
Capítulo 122
Família Moderna: Nova Vida
[Casa Pritchett-Tucker]
Terça-feira, 31 de outubro de 2009
Cameron acordou no meio da noite. Com os olhos abertos de forma lenta e com dificuldade, ele se mexeu debaixo dos lençóis e, ao ver as horas no relógio digital da mesa de cabeceira, empalideceu.
— Não, não... isso não é bom — sussurrou para si mesmo na escuridão.
O relógio marcava exatamente 3h33 da manhã. Uma hora maldita, ainda mais por ser 31 de outubro. Noite de Halloween.
— Eu tenho que ir ao banheiro — murmurou Cam, embora continuasse sob as cobertas sem a menor intenção de se mover, como se o cobertor pudesse de alguma forma protegê-lo.
— Eu não preciso ir ao banheiro, eu não preciso ir ao banheiro... — repetiu, como se isso pudesse convencer sua bexiga a esperar até o amanhecer.
Bem no meio de sua auto-persuasão, a voz sonolenta e claramente irritada de Mitchell quebrou o silêncio: — O que você está fazendo? São três e meia, Cam.
— Minha bexiga quer ir ao banheiro, mas eu não... É Halloween, Mitchell. E se o Andrew tiver armado alguma coisa? — respondeu Cam, lançando um olhar para Mitchell.
Mitchell sentou-se com resignação e acendeu o abajur da mesa de cabeceira. O brilho alaranjado e suave, cortesia de uma lâmpada de ambiente que Andrew afirmava que "cria tensão cinematográfica", banhou o quarto como se estivessem prestes a gravar uma cena de *Atividade Paranormal 8: Pais Adoção Nunca Descansam*.
— Armado o quê? No vaso sanitário? — perguntou Mitchell, franzindo a testa, embora no fundo já estivesse começando a considerar que não era uma ideia tão absurda assim.
— Você esqueceu quem o cria quando não estamos por perto? A Claire! Sua irmã é basicamente o Coringa com um calendário de feriados. O Halloween é o Natal dela — disse Cameron, indignado.
Mitchell suspirou. Ele não podia discordar daquilo. Claire não apenas amava o Halloween... ela o idolatrava. Ela planejava a data com uma paixão que beirava a precisão militar. E desde que adotaram Andrew aos cinco anos de idade, Claire o moldara em um jovem aprendiz das trevas em matéria de sustos estratégicos.
— É verdade... os dois têm algum tipo de guerra fria de pegadinhas com um sistema de pontos — murmurou Mitchell, resignado. — Nem é uma competição saudável. Parece que a minha irmã criou o próprio sucessor.
— Exatamente. Não estou exagerando. No ano passado, fui pegar um copo d'água. Eram umas duas da manhã. Minha garganta estava seca, eu só queria uma água gelada — disse Cam, fazendo uma pausa como se estivesse narrando uma história de guerra.
— Eu abro a geladeira, a luzinha acende... e lá estava. A cabeça do Andrew. Uma réplica quase perfeita. Mas com sangue, olhos arregalados, sem vida. Bem arregalados e sem vida, Mitchell! Parecia que estava me encarando do além.
Mitchell não pôde deixar de sorrir: — Tenho que admitir, ele se superou nessa pegadinha... até a Claire deu a vitória para ele naquele ano.
Ele parou imediatamente ao ver a expressão de Cameron, que o encarava como se ele tivesse acabado de elogiar Hannibal Lecter.
— Por que a gente é arrastado para a guerra psicológica de Halloween deles? — bufou Cam, ultrajado. — Deixem que eles façam pegadinhas um com o outro! Deixem que escondam um rato no sapato, levem um choque na campainha, morram de susto um com o outro, sei lá! Mas deixem a gente em paz.
Mitchell ergueu uma sobrancelha: — Cam... você realmente acha que a Claire se limita ao Andrew? Ela pregou uma peça no Luke dois anos atrás, quando ele tinha oito anos. Fez ele acreditar que tinha cortado a mão sem querer, comprou sangue falso e tudo mais...
Cam afundou no travesseiro com um gemido teatral: — Eles viram sociopatas no Halloween.
— Exatamente. E não é só uma guerra entre os dois. É como se fosse um grande torneio, e nós somos todos danos colaterais — disse Mitchell com resignação. — Você é o dano colateral, Cam.
Nesse momento, ambos deram um pulo com um baque abafado vindo do telhado. Nada mais. Apenas um único som, ou talvez suas imaginações brincando com eles. Mas foi o suficiente para congelar a espinha.
— Vem comigo ao banheiro... — disse Cam, olhando para Mitch.
— O que você é, uma menina de cinco anos? Nem a Lily chegou nessa idade em que tem medo de tudo.
— Ah, qual é, você também pode ir — insistiu Cam.
— Eu te disse para não beber tanta água antes de dormir. Eu vim preparado para qualquer eventualidade — disse Mitchell, esticando o braço para a direita e pegando orgulhosamente uma garrafa do chão.
Cameron franziu a testa: — Isso é...?
— Garrafa de emergência... para xixi, se necessário. Acho que não vou precisar, mas por precaução. Não vou arriscar uma ida ao banheiro no Halloween.
