
Capítulo 135
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 135
Leon estava deitada em sua cama, encarando o teto. Aquele teto sempre lhe pareceu sufocante, mas hoje, parecia estar a pressionando, dificultando sua respiração.
— Minha lady, talvez devesse comer alguma coisinha — disse uma criada cautelosamente do lado de fora da porta.
Leon soltou um suspiro suave, sua voz baixa ao responder: — ...Estou bem.
— Mestre Dales está muito preocupado com a senhora. Se continuar a pular refeições... — a criada começou, mas foi interrompida.
— Se ele estivesse realmente preocupado comigo, não teria feito tal coisa. Estou bem, de verdade. Pode ir. Eu gostaria de ficar sozinha... Apenas me deixe em paz — Leon interrompeu.
— Entendido, minha lady. Se precisar de algo, por favor, me chame a qualquer momento — disse a criada. Seus passos logo desapareceram à distância, deixando o quarto em silêncio mais uma vez.
Leon soltou um suspiro enquanto as palavras de seu pai da noite anterior ecoavam em sua mente.
'Esta é uma grande oportunidade para você. Com a nossa influência, colocaremos o Sexto Príncipe no trono, e você se tornará a Imperatriz. Então, faça como eu digo, sem reclamações.'
Seu pai sempre foi assim — vendo seus filhos não como filhos, mas como ferramentas. Seu olhar frio e calculista nunca vacilava.
Dales era um homem que havia vivido toda a sua vida se esforçando para se tornar o chefe da casa. Leon não podia dizer que não entendia suas ambições. Como o filho mais velho do Duque de Leston, tais aspirações eram inevitáveis.
Mas este assunto era diferente. Casar com a família imperial significava que ela teria que abandonar seus sonhos.
— Todo esse esforço... por nada — murmurou para si mesma.
Para as filhas de casas nobres, casamentos arranjados eram um destino comum. Não era exclusivo da Família Ducal de Leston; era uma expectativa para famílias aristocráticas em todos os lugares. Era o preço do privilégio, um destino a ser aceito pelo bem do futuro da família.
— Eu não gosto disso — sussurrou, sua voz firme, mas pequena.
Seu olhar se voltou para a espada que repousava ao lado de sua cama — Dius. Era a lâmina querida que estava com ela desde sua iniciação. Se ela se casasse com a família imperial, a tradição ditava que ela teria que devolver sua espada e ter sua mana acumulada selada.
Esse era um costume que perdurava por gerações.
Eu queria ser como Lady Sabina... pensou Leon.
Seus pensamentos se voltaram para sua tia-avó Sabina, que havia vivido sua vida como uma cavaleira solteira, totalmente dedicada a aperfeiçoar sua esgrima.
A vida de Sabina era o caminho que Leon ansiava seguir — a vida de uma cavaleira dedicada unicamente à busca do domínio. Ela se perguntou se seu desejo de viver tal vida não era nada mais do que ganância egoísta.
Leon sabia que seu pai não se deixaria influenciar por seus argumentos. Ele nunca foi de ouvir seus filhos, para começo de conversa.
Era por isso que ela invejava Caron. Os pais dele sempre o ouviam.
Assim como Leon estava deitada em sua cama, encarando o teto sufocante, uma batida soou em sua porta. — Eu disse que quero ficar sozinha — ela gritou, a irritação se infiltrando em sua voz.
Mas a voz que veio do outro lado da porta não era a de sua criada.
— Leon, abra a porta rápido antes que alguém me veja. Eu entrei aqui sorrateiramente — veio uma voz brincalhona, cheia de travessura. Não havia como confundir seu dono — era Caron.
Leon suspirou, relutantemente se empurrando para fora da cama. Ela caminhou pesadamente até a porta e a abriu até a metade.
E em um instante...
— Uau, o que é isso? — Leon exclamou.
Três homens rapidamente entraram em seu quarto.
— O que vocês estão fazendo aqui tão cedo de manhã... — Leon começou.
— Faz muito tempo desde a última vez que pisei no seu quarto. Como você está, Leon? — Hugo perguntou, seguindo de perto Caron.
