
Capítulo 52
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 52
Caron fitava o rosto de Halo em silêncio. Ele já esperava por isso. Apesar de Halo parecer indiferente na maior parte do tempo, Caron conseguia ver em seus olhos a preocupação escondida sob a severidade. Esse tipo de consideração não era tão incomum para ele.
Ele se lembrou das palavras que Halo, que sempre fora brincalhão, disse a ele em seus momentos finais. Halo havia lhe dito para sobreviver e, por favor, fugir. A consideração demonstrada agora não era muito diferente de antes. Embora o tom de Halo soasse como uma bronca na superfície, o que estava escondido por baixo era um desejo de proteger seu neto.
— Você tem alguma objeção? — Halo perguntou em voz baixa.
Caron balançou a cabeça firmemente e respondeu: — Não, chefe da família. Seguirei sua ordem.
O tom de Caron havia mudado para um mais sério do que antes. Até a maneira como ele se dirigia a Halo havia mudado de "Vovô" para "chefe da família".
— Mesmo? Nem uma única reclamação? — Halo insistiu.
— Nenhuma — Caron respondeu resolutamente.
Halo estudou o rosto de Caron em silêncio. O garoto ainda era tão jovem. Caron estava em uma idade em que qualquer um sentiria que a decisão tomada era injusta. Mas não havia nenhum traço de ressentimento na expressão de seu neto. Normalmente, Caron teria resistido ou protestado. Mas agora, ele simplesmente aceitou a ordem com uma postura calma.
— Você se saiu admiravelmente nesta jornada. Você até desempenhou um papel fundamental na parada da súcubo que atacou o palácio. Você não esperava uma recompensa por seus feitos? — Halo perguntou.
— Confio que cada ordem sua tem um propósito. Desafiá-lo seria indigno de alguém da família Leston — Caron respondeu, sua voz firme.
Caron tinha sido um neto brincalhão até então, mas naquele momento, ele falou não como uma criança, mas como um membro legítimo do ducado.
— Parece que você aprendeu alguma coisa — Halo observou, percebendo que algo profundo havia mudado em seu neto.
— O que você tirou desta jornada? — ele perguntou, curioso sobre o que havia provocado essa mudança.
Caron não hesitou e respondeu: — Percebi o quão carente eu sou. Isso é tudo.
— Você abriu seu quinto oceano aos treze anos. E ainda acha que é carente? Uma ambição exagerada muitas vezes leva à queda de alguém — Halo disse.
— Mesmo assim, ainda não sou suficiente — Caron insistiu.
Halo viu algo nos olhos de Caron. Era uma determinação feroz que ele não havia testemunhado antes. Era o olhar de alguém movido por um firme senso de propósito, uma determinação mais intensa do que qualquer coisa que ele já tivesse sentido em Caron. Não havia dúvida de que um novo objetivo havia se enraizado em Caron.
— Antes da súcubo desaparecer, ela me disse algo — Caron disse.
— O que é? — Halo insistiu.
— Ela disse que estaria me esperando além do Mar do Norte. E que o rei estava esperando. Então, eu tenho que te perguntar, chefe da família. — Caron olhou diretamente para Halo. — O que exatamente está além do Mar do Norte?
O gélido Mar do Norte, um lugar conhecido por tocar a borda do mundo, estava envolto em inúmeras lendas. Mas para a família Leston, ele tinha um significado muito mais profundo. Era sua origem, o lugar onde o dragão guardião da família residia.
Caron nunca tinha sido informado sobre os segredos do Mar do Norte. Halo estudou o rosto de seu neto ousado e respondeu em voz baixa: — Você descobrirá quando a hora chegar.
— ...Você não pode me contar? — Caron perguntou.
— Você ainda não está pronto — Halo respondeu firmemente.
Esse era o destino que aguardava aquele escolhido por Guillotine, a espada que havia decapitado inúmeros demônios. Ser escolhido por essa espada significava que um dia, Caron teria que aceitar esse destino também. Sabendo disso, tudo o que Halo podia fazer por ele agora era aprimorá-lo ainda mais, preparando-o dentro da segurança do Castelo Azureocean.
