O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 73

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 73. Quem mandou você confiar em mim?

Assim que ouviu as palavras de Caron, Noor saiu apressado da sala de recepção com uma expressão sombria. Agora, apenas Caron, Cobler e a elfa permaneceram na sala.

— V-Você é mesmo aquele Caron Leston da família ducal...? — Cobler gaguejou, lançando olhares nervosos para Caron.

Caron, visivelmente desinteressado na conversa, assentiu e perguntou: — Você sabe quem eu sou?

— Quem no império não reconheceria seu nome, Jovem Mestre? — Cobler exclamou, soando exageradamente ansioso.

Ignorando o alvoroço de Cobler, Caron voltou sua atenção para a elfa à sua frente. Ele se perguntou se era apenas sua imaginação, mas não conseguia encontrar hostilidade em seu olhar.

— Devo remover isso? — Caron perguntou, gesticulando para a mordaça que prendia sua boca. A elfa hesitou por um momento, depois assentiu lentamente.

Mas Cobler acenou freneticamente com as mãos, tentando impedi-lo enquanto dizia: — N-Não! Não deve, Jovem Mestre! E se ela tentar tirar a própria vida?

Shing!

Num instante, Guillotine foi sacada de sua bainha. No momento em que Cobler viu o brilho azul sinistro, ele entrou em pânico e fugiu para o canto da sala de recepção.

— Preciso cortar a fechadura da mordaça. Tudo bem, certo? Não se preocupe, contanto que você fique parada, ficará tudo bem — Caron garantiu à elfa.

A elfa assentiu novamente e, com um movimento preciso de sua espada, Caron cortou habilmente a fechadura da mordaça. Aproximando-se, ele removeu gentilmente a restrição de sua boca, revelando seus lábios ensanguentados e rasgados. Ficou claro o quanto ela havia lutado, possivelmente até tentando morder a própria língua em desespero.

De dentro de seu casaco, Caron tirou um pequeno frasco e o destampou antes de despejar cuidadosamente o líquido em sua boca. A elfa engoliu o conteúdo silenciosamente e, logo depois, as feridas ao redor de seus lábios começaram a cicatrizar.

— Obrigada... — ela sussurrou, sua voz suave, mas firme.

— Então você é uma elfa que fala a língua humana — Caron comentou com um aceno de cabeça. Então ele destruiu as restrições restantes que prendiam seus membros frágeis, notando o quão desnutrida ela parecia.

Depois de libertá-la, Caron afundou em um sofá próximo e comentou: — Fico feliz em ver que você está mais calma do que eu esperava. Honestamente, eu estava preocupado que você mordesse sua língua no momento em que eu removesse a mordaça.

— ...Eu senti vestígios da minha própria espécie em você... e também... a presença da mãe — a elfa respondeu, sua voz baixa, mas sincera.

— A presença da mãe? Ah, você quer dizer o orvalho da Árvore do Mundo — disse Caron.

Ele sabia que a elfa estava se referindo ao orvalho da Árvore do Mundo que Revelio o havia forçado a consumir quatro anos antes no palácio imperial. Parecia que Foina havia lançado algum tipo de magia sobre ele, permitindo que a elfa sentisse seu parentesco.

— Você está certa. Fui enviado por seus parentes para resgatá-la daqui. Meu nome é Caron Leston. E o seu? — Caron perguntou.

A elfa hesitou, então respondeu cautelosamente: — Neria.

— Neria... Entendi. Bem, Neria, estou tirando você daqui, então não precisa mais se preocupar — Caron garantiu à elfa.

Graças à poção potente, a recuperação da elfa foi rápida. Caron a estudou brevemente, então começou a fazer perguntas. — Então, como você foi capturada?

— Fui emboscada enquanto subjugava monstros perto da floresta do sul — Neria respondeu.

— Fora da floresta? — Caron perguntou.

— ...Sim. Recebemos ordens para destruir seu covil. Os monstros estão invadindo a Grande Floresta com mais e mais frequência — Neria respondeu.

