O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 24

O Cão Louco da Propriedade do Duque

Capítulo 24

Mais um dia se passou e, de repente, chegou a hora de Caron e Leo partirem para a capital. Consequentemente, a manhã no Castelo Azureocean estava particularmente agitada.

“Vocês checaram os fraques que os jovens mestres usarão?”, perguntou um dos criados da casa.

“Sim, já checamos”, veio a resposta.

“E as vestimentas formais para a audiência com Sua Majestade?”

“Sim, eu as verifiquei minuciosamente!”

A visita dos netos do duque à capital não seria um evento pequeno. Além de suas vestimentas, muitas outras coisas tiveram que ser preparadas. Visitar o palácio imperial exigia muitos presentes, então vários dos criados da casa os acompanhariam à capital. Eles eram necessários para transportar as roupas e os presentes. E entre eles havia uma nova adição.

“Jovem Mestre! Muito obrigado por mudar de ideia. Farei o meu máximo para servi-lo bem!”, declarou Urhan, o novo criado do Castelo Azureocean, fervorosamente.

Urhan era bastante capaz quando se tratava de tarefas físicas, então Caron respondeu displicentemente: “Você sabe por que estou levando você para a capital?”

“Não tenho certeza, Jovem Mestre!”, respondeu Urhan.

“Estou planejando jogar você na masmorra da capital”, disse Caron secamente.

“…J-Jovem Mestre!”, gaguejou Urhan em choque.

“Eh, sua reação é entediante. Deixa pra lá, vá ajudar os outros. Você precisa merecer seu salário, não é?”, disse Caron.

Urhan, aliviado por ser dispensado, correu para ajudar os outros criados.

“Você realmente é malvado, Caron”, comentou Leo, balançando a cabeça enquanto observava Caron importunando Urhan.

Caron apenas lançou-lhe um olhar de soslaio e perguntou: “Mas você não está grato?”

“Pelo quê?”, respondeu Leo.

“Graças a Urhan, estou incomodando você menos”, apontou Caron.

Leo ficou em silêncio, percebendo a verdade nas palavras de Caron.

Ele realmente é um demônio, pensou. Ele não pôde deixar de se sentir um pouco grato a Urhan. Talvez ele lhe desse escondido um pouco de carne seca quando Caron não estivesse olhando.

Enquanto os dois garotos brincavam enquanto esperavam, um homem vestido com armadura se aproximou deles.

“Vocês não estão nem um pouco nervosos?”, perguntou o homem. Era Hans, o líder do segundo esquadrão, que havia sido designado para escoltar os dois netos em sua jornada para a capital.

Hans tinha um pequeno hematoma na bochecha de um duelo com Caron no dia anterior. Caron não pôde deixar de rir quando notou. Ele respondeu: “Por que estaria nervoso? Só de olhar para sua cara, qualquer tensão desaparece”.

Hans suspirou exasperado e disse: “Quantas vezes tenho que te dizer que eu deixei você ganhar? Você pode ser realmente frustrante, sabia?”

“Talvez você devesse usar um pouco de maquiagem. Você não quer aparecer na frente daqueles Imps com um rosto machucado, quer?”, provocou Caron.

“Bem, vendo o quão falante você está, tenho certeza de que não está se sentindo nervoso nem um pouco. Que bom”, respondeu Hans com um sorriso, estudando os dois jovens mestres à sua frente.

Essa missão foi a primeira que Hans assumiu desde sua lesão, e era uma missão crucial. Ele foi encarregado de proteger os jovens mestres durante sua jornada para a capital. A jornada para a capital seria feita de trem, então provavelmente não haveria grandes problemas ali. A principal parte de sua missão seria detectar e eliminar quaisquer ameaças assim que chegassem à capital. Infelizmente, a família Leston tinha muitos inimigos para contar.

Hans decidiu deixar de lado seu tom brincalhão e falou com Caron e Leo de uma maneira mais séria. “Antes de partirmos, preciso que vocês dois me prometam algo. Se nos encontrarmos em uma situação perigosa, suas vidas têm prioridade acima de tudo. Nosso trabalho é protegê-los. Entenderam?”

