
Capítulo 124
Família Moderna: Nova Vida
— Tcharã! — disse Mitchell, levantando os braços em uma pose meio heróica.
Andrew soltou o ar pelo nariz.
Ele juntou os lábios e levou uma mão à ponte do nariz, como se tentasse conter uma enxaqueca emocional.
Como fã de super-heróis, alguém que admirava cosplays bem-feitos, mesmo que ele próprio não se fantasiasse, ele tinha um respeito profundo pela arte dos detalhes. Adorava ver as fantasias na Comic-Con. Observar como alguns fãs replicavam armaduras, capas ou trajes icônicos com uma precisão quase obsessiva.
Eles usavam materiais de qualidade, costurados à mão, pintando cada detalhe para alcançar um nível de fidelidade que beirava o artesanato.
E então havia aquilo.
Chamar aquilo de cosplay seria uma blasfêmia.
Era uma fantasia barata comprada em uma loja de artigos de festa, com músculos infláveis parecendo travesseiros de avião, costuras malfeitas e um tecido mais brilhante que um semáforo molhado.
Um Homem-Aranha de lojinha de um real [1].
Andrew olhou para ele. O escaneou da cabeça aos pés. E finalmente, com uma mistura de resignação e horror, perguntou: — Que diabo é isso?
— Uma fantasia de Homem-Aranha. Não reconhece? Um dos seus heróis favoritos — disse Mitchell, como se fosse óbvio.
Andrew tentou não fazer careta de desgosto. — Eu sei... Só que... por quê? — perguntou ele.
— Como assim por quê? — repetiu Mitchell, confuso com a falta de entusiasmo. Ele achava que seu filho, um autoproclamado fã de super-heróis, ficaria emocionado ao vê-lo vestido a caráter.
— É, por quê? — repetiu Andrew.
— Porque é Halloween... — disse Mitchell, como se a resposta fosse óbvia.
— E? — falou Andrew, levantando uma sobrancelha.
— Sei lá... as pessoas usam fantasias no Halloween, certo? — Mitchell deu de ombros.
— Sim, mas elas se fantasiam de coisas que combinam com o clima de terror... Sabe: bruxas, zumbis, esqueletos, Jason, Freddy... Não de super-herói. E definitivamente não de um Homem-Aranha que parece mais pobretão que o original. Por isso: por quê? — disse Andrew.
— Nossa, que exigente! É só uma fantasia — disse Mitchell, ficando na defensiva.
— No Natal, as pessoas se vestem de Papai Noel, duendes, coisas com temática natalina — argumentou Andrew, tentando provar seu ponto. — Elas não se vestem de... sei lá, pirata, astronauta ou banana. Há temas que precisam ser respeitados, sabe? —
Antes que a discussão pudesse escalar, Cam entrou na conversa, sem querer ficar de fora, enquanto analisava Mitchell de cima a baixo.
— Você vai trabalhar assim? — perguntou com clara desaprovação.
— O que está acontecendo hoje? Tá todo mundo de mau humor? — reclamou Mitchell, elevando o tom de voz.
— Eu não. Só estou sendo lógico... E o pai ainda está bravo com a pegadinha de algumas horas atrás — respondeu Andrew.
— Ah, então é isso... — disse Mitchell, suspirando e balançando a cabeça. — Quem diria que você guardaria tanto rancor? — murmurou entre os dentes.
Então ele se virou para os dois, tentando explicar o motivo da fantasia. — Meu emprego novo é diferente. O pessoal é legal. Todo mundo vai fantasiado hoje. Não é igual ao meu antigo escritório de advocacia, onde todo mundo era careta. Eu não quero parecer o chato estraga-prazeres... Sou o novato.
Andrew o encarou em silêncio, analisando-o. Ele duvidava da credibilidade daquela história. Um escritório de advocacia onde todo mundo tinha que ter mais de trinta anos aparecendo fantasiado à luz do dia? Improvável. Ainda assim, não valia a pena discutir.
— Legal... Tenho certeza de que eles vão adorar a fantasia de Homem-Aranha mais barata do mercado — murmurou ele, levantando-se da cadeira.
Jogou a mochila no ombro, deu um beijo na testa de Lily para se despedir e foi em direção à porta.
— Vou de bicicleta hoje — avisou antes que os pais pudessem perguntar.