— Dormiu bem, Leon? — Leo acrescentou, sorrindo ao entrar.
Os outros homens que haviam entrado em seu quarto eram ninguém menos que Hugo e Leo. Leon piscou surpresa, incapaz de disfarçar sua perplexidade com o súbito aparecimento de seus primos.
Caron, no entanto, simplesmente sorriu enquanto fechava a porta atrás de si. Com um movimento de seu pulso, ele invocou Pluto.
Miau.
Uma névoa escura escorreu de Pluto e se infiltrou nas rachaduras da porta.
— Perfeito. Agora, nenhum som sairá — disse Caron com satisfação. Ele enfiou a mão em seu casaco e puxou uma garrafa cheia de líquido dourado.
— Imaginei que você poderia estar entediada sozinha, então viemos lhe fazer companhia. E olha só — esta é uma garrafa de Kilroan, envelhecido por vinte e três anos. Eu roubei do quarto de Sir Zerath há quatro anos. É uma safra fina, uma que eu estava guardando para uma ocasião especial. Pensei que esta noite poderíamos todos compartilhar uma bebida — explicou Caron.
Ele colocou a garrafa sobre a mesa e olhou ao redor do quarto.
Os aposentos de Leon eram despojados, desprovidos de qualquer decoração ou luxo. Além das prateleiras cheias de manuais de esgrima, havia pouco mais em termos de móveis. Era um lembrete gritante do tipo de vida que ela havia vivido.
— Hoje é um dia especial, não acha? — perguntou Caron alegremente.
— ...E o que é tão especial nisso? — perguntou Leon, seu tom cético.
— Porque os primos dispersos estão finalmente juntos em um lugar. Isso faz dele um grande dia. Agora, vamos lá, pessoal, sentem-se! — disse Caron.
O sorriso contagiante de Caron pareceu aliviar a tensão no quarto. Leon se permitiu um leve sorriso enquanto lentamente se deixava cair em uma cadeira. Seguindo sua liderança, Hugo e Leo puxaram cadeiras e se sentaram.
— Hugo... Você parece bem — disse Leon suavemente, olhando para Hugo.
Ela tinha ouvido rumores sobre os severos efeitos colaterais que ele havia sofrido depois de imprudentemente avançar para 7 estrelas. No entanto, olhando para ele agora, ele parecia mais saudável do que nunca — saudável demais para alguém supostamente se recuperando de uma provação tão desgastante.
— Caron, você...? — perguntou Leon.
— Sim — disse Caron com um sorriso maroto. — Eu dei a ele o Orvalho da Árvore do Mundo. Ele engoliu tudo de uma vez. Quase não consegui guardar a última gota!
— Hum, Caron, pare de exagerar — disse Hugo, pigarreando.
— Hugo, você precisa pagar o preço — disse Caron.
Hugo ergueu uma sobrancelha e respondeu: — Você disse que era um presente.
— Era. Mas, como qualquer nobre sabe, todo presente vem com segundas intenções — respondeu Caron com naturalidade. — Honestamente, Hugo, na sua idade, não saber o básico... o que as pessoas vão pensar de você?
— Quantos anos você tem? — perguntou Hugo, sua voz tingida de exasperação fingida.
— Talvez seja porque você fez trinta agora, mas está começando a exalar o cheiro de um velho... Uiii — disse Caron.
— Eu deveria fazer uma visita ao tio Fayle — interrompeu Hugo.
— Então o pai vai torcer e encorajá-lo. Você acha que o pai pode me impedir? — rebateu Caron.
Leon riu ao ver Hugo, geralmente tão composto, totalmente impotente contra as provocações implacáveis de Caron.
Uma risada suave escapou de seus lábios. — Pfft.
Pela primeira vez no que pareceu uma eternidade, o peso em seu peito diminuiu, mesmo que só um pouco.
Com a risada de Leon, os outros três trocaram olhares e sorriram amplamente.
— Muito bem, pessoal, vamos beber! — declarou Caron, estourando a rolha da garrafa com um movimento casual. Ele derramou o líquido dourado em seus copos vazios. Erguendo seu próprio copo primeiro, ele acrescentou: — Sabem, acho que esta deve ser a primeira vez que nós quatro estamos bebendo juntos. Agora, se me permitem fazer um brinde...