Isso é o que devo fazer por você e por nossa família, Halo pensou enquanto olhava silenciosamente para seu neto.
— Você tem mais alguma coisa a dizer? — ele perguntou.
— Sim, tenho um pedido — Caron respondeu.
— Qual é?
— Devo uma grande dívida ao Sexto Príncipe. Ele ajudou a curar meus ferimentos internos me dando o orvalho da Árvore do Mundo. Eu gostaria de retribuir a ele por isso — Caron disse.
Halo assentiu lentamente com as palavras de Caron e respondeu: — Esse assunto já foi resolvido. O Sexto Príncipe está atualmente descansando em seu próprio palácio. Nenhuma suspeita recaiu sobre ele em relação a este incidente. No entanto, ele violou o acordo de longa data entre a família imperial e nossa casa, então, por isso, ele enfrentará as consequências apropriadas.
— Um acordo? — Caron perguntou.
— Uma das condições que estabelecemos quando destronamos o Imperador Malevolente era que ninguém de sangue real poderia aprender magia. O Sexto Príncipe ignorou esse pacto. Como resultado, designaremos um esquadrão da Ordem dos Cavaleiros Lobo do Oceano para vigiá-lo. O imperador e eu já discutimos isso, então esteja ciente — Halo explicou.
Embora Halo chamasse de "vigiar", não era uma verdadeira vigilância. A presença da Ordem dos Cavaleiros Lobo do Oceano significava que a família Leston estava, de fato, oferecendo proteção ao príncipe. Parecia que a aposta de Revelio tinha valido a pena. Seu plano de sobreviver aliando-se à família Leston tinha funcionado. Halo havia estendido o maior favor que ele poderia oferecer ao Sexto Príncipe.
Caron finalmente sorriu com um aceno de cabeça e respondeu: — Isso é um alívio.
— Ainda não identificamos o verdadeiro culpado por trás deste incidente — Halo continuou. — Por enquanto, permaneceremos no palácio. Vocês devem ficar perto de Zerath. Depois que seu corpo se recuperar, concentre-se em seu treinamento de mana para curar o resto de seus ferimentos internos.
— Não parece haver um lugar adequado para o treinamento de mana aqui... — Caron disse.
— Já providenciei a cooperação da Guarda Imperial. Você pode usar suas instalações. Entendido? — Halo respondeu.
Caron percebeu que seu avô não havia se esquecido do pedido que ele havia feito antes sobre a visita à guarda imperial. Havia um senso de cuidado silencioso escondido sob a грубая demeanor de Halo.
Caron se curvou profundamente em gratidão e disse: — Obrigado, chefe da família.
— Descansem bem. E Zerath, estou contando com você para cuidar deles — Halo instruiu.
— Sim, chefe da família — Zerath respondeu.
Halo, tendo avaliado a situação rapidamente, deixou o quarto do hospital. Aqueles que permaneceram olharam silenciosamente para a porta por onde ele havia saído.
Depois de um tempo, Caron quebrou o silêncio falando com Zerath. — Ele disse que está contando com você.
— E... daí? — Zerath respondeu.
— Se Sir Zerath estiver ao nosso lado, não tenho nada com que me preocupar. Tudo bem se eu sair mais tarde para visitar a casa do meu outro avô? Ah, e Hugo ainda está lá fora, não está? — Caron perguntou.
— O Jovem Mestre Hugo está atualmente a caminho do palácio. Quanto aos seus avós, falarei com o chefe da casa para marcar um horário para você visitar — Zerath disse.
— Viu? Você é o melhor, Sir Zerath — Caron disse, sorrindo amplamente. — Então, que tal tirarmos uma soneca por mais um tempo e depois visitarmos a Guarda Imperial esta noite?
A mana do orvalho da Árvore do Mundo ainda estava circulando por Caron, não absorvida. Embora não fosse um problema imediato, a energia poderia se dissipar se não fosse devidamente controlada. Treinar em um ambiente de mana concentrada seria mais eficiente. Embora não tão potente quanto a Azure Mana do Castelo Azureocean, as salas de treinamento da Guarda Imperial, como mencionado por Halo, ainda ofereceriam um nível decente de eficiência.
