
Capítulo 81
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 81
Noor não conseguia entender a reviravolta repentina dos acontecimentos. Ele se perguntava por que Caron, que deveria estar a caminho de Thebe com os cavaleiros, estava na frente dele.
Por quê? Como? Noor pensou, mas nenhuma razão lhe ocorreu. Sua mente lutava para dar sentido à situação, mas Caron não lhe deu tempo para pensar.
Crack!
— Arrrgh! — Noor gritou quando outra onda de dor o atingiu. Caron havia pisado em seu pé direito com força brutal.
Enquanto Caron agarrava a cabeça de Noor com a mão direita, ele se inclinou e exigiu: — Onde está o livro-razão?
— L-Livro-razão? P-Por que você está procurando...? — Noor gaguejou.
Crack!
Desta vez, Caron esmagou o pé esquerdo de Noor, o que o fez soltar um grito abafado. — Urk—!
Incapaz de suportar a dor avassaladora, Noor quase desmaiou. Ele até desejou a inconsciência. Mas Revelio, que estava parado atrás dele, acenou com a varinha no momento perfeito e lançou um feitiço.
— Desperte — Revelio ordenou, sua voz calma enquanto a magia se firmava.
O feitiço era praticamente uma maldição. Ele arrastou Noor à força de volta à consciência, o que o manteve preso em seu próprio inferno pessoal. Ofegante por causa da agonia insuportável que percorria seu corpo, Noor soluçou e disse: — O cofre... Está no cofre. Eu... Eu vou pegar para você.
— Vá pegá-lo — Caron ordenou enquanto soltava sua mão.
— S-Sim, sim! — Noor respondeu enquanto acenava freneticamente. Ele rastejou no chão como um animal espancado. Ele alcançou o cofre, que estava escondido embaixo da escrivaninha, e pressionou sua mão trêmula contra sua superfície.
Whirr...
O cofre respondeu à palma de Noor, destravando com um leve zumbido. Quando a porta se abriu rangendo, o conteúdo ficou à vista. Havia pedras de mana, objetos de valor, barras de ouro e, finalmente, um livro grosso que se destacava do resto.
A mão trêmula de Noor agarrou o livro. Ele não tinha ideia de por que Caron e Revelio o queriam, mas uma coisa estava clara em sua mente. Ele sabia que se não o entregasse, ele iria morrer.
Por um breve momento, sua mente afiada cortou a névoa de dor, juntando as peças da situação.
Então, Caron Leston orquestrou tudo isso pelo livro-razão...
Noor pensou. Embora não pudesse entender a razão, a clareza se instalou nele em meio à dor....Devo cooperar com eles, não importa o que aconteça, Noor tomou sua decisão.
Claro, talvez o Marquês Leandro retornasse e mudasse as coisas, mas essa era uma tênue esperança — uma esperança distante demais para se confiar agora.
Caron Leston estava diante de Noor, irradiando uma aura letal que causou arrepios na espinha deste último. O perigo era imediato, e Noor sabia exatamente qual escolha ele tinha que fazer entre seu chefe distante e a ameaça que estava diante dele.
— E-Está aqui... Está aqui. Esta é a lista de transações dos últimos quatro anos. Fazemos cópias do livro-razão a cada três meses... e entregamos ao Marquês Leandro — Noor respondeu.
— Você está cooperando bem. Esta é a cópia original? — Caron perguntou.
— Sim, é. Por favor... Por favor, me dê algum alívio para a dor — Noor implorou.
Caron soltou uma pequena risada com o pedido e perguntou: — Dói muito?
— Por favor! Eu farei o que você pedir, só... Por favor! — Noor implorou, sua voz cheia de desespero.
O nível de submissão no tom de Noor beirava o patético. Caron olhou para Revelio e perguntou: — Acha que pode lançar um pouco de alívio para a dor?
Revelio suspirou pesadamente e disse: — Quem estiver nos observando pensaria que sou seu assistente pessoal.