Os elfos raramente se aventuravam além da Grande Floresta. O fato de terem feito tal escolha sugeria que a ameaça dos monstros devia ser bastante grave.

Caron continuou seu interrogatório. — E os outros elfos capturados com você?

— Fui capturada quando me separei dos outros... Ah, e havia cavaleiros entre os caçadores — Neria acrescentou.

— Cavaleiros, você diz? Essa é uma informação valiosa — disse Caron.

Ele se perguntou se cavaleiros haviam sido mobilizados, especialmente de outro país. Os reinos do sul em guerra provavelmente não tinham recursos para tais operações, o que significava que eles provavelmente estavam sob o comando do Marquês Leandro.

— Você se lembra de seus rostos? — Caron perguntou.

— Não me lembro de seus rostos, mas me lembro de sua mana — Neria respondeu.

— Isso é bom o suficiente — disse Caron.

Os elfos eram naturalmente sintonizados com a mana, tendo nascido sob a Árvore do Mundo, a fonte da mana mais pura do mundo. Embora não fossem conhecidos por sua esgrima, eles se destacavam no arco e flecha, magia espiritual e outras artes místicas. Como tal, sua capacidade de identificar energia mágica era incomparável. Se Neria conseguisse se lembrar da mana dos cavaleiros, rastreá-los não seria difícil.

Caron assentiu em satisfação e gesticulou para Cobler, que ainda estava encolhido no canto. Ele gritou: — Cobler.

A contragosto, Cobler se aproximou e respondeu: — M-Mandou, Jovem Mestre Caron?

— Vamos trabalhar em algo juntos. Já que você veio até aqui comigo, se eu causar problemas, você é cúmplice de qualquer maneira — disse Caron.

— C-Como você chegou a essa conclusão?! — Cobler exclamou surpreso.

— Bem, eu tenho a proteção da minha família para recorrer, mas você não tem, certo? Então, em vez de ter sua cabeça cortada pelo marquês, por que não se juntar a mim? — Caron sugeriu.

— ...Não seria mais fácil se você simplesmente não causasse problemas e fosse embora pacificamente? — A voz de Cobler mal se elevou acima de um sussurro.

— Você não disse que faria qualquer coisa por dinheiro? Honestamente, quanto tempo mais você vai viver assim? Esta pode ser sua última chance de mudar de profissão — disse Caron.

— Não é só pelo dinheiro... Quer dizer, não posso gastá-lo se estiver morto — Cobler murmurou nervosamente.

— O que acha de cem mil ouros? — Caron ofereceu.

— ...Eu o servirei com todo o meu coração. Como posso ajudá-lo? — A atitude de Cobler mudou instantaneamente, seus olhos se iluminando com a quantia estonteante.

Para um humilde comerciante de escravos como Cobler, cem mil ouros era uma oferta que ele não podia recusar. Com Cobler agora ao seu lado, Caron baixou a voz e disse: — Vou começar uma rebelião aqui.

— ...Desculpe, pode repetir? Acho que devo ter entendido mal. Tenho me sentido um pouco estranho ultimamente — disse Cobler.

— Eu disse uma rebelião — Caron confirmou.

— ...Você está planejando derrubar o mercado de escravos por algum senso de justiça? — Cobler perguntou.

— Não, eu só quero começar uma rebelião — Caron respondeu.

— Mas por que, de repente...? — Cobler perguntou.

— O que você quer dizer com por quê? — O sorriso de Caron se alargou enquanto ele batia a lâmina de sua espada contra seu pescoço. — Porque ver aqueles que vendem escravos vivendo tão confortavelmente me dá nojo. Você conhece o ditado: se seu primo compra terras, você sente inveja. Como você acha que me sinto vendo esse absurdo?

Ele pretendia virar a cidade de cabeça para baixo. Não era uma busca nobre por justiça. Era apenas uma questão de vingança pessoal, nascida das emoções sombrias e purulentas deixadas para trás de sua vida anterior como escravo.

