
Capítulo 123
Família Moderna: Nova Vida
7h14
O cheiro de café recém-passado tomava conta da cozinha. A torradeira trabalhava em ritmo constante, e a frigideira chiava com uns ovos mexidos sem muita animação. Tudo parecia em ordem, exceto por um detalhe: Cameron.
Andrew percebeu isso imediatamente ao passar pela porta do corredor, já pronto para a escola, com a mochila jogada em um ombro e o cabelo mal penteado. Ele notou o silêncio do pai, que cozinhava emudecido. E aquilo, tratando-se de Cam, era um mau sinal.
Lily estava em seu cadeirão, fazendo a maior bagunça com o café da manhã. Ela tinha cereal grudado na testa, iogurte na manga do pijama e uma colherzinha que claramente decidira usar como instrumento de percussão contra a badeja. E, mesmo assim, Cam não dizia nada. Nenhuma musiquinha bobinha. Nenhuma voz esganiçada ou frases como "Essa colher não vai no ouvido, meu amor!".
Nada.
Apenas... silêncio.
Um silêncio que cheirava a ressentimento.
— Bom dia... — cumprimentou Andrew com cautela, sentando-se na cadeira ao lado de Lily e encostando a mochila nos pés.
Lily o reconheceu na mesma hora. Olhou para ele, sorriu com a boca cheia de papinha e ergueu a mão direita, também lambuzada de café da manhã, para acenar empolgada.
— E aí, pequena — disse Andrew, aproximando-se para beijar a testa dela com um sorriso. Em seguida, pegou um guardanapo e deu uma limpada nela.
Cameron nem olhou para cima. Apenas deu um breve aceno de cabeça.
Depois de alguns minutos, Cam serviu a Andrew um prato de ovos, colocou quatro fatias de torrada, um café e seu shake de proteína na frente dele.
— Valeu... — falou Andrew, começando a comer.
Sem resposta.
Cam serviu então o café da manhã de Mitch — que não estava na sala, provavelmente se arrumando no banheiro ou algo assim — e sentou-se de frente para Andrew, do outro lado de Lily, começando a limpá-la e ajudá-la a comer.
Andrew pensou em algum assunto para quebrar o gelo, algo interessante.
— Conseguiu replicar a receita daquelas bolinhas proteicas que a Mônica fez? — perguntou ele.
Os lanchinhos de proteína que Mônica havia feito para ele semanas atrás eram deliciosos. Aqueles lanchinhos que Mônica fizera ainda povoavam a mente e o paladar de Andrew.
Não eram bons apenas para garantir uma proteína extra entre as refeições; eram fáceis de carregar, fáceis de guardar e, por cima de tudo, deliciosos. Não naquele estilo "isso é saudável, então eu aguento", mas deliciosos de verdade. Até Cam, que costumava desconfiar de qualquer coisa que não viesse em formato de bagel ou croissant, os havia elogiado.
O vlog que Andrew postara sobre o encontro com os inscritos já havia ultrapassado um milhão de visualizações em tempo recorde. Além de mostrar o evento em si, o final do vídeo trazia Andrew abrindo os presentes ao vivo para que todos vissem suas reações e para que ele pudesse agradecer direito.
A segunda parte do especial foi um desafio esportivo com seus amigos do futebol: Archie, Reggie, Kevin e Steve. Ele havia filmado no domingo, quando a escola lhes dera permissão para usar o campo e realizar vários desafios relacionados ao futebol americano.
Também foi super bem recebido. Teve momentos competitivos, engraçados e sérios, tudo para coroar um vencedor entre os cinco.
Andrew também tinha dado um feedback a Mônica sobre a comida, conforme ela havia pedido. Tudo o que ele podia oferecer eram elogios. Mônica compartilhara a receita toda feliz, com medidas exatas, anotações pessoais e dicas.
E, mesmo tendo tudo isso... Cam não conseguira replicá-las com sucesso.
— Eu segui a receita tim-tim por tim-tim — disse Cam, parecendo ofendido. — E você sabe disso.
— Sim, mas não ficaram iguais. Não sei se foi a textura, a doçura ou a alma de chef psicopata que a Mônica bota nelas... mas tinha algo errado — comentou Andrew.
