
Capítulo 17
O Cão Louco da Propriedade do Duque
Capítulo 17
"Ah... Ah..." Leo gaguejou, fitando o massacre que se desenrolava diante dele. Era incapaz de formar palavras coerentes. Seus dedos não se moviam, seu corpo estava paralisado pelo medo, e sentia uma onda de náusea subir em seu interior.
A causa daquele pesadelo era seu primo, Caron. Leo sempre soubera que Caron era um monstro. E não apenas isso, seu maldito primo, que o havia superado há muito tempo, era terrivelmente assustador. Mas Leo pensara que o combate real seria diferente. Aquela também era a primeira batalha real de Caron e, ao menos nesse aspecto, eles estariam na mesma situação.
"Que chato. Sinceramente, esperava mais", comentou Caron.
Leo agora percebia quão arrogante fora aquela esperança. Nem sequer um único grito escapara de seus inimigos. As gargantas dos bandidos haviam sido cortadas antes que pudessem emitir qualquer som, e seus corpos desabaram no chão.
Recordou a cena que Caron criara momentos antes. A espada escura e temível, com seu brilho azul misterioso, cortava os inimigos sem qualquer artifício. Não havia passos elaborados nem esgrima sofisticada, apenas um terror esmagador. Os bandidos haviam congelado como espantalhos em um campo de treinamento, e Caron caminhara entre eles, ceifando suas vidas como um fazendeiro colhendo trigo.
Cada vez que a espada azul escura reluzia, outra vida se extinguia. Aquilo sequer podia ser chamado de batalha? Não, era um massacre unilateral.
Com mãos trêmulas, Leo desembainhou Sylphid. Sabia que Caron não o atacaria, mas o medo ainda estava ali.
"Leo, eu te disse para fechar os olhos", disse Caron.
"V-Você nunca disse isso..." Leo gaguejou.
"Ah, não disse? Foi mal. Acho que era demais para um menor de idade ver", respondeu Caron com uma risadinha, sacudindo casualmente o sangue de sua espada.
Em seguida, aproximou-se do único homem que havia deliberadamente poupado. Dos treze bandidos, apenas um restava vivo. Até mesmo seu líder fanfarrão havia sido rapidamente decapitado. Não havia escapatória. As pernas do homem estavam congeladas por um medo indescritível.
"Agora, é hora de termos uma conversinha agradável, meu caro", disse Caron.
O homem tremia enquanto observava o garoto se aproximar. O fato de suas calças estarem molhadas com sua própria urina era o menor de seus problemas. Ele testemunhara em primeira mão a carnificina que o garoto havia causado. Aquele garoto era realmente forte, muito mais forte do que um mero desertor como ele. Sem chance de escapar, só lhe restava uma opção.
"E-Eu responderei a qualquer pergunta... Por favor, poupe minha vida", ele balbuciou.
"Comece com seu nome e de onde você é", disse Caron.
"Meu nome é Urhan. Sou um plebeu, então não tenho sobrenome. Servi na Terceira Divisão de Infantaria, Nono Regimento, Primeiro Batalhão do Reino de Keath", respondeu ele.
"Como esperado, você é de um dos reinos do sul. Aprecio sua atitude cooperativa", respondeu Caron. Ele caminhou e cravou sua espada azul escura no chão ao lado de Urhan, então colocou uma mão levemente em seu ombro antes de dizer: "Muito bem, Urhan. Então, você e seus camaradas são desertores, certo?"
"S-Sim, somos", Urhan confirmou.
"Quantos de vocês são, e há algo que eu deva observar?", Caron indagou.
"Éramos 130 no total. Algo notável... Entre nós, tínhamos um mago e seus dois guarda-costas", Urhan explicou.
"Um mago... Espere, há 130 desertores?", perguntou Caron.
"S-Sim, é isso mesmo", Urhan confirmou.
"Bem impressionante. Seu líder deve ter feito boas ações para ter tantas pessoas ao redor dele", ponderou Caron.
O número excedia em muito suas expectativas. A presença de um mago era particularmente preocupante. Magos eram profissionais altamente valiosos e qualificados, essenciais em diversas áreas, incluindo a engenharia mágica.
Mas tal mago estava se dedicando ao banditismo em uma aldeia montanhosa, e era até rico o suficiente para ser acompanhado por dois cavaleiros guarda-costas? Aquilo não podia ser explicado sem algum motivo.