Com um aceno de sua varinha, Revelio lançou o feitiço; a dor que havia distorcido o rosto de Noor diminuiu temporariamente, trazendo-lhe um breve momento de paz.
Caron então falou com Noor, que havia recuperado um pouco da compostura. — Você quer viver, não quer?
— Farei o que você pedir... O que você mandar, Jovem Mestre, eu farei — Noor respondeu com uma voz trêmula.
Caron nunca teve a intenção de persuadir Noor a se tornar um informante, porque ele não achava que valia a pena tentar raciocinar com essa pessoa semelhante a lixo. Ele sabia que se alguém infligisse a essas pessoas mais dor do que elas podiam suportar, elas abririam a boca de boa vontade. Essa era a filosofia de Caron — tratar o lixo da maneira que o lixo merecia ser tratado.
— Quero que você testemunhe sobre os crimes do Marquês Leandro — Caron ordenou.
— Você quer dizer o comércio de escravos...? — Noor começou.
— O Marquês Leandro usou o comércio de escravos para acumular fundos militares e planejou uma rebelião. É isso que você vai testemunhar — Caron explicou.
— U-Uma rebelião? — Noor gaguejou.
Ele esperava que Caron o forçasse a expor o comércio de escravos. Mas a menção de rebelião estava além de qualquer coisa que ele tivesse imaginado. Era uma acusação colossal. Caron estava exigindo que Noor testemunhasse contra o Marquês Leandro pelo crime de traição.
Quando Noor mostrou sinais de hesitação, tentando evitar dar uma resposta direta devido à enorme escala da acusação, Revelio estalou os dedos casualmente.
— Arrrgh! — Noor gritou quando a dor, que havia sido momentaneamente atenuada, voltou a invadir seu corpo ainda mais forte do que antes. A agonia insuportável o forçou a acenar freneticamente e gritar: — Eu farei isso! Eu vou testemunhar!
— Se você seguir minhas instruções à risca, o único crime pelo qual você será responsabilizado é o comércio de escravos. Sua desculpa será que, quando o Marquês Leandro planejou a rebelião, você agiu por lealdade ao império e o denunciou. Essa é sua motivação para testemunhar. Entendeu? — O tom de Caron era frio e direto.
— Sim, sim. Eu entendo — Noor respondeu. Não havia um pingo de lealdade ao chefe a quem ele servira por tanto tempo. Ele não tinha nada além de um desejo patético de sobreviver.
Caron zombou de Noor, sacudindo as mãos como se estivesse se livrando da poeira, então se virou para Revelio e disse: — Você cuida do resto. Eu já fiz o trabalho sujo, não é? Estou indo lidar com os traficantes de escravos agora. Você pode cuidar dessa parte para mim, certo?
Revelio se levantou lentamente, acenando com a cabeça enquanto respondia: — Então eu posso fazer o que eu quiser a partir de agora?
— Contanto que você não me atrapalhe — Caron respondeu.
— Tudo bem, eu vou cuidar disso. Não se preocupe com isso e vá em frente — Revelio disse.
Caron, ainda não convencido, mas com pressa, lançou-lhe um olhar duvidoso antes de sair da sala de recepção.
Agora, apenas Revelio, Sir Mason e Noor permaneceram na sala. Com Caron fora, Revelio se virou para Noor com um sorriso brincalhão.
— Eu concordei em cuidar do resto, então acho que devo fazer isso corretamente, certo? Você pode não saber disso, mas aquele cara é um verdadeiro chato se você não fizer as coisas exatamente do jeito que ele quer — Revelio disse, seus olhos brilhando maliciosamente. Seu olhar se intensificou quando ele perguntou: — Quanto poder você tem nesta cidade? Pelo que eu vi, você é praticamente a sombra do Marquês Leandro, então estou supondo que você tem alguma autoridade.
— ...Eu posso agir em nome do Marquês Leandro quando ele está ausente — Noor respondeu, hesitante.
— Nada mal, considerando que você é apenas um traficante de escravos nojento. Tudo bem, então você poderia reunir os cidadãos na praça? — Revelio perguntou.
