O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 108

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 108

Os outros se retiraram para explorar o templo com Orion, deixando Caron e a regente sozinhos para passear pelos jardins do templo.

— Você não parece particularmente surpreso, Caron Leston — disse a regente com um sorriso caloroso, seu olhar fixo nele. Ela acrescentou: — Achei que você ficaria pelo menos um pouco assustado.

— Bem, você não é a primeira a reconhecer minha reencarnação — respondeu Caron calmamente.

— O Rei Demônio da Matança. Ele percebeu, não foi? — perguntou a regente.

— Sim — admitiu Caron.

Como ele esperava, a regente já sabia sobre sua reencarnação. E, no entanto, ao contrário do Rei Demônio, sua reação não demonstrava espanto. Caron pensou que o primeiro encontro com tal conhecimento era sempre o mais desorientador. Ainda assim, a postura nobre da regente fazia até mesmo essa situação incomum parecer estranhamente natural.

— Receio que meu avô descubra isso algum dia — disse Caron.

— Você ainda não contou a verdade ao Duque Halo, não é? — perguntou a regente.

— Apenas uma brincadeira divertida entre amigos... Vamos chamar assim. Mas, como você conseguiu descobrir? — respondeu Caron.

A regente assentiu graciosamente, seu sorriso radiante. Ela disse: — Mamãe me contou.

— Entendo — respondeu Caron.

— Como foi sua estadia em Galad? — perguntou a regente.

— Foi bom. Foi diferente do que eu imaginava, mas certamente é uma cidade notável — respondeu Caron.

O gato preto empoleirado no ombro de Caron soltou um miado satisfeito. Caron acariciou seu pelo liso antes de se virar para a regente com uma pergunta. — Você sabe muito sobre este espírito?

— É um espírito nascido da escuridão que desce sobre o mundo — explicou a regente.

— Eu estava me perguntando se ele é um carinha mau? — perguntou Caron.

— Tentar categorizar espíritos como bons ou maus é, por natureza, um esforço inútil — disse ela gentilmente.

A regente estendeu a mão e deu um tapinha leve na cabeça do espírito. Caron observou surpreso quando o gato, que havia rejeitado o toque de Orion, aceitou a mão da regente sem protestar.

— Os seres vivos sempre temem a escuridão — ela continuou. — Elfos não são exceção. É natural que eles temam um espírito nascido da escuridão.

A escuridão obscurecia a visão, e as criaturas vivas instintivamente temiam o que não podiam ver, pois o pensamento de coisas à espreita além do véu as enchia de apreensão. Era natural temer o desconhecido e, portanto, a escuridão evocava medo.

— No entanto, a luz desperta a vida, enquanto a escuridão lhe concede descanso. A escuridão é um dos elementos essenciais que sustentam o ciclo do mundo. Não é boa nem má, meramente dual em sua natureza — explicou a regente. Seu olhar repousou sobre Caron, quieto e penetrante, enquanto ela continuava: — E você também é.

Uma leve luz azul brilhou em seus olhos enquanto ela perguntava: — Não é verdade, Caron Leston?

Caron encontrou seu olhar em silêncio. Ele sentiu como se seus olhos estivessem olhando diretamente para sua alma, desvendando camadas que ele nem sabia que existiam. Ele estava se perguntando o que exatamente ela estava vendo.

— Em sua vida anterior, você foi mergulhado em uma escuridão tão profunda quanto um abismo — disse a regente suavemente. — Ainda posso ver a sombra lançada sobre você.

Suas palavras despertaram algo dentro de Caron — uma sensação desconfortável de exposição. Era desagradável, e ainda assim ele não podia negar sua afirmação. Afinal, as memórias de sua vida anterior ainda permaneciam dentro dele, tão vívidas como sempre.

— Uma coisa que você deve saber é que a medalha espiritual não pode convocar um Espírito da Escuridão. Tais espíritos estão entre os seres primordiais que existem desde o início dos tempos. Eles descansam no abraço da Mãe, mas não pertencem a ela — disse a regente, seu tom calmo, mas firme.

