O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 69

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 69

Numa taverna decadente, escondida num beco escuro...

Rangido.

As dobradiças enferrujadas gemeram quando Caron empurrou a porta e entrou. O som da porta logo deu lugar ao burburinho estrondoso que preenchia o local.

— Eu me dei bem dessa vez! — alguém gritou.

— É, só trabalho de mercenário não tá dando mais! Da próxima vez, vem comigo, e... — outra pessoa disse.

— A gente só precisa de um golpe grande, é tudo — alguém comentou.

As vozes estrondosas atingiram os ouvidos de Caron ao entrar. O ar estava denso com o fedor de suor, álcool e outros odores repugnantes misturados. Alguns dos frequentadores olharam em sua direção, mas logo voltaram às suas conversas altas, desinteressados no recém-chegado.

Caron exalou levemente e seguiu para o fundo da taverna.

"Eu já falei com o corretor em Reben sobre você," Foina havia dito. "Você vai encontrá-lo numa taverna chamada Noite Fria. Só lembre-se, ele não faz parte da Caligo. Pense nele mais como... um mal necessário. Se você sentir o menor cheiro de traição, bem, confio que saberá o que fazer. Afinal, lidar com traidores é a sua especialidade. Eu também mencionei que você é um comprador procurando escravos, então entre na brincadeira."

No extremo da taverna, um homem de meia-idade estava sentado sozinho. Ele usava um tapa-olho preto, e seus dentes tortos eram impossíveis de não notar enquanto ele virava um copo forte de rum. Seu cabelo ralo lhe dava uma aparência rude, quase sórdida, que combinava perfeitamente com seu semblante sombrio.

Caron se aproximou e perguntou casualmente: — Veio sozinho?

O homem ergueu os olhos preguiçosamente, sua voz pingando desinteresse enquanto ele respondia: — Você tem dois olhos, não tem? Não está vendo que estou sozinho?

O tom rude combinava com sua aparência grosseira. Dizem que a vida de uma pessoa se reflete em como ela fala, e este homem feio parecia se encaixar perfeitamente.

Caron soltou uma pequena risada e puxou uma cadeira, sentando-se em frente ao homem. Imediatamente, o homem franziu a testa em irritação, perguntando: — Que foi? Tá a fim de aleijados perdedores como eu?

— Cobler — Caron disse uniformemente.

Cobler sorriu marotamente e respondeu: — Olha, olha. Como sabe meu nome?

— Você é o único aqui que é caolho e está ficando careca. Se houvesse um concurso de feiúra, você ganharia o primeiro lugar. A pessoa que me mandou disse para procurar o cara mais feio da sala, e aqui está você. Acho que eles não estavam errados — Caron disse.

— Ah, você é de Thebe, hein? Bem, por que não disse antes? Tenho a reputação de ser muito legal com meus clientes! — Cobler sorriu amplamente, revelando seus dentes amarelados.

— Então — ele continuou — você veio ver o mercado de escravos, certo?

— Eu estava procurando comprar alguns escravos em Thebe, mas ouvi dizer que eles pararam de negociar lá — Caron respondeu.

Cobler riu, balançando a cabeça e dizendo: — Ah, Caligo. Aqueles ex-escravos adoram bancar os bonzinhos agora. Costumavam fazer qualquer coisa por um trocado, mas agora querem bancar os santos. Mas você está no lugar certo. Ao contrário daqueles bastardos, nós ainda fazemos qualquer coisa que traga dinheiro.

Nós. Essa escolha de palavras irritou levemente Caron.

Ele olhou ao redor da sala, observando os homens que enchiam a taverna. Ele havia sentido os olhares curiosos sobre ele desde o momento em que entrou. Normalmente, numa taverna como esta, os mercenários relaxariam, deixando seus equipamentos de lado enquanto bebiam. Mas aqui, cada um desses chamados mercenários tinha suas armas presas à cintura, mesmo enquanto bebiam.

— Eles fazem todos parte da mesma equipe? — Caron perguntou, com suspeita em sua voz.

Cobler encolheu os ombros e respondeu: — Neste ramo? Não dá para fazer sozinho. Com certeza você entende.

— Ouvi dizer que você era só um corretor — Caron disse.