— Com a lei marcial em vigor, suponho que seja possível — Noor respondeu.
— Bom saber — Revelio disse. Ele então engoliu seu chá de uma vez e limpou a boca com um lenço. Então, em uma voz baixa e imponente, ele continuou: — Diga a eles que o Sexto Príncipe tem uma mensagem para o povo de Reben. Anuncie e reúna todos na praça.
O show de fogos de artifício precisava ser grandioso. Tinha que ser alto o suficiente para acordar toda a cidade. O sorriso de Revelio se alargou enquanto ele observava Noor.
— Como esperado, é mais divertido estar fora do palácio — ele murmurou para si mesmo, pensando que o caos desta cidade era muito mais divertido do que o palácio real sufocante.
Depois de deixar a casa de leilões, Caron foi direto para a Agência de Mão de Obra de Cobler. O prédio parecia ser apenas uma taberna comum por fora, mas por dentro, servia como fachada para algo muito mais sinistro.
A porta rangeu quando Caron a abriu. No momento em que ele entrou, vários homens de aparência rude lhe lançaram um olhar penetrante. Mas a tensão não durou muito. Assim que reconheceram Caron, todos se levantaram e se curvaram profundamente.
— Bem-vindo, Jovem Mestre! — um dos homens gritou.
— Bom ver você, Jovem Mestre! — outro acrescentou.
Suas saudações eram altas e respeitosas, como se o líder de um sindicato do crime tivesse acabado de entrar na sala. Um momento depois, um homem particularmente feio correu para frente, abrindo caminho entre os outros.
— Ah, Jovem Mestre Caron! Você está aqui! Toda a Agência de Mão de Obra de Cobler está pronta. Apenas dê a ordem, e nós nos moveremos imediatamente! — Cobler disse enquanto esfregava as mãos ansiosamente.
— O que é essa roupa ridícula? — Caron franziu a testa enquanto olhava para a armadura oversized que Cobler estava vestindo. Era desnecessariamente grossa e parecia mal feita; provavelmente era desconfortável também, já que o suor escorria da testa de Cobler. Mas Cobler simplesmente sorriu, imperturbável. Seus dentes amarelos brilhavam de uma forma que fazia Caron se sentir enojado.
— Bem, você sabe, a vida é preciosa, certo? Estamos todos apenas tentando sobreviver aqui. Eu pensei que se eu vou morrer, é melhor que não seja por ser apunhalado pelas costas, então eu usei isso. Eu consegui isso de um amigo meu, um ferreiro em Reben — Cobler disse orgulhosamente, enxugando o suor de seu rosto.
— Você é próximo desse seu amigo? — Caron perguntou.
— Sim, claro! — Cobler respondeu.
— Acabe com essa amizade agora mesmo. Você vai se matar usando essa coisa — Caron disse friamente.
— O quê? Mas esta armadura é grossa— Cobler começou, mas antes que pudesse terminar, Caron sacou sua espada, Guilhotina, e a brandiu em um movimento rápido. A armadura grossa da qual Cobler tanto se orgulhava foi cortada ao meio, como uma faca na manteiga.
O rosto de Cobler ficou terrivelmente pálido quando ele soltou um grito aterrorizado, exclamando: — C-Como...?!
— Apenas use algo simples, como a armadura de couro que seus lacaios têm. Você nem vai lutar na linha de frente, vai? — Caron comentou com desdém.
— S-Sim, claro. Você está certo, como sempre! Jovem Mestre Caron Leston! Sua esgrima é tão incrível quanto dizem. Verdadeiramente incrível! — Cobler disse, desfazendo-se em elogios a Caron de uma maneira dolorosamente exagerada.
Caron lhe lançou um olhar de desprezo antes de olhar ao redor da sala, claramente não impressionado com o que viu. A taberna apertada estava cheia de pessoas, tanto que até as escadas que levavam ao segundo andar estavam lotadas.
— ...Parece haver mais pessoas do que antes — Caron comentou, seus olhos afiados examinando a multidão.