— Saúde — Leon interrompeu, cortando-o. Ela tilintou seu copo contra os outros com um toque confiante. Sem hesitar, ela engoliu o uísque em um gole suave. Um calor ardente percorreu sua garganta, deixando um rastro de calor para trás.
— Haa — ela exalou, um sorriso satisfeito se espalhando por seu rosto. Virando o olhar para Caron, ela inclinou seu copo vazio ligeiramente e perguntou: — Mais um copo?
— Uau, Leon. Você realmente aguenta a bebida — disse Caron, sorrindo enquanto diligentemente enchia seu copo.
Hugo e Leo trocaram olhares divertidos antes de erguer seus próprios copos para se juntarem à diversão.
Por um tempo, os quatro primos ficaram juntos, trocando piadas e histórias, esvaziando constantemente a garrafa. O tempo passou despercebido, o riso e a camaradagem enchendo o quarto antes silencioso.
Então, a voz de Leon rompeu a alegria. — Vocês estão todos aqui por causa do meu casamento, não estão?
Seu rosto, levemente corado pelo álcool, carregava um toque de melancolia que ela tentou mascarar com um leve sorriso. — Pelo menos eu não vivi em vão. Eu tenho pessoas que se importam o suficiente para estarem aqui.
— Leon — disse Hugo gentilmente. — Você pode ser honesta. Se você não quer este casamento...
— É claro que eu não quero — Leon o interrompeu, tomando outro copo de uísque antes de colocá-lo com um baque. Seu rosto escureceu, a frustração e a resistência transparecendo em sua voz. — Por que eu deveria desistir da minha espada e me juntar à família imperial? E o Príncipe Revelio? Ele nem sequer faz meu tipo. Ele parece que mal consegue ficar de pé!
— Ha! Essa é a nossa Leon — afiada como sempre — gracejou Caron, sorrindo.
— Mais do que isso — Leon continuou, ignorando a interrupção — se eu for para o palácio, eu nem sequer terei permissão para empunhar minha espada. Eu não passaria de uma flor decorativa. Eu preferiria levar uma lâmina na barriga a viver assim.
Suas palavras, repletas de honestidade crua, tocaram uma corda. Elas não eram apenas reclamações; elas carregavam verdadeiro peso. As bochechas de Leon ficaram ainda mais vermelhas, não apenas por causa da bebida.
— Então, Leon — disse Caron, recostando-se casualmente — o que você está dizendo é que você não quer se casar?
— É claro que não — murmurou Leon, seu olhar fixo em seu copo vazio. — Mas não importa. O pai não vai mudar de ideia. Você sabe como ele é, Hugo. Teimoso como uma parede de pedra.
— ...Isso mesmo — admitiu Hugo com uma risada amarga, inclinando seu próprio copo. Seu rosto estava tão corado quanto o dela, embora seu tom permanecesse firme. — Caron, você pode não o conhecer muito bem, mas Leon está certa. O pai não volta atrás em suas decisões.
No entanto, Caron simplesmente sorriu, um inconfundível brilho de travessura em seus olhos. Ele disse: — Talvez, mas nunca se sabe. Eu tenho um bom plano.
— Um plano? — repetiu Leon, virando-se para ele com uma carranca cética.
Caron não respondeu imediatamente. Em vez disso, ele se levantou e vasculhou seu casaco. Um momento depois, ele colocou mais três garrafas de uísque sobre a mesa com um baque retumbante.
— Vamos ouvir depois que terminarmos estas — disse ele, sorrindo. — Beber durante o dia faz bem. Uma garrafa para cada, que tal?
— Quem disse que faz bem? — perguntou Leo, erguendo uma sobrancelha.
Caron sorriu e respondeu: — Minha experiência pessoal.
— Isso... não é nada tranquilizador — murmurou Leo.
— Vamos lá, peguem outra bebida! — disse Caron, erguendo seu copo para o alto.
Ele não estava apenas ganhando tempo, no entanto. Caron tinha um plano — e um plano grandioso, aliás.