— Amy — Caron chamou enquanto se deitava na cama.
— Sim, Jovem Mestre Caron? — Amy respondeu.
— Me mostre a sede da Guarda Imperial mais tarde. Estou curioso — Caron respondeu.
Ele se perguntou o quanto havia mudado nos últimos anos e se ainda havia vestígios de cinquenta anos atrás lá.
Amy riu de sua curiosidade com um aceno de cabeça e disse: — Claro, Jovem Mestre Caron.
— É melhor dar uma boa olhada antes de começarmos a treinar — Caron acrescentou. — Ah, a propósito, Sir Zerath, há algo que eu queria perguntar.
— Vá em frente — Zerath respondeu.
Caron se inclinou e sussurrou algo baixinho para o cavaleiro. Zerath ouviu atentamente, então deu um pequeno aceno de cabeça antes de responder: — Isso deve ficar bem.
— Certo? — Caron respondeu com um sorriso malicioso.
— Mas vou verificar sua condição após o treinamento. Se vou conceder seu pedido dependerá de como você está se sentindo — Zerath respondeu.
— Justo o suficiente — Caron concordou.
Com isso, ele lançou um olhar travesso para Amy, que levantou uma pergunta cautelosa. — Aconteceu alguma coisa?
— Não, nada. Você deveria descansar também, Amy — Caron disse casualmente.
Amy não conseguiu se livrar do calafrio que de repente percorreu sua espinha. Algo no sorriso de Caron parecia um pouco sinistro demais para ser confortável.
A atmosfera dentro do Palácio Imperial era terrível. O fato de um demônio ter aparecido em um lugar onde a Mana Negra foi mantida fora por cinquenta anos já era alarmante o suficiente. Mas a gravidade da situação aumentou quando o próprio Duque Halo teve que intervir para resolver a crise. Esses dois desenvolvimentos foram suficientes para mergulhar o palácio em um estado de agitação.
O palácio foi fechado e todos, independentemente do status, tiveram que passar por uma investigação da família Leston. Aqueles que viveram no palácio por tempo suficiente foram lembrados da tragédia de cinquenta anos antes. E para aqueles que não estavam familiarizados com aquele evento, este incidente os fez perceber o quão poderosa a família Leston era. Mais precisamente, lembrou-os da força de Halo Leston, que era conhecido como o mais forte do continente.
Enquanto isso, de volta ao Castelo Azureocean, os filhos de Halo se reuniram para discutir os eventos recentes. Para ser mais específico, eles estavam discutindo Caron.
— Rumores sobre Caron estão por toda parte — disse o filho mais velho de Halo, Dales, olhando para seu irmão mais novo com um sorriso. — As pessoas estão dizendo que ele é o verdadeiro herdeiro do Grão-Duque Halo, que ele é o mais talentoso do continente. Você deve se sentir orgulhoso, Fayle.
Fayle, no entanto, não compartilhou a leveza de seu irmão. Sua expressão era sombria quando ele respondeu: — Caron quase morreu, Dales. Esses rumores não são o que importa.
— Mas no final, tudo acabou bem, não é? — Dales respondeu, seu sorriso vacilando ligeiramente.
— Acabou bem? — A voz de Fayle se elevou com raiva. — Estou furioso porque meu filho foi exposto a tanto perigo em primeiro lugar!
— ...É por isso que o pai interveio pessoalmente. Isso é— — Dales disse.
— E a Ordem dos Cavaleiros Lobo do Oceano? O que nossa casa tem feito? Uma súcubo rastejou para fora do palácio e não pudemos fazer nada. O que exatamente temos feito todo esse tempo? — Fayle exigiu, sua frustração fervendo enquanto ele olhava para seus irmãos.
— Não só o trem em que ele estava foi atacado, mas também houve um ataque no palácio. Duas vezes! Perdemos dois sinais de alerta claros. Não é demais descartar isso como um mero engano? — Fayle rugiu furiosamente.