"Houve uma razão específica para sua deserção?", perguntou Caron.
"Nosso líder prometeu que ganharíamos o suficiente para viver confortavelmente pelo resto de nossas vidas", respondeu Urhan.
"Mesmo? E quem é esse líder?", perguntou Caron.
"Ele era nosso oficial de operações no batalhão..." Urhan admitiu relutantemente.
"Um oficial? Entendo. Os soldados têm uma vida difícil, não importa onde estejam. Ainda assim, escolher o banditismo em vez da vida militar é outra coisa. É por isso que os soldados precisam ser bem cuidados", comentou Caron, então balançou a cabeça.
Ele havia extraído todas as informações que podia de Urhan. Para descobrir o verdadeiro motivo de seu banditismo, ele precisaria capturar alguém de uma patente superior. No entanto, aquilo havia sido um aquecimento decente.
Além disso, sentiu alguma satisfação por ter empunhado Guillotine [1] pela primeira vez.
Um objeto é apenas um objeto, pensou Caron.
A presença de Caron por si só não era a razão pela qual os inimigos haviam ficado paralisados de medo. Era Guillotine, sua espada, que plantava a sugestão em suas mentes de que teriam suas cabeças cortadas. Francamente, se não fosse a espada do primeiro ancestral, poderia facilmente ser chamada de espada amaldiçoada. Apenas alguém com uma força mental excepcional poderia enfrentá-la sem perder sua vontade de lutar. Era um milagre que Leo não tivesse se molhado ali mesmo.
"Sabe por que eu poupei sua vida? Tente adivinhar por quê", disse Caron enquanto dava um tapinha leve na cabeça careca de Urhan.
Urhan, ajoelhado, assentiu freneticamente e disse: "Você precisa de alguém para guiá-lo até nossa base, certo? E-Eu posso levá-lo até lá pessoalmente."
"Exatamente! Leo, lembra daquele cara que eles chamavam de o mais jovem? Tem uma corda no cadáver dele, então vá buscá-la", disse Caron.
"Okay", disse Leo, então imediatamente foi encontrar uma corda no cadáver e a entregou a Caron com mãos trêmulas.
Caron pegou a corda e perguntou: "Por que você está tremendo tanto?"
"Eu nunca vi um corpo morto antes... Nem todo mundo é como você", disse Leo.
"Eu cuidei das coisas desta vez, mas quando formos lá para cima, você terá que sujar as mãos também. Você entende o que estou dizendo, certo?", perguntou Caron.
"...Okay. Mas por que você pediu a corda?", perguntou Leo, confuso.
"Tem algo que eu sempre quis tentar. Seu nome é Urhan, certo?", perguntou Caron.
"S-Sim, senhor", Urhan respondeu rapidamente.
"Amarre nós dois com essa corda", Caron instruiu.
Urhan olhou para Caron em confusão e perguntou: "Por que você diria isso...?"
Caron respondeu dando um tapa no topo da cabeça de Urhan. "Você nunca leu nenhum livro de espionagem quando era criança? Vamos fingir que somos reféns capturados."
"Se os outros batedores não aparecerem, os superiores vão achar suspeito", Urhan protestou.
"Então diga a eles que os outros morreram lutando contra as tropas de escolta, e você capturou dois garotos como reféns", explicou Caron.
Um plano tão tosco realmente funcionaria?
De jeito nenhum, pensou Urhan. Os superiores não eram tolos. Eles definitivamente sentiriam que algo estava errado e ficariam em guarda. Mas naquela situação, ele não tinha outra escolha.
"Tudo bem", Urhan concordou relutantemente, mas obedientemente.
"Eu realmente queria tentar isso. Você tomou uma boa decisão", disse Caron, assentindo com satisfação.
Urhan engoliu em seco e olhou para o demônio à sua frente, que sorria com uma expressão travessa.
***
"Caron, você realmente acha que isso vai funcionar?", perguntou Leo.
"Bem, o que você acha?", respondeu Caron com indiferença.
"Estou te perguntando porque acho que não vai", respondeu Leo.
"Você é mais velho que eu. Tem alguma ideia melhor?", perguntou Caron.
"Você só menciona idade nesses tipos de situações", resmungou Leo.