Caron e Leo treinaram com os cavaleiros, mas ainda eram descendentes diretos da família Leston. Ninguém ousaria ameaçar a família Leston, mas eles foram ensinados a sempre se preparar para o pior. Hans queria se certificar de que eles entendessem seu papel nessa missão. Eles eram os que deveriam ser protegidos, não os protetores.

A gravidade das palavras de Hans não escapou a Caron.

“Entendi, Hans. Mesmo que todo o segundo esquadrão seja eliminado, eu vou correr sem olhar para trás”, respondeu Caron.

“Obrigado por dizer isso, Jovem Mestre Caron. Você deve se lembrar e cumprir sua palavra”, disse Hans.

“Então, mesmo que você esteja me implorando para salvá-lo com lágrimas nos olhos, eu ainda devo correr, certo?”, provocou Caron.

“…Exatamente”, respondeu Hans com um toque de resignação em sua voz.

“Entendi. Compreendo completamente”, disse Caron em seu tom casual, como se quisesse afastar a seriedade da conversa. Na verdade, ele não esperava que nada de extraordinário acontecesse.

No passado, eles teriam viajado de carruagem, expondo-se a vários perigos ao longo do caminho. Mas agora, eles estavam pegando o trem. Os trilhos em que os trens corriam eram legalmente propriedade da família imperial, o que significava que qualquer ataque ao trem ou aos trilhos seria considerado um ato de traição.

Caron puxou um pedaço de carne seca do bolso direito e colocou na boca. Ele perguntou impacientemente: “Quando vamos partir de verdade? Se eu soubesse que iríamos esperar tanto tempo, teria ido para os campos de treinamento para mais uma rodada de duelos”.

“Lá vem o Mestre Fayle. Parece que ele veio se despedir de vocês”, disse Hans.

Com certeza, Fayle estava se aproximando à distância. Caron esperava que Halo viesse pessoalmente se despedir dele, mas parecia que o chefe da família tinha outras prioridades.

Com um sorriso largo, Caron cumprimentou Fayle. “Você está aqui, Pai?”

“Sim. Você arrumou tudo?”, perguntou Fayle com um tom carinhoso.

Em resposta, Caron sacudiu levemente a bainha de sua espada, Guillotine. Ele comentou: “A única coisa que eu precisava arrumar era a minha espada”.

“O resto já deve ter sido resolvido. Heinrich verificou tudo três vezes”, respondeu Fayle, sorrindo enquanto gentilmente bagunçava o cabelo de Caron. Não importava o que dissessem, Caron ainda era seu amado filho.

“Já falei com seu avô na capital”, acrescentou.

“O que ele disse?”, perguntou Caron.

“Ele me repreendeu, dizendo que eu deveria ter contado a ele há um mês. Haha… Ele gosta muito de você, sabia? Ele provavelmente está ocupado agora preparando presentes para o neto dele”, respondeu Fayle.

Caron não via o avô materno desde antes de vir para o Castelo Azureocean. Recordando o rosto do avô, ele sorriu suavemente. Assim como seus pais, seu avô era alguém que o cobria de amor incondicional. A ideia de vê-lo depois de tanto tempo animou Caron.

“Apenas volte em segurança”, disse Fayle.

“Não se preocupe, não vai acontecer muita coisa”, respondeu Caron.

“E tente não se meter em muita confusão”, lembrou Fayle.

“Hmm… Isso pode ser difícil… Mas farei o meu melhor”, disse Caron. Ele originalmente planejava causar caos na capital, mas ouvir o pedido sincero de Fayle suavizou sua determinação.

Talvez apenas três incidentes, pensou Caron.

Essa viagem marcaria a primeira vez que ele entraria oficialmente no mundo da nobreza. Três incidentes pareciam o número certo para deixar uma forte impressão neles.

“Eu entro em contato quando chegar à capital!”, acrescentou Caron com um sorriso brilhante.

Pouco depois, Heinrich se aproximou deles, tendo concluído as verificações finais. Ele disse: “Toda a bagagem foi carregada a bordo. Vocês podem partir quando estiverem prontos”.

Finalmente era hora de ir para a capital.

