O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 79

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 79. A Rebelião Edificante (1)

No escritório do chefe da família, no Castelo Azureocean...

Halo estava sentado em sua mesa, revisando documentos que exigiam sua aprovação, quando de repente ouviu-se uma batida na porta.

— Entre — ele disse.

Um momento depois, a porta se abriu; Fayle, o terceiro filho de Halo, entrou no escritório. As olheiras sob os olhos de Fayle mostravam o quão esmagadora tinha sido sua carga de trabalho.

Vendo isso, Halo suspirou e disse: — Eu deveria pedir para que lhe trouxessem um elixir. Você está péssimo. Vou dizer a Heinrich para pegar um para você. Não discuta e apenas tome.

— ...Obrigado pela sua consideração — Fayle respondeu em voz baixa.

Elixires serviam como tônicos potentes para aqueles que ainda não haviam despertado sua mana, fornecendo uma forma de energia e revitalização.

Inclinando-se levemente em agradecimento, Fayle perguntou em voz baixa: — Você recebeu o relatório?

Halo colocou o documento que estava lendo de lado e assentiu, então disse: — Sim. Ouvi dizer que você mobilizou as forças do Reino de Zion a pedido de Caron?

— Sim, Pai — Fayle respondeu.

— Tenho certeza de que você está ciente dos riscos significativos envolvidos. Mas não o responsabilizarei, a menos que vejamos um resultado desastroso — disse Halo.

Mover as forças de Zion para as fronteiras do império era uma manobra política arriscada para qualquer um, mesmo para a família Leston. E, no entanto, Halo não sentiu nenhum desejo de repreender Fayle. Seu terceiro filho não tinha culpa alguma. Foi Caron, aquele garoto problemático, quem colocou Fayle nessa posição.

— Uma rebelião em Reben para libertar os escravos... Isso não soa como o tipo de plano que um jovem de dezessete anos criaria — Halo ponderou, batendo os dedos levemente contra a têmpora. — A primeira coisa que ele faz depois de deixar o Castelo Azureocean pela primeira vez em quatro anos é iniciar uma rebelião. Fayle, o que você acha disso?

— ...Não tenho palavras, Pai — Fayle admitiu.

— Achei que ele pudesse ter melhorado depois de passar esses quatro anos relativamente quieto, mas aparentemente não — disse Halo.

A missão para a qual Caron foi enviado envolvia caçar um monstro que estava aterrorizando a fronteira entre o Reino de Keath e o Reino Sagrado. E, ao mesmo tempo, ele deveria rastrear Kerra Acht, uma ex-cavaleira da guarda do imperador caído. Ambas as tarefas sozinhas eram suficientes para manter qualquer um ocupado e, no entanto, Caron de alguma forma encontrou tempo para instigar uma rebelião. Halo simplesmente não conseguia imaginar o que se passava na cabeça de seu neto.

— Chefe da família — Fayle disse cautelosamente —, posso lhe perguntar algo?

Halo assentiu e respondeu: — Vá em frente.

— ...As ações de Caron podem trazer danos significativos para a família. Estou curioso para saber por que você não o impediu — disse Fayle.

Ninguém valorizava a família mais do que Halo. A decisão de mover as forças de Zion obviamente foi tomada com sua aprovação, mas Fayle não conseguia entender o raciocínio de seu pai. Os membros seniores, ao ouvirem essa notícia, sem dúvida exigiriam que Caron fosse severamente punido, pois isso não era assunto pequeno. No entanto, a resposta de Halo foi calma e despreocupada.

— Caron nunca causou dano a esta família. Nem quatro anos atrás, nem uma única vez. Apesar dos desastres em que ele se envolveu, cada um deles, no final, beneficiou a família — respondeu Halo.

A mente de seu neto mais novo era claramente desequilibrada, beirando a loucura, e, no entanto, Halo não via Caron como uma ameaça para a família. Na verdade, cada movimento que Caron fez até agora só trouxe inúmeros benefícios para a sua casa. Desta vez, no entanto, a situação tinha um significado mais profundo para Halo.

— E também não posso simplesmente ficar parado e assistir enquanto escravos são abertamente comercializados — disse Halo em voz baixa. Foi depois de ler o relatório sobre Reben fornecido pelo lado de Caligo que ele tomou a decisão de ajudar Caron.

Até recentemente, escravos também eram negociados no mercado negro de Thebe. Naquela época, a família Leston havia aderido à sua política estrita de não intervenção.

Mas agora, as coisas são diferentes, pensou Halo. Com a força da família agora comprometida em ser projetada para fora, ele não tinha intenção de deixar tais injustiças continuarem sem serem desafiadas.

— ...Isso é por causa de Sir Cain? — Fayle perguntou, compreendendo rapidamente o raciocínio de seu pai. Afinal, o amigo mais querido de Halo, Cain, tinha sido um ex-escravo.

Halo assentiu com um sorriso amargo e disse: — Aquele homem desejava um mundo onde a instituição da escravidão não existisse.

— Então, a lei que você propôs para abolir a escravidão... Também foi por causa dele? — Fayle perguntou.