— Por quê? Não quer que eu te leve? Você está com o tempo contado — disse Mitchell, olhando de relance para o relógio da cozinha.
— É melhor ninguém me ver com você... e com isso — respondeu Andrew. E antes que pudessem responder, ele abriu a porta e sumiu.
Mitchell o viu partir, depois olhou para a própria fantasia, incerto: — Será que está tão ruim assim?
Cam deu um tapinha no ombro dele. — Está... bem ruim e barata. Você sabe o nível de exigência que o Andrew tem com as nerdices dele... Mas relaxa, você é o Homem-Aranha. Deixe os vilões caçoarem de você.
Mitchell revirou os olhos, resignado, e começou a tomar café da manhã rapidamente.
Andrew, pedalando a uma velocidade ligeiramente perigosa, conseguiu chegar à escola a tempo.
Depois da primeira aula, ele saiu da sala com seus amigos: Steve, Archie, Reggie e Kevin. Eles caminhavam pelos corredores decorados com temas de Halloween.
Mas nenhum deles falava sobre fantasias, doces ou festas naquela noite. A única coisa em suas mentes era o jogo de sexta-feira.
Eles já estavam classificados para os playoffs [2]. Isso não era novidade.
Mas aquela partida não era apenas mais um jogo.
Tratava-se de manter a invencibilidade. De orgulho.
E, sendo honestos... porque ninguém gostava dos metidos de Moose Ridge.
— Mal posso esperar pela sexta-feira! — disse Steve, caminhando na frente com os punhos clenched [3] e os olhos brilhando com energia reprimida.
— É, finalmente vamos esbarrar no Nick de novo. Mesmo que ele nem seja titular — acrescentou Reggie com um sorriso torto e desdenhoso.
— Ele ainda vai se gabar de qualquer jeito — interveio Kevin, franzindo a testa ao se lembrar da cara eternamente presunçosa de Nick Thorpe. — Ele vai dizer que vão atropelar a gente ou alguma outra besteira do tipo —.
Steve, que havia perdido a vaga de titular como wide receiver [4] na sexta rodada, algumas semanas atrás, a recuperara justamente no último jogo.
E não por sorte.
A conversa com Andrew o havia tirado daquele estado. Daquela noite em diante, sua atitude mudou. Ele voltou a treinar sério, como antigamente. Chega de atrasos. Chega de desculpas. Era mais do que natural que recuperasse sua vaga.
Ele tinha talento. Andrew o treinava desde que eram crianças. E Steve, quando focado, era uma peça fundamental no time.
Primeiro, ele provou isso saindo do banco. Fazendo um trabalho excelente.
Depois, no jogo seguinte, retornou ao time titular. A equipe vinha mantendo a formação com dois wide receivers, já que estava funcionando tão bem.
— Ah, a propósito — disse Kevin, enfiando as mãos nos bolsos —, vocês viram que o Nick abriu um canal no YouTube?
— Sério? — perguntou Reggie, franzindo a testa com a novidade.
— Sim, 100% verificado. Ele está tentando copiar o Andrew. Posta vídeos de treino, 'vlogs pré-jogo', cenas em câmera lenta dele levantando peso ou lançando a bola. Só que, bem... sem carisma ou talento. E a personalidade dele conseguiu ficar ainda mais irritante do que o normal — respondeu Kevin.
— Então, quantos inscritos o príncipe do ego tem? — perguntou Steve, curioso.
— Da última vez que olhei, tinha quase cinco mil. Aposto que ele vai postar alguma coisa sobre o jogo contra a gente nos próximos dias. Ou ele vai mandar umas alfinetadas sutis para cima do Andrew ou desafiá-lo abertamente para ganhar visualizações — disse Kevin, balançando a cabeça.
— O único jeito de ele ficar famoso é mencionando o Andrew — disse Archie, estalando a língua em desaprovação.
Nesse momento, os quatro se viraram naturalmente para olhar para Andrew, que caminhava no centro do grupo, como sempre.
Mas ele parecia não estar prestando atenção. Não sorriu, não zombou de Nick. Nem parecia estar ouvindo.
Andrew não estava pensando no Halloween nem no jogo de sexta-feira. Ele estava pensando em Pippa. Como havia chegado na hora exata, não a vira e não tinha a primeira aula com ela.