— Mas eu o convoquei usando a medalha espiritual — respondeu Caron, sua testa franzida.

— Isso é porque o Espírito da Escuridão escolheu você — explicou a regente, dando um passo à frente com graça comedida.

Caron a seguiu silenciosamente. Em pouco tempo, eles chegaram à beira do jardim.

— Ah... — Caron exalou suavemente.

Uma árvore colossal estava diante deles. Era a fonte da Grande Floresta, a nascente de vida que infundia a terra com energia ilimitada. Era a Árvore do Mundo.

E, no entanto, algo sobre ela estava inequivocamente errado.

Crack.

Uma rajada de vento passou, descascando a casca da árvore como se fosse papel frágil. Mas não era apenas a casca. Folhas outrora vibrantes pendiam murchas, e suas raízes pareciam enrugadas e sem vida.

A Árvore do Mundo estava...

— ...Está morrendo — disse Caron baixinho, sua voz pesada com o peso da realização.

A regente deu um sorriso agridoce, assentindo, então admitiu: — Sim, está.

— Mas a floresta parecia bem — disse Caron, olhando para ela. — O mana lá era... abundante.

— A Mãe não poupa nada para seus filhos. Ela sempre pensa neles antes de si mesma — respondeu a regente.

A Árvore do Mundo estava sacrificando sua própria força vital para sustentar a floresta e seus habitantes.

Caron respirou lenta e profundamente, sua expressão grave. Ele perguntou: — Há quanto tempo está assim?

— Há cinquenta anos, o Rei Demônio da Devastação apareceu na Grande Floresta do Sul — disse a regente.

— Isso é por volta de... — Caron parou, percebendo.

— Sim — confirmou a regente. — A mesma época em que o Império Orias quase caiu nas mãos do Imperador Malévolo. Devido aos sacrifícios feitos por muitos elfos e pela própria Mãe, fomos capazes de detê-los, mas perdemos muito no processo.

Ela estendeu a mão em direção à casca sem vida, canalizando seu próprio mana para ela. E, no entanto, nada mudou.

— Tudo o que tenho conseguido fazer é assistir enquanto a Mãe murcha lentamente — murmurou a regente. Ela se virou para Caron, seu olhar penetrante, então disse: — Aquele que você procura reside onde os mares do sul se encontram com a floresta.

Esta era a informação que Caron estava procurando. Ainda assim, ele não podia ignorar o peso que pairava no ar. Ele pensou nos elfos que havia visto naquela manhã — seus rostos alegres. Isso o levou a uma conclusão perturbadora.

— ...Os outros elfos não sabem que a Árvore do Mundo está morrendo, não é? — ele perguntou.

Essa era a única explicação para seus sorrisos brilhantes. Se soubessem, não seriam capazes de sorrir tão livremente... Não, seria impossível sorrir. Se a Árvore do Mundo perecesse, a Grande Floresta do Sul murcharia, e a extinção dos elfos se seguiria.

— Por que você está compartilhando este segredo comigo, algo que nem mesmo sua própria espécie sabe? — perguntou Caron.

A regente ofereceu um sorriso triste e respondeu: — Porque você deve saber.

— E por que isso? — perguntou Caron.

— Porque a Mãe esteve envolvida em sua reencarnação — respondeu a regente.

A expressão de Caron congelou.

***

O silêncio que se seguiu pairou no ar.

O olhar de Caron alternava entre a regente e a Árvore do Mundo. Algum tempo se passou antes que ele finalmente falasse, sua voz firme, mas com uma pitada de curiosidade. — ...Então, o que você está dizendo é que, se eu quiser entender por que reencarnei, preciso ajudar a salvar a Árvore do Mundo. É isso?

— Não vou negar — respondeu a regente.

A mente de Caron corria com pensamentos conflitantes. A reencarnação era um evento inerentemente sobrenatural, então tinha que ter envolvido alguma força transcendente. Mas ele nunca havia considerado que a Árvore do Mundo pudesse fazer parte disso. Afinal, sua vida anterior não tinha nenhuma conexão significativa com a Árvore do Mundo.

