
Capítulo 74
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 74
Na manhã seguinte, em frente ao portão norte de Reben...
— Tem certeza de que não quer pegar o trem? Se desejar, posso providenciar um particular para você agora mesmo — disse o Marquês Leandro, lançando um olhar para Caron com um sorriso generoso.
Caron acenou com a mão, descartando a oferta, e sorriu de volta, respondendo: — Faz quatro anos desde a última vez que saí. Gostaria de aproveitar a jornada com calma.
— Viajar de carruagem tem um charme especial. Você aprecia essas coisas desde jovem — comentou Leandro.
— Nunca gostei muito de trens, para ser honesto — disse Caron.
— É por causa do incidente no trem há quatro anos? — perguntou Leandro, demonstrando saber sobre o ocorrido.
Caron assentiu e respondeu: — Algo assim.
Leandro assentiu em compreensão, então gesticulou para seus homens esperando atrás da carruagem. Um cavaleiro de meia-idade em armadura de couro aproximou-se rapidamente e fez uma reverência assim que chegou, dizendo: — O senhor me chamou?
Leandro deu um tapinha nas costas dele e virou-se para Caron antes de dizer: — Este é Sir Owen. Ele o escoltará até Thebe. Também é o comandante da Ordem dos Cavaleiros de Reben. Você pode confiar plenamente nele, então, se precisar de algo, não hesite em perguntar.
A Ordem dos Cavaleiros de Reben era a guarda pessoal de Leandro. Se esse cavaleiro era o comandante, significava que ele era essencialmente o braço direito de Leandro. Com uma dívida de 500.000 de ouro em jogo, enviar um subordinado de confiança fazia todo o sentido.
Caron assentiu e estendeu a mão para Sir Owen, dizendo: — Estarei sob seus cuidados.
Sir Owen apertou a mão de Caron com as duas mãos e respondeu: — Servirei você com todo o meu coração e garantirei que nada dê errado.
Apesar de seu título como comandante, Sir Owen não parecia particularmente impressionante. No máximo, ele estava pairando no nível de 6 Estrelas. Comparado com a Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf ou a Guarda Imperial, ele era um tanto carente. Ainda assim, isso era de se esperar.
A Ordem dos Cavaleiros de Reben era uma força pequena, mal chegando a trinta cavaleiros. Não se comparava à Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf, que ostentava mais de trezentos membros. Afinal, o principal dever de Leandro em defender a fronteira era comandar o exército regular. No caso de uma batalha em grande escala que exigisse cavaleiros, era prática padrão receber reforços de territórios próximos. Além disso, o império desfrutou de um período pacífico recentemente, levando muitas famílias nobres a reduzir suas forças de cavaleiros.
Nesse contexto, trinta cavaleiros ainda é um número decente, pensou Caron. A questão, no entanto, era como o Marquês Leandro usava esses cavaleiros para encher seus próprios bolsos.
— Sir Owen e dez cavaleiros serão responsáveis por sua escolta — acrescentou Leandro.
Dez cavaleiros eram um terço de toda a ordem. Ficava claro o quão seriamente Leandro estava levando essa transação.
— Espero que isso não afete muito a segurança da fronteira por minha causa — comentou Caron.
— O reino do sul está ocupado se destruindo, então não há necessidade de se preocupar — disse Leandro com desdém.
Caron olhou para trás para Neria, que estava silenciosamente atrás dele. Seu olhar para Sir Owen estava cheio de ódio inconfundível.
Como se Sir Owen tivesse notado, ele sorriu e disse: — Até mesmo essa elfa será grata a mim no final. Quem mais neste mundo poderia se tornar um escravo da família Leston? Deve ser uma honra para ela.
— Ha! Essa é a verdade, não é, Jovem Mestre Caron? — interveio Leandro, rindo.
Caron não precisava perguntar para saber a verdade. Sir Owen foi quem capturou Neria. Mesmo assim, ele simplesmente sorriu e assentiu, escondendo seus verdadeiros sentimentos.
— Devemos ir se tudo estiver pronto? Eu preferiria andar na carruagem sozinho com a elfa... — comentou Caron casualmente.
Leandro estreitou os olhos, sorrindo ao dizer: — Ah, vejo que esse é o seu gosto. Muito bem. Sir Owen, vamos conceder ao Jovem Mestre Caron o seu desejo.
— Já providenciei para que todos os outros andem a cavalo — respondeu Owen, aparentemente mal interpretando as intenções de Caron.
Caron não se preocupou em corrigir o mal-entendido. Não havia necessidade. Com os preparativos concluídos, ele embarcou na carruagem com Neria.
— Eu pegarei outra elfa para você em breve, então volte a visitar — disse o Marquês Leandro com um sorriso malicioso.
— ...Estarei ansioso por isso — respondeu Caron friamente.
— Boa viagem, então — disse o Marquês Leandro.
