
Capítulo 93
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 93
Alguns dos sobreviventes que haviam escapado retornaram à vila, mas, mesmo com todos reunidos, havia apenas vinte e nove sobreviventes. Dos duzentos aldeões originais, pouco mais de um em dez havia sobrevivido.
Os aldeões enterraram os corpos dos mortos em silêncio. Embora gostassem de dar aos falecidos um lugar de descanso melhor, não tinham nem tempo nem meios para isso. Assim que os enterros simples foram feitos, os sobreviventes se prepararam para fugir. Na verdade, havia pouco para preparar, pois os monstros já haviam destruído a maior parte da vila.
— Nós vamos indo agora — disse Kirak. Ele era o homem que havia assumido o comando dos refugiados. Ele se curvou respeitosamente para Caron e seu grupo.
Caron entregou a Kirak uma pequena pedra e disse: — Esta pedra contém parte da energia da minha lâmina. Enquanto você a tiver, deve estar seguro contra ataques de monstros.
Ele havia canalizado uma parte de sua mana para a pedra através da Guillotine. Embora não durasse muito, ainda os protegeria dos monstros por um tempo.
— Mas vocês têm para onde ir? — perguntou Caron.
A expressão de Kirak se tornou agridoce antes de responder: — Há uma vila a cerca de meio dia de viagem a leste, perto da fronteira do Reino Sagrado. Ouvi dizer que paladinos e padres às vezes passam por lá, então... Vamos para lá por enquanto.
A área estava invadida por monstros demoníacos, tornando quase como se eles já tivessem reivindicado essas terras. Pelo menos com paladinos por perto, seria melhor do que ficar aqui.
Caron assentiu lentamente e disse: — Desejo a vocês toda a sorte do mundo.
— E vocês, cavaleiros, vão ficar aqui? — perguntou Kirak.
— Bem, alguém tem que terminar as coisas — respondeu Caron simplesmente.
Kirak olhou para Caron e curvou-se novamente, então disse: — Eu me lembrarei disso para o resto da minha vida. Que Deus abençoe a todos vocês.
Com uma palavra final de bênção, Kirak se juntou à fila de refugiados. Momentos depois, os sobreviventes começaram sua marcha solene para fora da vila, e Caron e seu grupo os observaram em silêncio enquanto desapareciam de vista.
— Todos eles parecem hesitantes em partir — disse Leo enquanto os observava.
— Já que não há escolha a não ser deixar seus entes queridos para trás... — respondeu Caron suavemente.
— Se eu fosse mais forte... Teria sido diferente? — murmurou Leo.
Sem hesitar, Caron deu um tapa nas costas de Leo e disse: — Sua puberdade começou agora?
Leo fez uma careta enquanto esfregava as costas, então disse: — Ugh, dói mais do que o normal... Talvez porque faz um tempo, seu idiota.
— Não apresse as coisas. Você está crescendo bem e rápido o suficiente como está — disse Caron, um toque de elogio inesperado escorregando em sua voz.
Leo olhou para Caron com os olhos arregalados e perguntou: — Você... Você acabou de me elogiar?
Caron assentiu e admitiu: — Você mereceu. Posso dizer que você tem trabalhado duro mesmo enquanto eu estava fora. Continue assim.
— Ainda estou sonhando? Você realmente acabou de elogiar— A frase de Leo foi interrompida quando ele foi repentinamente tirado do chão, subindo no ar.
Utula, de pé atrás de Leo, o agarrou e o levantou com as duas mãos, elevando-o sem esforço. Ele troveou: — Leo Leston! A atitude que você mostrou ao sacrificar sua vida! Essa é verdadeiramente a marca de um grande guerreiro! Eu, Utula, saúdo você. Você é de fato um grande guerreiro!
— U-Utula, obrigado... mas v-você poderia...? — Leo conseguiu ofegar.
— Nós nos apresentamos um ao outro, então somos amigos agora! É uma honra ser amigo de um guerreiro tão bravo! — declarou Utula.
— Me... ajuda... — Leo sibilou.
Enquanto o laço de amizade de Utula e Leo se intensificava, Caron se virou para Leon e disse: — Vamos nos preparar para partir em meio dia.
Leon estreitou os olhos e perguntou: — Tem certeza? Não temos que nos apressar?
Caron já havia explicado aos outros o que era o Portal do Caos e o potencial desastre que ele poderia trazer se fosse concluído. Caron até descobriu que seu alvo provavelmente era a Grande Floresta do Sul.
— É para lá que eles vão mirar — continuou Caron. A Grande Floresta do Sul não era apenas o lar de elfos e outras raças. Era famosa pela Árvore do Mundo. Muito provavelmente, essa árvore era o objetivo deles. Corrompê-la seria suficiente para contaminar a vasta floresta com mana negra.
Leon franziu a testa porque entendia exatamente o que um lugar como a Grande Floresta do Sul significava. Ela disse: — Os elfos não vão simplesmente sentar e deixar isso acontecer.