— É a expiação de um covarde. Depois de manchar minha espada com o sangue do meu amigo, tudo o que pude fazer foi tentar aliviar seu espírito — disse Halo.

Essa rebelião era apenas mais um passo nesse ato contínuo de redenção. Então, por essa razão, Halo não pôde recusar o pedido de Caron.

Olhando firmemente para Fayle, Halo acrescentou: — Caron parece estar testando minha vontade novamente. Parece que ele também não suporta simplesmente ver os escravos sofrerem. Ele é bem estranho, sempre testando minha vontade das maneiras mais estranhas...

Parando por aí, Halo então mudou de assunto e continuou: — Precisaremos fortalecer nossa rede de informações. É absurdo que Caligo soubesse do mercado de escravos de Reben enquanto nós não. Depois de responsabilizar os responsáveis, garanta que nossas capacidades de inteligência sejam aprimoradas.

— Sim, chefe da família — Fayle respondeu.

— E bem feito pelo plano que você criou. No momento em que o Sexto Príncipe se envolve, o que acontece ali não pode mais ser chamado de rebelião — disse Halo.

— O rumor do príncipe e do neto mais novo do Duque libertando escravos nos beneficiará de muitas maneiras — disse Fayle.

— A influência do Sexto Príncipe só aumentará e a reputação de Caron disparará. Seu julgamento foi ótimo — respondeu Halo.

Ele olhou para seu filho em silêncio por um momento. Fayle era rápido, um filho bem versado em adaptabilidade. Se ele tivesse um talento maior para a mana, Halo não hesitaria nem por um momento em entregar as rédeas da família para seu terceiro filho. Aquele pesar persistente pairava na ponta de sua língua.

Ele soltou um pequeno suspiro e disse: — Com o império em caos, ninguém notará que movemos as forças de Zion. E mesmo que notem, não estarão em posição de se manifestar.

Tudo tinha sido preparado para Caron. Tudo o que restava era ver como seu neto ganancioso lidaria com a mesa que havia sido preparada para ele. Se Halo o puniria severamente ou o recompensaria mais uma vez dependia inteiramente das ações de Caron.

O resultado falará por si só, Caron, pensou Halo, sabendo que tudo seria julgado quando esse esforço terminasse.

Ele olhou pela janela, pensando na bomba que seu neto estava prestes a detonar. O tempo estava perfeitamente claro, sem uma única nuvem no céu. Embora... Ninguém sabia se a parte sul do império, para onde Caron estava indo, compartilhava os mesmos céus claros.


Whoosh!

Um veículo equipado com um motor de mana corria rapidamente pela estrada em direção a Reben. A noite encharcada de sangue havia passado e agora eram pouco mais de nove da manhã. Mesmo que o sol tivesse nascido, as nuvens escuras pairando no céu faziam o mundo parecer sombrio. Nesse ritmo, eles chegariam a Reben em cerca de trinta minutos.

Enquanto Caron observava a paisagem fugaz do lado de fora da janela, ele se virou para Revelio e disse: — É uma boa ideia. Tornar-se o herói que libertou os escravos, em vez do líder de uma rebelião.

— Claro, não foi meu plano. Essa foi a ideia do seu pai. Sabe, seu pai é bem impressionante nesse aspecto. Eu me beneficiei muito com ele — Revelio respondeu.

— Ele está em um nível diferente comparado aos meus tios — disse Caron com um sorriso.

Ele gostou do plano. Inicialmente, tudo o que ele queria era derrubar Reben, mas Fayle pegou essa ambição e a envolveu em uma causa respeitável. Libertar escravos em vez de liderar uma rebelião. Isso fez toda a diferença. Adicione um príncipe à mistura e a justificativa para suas ações se torna inegável.

Caron lembrou o relatório que acabara de receber de Cobler através do orbe de comunicação.

'Marquês Leandro liderou suas tropas de elite estacionadas na cidade e partiu para uma missão urgente. Apenas uma força simbólica permanece agora para manter a ordem dentro da cidade.'

Parecia que, como solicitado, as forças de Zion haviam se movido para a fronteira que compartilhavam com o império. Agora, tudo o que restava era para Caron e Revelio entrarem na cidade, garantirem evidências e testemunhas e assumirem o controle.

— Mas Caron — Revelio disse, com uma nota de preocupação em sua voz. — Você acha que nós dois podemos realmente tomar conta de uma cidade inteira? Os civis podem ser pegos no fogo cruzado...

— Os civis em Reben nem sequer podem deixar a cidade sem a permissão do marquês. É praticamente um pequeno reino governado pelo Marquês Leandro. Assim que chegarmos, a primeira coisa que faremos é libertar todos os escravos — Caron explicou.

— Encontrar os traficantes de escravos escondidos na cidade não será fácil — disse Revelio.

— Eu tenho um informante. Um dos próprios comerciantes. Ele ganha a vida minando os outros comerciantes. Ele sequestra seus escravos, alimenta-os, cuida deles e depois encontra empregos para eles — Caron respondeu.

— Esse é um lunático perverso. Como você sempre consegue conhecer esse tipo de gente, Caron? — Revelio perguntou, seu tom cheio de descrença.

