
Capítulo 98
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 98
As chamas de Ifrit transformaram todos os mortos-vivos no topo da fortaleza em cinzas. No entanto, o fogo, intenso o suficiente para queimar até suas almas, de alguma forma deixou Caron intocado.
Fwoosh.
Caron observou em silêncio enquanto os ossos frágeis desmoronavam em pó diante de seus olhos. Cinzas brancas giravam e se espalhavam no ar, mas a luta ainda não havia terminado.
Clang!
De repente, correntes emergiram do céu violeta, prendendo Ifrit mais uma vez. E acima delas, o olho roxo gigante observava o topo da fortaleza atentamente.
Crack.
Parecia que as chamas de Ifrit tinham ferido o mago negro, mas não o tinham acabado de vez. Através de suas vestes meio carbonizadas, o corpo esquelético do mago negro estava visível.
Caron riu ao contemplar a cena, zombando: "Então, esse bastardo não era nada além de um esqueleto."
Lichs eram o pináculo dos mortos-vivos. Eram magos negros que trocavam suas almas para estender a vida muito além de seus limites naturais.
Caron sorriu para a figura à sua frente e comentou: "Então você sacrificou tudo apenas para alcançar o Sétimo Círculo? Que patético. Você escolheu se tornar um lich apenas para se agarrar à sua vida por um pouco mais..."
"Você... nunca poderia entender... o que eu desejo..." o lich murmurou. Sua voz estava fraca, sua mandíbula estalando enquanto ele lutava para responder. "O grande plano... já foi... realizado. O portão... vai se abrir..."
Não havia medo no tom do lich. Claro, isso fazia sentido; era porque os lichs não podiam ser completamente destruídos sem quebrar o orbe que continha sua força vital.
Caron estreitou os olhos ao olhar para o crânio meio queimado, perguntando: "Guillotine, você tem alguma sugestão?"
Guillotine respondeu com diversão: "Acho que esse bastardo entendeu tudo errado."
"O quê?", perguntou Caron.
"A filacteria[1] é um truque útil para lichs, com certeza. Contanto que sua filacteria esteja intacta, eles não podem morrer. Mas... ainda há mana negra nele, certo? Este é o mesmo método que seu primeiro ancestral, Rael, costumava usar. Ele não apenas destruía lichs, ele os mantinha por perto para drenar sua mana. Qualquer lich que ele encontrasse, ele os usava como combustível extra, só por precaução," explicou Guillotine.
"Uau, como esperado do meu ancestral. A maneira como ele pensava está em um nível totalmente diferente," disse Caron, maravilhado.
"E, claro, foi tudo graças a mim," disse Guillotine.
Caron foi capaz de entender imediatamente. Lichs não podiam morrer sem que suas filacterias fossem destruídas, então Rael os mantinha por perto para usar como fontes renováveis de mana.
"Então, é basicamente um lich de estimação, então. É isso mesmo?", confirmou Caron.
"Exatamente. Eu gosto das suas habilidades de compreensão. Vou te dar nota máxima nisso," disse Guillotine.
"Certo, espere aí. Eu tenho algo para tentar," disse Caron enquanto ele cravava Guillotine direto na estrutura esquelética do lich.
Crack!
O som de ossos quebrando ecoou pelo ar enquanto a voz sinistra do lich murmurava: "E-Eu... vou retornar... mais uma vez."
Caron riu alegremente antes de responder: "Ah, é? Você vai a algum lugar?"
O lich fez uma pausa, surpreso. "...O quê?"
"Bon appétit," disse Caron com um sorriso.
"O-O que você está fazendo?", gaguejou o lich.
A lâmina de Guillotine brilhava com uma luz azul escura e sinistra. Logo, uma enorme onda de mana começou a fluir do lich diretamente para Caron. Seu núcleo de mana se encheu rapidamente, recuperando cada pedaço de poder que ele havia gasto durante a batalha. A quantidade de mana vindo desse lich era incomparável à de um mero monstro demoníaco de alto nível como o Minotauro de seu último encontro.
"Eu me pergunto se é assim que um urso se sente quando invade uma colmeia," murmurou Caron, sentindo a mana negra acumulada que o lich havia guardado jorrando sem esforço para dentro dele. Como Guillotine havia garantido, a eficiência da arma em absorver energia negra estava muito além de qualquer coisa que Caron havia previsto.
Crack.
O lich, percebendo que sua situação tinha piorado horrivelmente, apertou seu cajado com mais força. No entanto, Caron facilmente pisou em seu braço, esmagando-o sob seus pés.
Crunch.
"Talvez seja porque foi assado pelo fogo, mas quebra facilmente. É melhor você manuseá-lo com cuidado," Caron avisou o lich.