***

O trem com destino à capital era composto por quatro vagões no total. Caron, Leo e Hans estavam sentados no primeiro vagão, enquanto o segundo vagão era ocupado pelo segundo esquadrão da Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf. Os vagões restantes eram para os criados e a bagagem que acompanhariam Caron e Leo na capital.

Whoosh.

Um zumbido baixo encheu a cabine quando o motor de mana do trem ligou. No entanto, acima daquele ruído constante, o som do ronco de Leo ecoou pelo vagão. Caron olhou para o primo adormecido e estalou a língua levemente.

“Jovem Mestre Caron, você pode dormir também se quiser”, sugeriu Hans.

“Estou bem. Você deveria descansar um pouco”, respondeu Caron.

“Você está planejando me denunciar ao capitão por negligenciar meu dever?”, perguntou Hans com um sorriso malicioso.

“Uau, Hans. Você ficou bem esperto. Você é uma pessoa completamente diferente da minha primeira impressão de você”, provocou Caron.

“Agora você me deixou curioso para saber qual foi a sua primeira impressão de mim”, disse Hans.

“Se eu te contasse, provavelmente machucaria seus sentimentos”, respondeu Caron.

Brincadeiras como essa eram uma forma de os Cavaleiros Oceanwolf aliviarem seu nervosismo. Era importante manter um certo nível de alerta, mas ficar muito tenso poderia ser tão perigoso quanto ficar relaxado demais.

“Quando chegarmos à capital, você vai estar bem ocupado. Há vários banquetes obrigatórios que você precisará comparecer”, lembrou Hans.

“As pessoas podem começar a pensar que você é meu secretário”, gracejou Caron.

“Se não for eu, quem mais cuidaria de vocês, jovens mestres? Com uma agenda tão lotada, vocês podem não dormir o suficiente. É uma boa ideia dormir enquanto podem”, aconselhou Hans.

“Não importa como você olhe para isso, essa agenda é muito pesada para um garoto em crescimento”, reclamou Caron.

“Mas como neto de um grande herói, é um dever que você deve cumprir”, respondeu Hans.

Caron já havia sido informado sobre os banquetes que eram obrigados a comparecer na capital. O mais proeminente deles era o banquete imperial que o próprio imperador organizaria em homenagem a Caron e Leo. O evento seria frequentado pelos nobres mais influentes da capital, juntamente com os principais jogadores de poder do império. Seria a estreia oficial de Caron e Leo na alta sociedade.

Ugh, eu realmente não quero ir, pensou Caron.

Ele se lembrou do banquete imperial que havia comparecido em sua vida anterior. Naquela época, havia sido uma experiência completamente entediante. A única pessoa que se preocupou em falar com ele foi Halo. Todos os outros o ignoraram porque ele nasceu escravo.

Mas as coisas seriam diferentes desta vez. Agora, ele não era um cavaleiro que já tinha sido um escravo, mas sim um membro da ilustre Família Ducal de Leston.

“Duelar seria mais produtivo do que perder tempo em um banquete”, resmungou Caron, tornando evidente seu desprezo por tais eventos.

“Você não está interessado em conhecer nenhuma jovem nobre? Treze anos geralmente é a idade em que se começa a sentir curiosidade pelo sexo oposto”, disse Hans.

“Não muito”, respondeu Caron secamente.

A memória dos olhares frios e desdenhosos que ele havia recebido de damas nobres em seu passado ainda permanecia. Não era uma lembrança agradável. Ele preferiria passar esse tempo praticando sua esgrima ou lendo na biblioteca da academia.

“Hmm. Não foi você quem mencionou querer se tornar um encrenqueiro?”, perguntou Hans com um tom provocador, lembrando Caron de uma conversa bêbada que eles haviam compartilhado.

Caron assentiu e perguntou: “O que isso tem a ver com comparecer a banquetes?”

“Um encrenqueiro de verdade geralmente tem uma história complicada com mulheres”, disse Hans.

Caron realmente achou isso bastante lógico. Ele respondeu: “Esse é um bom conselho, Hans. Agora que penso nisso, até o vovô era um grande charmoso na adolescência dele”.

“…Eu me abstenho de comentar sobre isso”, disse Hans.

“Vou considerar isso, mas não prometo nada”, respondeu Caron.

Enquanto eles brincavam com o som do ronco de Leo como ruído de fundo, a voz do condutor ecoou pelo vagão do trem.