Urhan caminhava à frente enquanto abria caminho, mantendo os dois garotos amarrados. Sua espinha formigava de medo. Apenas ter aquele demônio atrás dele já era assustador o suficiente. Ele recordou a luz azul que emanara de Caron mais cedo e ponderou. Mana que brilhava com luz azul, e a capacidade de dominar adultos apesar de não estar totalmente crescido... Qual família nobre poderia produzir tal talento?
O cérebro de Urhan, que havia estado lento até um momento antes, trabalhou rapidamente naquele momento. Não demorou muito para que ele percebesse. Até mesmo um plebeu simples como ele, que havia ouvido rumores durante seu serviço militar, conseguia juntar as peças.
Leston. A grande... Família Ducal de Leston, ele pensou.
Tinha que ser alguém da família Leston. O Baronato de Belrus ficava bem ao lado do Ducado de Leston. Mas ele estava curioso para saber por que o mago que ajudava seu banditismo havia garantido que eles não precisavam se preocupar com a família Leston.
Seus pensamentos foram interrompidos por um chute repentino por trás, que o lançou ao chão.
"Ugh!", ele ofegou.
Era o demônio atrás que o havia chutado de repente, fazendo-o cair. Urhan, tremendo, levantou-se. Então, olhou para o garoto e perguntou cautelosamente: "O-O que foi, senhor?"
Caron respondeu com uma expressão entediada: "Só porque sim. Deu vontade de chutar suas costas. Quando chegaremos lá?"
"Mais uns dez minutos. Mas uh... Jovem Mestre?", Urhan começou.
"O quê?", respondeu Caron.
"Este é um lugar onde os batedores patrulham regularmente. Se eles virem coisas assim, pode... causar problemas", Urhan apontou.
"Hmm, você tem razão. Tudo bem, vou pegar mais leve por enquanto", disse Caron.
"...O-Obrigado." Urhan não podia se dar ao luxo de ficar bravo com Caron.
Ele se lembrou da visão de seus camaradas sendo massacrados. Seu líder e os outros haviam morrido com expressões zombeteiras ainda em seus rostos. A maioria deles provavelmente havia perdido suas vidas sem nem mesmo perceber que estavam mortos.
Urhan assentiu enquanto apertava o grande fardo em suas costas. Aquele fardo continha as armas dos jovens nobres. O plano era que ele as carregasse e enganasse os outros bandidos, alegando que o fardo era seu espólio de guerra.
"Então, eu vou liderar o caminho de novo", disse ele.
"Tudo bem, vamos nos mover", disse Caron.
Urhan retomou sua posição na frente e continuou subindo o caminho da montanha. Eles caminharam até que viram uma paliçada de madeira reforçada e um portão fortalecido por magia à distância. Ao se aproximarem, encontraram um guarda de vigia.
"Urhan? Quem são essas crianças atrás de você?", perguntou o guarda, que usava um tapa-olho.
"São reféns. Jovens nobres que disseram que vieram caçar bandidos", respondeu Urhan.
"Esses garotos hoje em dia acham que caçar bandidos é brincadeira de criança, hein? Você não estava com o Time de Reconhecimento Dois? Onde estão seus líderes e camaradas?", perguntou o guarda.
"Alguns dos guardas das crianças escaparam. Os outros estão perseguindo-os", explicou Urhan.
"Sempre com um faro para o dinheiro, não é? O que é isso nas suas costas?", perguntou o guarda.
"É meu espólio. Cuide da sua vida", Urhan retrucou.
O guarda levantou uma mão de forma displicente com um sorriso presunçoso e disse: "Eu estava apenas curioso, só isso. Tudo bem, entrem. O Time Dois tem se saído bem ultimamente. O chefe pode dar a vocês uma grande recompensa em breve."
O guarda abriu o portão, e Urhan levou Leo e Caron para dentro. Caron ficou perto de Urhan, sussurrando: "Nada mal na improvisação. Muito bem."
"Obrigado—" Urhan começou.
"Existem outros nobres aqui?", Caron interrompeu.
Urhan olhou ao redor e assentiu lentamente, então disse: "Sim, alguns nobres menores vieram aqui para fazer um nome para si mesmos."
"Ah, é mesmo?", perguntou Caron, intrigado.
"Sim. Seus resgates têm sido bem lucrativos", Urhan confirmou.