— Não, também sou um traficante de escravos. Todo mundo por aqui faz negócios assim. Se meu estoque não agradar seu paladar, não se preocupe. Posso te apresentar a outros comerciantes — Cobler disse com um sorriso malicioso.

Caron percebeu que estava cercado na taverna. Qualquer pessoa normal já teria sentido a pressão, mas não ele. Ele calmamente levantou a mão e chamou o dono da taverna.

O dono, com a testa marcada por uma profunda cicatriz, aproximou-se com uma carranca no rosto. Ele perguntou: — O que você precisa?

— Um copo de cerveja — Caron disse, seu tom frio.

— Entendido. Espere aqui — o dono respondeu antes de trazer uma caneca de cerveja morna.

Tomando um gole, Caron imediatamente fez uma careta e reclamou: — Como vou beber cerveja morna e apreciar o sabor?

Enquanto Caron resmungava sobre a cerveja, os olhos de Cobler percorreram sua figura. Caron estava vestido como um mercenário típico, seu rosto quase todo escondido por uma máscara de metal. Mas sua voz e mãos pálidas contavam uma história diferente. Este não era um mercenário qualquer. Ele tinha a postura de um jovem nobre.

Um nobre procurando escravos?

Hah, é óbvio, Cobler pensou, porque ele sabia que os nobres que se aventuravam nas fronteiras do sul em busca de escravos eram todos iguais. Eles eram sempre insanos, abrigando gostos perversos ou desejos distorcidos. Alguns até gostavam da emoção de matar pessoas. Cobler havia lidado com inúmeras escórias como aquela; eles eram tão vis que até ele, um traficante de escravos, havia se sentido enojado.

Vamos ver o quanto consigo arrancar dele, Cobler pensou. Ele estava um pouco preocupado com o fato de que este garoto havia passado por Caligo, o poderoso sindicato do submundo em Thebe, mas ele imaginou que, enquanto jogasse seguro, ainda poderia lucrar sem cruzar nenhuma linha perigosa.

Assim, ele sorriu e perguntou: — Que tipo de estoque você está procurando? Posso conseguir qualquer coisa que você precisar.

— Quantos escravos você tem? — Caron perguntou num tom casual.

— Mais de cento e cinquenta, mais ou menos. Se não tiver certeza, posso te mostrar as mercadorias primeiro — Cobler respondeu.

— Ah, a propósito, não estou interessado em humanos — Caron respondeu, tomando outro gole da horrível cerveja.

— Não-humanos então? Temos algumas bestas. São fortes — Cobler ofereceu.

— Vocês não têm elfos? Estou aqui por elfos — Caron disse categoricamente.

Ao mencionar os elfos, a expressão de Cobler endureceu ligeiramente. Negociar não-humanos, especialmente elfos, era um segredo bem guardado. Ele estava curioso para saber como este garoto sequer tinha ouvido falar disso.

Ele decidiu se fazer de desentendido e respondeu: — Elfos? Eles não são exatamente fáceis de encontrar, sabe...

Antes que ele pudesse terminar, Caron enfiou a mão no casaco e colocou algo sobre a mesa suja da taverna. Era um cartão preto.

Cobler apertou os olhos para ele, tentando entender o que era. Então, depois de um momento, seus olhos se arregalaram em choque e ele exclamou: — O C-Cartão Preto?

Era um símbolo de riqueza, do tipo que só os mais altos escalões do império possuíam. Cobler só tinha ouvido sussurros sobre tais cartões de um banqueiro que lidava com lavagem de dinheiro. Só ver um pessoalmente era como uma fantasia ganhando vida.

Ter este cartão só podia significar uma coisa: o garoto sentado à sua frente não era um nobre comum. Ele estava conectado à elite absoluta entre as elites.

— Então, é tão difícil assim de conseguir? — Caron perguntou, seus olhos fixos em Cobler.

Cobler engoliu em seco, balançando a cabeça antes de responder: — N-Não, de jeito nenhum! Elfos são raros, mas para alguém como você, Jovem Mestre, podemos fazer acontecer.

— Por que a súbita mudança na formalidade? — Caron perguntou.

— C-Como eu poderia possivelmente falar informalmente com alguém tão... e-estimado como você? — Cobler gaguejou, suando agora.