Essa escória não merece uma morte fácil, pensou Caron.

Após quatro anos de liberdade condicional no Castelo Azureocean, o primeiro ato de Caron, o Cão Louco, foi a rebelião.


Depois de um tempo, um homem de meia-idade entrou na sala de recepção e disse: — Peço desculpas por fazê-lo esperar.

Ele estava vestido com um terno perfeitamente talhado e entrou com um ar de confiança. Suas roupas bem ajustadas destacavam seu físico musculoso, não deixando dúvidas de que seu corpo era aprimorado para o combate. Como esperado do Marquês Leandro, um senhor da fronteira, sua aparência era a de um guerreiro endurecido pela batalha.

Ele tinha quase 190 centímetros de altura, sua constituição imponente exalava uma autoridade natural. Simplesmente estar em sua presença podia fazer com que alguém se sentisse oprimido pela pura força de sua personalidade.

Caron se levantou e estendeu a mão em um aperto de mão, dizendo: — Eu sou Caron Leston, Marquês Leandro.

— Eu não tinha ideia de que alguém de sua estatura nos visitaria aqui. Se eu soubesse que você estava vindo para Reben, eu o teria recebido na mansão — disse o Marquês Leandro, sorrindo preguiçosamente enquanto apertava a mão de Caron. Seu olhar então se voltou para a elfa parada silenciosamente atrás de Caron. Ele perguntou com um toque de diversão: — Como é ser o centro das atenções hoje, Sr. Caron?

— Não é ruim — Caron respondeu calmamente.

— Haha! Quem diria que o Cão Louco do Castelo Azureocean tinha gostos tão refinados? Se eu soubesse, teria preparado um tipo diferente de presente para você. — A gargalhada estrondosa de Leandro encheu a sala enquanto ele se sentava no sofá.

— Hmm, a elfa parece muito mais dócil do que eu esperava. Se ao menos ela tivesse sido assim desde o início. Você tem uma técnica secreta? Eu poderia usar algumas dicas da próxima vez que capturar uma — ele então perguntou.

— Sério? Ela estava calma desde o início — Caron respondeu.

— Ah, os elfos devem gostar muito das aparências então, hein? — Leandro riu sugestivamente, sem fazer nenhum esforço para esconder sua propriedade do leilão de escravos. Parecia que ele não via mais necessidade de esconder nada entre eles.

Ele se serviu preguiçosamente de um copo de licor e ofereceu um pouco a Caron também, perguntando: — Quer uma bebida?

— Já bebi bastante enquanto esperava por você. Ah, a propósito, tudo o que eu comi hoje é por conta da casa, certo? Gastei 500.000 ouros hoje e agora estou falido — Caron respondeu com um sorriso.

Leandro soltou outra gargalhada sincera, bebendo seu copo de uma vez antes de acenar lentamente com a cabeça, então disse: — Considerando que estaremos compartilhando segredos a partir de agora, não me importo. Beba o quanto quiser. Ouvi de Noor que você está planejando liquidar o pagamento mais tarde.

— Não posso pagar agora. Você sabe por quê, não sabe? — Caron respondeu.

— Ouvi boatos sobre sua excepcional habilidade com a espada, mas não percebi que você já estava construindo um fundo secreto — comentou Leandro, seu tom carregando um toque de zombaria. Ele limpou o licor de seus lábios com uma mão descuidada, rindo alto antes de continuar: — Mas mesmo assim, eu vou precisar de alguma garantia, não é?

Caron casualmente cruzou as pernas e riu, então perguntou: — A garantia é realmente necessária? Essa situação em si é garantia.

— Vá em frente, explique-me como essa situação serve como garantia — disse Leandro, intrigado.

— O neto mais novo do Duque Halo cobiçando uma elfa no mercado de escravos... Essa é uma alavanca bastante valiosa que você tem aí. Pedir mais garantia por cima disso dói um pouco. Você sabe que meu nome tem algum peso, não sabe? — Caron explicou.