Ele quase tinha acabado completamente destruído. As correntes de Ifrit felizmente afrouxaram a tempo; caso contrário, ele poderia ter sofrido ferimentos ainda mais graves.
Com Guillotine ainda cravada no peito do mago negro, Caron olhou para baixo do pico da fortaleza. Abaixo, ele podia ver uma figura massiva correndo pelo campo de batalha, seguida por dois cavaleiros e uma legião de elfos movendo-se em formação cerrada. Parecia que seus esforços haviam interrompido temporariamente as correntes de Ifrit.
"Parece que todo mundo está ganhando o pão," comentou Caron.
Ele olhou para o céu, fixando o olhar no olho violeta pairando acima. Embora ele tivesse subjugado com sucesso o lich, ele sentiu que sua consciência não havia sido totalmente cortada. Mesmo agora, a aura violeta estava se espalhando pelo céu em um ritmo alarmante. Além de seu brilho, algo espreitava — uma presença escura e proibitiva que fazia a pele de Caron arrepiar. Algo sinistro além da medida estava, sem dúvida, esperando além daquela porta.
A voz de Guillotine ecoou na mente de Caron. "Aquele olho pertence ao Rei Demônio da Carnificina."
"Você poderia ter me avisado sobre isso antes," murmurou Caron.
"Quer uma análise completa sobre os Reis Demônios também?", ofereceu Guillotine.
"Não se preocupe. Eu já sei o suficiente," disse Caron, recusando a oferta.
Graças à sua vida anterior, ele aprendeu muito mais sobre Reis Demônios do que jamais quis. Os Quatro Reis Demônios que governavam as raças demoníacas eram o Vazio, o Caos, a Preguiça e a Carnificina. Cada um representava uma ameaça ao mundo à sua maneira. O Rei do Caos era o mesmo demônio que havia feito um pacto com o Imperador Malévolo em sua vida anterior.
"Já se passaram aproximadamente cinquenta anos..." disse Caron.
A influência direta de um Rei Demônio não era sentida desde o incidente do Imperador Malévolo todos aqueles anos atrás.
"O Portão do Caos para um Rei Demônio," Caron murmurou para si mesmo.
Naquele momento, uma voz baixa por trás interrompeu seus pensamentos, dizendo: "Não, isso é impossível."
Era Orion, que havia se aproximado silenciosamente dele. O rosto do elfo havia ficado visivelmente mais pálido do que antes, claramente tenso por dissipar a magia persistente do mago negro no topo da fortaleza. Ele disse com uma voz rouca: "Não há mana suficiente reunida aqui para invocar o Rei Demônio."
"Então, qual é o plano?", perguntou Caron.
"Este lugar era apenas um ponto de apoio. O verdadeiro objetivo era invocar legiões aqui para corromper a floresta — onde reside a Mãe," explicou Orion.
Caron rapidamente juntou as peças e perguntou: "Eles pretendiam invocar o Rei Demônio através da Árvore do Mundo?"
"É o método mais rápido," respondeu Orion.
"Esses maníacos," murmurou Caron.
"...O problema é que o plano ridículo deles quase deu certo," continuou Orion, lançando um olhar sombrio para o lich. Era inimaginável que eles tivessem até preparado correntes fortes o suficiente para prender o Rei Espiritual. E agora, Ifrit permanecia preso por aquelas mesmas correntes que emanavam do portão. Estava longe de acabar.
"Por que você não baniu o lich?", perguntou Orion.
"Ah, não se preocupe com ele," respondeu Caron casualmente, colocando o pé no lich. "Pense nele como, sei lá... um amplificador de mana?"
"...Você está absorvendo sua mana negra?", perguntou Orion.
"Mais ou menos," respondeu Caron. Com o pé ainda apoiado no lich, ele perguntou: "Então, como paramos o ritual?"
"É simples. Temos que derrubar esta fortaleza. Ela está canalizando mana negra para o Portão do Caos," explicou Orion.
Enquanto os dois discutiam maneiras de parar o portão, um barulho perturbador soou.
Creak, creak, crack.
O ruído veio do corpo retorcido do lich. Caron olhou para baixo, percebendo que a condição do lich havia se tornado ainda mais estranha. Seus olhos antes azuis agora estavam manchados com um brilho violeta sinistro.
'Caron. Tenha cuidado,' alertou Guillotine.
Caron respondeu com um lento aceno de cabeça. Ele foi capaz de sentir que outra coisa havia se instalado dentro do lich.
—Caron Leston.
Uma voz ameaçadora ecoou, e Caron sentiu um aumento imediato de sede de sangue despertar dentro dele. A voz arranhou sua mente, mas ele habilmente suprimiu o impulso, respondendo com um sorriso: "Que convidado ilustre para adornar o corpo do meu lich de estimação. Você poderia sair?"