O cavalo começou a puxar a carruagem, e Caron fechou a janela com um sorriso no rosto.
— Caipiras, só servem para dirigir carruagens — murmurou Caron para si mesmo, pensando nos automóveis em que havia andado no Castelo Azureocean. Ainda assim, as almofadas da carruagem eram surpreendentemente confortáveis.
Acomodando-se no assento macio, ele se virou para Neria e disse: — Na minha casa, temos algo chamado automóvel. Um dia, se eu tiver a chance, deixarei você andar nele. É muito mais rápido do que isso. Você já andou em um?
Neria balançou a cabeça levemente e respondeu: — ...Não, eu não andei.
— Elfos são ótimos em magia, mas eu me pergunto por que vocês não fazem coisas assim. Uma vez que você experimente, sentirá falta quando estiver de volta na Grande Floresta. — Caron lançou uma piada alegre para aliviar a tensão, esperando melhorar o humor dela.
Gradualmente, a hostilidade que havia obscurecido o rosto de Neria desde que encontrou Sir Owen começou a se dissipar.
— Pegar o trem teria sido mais rápido e mais confortável, mas não era isso que eu queria — ponderou Caron, estalando um amendoim da bandeja ao lado dele e colocando-o na boca. Ele então continuou: — Aquele cavaleiro, Sir Owen. Ele é quem capturou você, não é?
Neria cerrou os punhos com força, seus olhos castanhos tremeluzindo com uma raiva mal contida enquanto ela respondia: — Sim, ele foi quem fez isso.
— Tudo bem, era tudo o que eu precisava saber. Agora, tente descansar um pouco. Você não dormiu ontem à noite, não é? — perguntou Caron, notando as olheiras sob seus olhos.
Durante a noite anterior, eles haviam dormido em camas separadas. Mesmo assim, Caron não tinha visto Neria dormir, nem quando ele foi para a cama nem quando ele acordou. Ela estava sofrendo de insônia profunda, sem dúvida. Isso o fez imaginar o quão torturante esta cidade tinha sido para ela.
— Neria — chamou Caron suavemente.
Neria hesitou por um momento, então olhou para ele e respondeu: — Sim, Jovem Mestre Caron?
— Durma um pouco. Vai demorar um pouco para chegar a Thebe. Mesmo de trem, levaria meio dia, mas de carruagem, vai demorar mais. Não há nada que você possa fazer agora, de qualquer forma — disse Caron, expondo a realidade para ela calmamente. Neria abaixou a cabeça silenciosamente em reconhecimento.
— Eu não planejo deixar aqueles bastardos viverem, então, se você quiser me ajudar mais tarde, descanse enquanto pode — disse Caron de repente com calma.
Os olhos de Neria se arregalaram em choque enquanto ela olhava para ele e perguntava: — Você vai matar todos eles?
— É por isso que estamos viajando de carruagem. Se pegássemos o trem, não haveria nenhuma oportunidade para isso. Eu não te disse? Estou planejando uma rebelião. Para que funcione, temos que eliminar sua força central. E mais importante... — Caron continuou enquanto sua mão roçava brevemente o punho de Guillotine.
— Eles merecem morrer — acrescentou ele, sua voz fria como gelo.
Whoosh.
Um zumbido baixo ressoou de Guillotine, como se respondesse à intenção assassina de Caron.
Na cidade subterrânea de Caligo, localizada abaixo de Thebe, Foina estava sentada em seu escritório lendo um relatório enviado por Caron.
'Resgate da elfa concluído. Atualmente a caminho de Thebe de carruagem. Sugiro encontro no ponto médio entre Thebe e Reben. Planejando lidar com os cavaleiros do marquês perto da Floresta Tirisfal.'
O relatório detalhava o sucesso da missão de Caron para resgatar a elfa, assim como ela havia solicitado. Na realidade, era menos um relatório formal e mais uma transcrição do que Caron havia explicado através de um orbe de comunicação.
Enquanto Foina lia até o final, uma risada incrédula escapou de seus lábios. Ela murmurou: — ...A loucura dele está em um nível totalmente novo agora.
A parte mais ultrajante do relatório foi o último pedido que Caron havia feito.
'Solicito que o Reino de Zion mova suas tropas para a área de fronteira compartilhada com Reben. As forças de Caligo sozinhas não serão suficientes, então transmita minha intenção para meu pai. Se este pedido for negado, envie-me uma resposta imediata.'
Foina se perguntou o que Caron estava pensando.
Julio, que estava trabalhando em frente a ela, perguntou: — Foina, no que você está tão absorta?
— Julio, dê uma olhada nisso — disse Foina, entregando o relatório contendo a mensagem de Caron.
— É um relatório do Jovem Mestre Caron? — respondeu Julio.
— Apenas leia — insistiu Foina.
Com seu incentivo, Julio ficou em silêncio e rapidamente examinou o documento. Um momento depois, após compreender a parte problemática, ele perguntou gravemente: — ...Ele quer mover as tropas do Reino de Zion?