Quem diabos Caligo me mandou? A mente de Cobler corria. Este garoto tinha que ser de uma das famílias mais poderosas do império. Apenas um punhado dessas famílias podia emitir um Cartão Preto. No pior cenário, este garoto poderia até ser parente da própria família imperial.

Mas antes de tirar conclusões precipitadas, Cobler sabia que tinha que ter certeza. Esfregando as mãos nervosamente, ele falou cuidadosamente. — Uh... Jovem Mestre... não que eu duvide de você, mas tenho um contato no Banco Imperial. Seria possível... verificar o cartão?

— Ah, você quer ver se é verdade? Tudo bem, vá em frente. Verifique — Caron disse calmamente.

Cobler respondeu: — O-Obrigado...

— Mas esteja preparado. Já que você está desperdiçando meu tempo, vou garantir que haja consequências — Caron disse, então tomou outro gole da cerveja e fez uma careta mais uma vez. Ele não estava nada feliz. Ele murmurou: — Esta cerveja é nojenta.

— Eu vou te arrumar uma gelada imediatamente... — Cobler começou a oferecer.

— Cale a boca e cheque a droga do cartão. Você está me irritando — Caron rebateu.

Não era só a cerveja que o deixava nervoso. Memórias do passado continuavam invadindo seus pensamentos, corroendo-o. Enquanto Caron rangia os dentes, ele olhou furiosamente para Cobler.


"Isto... Isto é real! Cobler, é real! Eu passei na máquina de detecção de falsificações e está confirmado. Foi emitido pela agência central do Banco Imperial!"

Cobler se lembrou do que o homem da agência de Reben do Banco Imperial havia exclamado.

Ele havia trazido um de seus amigos do banco para verificar o Cartão Preto, e o resultado foi claro. Era autêntico. Cobler queria perguntar quem era o titular do cartão, mas nem mesmo seu amigo sabia. Apenas o chefe do Banco Imperial na capital estava a par dessa informação.

Em qualquer caso, um Cartão Preto era impossível de falsificar. Ele tinha dezenas de elementos anti-falsificação tecidos em seu design.

Com a autenticidade do cartão confirmada, a atitude de Cobler mudou completamente. Seu rosto oleoso brilhava de ganância, seus olhos traindo sua avareza mal disfarçada enquanto ele dizia: — Hehehe, Jovem Mestre, eu pessoalmente vou te escoltar! Os elfos são vendidos num leilão de escravos. Já que eles são um estoque tão valioso, eles são vendidos apenas através de leilões. Normalmente, é só para membros, mas para você, eu ficaria mais do que feliz em abrir uma exceção!

— Tem certeza de que posso entrar? — Caron perguntou ceticamente.

— Claro, claro! Seria uma honra para nós se alguém tão estimado quanto você nos agraciace com a sua presença! — Cobler balbuciou, sua boca funcionando a mil por hora.

Naquele momento, uma gota de saliva, impulsionada pela boca excessivamente animada de Cobler, atingiu a máscara de ferro de Caron.

Smack!

A mão de Caron disparou, acertando um tapa forte no rosto de Cobler.

— Ughhhh! — Cobler gemeu de dor.

— Você cuspiu em mim, seu verme imundo — Caron rosnou. O rosto já feio de Cobler agora sangrava pelo nariz.

Os capangas de Cobler se tensionaram com a súbita violência, mas antes que pudessem agir, Cobler rapidamente levantou a mão, sinalizando para que eles recuassem. Ele exclamou: — Mantenham a posição, seus tolos! Vocês sabem quem é este homem?! Hehe, Jovem Mestre, eu serei mais cuidadoso de agora em diante!

— Ande à distância. Não se aproxime de mim — Caron ordenou friamente.

Cobler não sabia exatamente quem era este garoto, ou quem estava por trás dele, mas uma coisa era clara. Havia alguém poderoso por trás do jovem, alguém muito além da liga de Cobler.

Se algo desse errado, Cobler sabia que não só perderia tudo o que havia construído aqui, mas também provavelmente passaria o resto de sua vida fugindo, sendo caçado implacavelmente. Então, ele engoliu seu orgulho. Ele pensou que esta humilhação não era nada comparada à fortuna que ele poderia fazer se jogasse suas cartas corretamente. Ele estava disposto a suportar qualquer coisa por esse tipo de dinheiro.

— Uh, Jovem Mestre... — Cobler começou hesitante.