Caron passou um longo momento separando suas perguntas. Quando ele finalmente fez uma, sua voz era baixa e deliberada. — Por que eu?

— Porque só você pode fazer isso — respondeu a regente.

— Você está dizendo que é algo como destino? — perguntou Caron com uma leve pitada de ceticismo.

— Sim — admitiu a regente, sua expressão tingida de amargura.

Seu olhar permaneceu em Caron, que parecia insatisfeito. Ela podia entender por que ele estava lutando. O peso do destino não era um fardo fácil para nenhum mortal suportar. Mesmo para aqueles que viveram a reencarnação, de repente serem incumbidos de uma responsabilidade tão monumental...

É claro que ele se sentiria sobrecarregado, ela pensou.

Mas suas expectativas foram destruídas por suas próximas palavras.

— Você está dizendo que salvar a Árvore do Mundo é algo que só eu posso fazer. Está certo? — perguntou Caron.

A atmosfera mudou, seu tom não era mais de frustração; em vez disso, era afiado, quase calculista.

— Sim, Caron Leston — disse a regente.

— Bem — Caron começou, um leve brilho em seus olhos —, admito que estou curioso sobre por que reencarnei. Mas, honestamente, isso não importa muito. Não é melhor focar no que posso fazer agora que estou aqui, em vez do motivo da minha reencarnação? Uma mentalidade voltada para o futuro parece mais importante, não acha?

Sua voz ganhou energia enquanto ele continuava: — Além disso, isso é basicamente um pedido de emprego, não é? Você está me pedindo para ajudar a salvar a Árvore do Mundo. Estou errado?

— Mas certamente você está curioso sobre sua reencarnação— a regente começou, mas foi interrompida.

— Claro que estou curioso! Mas provavelmente posso descobrir depois de esmagar os Reis Demônios. Ou talvez eu possa simplesmente perguntar ao Dragão Guardião da minha família lá no Mar do Norte. Há muitas maneiras de descobrir sobre isso — disse Caron com um sorriso.

A regente olhou para ele, sua expressão conflitante. Ela estava se perguntando se a pressão o havia levado à loucura. Mas não...

Seus olhos estão brilhando e ele definitivamente está pensando com clareza, ela percebeu.

— Talvez seja porque você não é humana, mas apelos emocionais não funcionam bem conosco. Se você realmente quer resultados, precisa de lógica. E neste caso, chamaríamos isso de pedido de emprego — disse Caron.

— Um... pedido de emprego? — perguntou a regente, quase incrédula. — Você está sugerindo que eu lhe ofereça uma compensação?

— Exatamente! — disse Caron, parecendo satisfeito. — Vejo que você entende rapidamente.

A regente exalou um pequeno suspiro, então perguntou em voz baixa: — O que é que você quer?

— Bem, antes de falarmos sobre compensação, precisamos avaliar a dificuldade da tarefa. O que exatamente eu preciso fazer para salvar a Árvore do Mundo? — perguntou Caron.

— Você precisará de três coisas. Um Cristal Glacial do Mar do Norte, água da fonte do Oásis de Ali e um Espírito da Vida da Grande Floresta Oriental — explicou a regente.

— Oásis de Ali? Isso fica no Sultanato de Pajar, não é? — perguntou Caron.

— Sim, está correto — respondeu a regente.

— Então, todos os três estão em locais perigosos e remotos. Ah, isso definitivamente aumenta o nível de dificuldade — disse Caron, seu tom quase alegre enquanto avaliava o desafio. Ele já estava fazendo as contas em sua cabeça.

Eu tenho que visitar o Mar do Norte para a minha Cerimônia de Maioridade de qualquer maneira, ele pensou.

Cristais Glaciais eram excepcionalmente puros e encontrados apenas nas geleiras do Mar do Norte. Caron se lembrou de Halo mencionando-os em sua vida anterior. Extrair um Cristal Glacial já era uma tarefa monumental, mas transportá-lo até a Grande Floresta do Sul seria impossível. O Cristal Glacial simplesmente derreteria no momento em que deixasse o Mar do Norte.