Após quatro horas bebendo no quarto de Leon, bem depois da hora do almoço, eles se viram tropeçando em um destino totalmente inesperado sob a orientação travessa de Caron. O cheiro de álcool grudava fortemente neles, fazendo com que as cabeças se virassem e provocando sussurros chocados da equipe que trabalhava dentro do Castelo Azureocean. Assustados com seu estado desgrenhado, os espectadores rapidamente se afastaram para evitar o grupo.
Caron, liderando o grupo, finalmente parou em frente a uma porta em particular. Uma placa de identificação afixada a ela chamou a atenção de Leo, provocando um soluço involuntário.
A placa dizia:
— Dales Leston
Este era nada menos que o escritório do filho primogênito, Dales Leston.
O rosto de Caron se iluminou com um sorriso satisfeito enquanto ele se virava para Leon. — Aqui estamos, Leon. Agora é sua chance de colocar tudo para fora. Eu verifiquei antes — o tio Dales está definitivamente lá dentro.
Leon, seus olhos semicerrados por causa do uísque, disse hesitante: — Se eu entrar parecendo assim, vou ser repreendida.
— Esse é o ponto — disse Caron com um sorriso. — Faça o que você sentir vontade. O tio Dales tem pressionado seus planos de casamento sem o seu consentimento, então é justo que você revide como quiser.
Olho por olho. Era uma lógica simples.
Leon riu secamente, assentindo. O mais tênue brilho de desafio cintilou em sua expressão.
Enquanto isso, Hugo, que estava silenciosamente olhando para a placa de identificação, olhou para Caron com uma mistura de descrença e resignação. — ...Então este é o seu grande plano?
— Em termos técnicos — respondeu Caron presunçosamente — chama-se causar um cena.
— Isso nunca vai... — Hugo começou, mas suas palavras foram abafadas por uma pancada estrondosa.
Bang, bang, bang, bang, bang!
Leon havia começado a martelar na porta do escritório de Dales com o fervor de uma mulher em uma missão. Ela gritou: — Pai! Pai! Sou eu, sua filha, Leon!
De dentro, houve movimento — um som deliberado e ameaçador de passos se aproximando da porta. Cada passo carregava o peso de uma fúria mal contida.
De repente, a porta se abriu. De pé ali estava Dales Leston, seu rosto uma máscara de raiva controlada, do tipo que poderia coalhar sangue. Suas bochechas carmesins traíam raiva ou o choque repentino da situação. Vestido impecavelmente em um terno sob medida, sua barba bem aparada e óculos lhe davam um ar de precisão exata.
— Que loucura é essa em nome dos céus?! — ele bramou, seu olhar afiado varrendo o grupo.
Os olhos de Dales se estreitaram ao examinar as figuras bêbadas de Hugo, Leon e Leo. Sua carranca se aprofundou quando seu olhar finalmente pousou no mais jovem — e talvez o mais insolente — do grupo, Caron. O cheiro avassalador de álcool que irradiava deles fez seus dentes rangerem audivelmente.
— Cambaleando por aí bêbados no meio do dia! E vocês se chamam descendentes diretos da casa ducal? O que os mais humildes devem pensar desta desgraça...
— Melhor do que vender sua filha para garantir sua posição! — A voz de Leon cortou sua torrente como uma lâmina.
As palavras atingiram a sala como um trovão. Hugo e Leo congelaram, suas expressões ficando frias como pedra. Qualquer que fosse a embriaguez que persistisse em seus sistemas, evaporou instantaneamente.
Caron, no entanto, estava totalmente imperturbável. Se alguma coisa, ele parecia encantado.
Clap, clap, clap.
Caron caiu na gargalhada, um sorriso largo rachando seu rosto. — Bravo, Leon! Você realmente o repreendeu! Olhe para o rosto daquele velho — não tem preço. Ufa, preciso de outra bebida. Isso está ficando bom.
Mesmo enquanto arrastava suas palavras levemente, a presunção de Caron era palpável.
Estamos mortos, pensou Leo enquanto sentia uma iminente sensação de desgraça descer sobre ele.
Momentos depois, a voz de Dales trovejou por todo o Castelo Azureocean.
— Seu inútiiiiil!