『Como é estar livre? Você está satisfeito ou permanece confuso?』
Mas a voz respondeu de forma diferente do que Caron esperava, e sua expressão endureceu.
"...Você," sussurrou Caron. Essas palavras sozinhas foram suficientes para ele ter certeza de que esse cara sabia que ele havia reencarnado. Ele perguntou: "Como você sabia?"
Caron prendeu a respiração ao encontrar os olhos do Lich — ou melhor, do Rei Demônio. Mas antes que Caron pudesse perguntar mais, a voz continuou.
—Eu vou te dar um presente. Espero que te agrade.
Whoosh!
Um pulso repentino de energia percorreu o ar enquanto o olho violeta no céu brilhava de forma sinistra.
***
Caron encarou o olho ameaçador no céu. Ele não conseguia entender o porquê, mas uma fúria interminável surgiu dentro dele que o fez querer destruir tudo nas proximidades. A vontade de liberar a violência surgiu dentro dele.
'Se recomponha,' a voz de Guillotine interrompeu. 'Este é o poder do Rei Demônio da Carnificina. Não deixe que ele te consuma. Isso não é sede de sangue comum — é algo muito mais sinistro.'
A raiva que Caron sentia era verdadeiramente antinatural. Era diferente de quando ele apenas ouviu a voz; agora, o desejo era quase impossível de resistir. Sua mente não conseguia processar, não conseguia entender; ele naturalmente queria se render a ela. Seu próprio ser ansiava pela libertação, para balançar Guillotine e cortar o pescoço de Orion, que estava bem ali ao lado dele.
Uma linha de sangue escorreu de seus lábios quando ele mordeu com força, usando a dor aguda para repelir o impulso. Finalmente, ele se virou para Orion e disse: "Orion, é o Rei Demônio—"
Swish!
A condição de Orion era ainda pior do que a de Caron. Os olhos do elfo estavam vermelhos de fúria, e ele lançou uma lâmina de vento em Caron. O espírito do vento que os havia carregado até esta fortaleza agora apontava direto para a garganta de Caron, quase o acertando enquanto ele se esquivava.
"Guillotine," murmurou Caron urgentemente.
'...Crava-me no corpo dele. Eu vou cuidar disso,' respondeu Guillotine.
"Entendido," disse Caron enquanto ele avançava, correndo em direção a Orion. Dezenas de paredes feitas de espíritos se ergueram para bloquear seu caminho, mas cada uma delas se estilhaçou sob Guillotine. Felizmente, Orion não havia colocado muita distância entre eles.
Slash.
A lâmina de Guillotine perfurou profundamente a coxa de Orion. Depois de um momento tenso, a clareza retornou aos olhos de Orion enquanto ele finalmente se libertava do controle mental.
"O que diabos..." Orion engasgou, examinando a área com uma expressão grave.
"É o poder do Rei Demônio, Orion," disse Caron, observando-o atentamente.
"...Inacreditável. Como pode ser tão potente mesmo sem a forma física do Rei Demônio?", perguntou Orion.
"Isso não importa agora," disse Caron enquanto ele lançava um olhar preocupado para a fortaleza. Mesmo ele, com a ajuda de Guillotine, mal havia resistido à influência sombria. Aqueles sem nenhuma defesa não teriam chance.
Gritos e guinchos ecoaram de baixo. Assim como ele temia, o campo de batalha já havia se transformado em caos. Aqueles que estavam trabalhando juntos para quebrar as correntes agora se atacavam com violência sem sentido. Elfos atacavam elfos, e monstros se atacavam. O campo de batalha era nada menos que um pesadelo.
Caron soltou um suspiro silencioso. Não havia mais amigo ou inimigo — apenas o desejo avassalador e insaciável de matar. Toda aquela intenção assassina se fundiu em um frenesi que se espalhou pela terra.
Então, em meio ao coração da carnificina, fumaça violeta desceu do olho e tomou forma.
Whoosh.
Então, começou a se reunir em uma figura que vestia armadura roxa e tinha olhos vermelhos. Embora a figura se parecesse com um cavaleiro, Caron instintivamente sabia o que era, murmurando: "...O Rei Demônio."
Com aquela aura profana, não poderia ser outra coisa. Enquanto estava no meio do campo de batalha, o Rei Demônio fixou os olhos em Caron. Então, sua voz reverberou na mente de Caron mais uma vez.
—Não é uma visão verdadeiramente bela?
O mestre da loucura sorriu para Caron em meio ao caos.
[1] - Na ficção, refere-se ao receptáculo que contém a força vital de um lich. ☜