— Desculpa por não ser um chef digno da sua fangirl — retrucou Cam com um tom irônico.
— O que eu quis dizer — tentou esclarecer Andrew —, é que... se a gente já tem todas as dicas dela, e você tem todo o tempo do mundo para testar—
Cam ergueu uma mão, interrompendo-o como se ele acabasse de proferir uma heresia.
— Você está dizendo que eu tenho todo o tempo do mundo, mocinho?
— Ãh... não quis dizer isso — falou Andrew depressa, tendo plena consciência de que acabara enfiando os pés pelas mãos.
Cam deu um gole no café e começou a contar nos dedos:
— Vamos revisar: cuidar da Lily, que, aliás, resolveu que iogurte fica no cabelo hoje; lidar com o caos que é o Mitch quando ele entra no modo advogado de tribunal do júri; planejar todas as refeições da semana e as suas com aquelas gramas de proteína exatas, milimétricas e impossíveis... sem falar em garantir que esta casa não implode todo santo dia. Acredite em mim, fazer lanchinhos de proteína perfeitos não tem sido exatamente a minha prioridade número um.
Andrew abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Cam soltou um suspiro dramático e acrescentou: — Por que você simplesmente não pede para a Mônica fazer outro lote para você? Quem sabe você ganha outro Tupperware com um lacinho bonitinho, já que aparentemente ninguém nesta casa está à altura do nível divino dela.
— Ela mora em Nova York! — retrucou Andrew.
— Ah, então sei lá... talvez você possa pedir para a Pippa tentar. Vamos ver o que ela acha do namoradinho ser obcecado pelos lanchinhos proteicos de outra garota — disparou Cam.
"Nossa... ele tá pistola por causa da peça", pensou Andrew, surpreso. Era raro ver o pai soltar comentários daquele tipo, pelo menos não direcionados a ele.
— Você ainda tá bravo com aquela pegadinha, né? Eu tive o quê... 20% de culpa. No máximo 30%. O resto é tudo do pai — disse Andrew.
— Ah, claro, joga a culpa nos outros — respondeu Cam, tomando outro gole de café. — Como se o cara que soltou a bomba não fosse culpado só porque outro armou o cronômetro.
Andrew cravou o garfo nos ovos sem dizer mais nada. Comeu em silêncio, sabendo que qualquer coisa que dissesse seria usada contra ele.
Sua mente divagou para outras coisas. Hoje era Halloween. A espécie de guerra fria que ele vinha travando com Claire. Ele já tinha uma pegadinha em mente que podia lhe dar vantagem este ano e assustar Claire de verdade.
Pensar nisso trouxe um sorriso meio travesso ao seu rosto enquanto ele comia.
Depois, seus pensamentos se voltaram para o futebol americano. Em três dias, seria o jogo final da temporada regular, a nona partida.
Palisades estava em uma sequência inacreditável de 8 vitórias e nenhuma derrota. A vaga nos playoffs regionais já estava garantida, mas o próximo jogo não era mera formalidade.
Eles enfrentariam um time rival que também estava invicto com 8-0.
Era raro ver algo assim. Dois times invictos se enfrentando na última semana. Seria um jogo físico, técnico e emocional.
Mas não era só isso.
Era aquela escola. Moose Ridge High School. Uma velha rival de Andrew e sua turma, uma que eles não enfrentavam desde o ensino fundamental.
Aquela escola "fresquinha", como Jay diria com desdém. Patricinhas e mauricinhos. Uniformes caros. Campos de grama natural. Pais com bolsos fundos.
E o pior de tudo para Archie e os outros: Nick Thorpe.
Um quarterback com um talento razoável, na opinião de Andrew. Nada de extraordinário. Porte físico mediano, bom braço, certa mobilidade, mas, acima de tudo, uma empáfia irritante. Ele sempre agia como se o mundo girasse em torno do próprio ego.
Desde pequenos, Reggie, Archie e o resto o odiavam. Embora Nick nunca tivesse conseguido vencê-los lá no fundamental, o ego dele de algum jeito sempre saía intacto.
Andrew não o odiava. Ele simplesmente... não o via como um rival à altura.