Cobler, ansioso para responder, acenou com a cabeça entusiasticamente e disse: — Sim, senhor! Em resposta à sua nobre causa para libertar os escravos, alguns dos merca—uh, quero dizer, camaradas se juntaram a nós! Eu selecionei aqueles que receberam treinamento militar entre os que estão esperando em nossa agência de mão de obra para participar desta grande empreitada.
— Quantos são? — Caron perguntou sem rodeios.
— Temos trinta e cinco funcionários em tempo integral da agência de mão de obra, mais quinze merca—uh, camaradas que são associados a nós. Então isso dá cinquenta no total — Cobler respondeu com orgulho.
Era fácil dizer quem havia se voluntariado para esta missão. Ao contrário dos funcionários da agência, que usavam armaduras de couro esfarrapadas, alguns entre o grupo tinham equipamentos de qualidade muito superior. Cobler estufou o peito, claramente satisfeito consigo mesmo.
— Eu me certifiquei de equipá-los com o melhor equipamento que o dinheiro pode comprar. Afinal, não podemos deixar nossos merca—uh, camaradas danificados — Cobler disse, se corrigindo bem a tempo.
— Você gastou um bom dinheiro com isso. Bom trabalho — Caron disse de repente, pegando Cobler de surpresa.
Os olhos de Cobler se arregalaram; ele não conseguia acreditar que este lunático acabara de elogiá-lo. Depois de um momento, ele conseguiu um leve sorriso e acenou com a cabeça, então disse: — Eles são amigos aos quais me apeguei. Eu não poderia simplesmente deixá-los morrer, poderia?
— É porque escravos mortos não trazem dinheiro? — Caron perguntou com um sorriso conhecedor.
— Não é realmente sobre o dinheiro... É só... Eles estão todos esperando por uma segunda chance na vida. Eu não posso tirar isso deles — Cobler respondeu, seu tom suavizando.
Caron se perguntou se Cobler estava fingindo. Ele pensou por um momento, mas então balançou a cabeça lentamente porque sabia que Cobler não era inteligente o suficiente para fazer isso.
Com um pequeno suspiro, Caron deu um tapa nas costas de Cobler e disse: — Você pode faturar ao Ducado de Leston cada moeda que você gastou nesta operação. Eu vou garantir que você seja pago de volta com dez por cento extras adicionados em cima.
— Oh, meu Deus! Obrigado, Jovem Mestre! Eu farei tudo o que puder para tornar isso um sucesso! — Cobler disse enquanto seu rosto se iluminava, aliviado com a promessa de reembolso. Ele claramente gastou uma boa quantia de dinheiro armando seus homens.
Com sua voz visivelmente mais brilhante, ele perguntou a Caron cautelosamente: — Mesmo que a maioria das tropas do Marquês Leandro esteja fora, ele ainda tem um número significativo de soldados estacionados na cidade. Você acha que cinquenta homens serão suficientes?
Era uma pergunta justa, mas Caron respondeu simplesmente: — Mais do que suficiente.
— Se você diz, Jovem Mestre, então eu confio em você! Você deve ter um plano brilhante, certo? — Cobler perguntou.
— Não, não realmente — Caron disse, dando de ombros.
— ...Perdão? — Cobler não podia acreditar no que acabara de ouvir.
— Que plano você precisa para destruir coisas? Apenas entre, quebre tudo e espancar qualquer um que entrar no caminho. Nosso primeiro alvo é a prisão que o Marquês Leandro administra. Você sabe onde é, certo? — Caron disse.
— S-Sim... Eu sei — Cobler respondeu.
Ele se perguntou se realmente poderia colocar seu futuro nas mãos deste jovem mestre imprudente e louco, mas não havia como voltar atrás agora. Ele já havia se comprometido com este plano, e ele sabia que se não tivesse sucesso, a sobrevivência não era uma opção.
— Tudo bem então, vamos nos mover — Caron disse enquanto puxava seu capacete preto de volta. Então, com passos leves e confiantes, ele abriu a porta e saiu.
Finalmente, a rebelião havia começado.