traição? O Marquês Leandro estava tramando traição? — perguntou um soldado.
— Isso é loucura! Se nos envolvermos nisso, estamos mortos também — disse outro.
— Nossas famílias... Nossas famílias vão sofrer... — acrescentou ainda outro.
Levou apenas um segundo para que o moral deles se abatesse. Os soldados que estavam firmes para impedir os rebeldes agora viam sua determinação desmoronar sob o peso da situação. De certa forma, era natural. Era assim que as acusações de traição sempre foram.
Sir Decal, que estava observando a situação, gritou apressadamente: — Não se deixem influenciar por tais absurdos! Nós não somos os rebeldes aqui!
Ele tentou acalmar as tropas, mas as rachaduras em seu moral já haviam começado a se espalhar. E Caron, com suas palavras implacáveis, continuou a agitá-los ainda mais.
— Já que vocês, soldados, apenas seguiram as ordens de seus superiores — Caron proclamou suavemente —, se se juntarem a nós agora e nos ajudarem a suprimir esses verdadeiros rebeldes, garantiremos que isso seja levado em consideração. Mas se se opuserem a nós... Vocês morrerão como traidores. Juro pelo nome do meu avô.
Caron invocou o nome da família Leston com facilidade, e os soldados não puderam deixar de ser afetados. Todos sabiam o peso que esse nome carregava e a promessa que ele continha. Sua persuasão inteligente os fez vacilar.
Acabou, pensou Caron enquanto observava os soldados fraquejarem lentamente; um sorriso silencioso cruzou seus lábios. Não era a primeira vez que ele usava essas táticas. Quando ele era um comandante de cavaleiros nas forças reais, era assim que ele esmagava rebeliões sob as ordens do antigo rei. Ele semeava a discórdia dentro das fileiras inimigas, em vez de simplesmente dominá-los. E agora, com o número de inimigos muito maior que o seu, essa estratégia era mais eficaz do que nunca.
— Cobler — disse Caron casualmente.
Cobler rapidamente cobriu a boca com a mão ao responder: — Sim, Jovem Mestre?
— Quantos desses soldados estão envolvidos no comércio de escravos? — perguntou Caron.
— ...Hmm, provavelmente não muitos. O Marquês Leandro não confia em ninguém fora da nobreza. Tenho certeza de que os oficiais estão envolvidos, mas responsabilizar os soldados de baixa patente seria um pouco excessivo— explicou Cobler.
— Eu disse que estava responsabilizando alguém? — Caron o interrompeu. Ele não pretendia matá-los a todos, embora houvesse uma investigação completa mais tarde.
Ele assentiu levemente, levantando sua espada e apontando-a diretamente para Decal antes de dizer: — Parece que os soldados fizeram sua escolha. E você? Qual é a sua?
— ...O que exatamente você quer de mim? — perguntou Sir Decal em voz baixa.
— A mesma coisa que pedi a Noor. Traia seu chefe — disse Caron friamente.
A voz de Decal vacilou quando ele perguntou: — E em troca, o que eu ganharia—
Antes que Decal pudesse terminar, Caron avançou sobre ele com a velocidade de um raio. Decal tentou bloquear o ataque repentino levantando sua espada, mas a espada de Caron se retorceu como uma cobra e roçou seu ombro ao passar.
Thud.
Decal ouviu algo atingir o chão. Ele olhou para baixo, atordoado, e viu seu braço direito ali, junto com sua espada.
Então, a dor o atingiu.
— Guhhh...!
Uma dor agonizante surgiu do coto onde seu braço havia estado. Atrás dele, os soldados tremiam, levantando suas espadas.
— Sir Decal! — um deles gritou.
Mas nenhum deles ousou atacar Caron. Seus instintos gritavam que atacá-lo significaria morte certa.
— Já que você quer uma recompensa, eu vou te dar uma — disse Caron, sua voz casual enquanto ele esmagava o braço decepado de Decal sob sua bota. — Eu vou deixar você viver.
O rosto de Decal se contorceu em uma mistura de dor e humilhação, mas ele não resistiu. Apesar de seu desejo de lutar contra esse monstro, ele estava paralisado pelo medo. Suas pernas tremiam violentamente enquanto ele olhava para Caron. Nesta situação, todo o conceito de lealdade ao Marquês Leandro parecia distante e sem sentido.
Sem outra opção, Decal caiu de joelhos e gritou desesperadamente: — Eu vou testemunhar! O Marquês Leandro... Ele tem tramado rebelião... rebelião contra o império!
Caron zombou e disse: — Você se dobra mais rápido que a luz. Um traidor nato, não é?
— E-Eu vou dizer o que você quiser... O-O que você me disser — gaguejou Decal.
— Aí está. Traidores natos como você são sempre os que sobrevivem por mais tempo. Sim, você deve viver. O que é mais importante do que isso, certo? — Caron comentou com um sorriso satisfeito no rosto.