Na verdade, Nick provavelmente nem seria titular; ele não era o QB principal do time.
Moose Ridge era outra história agora.
Eles estavam no auge da forma. E não era só isso. Já tinham experiência na Divisão 4. Tinham sido campeões estaduais no ano passado, embora não tenham subido porque a CIF[1] ainda não os considerava "consolidados" o bastante. Mas, se ganhassem de novo este ano, tudo indicava que subiriam para a Divisão 3, um marco importante para a escola.
Eles tinham entrosamento. Confiança. Ritmo. E estavam famintos para vencer o título estadual de novo e subir de vez.
E, mesmo que Palisades o tivesse em campo, isso não significava que eram sólidos de ponta a ponta. Andrew sabia disso melhor do que ninguém.
A verdade é que, há apenas um ano, antes mesmo de a temporada começar, Palisades estava presa na Divisão 5. Um time sem história, sem rumo. Na temporada anterior (quando Andrew ainda estava no último ano do ensino fundamental II), eles sequer tinham chegado aos playoffs regionais.
Eram inofensivos. Sem graça. Apenas mais um time.
Naquele ano, enquanto Palisades era derrotada sem muita glória, Andrew encerrava seus últimos meses no fundamental.
As pessoas já falavam dele como um talento promissor. Um quarterback avançado.
Mas só quando entrou no colegial, no primeiro ano, é que ele tornou isso real.
Conquistar a vaga de titular sendo calouro foi só o começo. O que veio depois foi uma revolução silenciosa.
Palisades se transformou.
Passaram de um grupo apático para um inspirado.
Porque Andrew não apenas jogava, ele liderava. Organizava treinos melhores, trabalhava com seus amigos de infância: Reggie, Steve, Archie e Kevin, moldando-os com paciência, com técnica, com padrões elevados.
Liam, o líder da defesa, era outro caso excepcional: talento nato, físico, com mentalidade coletiva. O tipo de jogador que, nas mãos de alguém como Andrew, podia ser levado ao próximo nível.
O resto do time... bom.
Eles ganharam garra e disciplina assim que viram que o time estava funcionando. Depois veio a confiança de um esquadrão vencedor. Mas a promoção para a Divisão 4, o campeonato estadual do ano passado e a atual campanha de 8-0...
Nada daquilo era coincidência.
Era o esforço de Andrew. Ele era quem executava jogadas impossíveis ao mesmo tempo em que fazia seus companheiros parecerem melhores do que realmente eram.
Ele havia elevado Palisades à base de pura força de vontade, precisão e obsessão.
E lá estavam eles: 8-0.
A um passo de uma temporada perfeita. Rumo aos playoffs regionais como campeões invictos por mais de um ano. Com chances reais de repetir o título estadual da 4D.
E, embora o jogo contra Moose Ridge fosse, sem dúvida, o mais difícil do ano, Andrew acreditava que venceriam.
Ele não esperava uma lavada de 40 a 0. Mas esperava uma vitória sólida.
Dois ou três touchdowns de vantagem. O suficiente para deixar claro quem era o verdadeiro favorito.
E enquanto ele repassava mentalmente cenários, esquemas defensivos adversários e como punir os pontos fracos na cobertura de safety de Moose, seu olhar se perdeu no prato.
Ele nem prestava mais atenção no café da manhã.
Até que uma voz chamou: — Andrew. Tá me ouvindo? Terra chamando Andrew... câmbio?
Andrew piscou, como se desperta-se de um transe, e ergueu a cabeça devagar.
Mitchell estava lá, a poucos passos de distância, usando uma fantasia ridícula e malajustada do Homem-Aranha.
Enchimento de falsos músculos de espuma. Tecido brilhante. Apertada demais no peito, folgada demais nas pernas.
E uma aranha no peito que parecia ter sido desenhada por uma criança febril.
Andrew não disse nada. Ele encarou a cena em silêncio, ostentando uma expressão neutra ou de choque profundo diante daquela monstruosidade fantasiada à sua frente.
Mitchell ergueu os braços em uma pose meio heroica.
— Tcharam.
[1] - CIF: Abreviação de California Interscholastic Federation (Federação Interescolar da Califórnia), o órgão que rege os esportes de colégio no estado.