Caron franziu a testa ligeiramente e disse: — Não se preocupe. Você ainda é o mais louco que eu já conheci.

— O mesmo aqui. De todos que eu conheço, você é definitivamente o mais insano — Revelio rebateu.

— Eu sou considerado normal — disse Caron.

— Ninguém chama um homem de normal quando ele começa uma rebelião só porque algo o irritou — Revelio explicou. Sua réplica calma e lógica cortou a autoconfiança de Caron.

Apoiando-se em seu assento acolchoado, Revelio suspirou e disse: — Libertar os escravos, usá-los como testemunhas para reunir os cidadãos... Sabe, isso soa mais como sabotagem de uma força inimiga. Talvez seu lugar não seja no Castelo Azureocean, mas no bureau de inteligência do império.

— Bem, convencer os cidadãos é algo com que você terá que ajudar, certo? — Caron respondeu.

— Você vai me compensar bem, certo? — Revelio perguntou.

— Eu já estou fazendo você parecer um herói. Por que você está pedindo mais recompensas? Apenas cale a boca e faça seu trabalho, ok? — Caron respondeu.

— Você realmente é um irmãozinho incômodo — disse Revelio.

O núcleo do plano não mudou muito. Ainda era sobre derrubar o Marquês Leandro e seus comparsas, aqueles que lucram com o comércio de escravos. A única diferença era que agora, estava disfarçado de uma nobre missão de libertação. De qualquer forma, aqueles que negociavam escravos iriam ter um fim miserável.

Caron lançou um olhar de soslaio para Revelio e perguntou: — Então, se prendermos o Marquês Leandro por tráfico de escravos, que tipo de sentença ele estaria enfrentando?

Revelio fez uma pausa por um momento, então deu de ombros antes de responder. — Honestamente, não seremos capazes de atingi-lo com uma sentença muito severa. Marquês Leandro é apoiado pela Casa Salmon, certo? E eles têm suas garras bem dentro do judiciário. Eles protegerão os seus.

— Então, aqui está o que vamos fazer — disse Caron com um brilho no olho.

— Continue — disse Revelio.

— Vamos incriminá-lo por traição — Caron declarou.

— Você é insano — Revelio respondeu.

— Dessa forma, podemos destituí-lo de seu título e executá-lo. Eu quero que ele suma, apagado do mapa.

Revelio capturou a malícia feroz na expressão de Caron. A pura intensidade disso, misturada com algo mortal, enviou um calafrio pela sua espinha. Seu corpo instintivamente se tensionou como se estivesse olhando para o rosto de um predador selvagem.

— ...Você realmente odeia o comércio de escravos, não é? Quer dizer, legalmente, não é um crime passível de morte — disse Revelio.

— Para mim, é. Se ele enviou inúmeras vidas para viver uma vida infernal, é melhor ele ir para o inferno ele mesmo — Caron respondeu.

— E você planeja manter essa atitude? — Revelio perguntou.

— Claro — Caron respondeu.

— Quando eu voltar para a capital, é melhor eu informar o Pai, Sua Majestade. Não gostaríamos que isso respingasse no palácio real — Revelio disse, percebendo que se opor a Caron era inútil.

— Então, como você planeja estabelecer a traição? Tem alguma ideia? — ele perguntou.

— Nós não encontramos evidências, irmão — Caron respondeu.

— Então, o que fazemos? — Revelio perguntou novamente.

— Nós as criamos — Caron respondeu confiantemente.

— Uau... — Revelio ficou sem palavras por um momento, totalmente chocado com a audácia de Caron.

— Finanças maciças geradas pelo comércio de escravos, controle estrito sobre os cidadãos, uma presença militar muito mais forte do que o normal para uma cidade fronteiriça... Adicione um denunciante de seu círculo íntimo, e temos o suficiente para acusá-lo de traição — Caron explicou.

— O círculo íntimo? — Revelio perguntou.

— Sim, há um fantoche que tem lidado com o comércio de escravos em nome de Leandro — Caron respondeu.

Ele pensou em Noor, o homem que dirigia os leilões de escravos, e um sorriso sinistro se espalhou pelo seu rosto.

— Nós não precisamos encontrar rachaduras em seu sistema. Nós podemos simplesmente fazê-las nós mesmos — Caron disse.

— Que criatividade incrível, irmãozinho — Revelio disse, balançando a cabeça. — Eu juro, você tem o potencial de um traidor.

Caron respondeu, como se esperasse por este momento: — Você se esqueceu de quem era meu avô? Ele foi um rebelde de sucesso.

— ...O quê? — Revelio perguntou.

— Meu avô destronou o seu. Traição e rebelião correm em nossa família. É praticamente uma tradição — Caron respondeu.

Sucesso torna um herói, enquanto o fracasso marca um traidor. As palavras rápidas e afiadas de Caron deixaram Revelio sem mais réplicas. Satisfeito, Caron se permitiu um sorriso enquanto olhava pela janela.

À distância, uma placa entrou em vista:

<Você está agora entrando no domínio do Marquês Leandro.>

Reben estava logo à frente. A hora de virar a cidade fronteiriça de cabeça para baixo estava se aproximando rapidamente.

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