"Seu chefe tem um bom senso para os negócios. Drogas, escravidão, resgate... Ele está fazendo tudo que é lucrativo", disse Caron.
Sua curiosidade sobre o chefe dos bandidos só cresceu. Operar atividades criminosas tão extensas no coração do Império parecia impossível sem um apoio poderoso.
Alguém deve estar apoiando-os, pensou Caron. Ele tinha certeza de que o líder daquele lugar não era apenas um mero desertor.
Não importava o quão enfraquecido o império tivesse se tornado, ele não simplesmente ignoraria tais atividades ilegais dentro de seu território. Esse tipo de operação geralmente tinha um apoiador poderoso. Assim, Caron se viu mais interessado naquele apoiador misterioso. Quem ousaria conduzir atividades tão ultrajantes tão perto do Ducado de Leston? Quem quer que fosse, certamente tinha muita audácia.
Eu posso lidar com isso capturando e interrogando um de seus chefes. E tenho certeza de que nossa tia-avó já tomou nota da situação, pensou Caron e assentiu para si mesmo enquanto imaginava Sabina observando-os de algum lugar.
"...Isso realmente deu certo?", Leo exclamou surpreso.
"Simples geralmente é melhor", respondeu Caron.
"Mas é difícil acreditar que bandidos capazes de invadir propriedades poderiam ser tão estúpidos", disse Leo.
Enquanto Caron e Leo conversavam, eles chegaram a uma área que se assemelhava a uma praça na extensa fortaleza da montanha. Caron parou no centro da praça, o que fez com que Urhan se virasse e olhasse para ele.
"Ahem." Urhan pigarreou, então disse com uma voz afetada: "Como reféns, se vocês não seguirem minhas ordens, vou espancá-los até a mo—"
"Urhan", Caron interrompeu.
"Sim!", Urhan respondeu imediatamente.
"Quando você deixar de ser um bandido, não vá para a atuação. Você é péssimo nisso. Acho que Gustav seria melhor em atuar do que você", disse Caron.
"...Quem é Gustav?", Urhan perguntou, confuso.
"Eu também não sei, mas tenho certeza de que ele seria melhor do que você. Agora, vamos ver nossas armas", disse Caron.
Com mãos trêmulas, Urhan colocou o fardo que estava carregando nas costas e começou a desamarrá-lo. A espada terrível que ele vira antes saiu mais uma vez.
Caron imediatamente desembainhou Guillotine, então jogou Sylphid para Leo. Ele disse: "Leo, você estava certo."
Enquanto pegava Sylphid com uma expressão confusa, Leo perguntou: "Sobre o que eu estava certo?"
"Você mesmo disse, que ninguém que pudesse invadir uma propriedade poderia ser tão tolo. Você estava certo. Eles não são tolos, afinal", disse Caron.
Whoosh.
Um zumbido baixo começou a ressoar enquanto mana negra começava a se contorcer em todas as direções. Caron reconheceu aquela energia sinistra muito bem. Era a mesma mana negra que o atormentara em sua vida anterior. Aquilo se originava dos demônios, e sua aura era terrível e malevolente. Formou um círculo mágico enorme, envolvendo toda a fortaleza.
"Não é à toa que Guillotine está resmungando. Ei, Urhan, seu bastardo", disse Caron.
"...S-Sim?", Urhan gaguejou.
"Por que você não nos contou direito? Este não é apenas um mago comum, é um mago negro", disse Caron.
"E-Eu não sabia. Sou inculto, e pensei que todos os magos fossem iguais. Me desculpe, me desculpe muito..." Urhan se desculpou.
O som horripilante de ossos se chocando uns contra os outros encheu o ar enquanto mortos-vivos começavam a se levantar de todos os lados. Eram criaturas patéticas, mas aterrorizantes, incapazes de encontrar a paz nem mesmo na morte.
"Mortos-vivos", Caron comentou enquanto observava o exército esquelético que os cercava. Seus lábios se curvaram em um meio sorriso enquanto continuava: "Aí vamos nós. Agora isso é o que torna a primeira missão divertida."
Era o momento em que sua missão, que parecera um mero passeio no parque, se transformou em algo completamente diferente.
[1] - Guillotine: A espada de Caron, herdada de um ancestral, possui a habilidade de plantar sugestões na mente dos oponentes, fazendo-os temer a decapitação.