— Haha! Você não está em seu juízo perfeito, está? Você está oferecendo a honra de sua família como garantia? — Leandro perguntou.

— Não apenas a honra de qualquer família. É a honra da Família Ducal de Leston — Caron esclareceu.

— Nada mal! Isso vale muito mais do que apenas 500.000 ouros! Este é um grande negócio! — Leandro riu alegremente, seus olhos fixos em Caron com diversão.

Que canalha podre de cima a baixo, pensou Leandro.

O jovem gênio que havia desaparecido por quatro anos reapareceu. As ações que este jovem havia tomado quatro anos antes foram chocantes o suficiente para aumentar as expectativas de que ele poderia um dia liderar o império. Mesmo como um cavaleiro de 6 estrelas, Leandro achou difícil avaliar a extensão das habilidades de Caron. Considerando que o jovem tinha acabado de completar dezessete anos, era difícil acreditar que ele havia alcançado tais feitos.

Ele já ultrapassou 6 estrelas? Leandro ponderou.

Um jovem de dezessete anos atingir o nível de 6 estrelas era inédito. O talento de Caron era nada menos que extraordinário. E ainda assim, apesar de todo esse brilho, parecia que ele também abrigava uma falha fatal.

Não faz sentido para um garoto da idade dele ter acumulado um fundo secreto de meio milhão de ouros, pensou Leandro.

O pai de Caron, Fayle Leston, era o homem que administrava o vasto império comercial da família Leston. Parecia claro agora que Caron estava desviando a riqueza de seu pai para construir sua fortuna oculta. Embora fosse apontado como o futuro da família Leston, era evidente que ele era um tumor purulento, drenando a família por dentro.

O Duque Salmon vai adorar saber disso, pensou Leandro, com um sorriso se formando em seu rosto. Se um boato de que o suposto futuro da família Leston, Caron Leston, era secretamente obcecado por colecionar escravos se espalhasse, a influência da família Leston certamente despencaria.

Leandro suprimiu sua diversão e perguntou: — Você não tem medo de sua família, Sr. Caron? Você parece ser um homem sem medo. O que você fará se eu relatar isso ao Duque Halo?

Caron riu e ofereceu: — Por que não mantemos os segredos um do outro então?

— Segredos? — Leandro repetiu.

— Em troca de você ficar quieto sobre eu comprar uma escrava aqui, eu ficarei quieto sobre o fato de que você está administrando este mercado de escravos. Eu fico com a elfa e você fica com seu dinheiro. Eu diria que é um acordo mutuamente benéfico, não diria? — Caron explicou.

Ele se aproximou de Leandro, então despejou licor no copo vazio à sua frente. Ele ergueu seu próprio copo em direção ao marquês com um sorriso suave em seu rosto, então disse: — É isso que eles chamam de um bom negócio. Então, estamos concordando em liquidar o pagamento mais tarde, certo?

Leandro fingiu deliberar por um momento, mas não demorou muito até que ele erguesse seu copo e o tilintasse contra o de Caron.

Clink.

— Já que esta é nossa primeira transação, eu vou lhe conceder este favor. Mas apenas desta vez. Entendido? — Leandro perguntou.

— Eu aprecio sua generosidade, Marquês Leandro — disse Caron.

— Já que você disse que iria para Thebe, eu enviarei alguns de meus homens para escoltá-lo. Ninguém ousará cruzar seu caminho — ofereceu Leandro.

— Parece mais que você está enviando cobradores de dívidas, não guarda-costas — Caron gracejou.

— Como você sabe, a área ao redor de Reben se tornou bastante perigosa. Certamente você não recusará tal oferta? — Leandro perguntou.

— Claro que não — Caron respondeu, rindo enquanto bebia sua bebida.

A ilusão de controle sempre leva à complacência. E a complacência gera desastre.

Bastardo tolo, pensou Caron.

As rachaduras nesta fortaleza de cidade começariam a se formar com essa mesma complacência.

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