“Estamos prestes a entrar no Território Autônomo de Thebe.”

Já se passaram três horas desde que eles deixaram o Ducado de Leston, e o trem agora estava entrando em Thebe.

“Eu já estive aqui antes”, disse Hans enquanto a conversa naturalmente mudava para seus arredores.

Pela janela, vastos campos se estendiam até onde a vista alcançava. Ao contrário do terreno montanhoso do Baronato de Belrus, essa terra era rica e fértil, aparentemente à beira da estação de colheita com a aproximação do verão.

“Thebe é muito mais próspero do que Belrus. O território é vasto e mais focado no comércio e na indústria do que na agricultura”, explicou Hans.

“É também onde o dinheiro mais flui no império”, observou Caron.

“Isso mesmo. Neste lugar, dinheiro é poder. Eles até contratam a Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf para grandes tarefas de tempos em tempos”, acrescentou Hans.

A Ordem dos Cavaleiros Oceanwolf não aceitava apenas trabalhos por dinheiro. Tinha que haver uma razão válida, como uma ameaça ao império, como um mago negro ou uma besta perigosa.

Outros nobres sempre desconfiavam de Thebe porque temiam que seus servos fugissem para o território mais rico. Muitos líderes eram cruéis o suficiente para apertar seu controle sobre seu povo por causa desse medo. Mas, apesar dessas tensões, Thebe prosperou, e havia uma razão para isso.

“O Território Autônomo de Thebe também paga os impostos mais altos à família imperial. Seu imenso poder financeiro permite que eles influenciem também a política central”, explicou Hans.

“E eles são amigáveis conosco”, acrescentou Caron.

“De fato. O Duque Halo é bastante popular entre o povo comum”, comentou Hans.

“Talvez, depois da agenda oficial, você e eu pudéssemos escapar para—”

Antes que Caron pudesse terminar sua frase, uma vibração repentina veio de Guillotine, que estava encostada na janela do trem. A espada zumbia com uma energia intensa que instantaneamente o colocou em alerta.

Por que ela reagiu de repente?, pensou Caron.

Desde sua primeira missão, ele tinha uma ideia aproximada do que Guillotine era capaz. Se sua espada reagisse, significava que problemas eram iminentes. Era um aviso prévio de algum desastre.

“Por que você parou no meio da sua frase?”, perguntou Hans, notando o silêncio repentino de Caron.

“Hans, diga ao esquadrão para ficar em alerta”, instruiu Caron. Ele então latiu: “Leo! Acorde!”

Caron deu um tapa forte no rosto de Leo. Leo acordou sobressaltado e olhou ao redor, perguntando sonolento: “O que está acontecendo? Já chegamos?”

“Apenas limpe a baba da sua boca e preste atenção”, respondeu Caron.

Ele decidiu avaliar rapidamente a situação. Eles estavam em um trem em movimento, e Heinrich havia verificado meticulosamente tudo antes de embarcarem. Magia de detecção havia sido usada várias vezes pelos magos para procurar quaisquer ameaças.

Não é uma traição, pensou Caron, descartando a possibilidade.

Os cavaleiros e criados que os acompanhavam estavam ligados à família, e seus próprios entes queridos estavam ficando para trás no Castelo Azureocean. Ninguém seria tolo o suficiente para colocar em risco a segurança de sua família traindo a família Leston. A suspeita passageira de que talvez os seguidores de seus tios pudessem estar envolvidos também passou por sua mente, mas ele a descartou rapidamente.

Não, isso seria ir longe demais, raciocinou Caron. Apesar de qualquer tensão, eles não iriam tão longe a ponto de sabotar um trem.

Com uma ameaça interna descartada, ele se concentrou no cenário mais provável.

Então, uma ameaça externa?, ponderou.

Era altamente provável que a ameaça viesse de fora do trem. Depois que Caron pensou sobre a situação, ele se virou para Hans e disse urgentemente: “Peça ao condutor para parar o trem imediatamente. E entre em contato com Thebe—”

Antes que Caron pudesse terminar suas instruções, uma explosão ensurdecedora sacudiu o trem.

Boom!

Tudo foi jogado no caos.

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