Seu filho quase morreu. Não uma, mas duas vezes. E o fato de que Caron só sobreviveu graças à sua própria força fez Fayle se sentir culpado como pai por não ser capaz de proteger seu filho. Esse pensamento pesava muito em seus ombros. O dever de um pai era garantir que seus filhos estivessem a salvo do perigo e, no entanto, ele havia falhado.
Depois que Fayle expressou sua raiva, o segundo filho de Halo, Raphael, rangeu os dentes e falou. — Fayle está certo, Dales. Esta não é uma situação para ser levada levianamente.
— Raphael — Dales começou.
— O que os informantes que você tanto elogiou têm feito todo esse tempo? — Raphael retrucou, apoiando Fayle.
Diante de sua repreensão, Dales só pôde permanecer em silêncio e olhar para os dois.
Ele podia entender a raiva de Fayle, porque desde que ele deixou o Castelo Azureocean, Fayle estava encarregado de gerenciar os empreendimentos comerciais da família. Enquanto isso, detectar riscos com antecedência, ou em outras palavras, gerenciar os informantes da família, sempre foi responsabilidade de Dales.
Dales pensou que era natural que Fayle e Raphael estivessem furiosos com ele. No entanto, ao contrário de Fayle, havia algo mais por trás das palavras de Raphael; era algo mais calculado.
Que tolo, Dales ponderou silenciosamente.
Parecia que Raphael estava tentando usar esta oportunidade para responsabilizá-lo, visando obter uma vantagem na sucessão. O que Raphael realmente queria era chegar a uma posição favorável através deste incidente.
Não sou eu que você deveria estar tentando derrubar, Dales pensou.
Caron, aquele sobrinho insolente dele, provou demais durante esta viagem à capital. Caron não era mais alguma ameaça espreitando nas sombras. Ele agora era um perigo claro e presente, de pé bem diante deles. E talvez...
Caron pode ser ainda mais perigoso que Raphael, Dales pensou.
A ascensão repentina do jovem garoto à fama tinha o potencial de abalar toda a estrutura de sucessão até o seu âmago. Ele ganhou demais, cedo demais.
Dales não conseguia esquecer a expressão no rosto de seu pai no dia anterior. Quando a notícia chegou a Halo de que Caron havia sido atacado, o rosto do Duque se contorceu de raiva. Apesar dos anciãos da família tentarem impedi-lo, Halo insistiu em ativar o círculo de teletransporte para o palácio ele mesmo. Aquele momento revelou o quão profundamente Halo se importava com Caron.
— Vou me retirar — Fayle disse friamente enquanto se levantava de seu assento. — Alguém precisa ser responsabilizado por isso.
Com essas palavras, Fayle deixou a sala de reuniões. Raphael o seguiu logo depois, deixando Dales sozinho.
Por um momento, Dales simplesmente sentou lá, então removeu seus óculos e os colocou sobre a mesa antes de passar as mãos sobre seu rosto em frustração.
— Ha — ele suspirou profundamente.
Depois do que pareceu uma eternidade de reflexão, Dales pegou o orbe de comunicação sentado em sua mesa. O orbe zumbiu suavemente enquanto se conectava e, logo, uma voz veio do outro lado.
— O que é? — perguntou a voz, firme e direta.
Em voz baixa, Dales respondeu: — Sou eu, Ancião. Preciso falar com você em particular. Há algo importante que preciso discutir.
— Agora não é o melhor momento — o ancião respondeu.
— Isso é para o bem da família — Dales argumentou.
Uma pausa se seguiu antes que o ancião finalmente respondesse: — ...Tudo bem. Irei até você em breve. Espere por mim.
Enquanto a conexão terminava, Dales encostou-se em sua cadeira, fechando os olhos, e pensou em seu sobrinho mais novo.
A escolha é sua agora, Caron, ele pensou.
Em breve, Caron teria que tomar uma decisão. Caron viria sob a asa protetora de seu tio tão bondoso?
Ou ele se tornará meu inimigo? Dales pensou.