— Ei, Andrew — disse Reggie, estalando os dedos perto dele. Andrew voltou à realidade e olhou para eles.
— O quê?
— Você está ouvindo? — perguntou Kevin com um leve sorriso, já sabendo o que devia estar na mente do amigo em vez do jogo. Só havia uma resposta: garotas. E apenas uma garota tinha esse efeito sobre ele, a namorada dele.
— É... — disse Andrew rapidamente, voltando para a conversa. — Vocês estavam falando do Nick, né?
— Sim. Ele abriu um canal no YouTube e está te copiando. O mesmo estilo de vídeos, títulos parecidos — concordou Archie.
— Algum comentário? Está com medo de perder inscritos? — perguntou Reggie com um sorriso. Ele sabia que isso era impossível.
Andrew deu um sorriso de canto e deu de ombros. — Duvido que ele me alcance. O nível de jogo dele é bem mediano. E com essa personalidade horrível, a única coisa que ele vai atrair são haters [5].
— Palavras fortes — disse Kevin, embora concordasse plenamente.
Sem acrescentar mais nada, Andrew olhou para o relógio, ajeitou a mochila e disse, casualmente: — Vejo vocês na cafeteria. Vou procurar a Pippa.
Ele se virou calmamente e seguiu pelo corredor. Atrás dele, os amigos trocaram olhares... e sorriram.
— Quem diria que ele ia ficar tão perdidamente apaixonado? — disse Steve, divertido e genuinamente feliz pelo amigo.
— Nunca pensei que veria isso — disse Reggie, claramente surpreso. Nem no ensino fundamental nem no ginasial Andrew jamais tivera namorada. O foco dele sempre fora 100% no futebol americano, e todo mundo percebia isso naquela época.
— E cá estamos nós, com sorte se alguma garota mostrar interesse numa festa... — murmurou Kevin, fingindo dor. — O amor é mal distribuído.—
— Ah, cala a boca. Você é o maior galinha de todos nós — disse Steve, dando um soco de leve no ombro de Kevin. Os outros riram e concordaram com a cabeça.
Kevin não pôde argumentar. Apenas levantou as mãos em sinal de rendição.
Os quatro continuaram caminhando em direção à cafeteria, rindo e relaxados. Com a tranquilidade de saber que, embora o jogo de sexta-feira fosse difícil, eles tinham o melhor líder e quarterback [6] de todo o estado. E um apaixonado também.
Enquanto isso...
Andrew caminhava com firmeza pela outra ala do prédio. Ele sabia qual aula Pippa tinha naquele dia. Virou no corredor oeste e a avistou alguns metros à frente, já a uma boa distância da sala de aula.
Ela caminhava com Cara, conversando descontraidamente, de costas.
Andrew acelerou o passo, aproximou-se por trás e, sem dizer uma palavra, envolveu-a com os braços e a tirou do chão em um abraço apertado.
— Quê...!? — soltou Pippa, assustada. — Andrew! — acrescentou, virando a cabeça assim que o reconheceu.
— Oi — cumprimentou Andrew com um sorriso. Ele a segurou por um segundo e depois a colocou no chão.
— Oi... — disse Pippa, olhando para ele com aquele sorriso que guardava só para ele, com as bochechas levemente coradas.
— Eu estava justamente pensando em vir te procurar. Senti sua falta — disse Pippa com sinceridade.
— Também senti sua falta — respondeu Andrew, e os dois se encararam por um momento.
Cara os observava de braços cruzados, soltando um suspiro falso e dramático.
— Credo. Vocês dois não conseguem sobreviver a uma única aula separados, conseguem? — disse ela com um meio sorriso provocador.
Ambos riram, sem negar absolutamente nada.
— Bom, estou indo para a cafeteria. Vou deixar vocês com a novela mexicana particular — acrescentou Cara, virando-se com uma resignação divertida. — Se vocês se casarem antes da formatura, é bom eu estar na primeira fila.—
E sem esperar resposta, ela foi embora.
— Os comentários sarcásticos dela estão cada vez mais criativos — observou Andrew, vendo Cara desaparecer pelo corredor.
— Pois é, ela realmente precisa de um namorado ou vai piorar — disse Pippa com uma risadinha.
— Ah, é verdade! Olha só — disse Andrew, tirando o celular do bolso e mostrando a foto de Cam caído no chão do banheiro com a aranha falsa gigante no rosto. É claro que Andrew havia conseguido a foto que Mitch tirara.