— Mas eles estão isolados do contato humano há muito tempo. Provavelmente não estão preparados — disse Caron. Ele sabia disso por Néria, a elfa que ele havia resgatado em Reben. Os elfos apenas sentiram que algo estava errado, mas não entenderam exatamente o quê.
E se o Portal do Caos se abrisse nesta situação, a Grande Floresta do Sul seria devastada. Felizmente, eles ainda tinham tempo, pois o ritual de invocação ainda não havia começado.
— Então, qual é o plano? — perguntou Leon.
Caron deu de ombros e respondeu: — Primeiro, precisamos descansar e restaurar nossa mana. Estar perto da Grande Floresta do Sul deve tornar seu treinamento de mana mais eficiente, certo?
— Então, começar com a recuperação? — Leon confirmou.
— Impedir o Portal do Caos é bem simples. Nós apenas encontramos o invocador e o rasgamos em pedaços. Feito — explicou Caron.
— Isso soa um pouco simples demais, não acha? — perguntou Leon.
— Pense nisso como um resumo — disse Caron. Ele tinha visto o Portal do Caos com seus próprios olhos antes. Em sua vida anterior, o Imperador Malevolente o havia invocado no Palácio Imperial. Ele se lembrava muito bem da devastação que havia desencadeado.
— Um verdadeiro membro da Família Ducal de Leston deve impedir o Portal do Caos pelo menos uma vez na vida — disse Caron com um sorriso irônico.
— Mas nós nem sequer localizamos o invocador ainda — apontou Leon.
Caron deu uma leve sacudida em Guillotine, então respondeu: — Felizmente para nós, temos um rastreador habilidoso. Guillotine nos guiará.
Acomodando-se no chão, Caron exalou suavemente. Percebendo Leo ainda pendurado nas costas de Utula, ele chamou: — Ei, Leo, chega de brincadeira e comece seu treinamento de mana. Você precisa recuperar sua mana para lutar ou fazer qualquer coisa, certo? Não posso tirar os olhos de você por um segundo.
Cansado demais para responder, Leo escorregou das costas de Utula e imediatamente começou a treinar sua mana, enquanto Leon também fechou os olhos para começar seu próprio ciclo de mana. Caron observou os dois, mentalmente passando por vários cenários.
O Reino Sagrado... Eles são a carta curinga, ponderou Caron.
Afinal, a mana sagrada era incrivelmente eficaz contra a mana negra. Talvez o Reino Sagrado já estivesse ciente da situação e tomando medidas. Isso poderia ser útil, mas havia uma preocupação.
Aqueles fanáticos... Eles são imprevisíveis, pensou Caron.
Até mesmo os anciãos da família frequentemente os alertavam para evitar confrontos com os fanáticos do Reino Sagrado, porque eles eram impossíveis de antecipar e evitavam aqueles sem fé. E se os fanáticos de alguma forma cruzassem o caminho dos elfos...
— Só de imaginar é aterrorizante — murmurou Caron para si mesmo. Uma sensação de certeza se instalou. — Isso pode ser um desastre...
Esta missão estava se tornando tudo menos simples. Ainda assim, Caron balançou a cabeça, olhando para seus primos. A prioridade agora era deixá-los se recuperar.
***
Tarde da noite, Kirak e o grupo de refugiados caminhavam penosamente para o leste, apenas para dar de cara com um grupo de soldados.
— Parem! — ordenou um dos cavaleiros, sua voz aguda através de sua máscara de prata e armadura branca pura. Kirak os reconheceu imediatamente. Estes eram paladinos do Reino Sagrado. Apenas os cavaleiros do Reino Sagrado usavam armaduras tão imaculadas.
— Somos refugiados! — anunciou Kirak, dando um passo à frente como representante do grupo.
Um dos cavaleiros respondeu em uma voz baixa e solene: — Vocês vêm de uma terra contaminada por mana negra impura. Vocês são hereges?
— Não, não somos — respondeu Kirak rapidamente. — Nossa vila... Nossa vila foi simplesmente atacada por monstros demoníacos.
— Os amaldiçoados são facilmente levados à loucura. Julgar seus pecados é nosso dever! Ajoelhem-se imediatamente! — A voz do cavaleiro não admitia discussão. Os refugiados, intimidados, caíram de joelhos imediatamente. Padres de trás dos cavaleiros começaram a se mover pelo grupo, aspergindo água benta sobre eles.
Kirak observou seus movimentos nervosamente.
Esta terra ainda pertence ao Reino de Keath... pensou ele. Mas a força de paladinos e padres parecia muito grande, mais de cem. Eles deviam estar conduzindo operações militares. Na vila de Laia, a leste, não era incomum ver paladinos e padres aparecerem de tempos em tempos. Mas eles geralmente vinham para missões voluntárias. No entanto, esta força era muito grande para ser considerada uma mera missão voluntária.
Enquanto Kirak avaliava as tropas do Reino Sagrado, os paladinos parados em seu caminho se afastaram para revelar um padre vestido com vestes de branco puro, caminhando lentamente em sua direção.