Um braço decepado em troca da sobrevivência. Esse era um preço barato a pagar. Decal havia desmoronado em um instante. E vendo seu vice-comandante se render, os outros três cavaleiros rapidamente deixaram cair suas espadas no chão em derrota.
Caron os observou, então fez um gesto sutil em direção a Cobler e disse: — Amarre-os e jogue-os em sua prisão.
Cobler hesitou, parecendo perturbado ao responder: — ...Esses homens são cavaleiros, meu senhor. Restrições normais não serão suficientes—
— É só com isso que você precisa de ajuda? — Caron interrompeu.
— Sim, é— Cobler não conseguiu terminar sua frase.
Boom!
Caron socou o peito dos cavaleiros ajoelhados que acabavam de se render. O som de seus golpes ecoou como uma explosão; todos os quatro cavaleiros, incluindo Decal, desabaram, espumando pela boca enquanto perdiam a consciência.
A violência foi repentina e brutal, deixando Cobler tão assustado que ele soluçou de surpresa.
Caron casualmente tirou a poeira de suas mãos e disse com indiferença: — Eu só destruí metade de seus núcleos de mana, então eles devem acordar até amanhã. Problema resolvido, certo?
— C-Claro! Ei! O que vocês estão esperando? Depressa e arrastem esses cavaleiros para fora daqui! — Cobler gritou para seus homens. Eles se apressaram em carregar os cavaleiros inconscientes para longe, arrastando-os como sacos enquanto desapareciam na distância.
Caron os observou ir, então de repente se lembrou de algo. Ele murmurou: — Eu deveria ter perguntado onde eles mantinham os escravos.
Naquele momento, um soldado, visivelmente tremendo e hesitante, se aproximou dele. Seu rosto estava pálido de medo, mas ele reuniu sua coragem e disse com uma voz trêmula: — L-Lorde Caron Leston, senhor. Eu... Eu tenho algo a relatar... S-Só uma coisa.
O soldado, um jovem com uma aparência simples, quase inocente, estava parado rigidamente diante dele. Caron exibiu um sorriso brilhante e o cumprimentou calorosamente. — Qual é o seu nome?
— Meu nome é Kobi, senhor — respondeu o soldado.
— Bem, Kobi, estou feliz em ver alguém com a atitude certa. Então, qual é essa informação que você tem para mim? — perguntou Caron.
Apesar do tom gentil de Caron, Kobi não conseguiu resistir a tremer. A memória de Caron decepando o braço de Decal e espancando impiedosamente os cavaleiros ainda estava fresca em sua mente. Mas mesmo assim, ele encontrou a coragem de falar. A palavra "traição" ressoava em sua mente simples, aterrorizando-o.
Qualquer coisa, menos traição... Eu não posso me envolver nisso! pensou Kobi. Se ele fosse pego em acusações de traição, não seria apenas ele. Sua esposa e filhos em casa também seriam arrastados para a confusão. Ele tinha que proteger sua família. Então, ele decidiu compartilhar a atividade suspeita que havia notado.
— Há um jardim atrás do prédio principal. É proibido para os soldados, mas... Eu vi cavaleiros entrando e saindo de lá — explicou Kobi nervosamente.
— Essa era exatamente a informação que eu precisava. Eu aprecio sua cooperação proativa, Kobi. Você tem o espírito certo — respondeu Caron.
— O-Obrigado, Lorde Caron! Eu sempre me orgulhei de servir o império como soldado. Eu nunca estive envolvido em nenhuma rebelião, eu juro— Kobi começou a se explicar.
Mas Caron o interrompeu dando um tapinha nas costas de Kobi e riu. — Você realmente acha que eu responsabilizaria um soldado como você? Não se preocupe. Eu vou me lembrar de como você foi útil. A propósito, você poderia me guiar até aquele jardim?
— Claro, senhor! — respondeu Kobi ansiosamente.
Era finalmente hora de libertar os escravos.
***
Seguindo a liderança de Kobi, Caron chegou ao jardim. Em um canto da parede, escondida sob a folhagem densa, havia uma porta disfarçada inteligentemente pela vegetação.
— Cheira mal já — murmurou Caron enquanto batia levemente na porta com a mão. Parecia pesada ao toque, claramente reforçada com metal grosso. A ideia de uma porta tão fortificada no meio de um jardim parecia estranha, para dizer o mínimo.
— Você se saiu bem, Kobi — disse Caron, elogiando o soldado que o havia guiado até ali. Colocando uma mão no ombro de Kobi, ele continuou: — De agora em diante, você é o comandante da segunda divisão. Você liderará os soldados lá fora.
— C-Comandante? — Kobi gaguejou em descrença.
— Você se juntou à nossa causa agora, não é? Você lutará ao nosso lado. Quando tivermos erradicado os traidores, eu vou me certificar de que você seja recompensado de acordo. Então, é melhor você lutar duro — acrescentou Caron.
Os olhos de Kobi se iluminaram com determinação enquanto ele fazia uma saudação firme e dizia: — Eu servirei com toda a minha lealdade!