— É loucura, não é? Isso está além do nosso alcance. Estamos falando de diplomacia internacional aqui. No momento em que as forças de Zion se aproximarem da fronteira imperial, estaremos à beira da guerra — disse Foina.
Era essencialmente um convite para uma provocação militar. Ela teve que se perguntar se isso era mesmo um plano nascido de uma mente sã. Ela não conseguia entender o que Caron estava tentando alcançar.
— ...Ele não está sugerindo guerra, está? — Foina acabou acrescentando cautelosamente.
— ...Não, uma provocação militar por si só não deveria levar à guerra. No máximo, ambos os lados moveriam suas forças para a fronteira como uma demonstração de força — especulou Julio.
— Verdade. O Reino de Zion não seria tolo o suficiente para travar guerra com o império, especialmente não quando já estão em guerra com o Reino de Keath — concordou Foina.
— Eu ouvi dizer que os dois reinos assinaram uma trégua de seis meses — comentou Julio.
— ...O Ducado de Leston tem uma maneira de negociar com o Reino de Zion? — perguntou Foina.
— Sim, deveria ser possível. O Ducado de Leston tem mantido boas relações com as nações vizinhas — respondeu Julio confiantemente.
As conquistas significativas que a Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf obteve enquanto viajavam pelo continente renderam à família Leston uma reputação respeitada. Apesar de estar dentro do império, muitas nações tratavam o Ducado de Leston separadamente do próprio império.
— Então, é possível fazer este pedido, então? — Foina esclareceu.
— Se houver incentivo suficiente, é possível que eles movam suas forças — respondeu Julio pensativamente.
— Mas por que ir tão longe...? — Foina começou, mas então parou quando uma súbita percepção a atingiu. Uma possibilidade brilhou em sua mente.
Separar os cavaleiros e lidar com eles. Então provocar um impasse entre as forças de Zion e as tropas de elite de Reben, pensou ela.
Se houvesse um impasse na fronteira, o Marquês Leandro seria forçado a mobilizar suas tropas para a linha de frente. A disparidade entre as forças do império e as de Zion tornaria isso inevitável. Afinal, a diferença na força militar entre o império e o Reino de Zion era inegável.
Em tal cenário, era difícil imaginar que o Marquês Leandro escolheria lutar enquanto deixava Reben vulnerável. Mas se as coisas se desenrolassem dessa forma...
...Reben ficará desprotegida, pensou Foina.
A cidade estaria completamente vazia. Enquanto os pensamentos de Foina corriam, ela finalmente juntou o verdadeiro plano de Caron.
— Ele é verdadeiramente insano — disse Foina suavemente.
Seu comentário sussurrado foi tão abrupto que Julio não pôde deixar de perguntar cautelosamente: — A quem você está se referindo?
— Quem mais poderia ser? O jovem mestre, é claro. — Foina balançou a cabeça, então disse mais seriamente: — Julio, me conecte com Fayle Leston imediatamente.
— Tudo bem — disse Julio, então rapidamente ajustou o orbe de comunicação e entregou para Foina.
Whoosh.
Após um breve zumbido de ressonância, uma voz profunda e digna veio do outro lado.
— Foina, faz um tempo que não ouço de você. Espero que você esteja bem? — Fayle perguntou em saudação. Seu tom era educado, um contraste gritante com seu filho rebelde.
Limpando a garganta, Foina respondeu suavemente: — Faz um tempo, Lorde. Acredito que lhe disse da última vez que você não precisava ser tão formal.
— Ha ha... Dirigir-se a alguém com sua experiência tão casualmente seria impensável — disse Fayle.
— Ah, agora você está apenas me fazendo sentir velha.
— Essa não era minha intenção, eu lhe garanto.
Com as cortesias trocadas, Foina rapidamente mudou a conversa para assuntos mais urgentes. — Estou contatando você por causa de um pedido de seu filho, Caron.
Houve uma mudança perceptível no tom de Fayle do outro lado quando ele respondeu: — ...Por favor, continue. Estou ouvindo.
— Caron solicitou que Zion movesse suas forças.
— O Reino de Zion? De repente?
Eliminar os cavaleiros, atrair as forças estacionadas para fora da cidade... Quando juntas, havia apenas uma conclusão.
— Parece que Caron está planejando encenar uma rebelião contra o lorde de Reben.
Foina soltou um suspiro pesado ao terminar de explicar sua teoria para Fayle. Houve uma pausa antes que Fayle falasse novamente, sua voz grave.
— ...Eu acho que alguma explicação adicional é necessária, Foina. O que exatamente Caron está tramando? — perguntou Fayle.
— O que mais...? — Foina pausou.
Provavelmente um ato de loucura total, pensou ela. No entanto, ela conteve essas últimas palavras, sabendo que elas não ajudariam a situação.