— Há um receptáculo de armazenamento infundido com o poder da Mãe — explicou a regente, como se estivesse lendo seus pensamentos. — Se você colocar um Cristal Glacial dentro, ele não derreterá.

— Bem, isso simplifica uma parte — comentou Caron, assentindo. — Mas quanto à água da fonte do Oásis de Ali e ao Espírito da Vida da Grande Floresta Oriental... Isso pode realmente me matar.

O Sultanato de Pajar e o império estavam à beira de hostilidades abertas, suas relações nada menos que desastrosas. E alcançar a Grande Floresta Oriental exigia atravessar todo o Sultanato de Pajar, uma tarefa que era ainda mais perigosa. Assim como a Grande Floresta do Sul, a Grande Floresta Oriental era estritamente proibida para humanos.

— Há elfos na Grande Floresta Oriental também, não é? — perguntou Caron. — Não podemos pedir ajuda a eles?

— Eles se separaram de nós há muito tempo. É uma longa história, e não vale a pena se aprofundar agora — respondeu a regente.

— Hmm — Caron suspirou. Parecia que havia uma situação complicada escondida nos bastidores. Suas sobrancelhas se franziram ligeiramente enquanto ele tentava avaliar a dificuldade deste trabalho.

— Este é o pior tipo de trabalho — ele murmurou. A missão era tão exigente que nem mesmo duas vidas seriam suficientes, então parecia que a compensação poderia ser praticamente qualquer coisa.

Ele eventualmente disse à regente: — Ah, isso pode ser um pouco complicado.

Era claro que os elfos tinham motivos para não empreender a tarefa eles mesmos. E se a condição da Árvore do Mundo não melhorasse em breve, sua queda parecia inevitável. A capacidade da Árvore do Mundo de suportar isso era um mistério, mas uma coisa era certa. Tinha que ser salva.

Na longa guerra contra a raça demoníaca que pairava no ar, os elfos seriam, sem dúvida, aliados inestimáveis. Mas não importa quão crucial fosse a missão, Caron não estava prestes a se voluntariar para seus esforços sem custo algum.

Pelo menos serei compensado generosamente, ele pensou.

Tendo chegado a uma decisão, Caron lançou à regente um sorriso alegre e disse levemente: — Veja, eu tendo a ser um pouco caro.

A expressão da regente vacilou. — Você quer dizer que está esperando ouro ou prata? — ela perguntou hesitantemente. — Nossa economia é totalmente diferente da dos humanos...

— Oh, eu não pediria algo tão grosseiro como ouro ou prata — respondeu Caron, acenando com a mão em desdém. — Acredite ou não, eu sou muito bem de vida.

Caron não tinha interesse em coisas como tesouro e riqueza. Desde o início, sua atenção estava fixada em um prêmio. Era o mais raro dos recursos que apenas os elfos podiam fornecer.

— Eu estava esperando pelo Orvalho da Árvore do Mundo — ele disse.

— ...Mas isso é— a regente começou, mas foi interrompida.

— É um pedido perigoso, afinal — Caron interrompeu. — Idealmente, eu gostaria de um pagamento adiantado. Com ele, serei mais forte, e as chances de sucesso serão muito maiores, não acha?

O Orvalho da Árvore do Mundo era um elixir lendário capaz de curar até mesmo as lesões mais graves e aumentar a força dos aliados.

Diante da exigência de Caron, a regente respirou fundo e assentiu lentamente. Ela ofereceu: — Eu posso te dar uma gota—

— Cinco gotas — Caron rebateu imediatamente.

— Caron Leston — a regente começou.

— Você mesma disse. Eu sou o único que pode fazer isso. Cinco gotas — exigiu Caron. Sua postura inflexível não deixou espaço para negociação.

A regente cerrou o punho e mordeu o lábio.

Mãe, você tem certeza de que este homem foi a escolha certa? ela pensou.

Do outro lado dela, um ladrão disfarçado de humano sorriu.

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