— Dada a situação, peço que perdoe nossa cautela — disse o padre, sua voz calma e suave.
Kirak se viu curvando a cabeça instintivamente ao responder: — Não precisa se desculpar.
O padre exalava uma aura de reverência que Kirak só havia sentido de funcionários de alto escalão do Reino Sagrado no passado. Mantendo a cabeça baixa, Kirak continuou: — Somos refugiados da vila de Yusla. A vila foi destruída, e estou liderando os sobreviventes para a cidade de Laia.
— Sinto muito por sua perda — disse o padre gentilmente, parando diante de Kirak e colocando a mão em seu ombro. — Que a luz radiante dissipe a escuridão que caiu sobre você.
Com uma breve oração, uma luz quente e brilhante fluiu da mão do padre para o corpo de Kirak, lavando seu cansaço como se tivesse derretido no ar. Sua mente se sentiu mais nítida e clara.
Kirak olhou para cima, encontrando o olhar do padre. O homem tinha cabelo platinado e olhos castanhos brilhantes que irradiavam inteligência. Verdadeiramente, não havia ninguém que incorporasse a nobreza mais do que este padre.
— Você está se sentindo melhor? — perguntou o padre com um sorriso caloroso.
Kirak deu a ele um aceno cauteloso e respondeu: — Sim, obrigado.
— É nosso dever como padres oferecer um refúgio seguro para aqueles que fogem das garras do mal — disse o padre. — Daqui para Laia, seu caminho deve estar livre de perigo. No entanto...
Seu olhar se desviou lentamente para a cintura de Kirak, pousando na pequena bolsa de couro que Kirak carregava. Ele disse gentilmente: — Parece haver algo nessa bolsa. Posso ver?
Embora o tom fosse gentil, Kirak sentiu uma pressão repentina. Ele teve a sensação de que desafiar o pedido levaria a sérias consequências.
A pedra dada a mim pelo cavaleiro está na bolsa, pensou Kirak. Era para repelir monstros. Ele se perguntou se havia algo de errado com ela.
Como Kirak hesitou e permaneceu em silêncio, o padre se virou para um paladino próximo com um sorriso paciente. Em um instante, o paladino arrancou a bolsa rudemente. Momentos depois, a bolsa revelou uma pedra, brilhando com uma luz azul escura.
— ...Isto é interessante — murmurou o padre, pegando a pedra com uma delicada mão branca. Ele a examinou em silêncio, virando-a pensativamente.
— Não é mana negra, mas contém um poder profano — disse ele finalmente. — Parece que alguém infundiu esta pedra com um feitiço deliberado. Estou correto?
Kirak manteve a boca fechada, sentindo a tensão no ar. Falar imprudentemente poderia prejudicar seus benfeitores.
No entanto, um paladino ao lado dele desembainhou sua espada e o pressionou, gritando: — Responda ao padre imediatamente!
Mas o padre levantou a mão, sinalizando para o paladino parar.
— Este homem é inocente, Sir Haken. Como podemos ser tão rudes com alguém que perdeu sua casa? — disse ele com um sorriso tranquilizador. — Eu respeito a convicção. Certamente, você tem seus motivos para permanecer em silêncio. Você pode manter suas crenças.
O tom ameno do padre deixou Kirak ligeiramente à vontade, mas ele respondeu hesitante: — Obrigado—
— Mas assim como você honra sua convicção, eu também devo defender a minha, para erradicar o mal onde quer que ele se esconda. Espero que entenda — disse o padre enquanto colocava as duas mãos sobre a cabeça de Kirak, canalizando uma luz branca brilhante.
— Ahh... — Um gemido escapou dos lábios de Kirak enquanto ele sentia a luz queimando em sua mente, como se estivesse limpando seus pensamentos. Ele não sabia quanto tempo se passou antes de cair no chão, inconsciente.
O padre finalmente removeu suas mãos, olhando para Kirak com um sorriso conhecedor. — ...Então foi isso que aconteceu — murmurou ele, estudando o homem caído pensativamente antes de se virar para o paladino. — Designe um dos cavaleiros para vigiar esses refugiados.
— Não precisamos limpá-los? — perguntou um dos paladinos.
— Suas almas estão imaculadas — respondeu o padre, recordando o que havia vislumbrado nas memórias de Kirak. A pedra continha a energia profana de uma espada. Era uma lâmina negra, quase viva com malícia, destinada a interferir em nossa missão sagrada.
— Parece que temos um intruso esperando para perturbar nossa cruzada — disse Elijah, o Santo do Reino Sagrado, com um sorriso. — Precisaremos agir rapidamente.
Apenas aqueles que serviam à Luz poderiam ter a honra de lidar com o mal.
— Vamos prosseguir. Pela Luz radiante! — disse o padre.
— Sim, Santo — responderam os paladinos.
O santo não tinha intenção de ceder tal glória ao profano. Os fanáticos mais uma vez avançaram.