— Comandante da segunda divisão, este lugar é minha responsabilidade agora. Vá assumir o comando dos soldados — instruiu Caron.
— Entendido, senhor! — respondeu Kobi, então rapidamente desapareceu de vista, ansioso para cumprir seu novo papel.
Uma vez que ele se foi, Caron voltou sua atenção para a porta. Segurando sua espada, Guilhotina, ele a encarou.
“Dono, essa porta é reforçada com pedras de mana e coberta com feitiços defensivos”, a voz de Guilhotina ecoou na mente de Caron.
Caron podia sentir o leve zumbido de mana emanando da porta, assim como Guilhotina havia notado. A porta estava bem trancada, provavelmente com uma chave escondida em algum lugar no prédio principal. Mas Caron não tinha interesse em perder tempo procurando por ela.
Whoosh.
Com um zumbido baixo, a lâmina de Guilhotina começou a brilhar com uma aura azul escura, o sinal revelador de intensa energia de mana. Essa aura era uma manifestação do poder esmagador de Caron, prova de que ele havia ultrapassado a patente de um cavaleiro 6-Estrelas. Era um reino de habilidade reservado apenas para a elite.
Então, sem hesitação, Caron abateu a lâmina sobre a porta.
CRACK!
A porta se partiu em dois com um guincho grotesco. Uma metade permaneceu presa às dobradiças, agarrada à parede, enquanto a outra caiu no chão com um barulho estrondoso. Além da porta estilhaçada, havia uma escada descendente.
— Qual é o problema com as pessoas por aqui e seu amor por escadas? — resmungou Caron enquanto começava a descer.
De acordo com o catálogo que Noor havia mostrado a ele de volta na casa de leilões, havia sete escravos mantidos ali. Desses, dois haviam chamado particularmente a atenção de Caron. Eram indivíduos que podiam ser úteis para seus planos. Eles eram a razão pela qual ele havia vindo aqui antes de lidar com os outros campos de escravos.
— Hm. — Caron desceu ainda mais até que a escada finalmente terminou, revelando uma instalação semelhante a uma prisão. O silêncio assustador que preenchia o espaço fazia o ar parecer pesado.
Caron pegou uma lanterna pendurada na parede e acendeu um fósforo para acendê-la. Com um brilho, a lanterna iluminou o espaço ao seu redor, e a cena lentamente entrou em vista. Ele estava em uma prisão subterrânea cheia de barras de ferro, um labirinto de celas se estendendo na escuridão. De um lado, uma seção não era apenas barrada, mas completamente isolada por paredes de metal, isolando o que quer que estivesse dentro.
Sem pensar duas vezes, Caron se aproximou da área selada. Levantando sua espada mais uma vez, ele cortou a porta.
Thud.
Quando a porta caiu, Caron entrou. Seus ouvidos captaram o leve som de uma voz.
— ...Ah, o cheiro de sangue. — A voz era rouca e rachada, como se pertencesse a alguém que não bebia água há muito tempo.
Caron levantou a lanterna, lançando luz em direção à fonte da voz. Ali, deitada no chão, estava uma mulher fera; suas mãos e pés estavam amarrados. Suas orelhas pontudas e cauda revelavam sua herança não humana.
Ao lado dela, uma figura imponente estava presa em correntes; ele era um gigante. Sua cabeça quase tocava o teto. Ele olhou para Caron com olhos cheios de suspeita.
— Humano. Você também é meu inimigo? — perguntou o gigante, sua voz grave ecoando pela câmara.
Caron calmamente se aproximou deles, então em voz baixa ele disse: — Prazer em conhecê-los, a todos.
A voz da mulher fera estava cheia de cautela quando ela murmurou: — ...Um novo cheiro. Vários tipos de sangue misturados. Humano, quem é você?
Caron riu suavemente e respondeu: — Duvido que dizer meu nome signifique muito para você. Em um lugar como este, os nomes sequer importam? Eu vim para libertá-los.
De pé entre os dois, seu tom suavizou ao se apresentar. — Meu nome é Caron Leston, o neto mais novo do Grão-Duque Halo e um membro da nobre família Leston. Vocês já ouviram falar de mim?
Com isso, o gigante balançou a cabeça entusiasticamente e respondeu: — A família Leston! Uma casa de guerreiros honrados! É uma honra conhecê-lo. Eu sou Utula da Tribo do Machado Negro!
Sua resposta foi preenchida com uma energia que estava quase fora de lugar em meio aos arredores sombrios.
A mulher fera, no entanto, não ficou tão impressionada. Sua voz permaneceu afiada quando ela respondeu: — E o que traz alguém de nascimento nobre a um lugar tão miserável? Especialmente cheirando a sangue?
Caron sorriu com as reações contrastantes entre os dois. Ele se inclinou ligeiramente, sua voz caindo para um sussurro. — E se eu lhes dissesse... que estou oferecendo a vocês uma chance de vingança?
"O inimigo do meu inimigo é meu amigo", como diz o ditado. Caron estendeu a mão a esses novos potenciais aliados, pronto para fazer sua jogada.