— Você teve coragem de fazer essa pegadinha com o seu pai... Você é malvado — disse Pippa, tentando segurar o riso.
— A culpa não foi inteiramente minha — defendeu-se Andrew, sem nenhum pingo de remorso. — Eu só tive a ideia da aranha falsa... com a ajuda do Howard.—
— Não acredito que o Mitch realmente caiu nessa — disse Pippa.
Andrew deu zoom na foto e disse: — Bem, você conhece ele. Super vingativo. Ele não lidou bem quando alguém disse que o senso de humor dele era sem graça.—
— É, é verdade — admitiu Pippa com um sorriso. — O Cam realmente devia ter imaginado.—
Eles continuaram caminhando pelo corredor até que Andrew abaixou o celular e olhou para ela. — A propósito... você vai lá em casa hoje? Depois do treino?—
— Hoje é a terceira aula de atuação com a Willa, né? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.
— Sim. Vamos ver se eu sobrevivo — respondeu Andrew com um drama fingido.
A pegadinha que ele planejara para Claire no Halloween era bem simples: fingir um ataque cardíaco quando ela tentasse pregar uma peça nele.
Mas para que funcionasse, sua atuação tinha que ser convincente. Por isso ele havia pedido à Willa algumas aulas intensivas de atuação; afinal, ela era profissional. O objetivo era fingir um ataque cardíaco de forma tão realista que Claire realmente acreditaria e entraria em pânico, achando que havia matado o sobrinho.
Willa, é claro, havia aceitado com entusiasmo. Ela adorava pegadinha intensas. E ensinar sua arte, especialmente para Andrew, era divertido para ela. Mesmo sendo durona e ranzinza.
Às vezes, Andrew achava que ela era pior do que seus técnicos de futebol. Se ele fosse um cara mais fraco, provavelmente teria desistido já na segunda aula com a autoestima em ruínas.
Sabendo como podia parecer passar horas sozinho com uma garota mais velha, mesmo que fossem apenas dois anos de diferença, Andrew casualmente convidara Pippa para ir também, apenas para evitar mal-entendidos. Pippa, é claro, percebeu.
E valorizou isso muito mais do que deixou transparecer.
— Eu adoraria ir — disse Pippa. — Me diverti tanto vendo a Willa te fazer repetir as cenas dez vezes. E além disso... quero ver como termina a sua grande obra-prima.—
— Mas...?—
— Mas eu não vou poder — acrescentou rapidamente. — Tenho duas provas importantes amanhã, e se eu não estudar hoje... com a festa de Halloween e tudo o mais, não vou ter tempo nem para respirar.—
Andrew assentiu, baixando levemente o olhar. — Então eu vou cancelar — disse naturalmente. — Não adianta fazer a aula se você não vai. Seria estranho ficar sozinho com ela em casa.—
Pippa olhou para ele. A expressão dela mudou, não por ciúme,
mas por ternura.
— Andrew... — disse ela, com o tom suavizado —, você não precisa fazer isso.—
— Tem certeza?—
— Tenho. Não sou uma namorada tóxica. Não vou surtar por causa disso. Eu confio em você. Não me incomoda você ter essa aula com a Willa. E é uma pegadinha que você está planejando há um tempo, você quer que seja perfeita e quer vencer a Claire naquele joguinho distorcido que vocês têm... Não quero estragar isso — acrescentou com um leve sorriso.
— Tá bom — concordou Andrew. Era uma sensação boa ter esse tipo de confiança por parte da parceira.
Depois disso, continuaram conversando e caminharam juntos até a cafeteria, onde se sentaram com o resto dos amigos.
[1] - Originalmente "dollar-store", refere-se a lojas populares que vendem produtos extremamente baratos, equivalentes às lojas de "R$ 1,99" ou lojinhas de bairro no Brasil.
[2] - Playoffs: Fase eliminatória de um campeonato esportivo.
[3] - Punhos fechados com força devido à tensão ou excitação.
[4] - Wide receiver: Posição no futebol americano de um jogador especialista em receber passes.
[5] - Haters: Pessoas que criticam ou destilam ódio na internet.
[6] - Quarterback: Jogador principal do ataque no futebol americano, responsável por liderar as jogadas e fazer os passes.