— Sua respiração fede, então vá direto ao ponto — Caron interrompeu bruscamente.

— ...Há um leilão de elfos hoje à noite. Mas, antes disso, você gostaria de visitar meus currais? Você poderia dar uma olhada nas outras mercadorias também — Cobler sugeriu.

Caron franziu a testa ao mencionar a oferta de Cobler. A maneira como Cobler se referia aos escravos como meras mercadorias irritava seus nervos. Memórias do passado passaram diante de seus olhos, tornando-o mais irritável do que o normal.

O impulso de sacar a Guilhotina e abater a escória à sua frente surgiu, mas ele se conteve. Matar o homem podia esperar até depois que ele conseguisse o que precisava. A prioridade agora era coletar informações. Além disso, ele pensou que se infiltrar diretamente nos esconderijos dessas escórias poderia ser útil para coletar mais informações.

— O curral fica longe daqui? — Caron perguntou.

Cobler balançou a cabeça avidamente e respondeu: — Oh não, nada longe! É logo ali, hehehe. Por que não vamos até lá, e eu preparo um chá para você? Eu também posso explicar como funciona o leilão de escravos enquanto você aprecia uma bebida. O que acha?

— Licor — Caron respondeu.

— Perdão? — Cobler piscou confuso.

— Eu quero licor em vez de chá. E eu não vou beber esse mijo que chamam de cerveja aqui. Você tem algo bom, certo? — Caron disse.

— C-Claro! — Cobler gaguejou.

— Lidere o caminho. Vamos dar uma olhada por aí — Caron disse, já que ele ainda não tinha entendido totalmente esta cidade, Reben. Este bastardo feio podia deixar escapar algo útil se ele continuasse cavando.

Assim que Caron se moveu para sair, Cobler acenou com a mão e disse: — Ah! O curral está conectado a este lugar, Jovem Mestre! — Ele apontou para uma porta que levava ao porão da taverna e disse: — Eu vou liderar o caminho. Por favor, me siga à sua vontade!

Cobler trocou um breve olhar com seus capangas antes de exibir um sorriso largo e exagerado no rosto e seguir em direção ao porão. Ele disse: — Por aqui, Jovem Mestre! Bem por aqui!

Caron seguiu o falatório irritante de Cobler, seus passos lentos e deliberados enquanto ele descia para o porão. Então, ele descansou sua mão no punho da Guilhotina, que estava presa às suas costas.

Algum sinal de magia? Caron perguntou à Guilhotina em sua mente.

"Apenas alguns feitiços de alarme básicos. Nada perigoso, Dono," Guilhotina respondeu.

Me avise se você sentir algo estranho. Eu vou matar cada um deles se chegar a isso, Caron pensou.

"Quantas vezes eu tenho que te dizer que o sangue deles é nojento? Eu vou te avisar se houver perigo real. Pare de me incomodar, Dono," Guilhotina resmungou.

Enquanto discutia com Guilhotina, Caron logo se viu no final das escadas. Adiante, ele viu uma enorme porta de ferro surgindo, construída na parede do porão. Era grossa e claramente reforçada.

Cobler sorriu grotescamente, seus dentes piscando enquanto ele comentava: — Não podemos deixar a mercadoria escapar, podemos?

As portas pareciam grossas e massivas demais para conter meros escravos.

— Pessoal, abram a porta! — Cobler ordenou.

— Sim, chefe! — Os homens corpulentos na porta imediatamente se moveram para obedecer, abrindo a pesada porta para revelar uma ampla passagem subterrânea.

Os olhos de Caron se estreitaram enquanto ele entrava. Ele pensou: Isto não é só uma passagem...

Parecia mais um bunker. Tinha portas grossas de ferro e paredes reforçadas, o tipo de coisa que alguém esperaria ver numa instalação militar.

Caron se perguntou sobre a verdadeira identidade dessas pessoas. Havia mais do que algumas coisas suspeitas sobre Cobler, tornando improvável que ele fosse apenas um simples traficante de escravos. Mas por enquanto, Caron se manteve quieto e continuou a seguir em frente.

Depois que eles caminharam por um tempo, eles chegaram ao seu destino.

— Que droga é essa? — Caron murmurou enquanto observava a cena inesperada diante dele no chamado "curral".

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