— Que nojo! — exclamou Cam, contorcendo o rosto como se tivesse acabado de sentir cheiro de leite azedo.
Mitchell respondeu de forma seca: — É prático. É sobrevivência. E, honestamente, uma das coisas mais heterossexuais que já fiz. E não vou dividir.
— Eu nem pedi! Que tipo de monstro você acha que eu sou?!
Mitchell colocou a garrafa de volta no chão com cuidado e ajeitou-se no travesseiro.
Cam balançou a cabeça. — Não vou ao banheiro. Nunca mais. Não vale a pena. Deixa minha bexiga explodir igual a uma abóbora no micro-ondas.
Silêncio. Por um momento.
Então Mitchell, em um tom mais relaxado, disse: — Acho que você está seguro... Eu vi o Andrew antes de ir dormir. Ele estava super cansado. Nem parecia ter armado nada. Além do mais, entre o futebol, a escola, o canal do YouTube e a namorada dele... Duvido que tenha tido tempo.
— Você acha que ele não preparou nada? — perguntou Cam com esperança, embora ainda desconfiado, como se Mitchell estivesse sugerindo que ele cruzasse um campo minado porque "as minas parecem velhas".
— Não tenho certeza — admitiu Mitchell —, mas esta é a primeira vez em anos que não o vejo animado com o Halloween, como se tivesse esquecido o feriado. Também não o vi no telefone com a Claire como se estivessem planejando um assalto a banco.
— Mmm...
— E ter namorada... isso muda um adolescente — disse Mitchell, cruzando os braços de forma pensativa. — Desde que a Pippa voltou da Europa e eles superaram aquela primeira briga, parecem mais unidos do que nunca. E ele parece... diferente.
— Diferente como?
— Sei lá... mais presente. Mais aberto. Antes, quando ele estava com a Pippa, era claro que ele gostava dela, claro, mas parecia que ele tratava o relacionamento usando uma checklist. Tudo era prático, lógico, como se estivesse analisando uma partida de futebol: que dia e horário deviam sair, quando ligar, quantas mensagens eram adequadas, tudo calculado.
— O clássico Andrew — disse Cam, assentindo com um sorriso cúmplice. — E bem a cara da Pippa também. Aquela garota é meticulosa com tudo, até na hora de respirar. Ela adora estudar, precisa de tempo para as coisas dela e organiza a rotina como se fosse um projeto científico.
— Exatamente. E com o quão organizado ele é com treinos, nutrição, horários... eles são um casal esquisito para adolescentes, mas muito funcional. Só que agora eu vejo os dois agindo todo grudentos, como se finalmente tivessem sido atingidos pelo negócio de estarem apaixonados — disse Mitchell.
— Então você acha que isso fez ele esquecer o Halloween? — perguntou Cam.
— Não sei se ele esqueceu — disse Mitchell, dando de ombros —, mas acho que há uma pequena chance de ele estar ocupado demais este ano para se dar ao trabalho de te atacar hoje à noite.
— E se ele estiver fingindo, só para baixar a nossa guarda? — tornou a perguntar Cam, ainda incerto.
— Bom, se for esse o caso... ele ganha o prêmio de Melhor Manipulação Psicológica em Ambiente Familiar.
— Certo... eu vou — disse Cam, suspirando com um pingo de esperança. Ele saiu da cama e caminhou até a porta como um homem indo para a batalha. Abriu-a devagar, espiou e deu um passo em direção ao corredor escuro.
Só então Mitchell se permitiu dar um sorriso fraco.
Cam caminhou em direção ao banheiro com todos os sentidos em alerta máximo. Quando chegou lá, acendeu a luz rapidamente, preparando-se para o pior.
Nada.
Tudo estava normal. O banheiro reluzia em branco. Limpo e silencioso. Sem sangue falso, sem membros de mentira, sem olhos de boneca boiando na banheira. Até o espelho estava intacto.
Cam soltou um suspiro de alívio enquanto fechava a porta suavemente. Ele se virou para o vaso sanitário e, então, sentiu.
Nenhum som, nenhum movimento. Apenas... uma sensação. Como quando alguém te encara e você simplesmente sabe.
Lentamente, como em um filme de terror de baixo orçamento, Cam ergueu os olhos em direção ao teto.
E lá estava.
Uma aranha preta gigantesca, do tamanho de uma melancia, pendurada de cabeça para baixo bem acima dele. Oito pernas peludas abertas como garras, um corpo brilhante, olhos vermelhos parecidos com cristais.
O tipo de criatura que faria aracnofóbicos chorarem.
Cam congelou por um segundo. A aranha estava bem em cima dele. E então, como se tivesse recebido um sinal, ela despencou.
Ela se soltou do teto e aterrissou diretamente no rosto de Cam, cobrindo-o por completo.
— AAAAAAAHHHH!
Um grito agudo ecoou por toda a casa. Um segundo depois, passos apressados correram em direção ao banheiro. Mitchell foi o primeiro a invadir o cômodo, descalço.
Quando viu Cam no chão tentando arrancar uma aranha gigante hiper-realista do rosto, não pôde deixar de fazer careta para a criatura feia, embora um sorriso fraco tenha surgido em seus lábios.
Mitchell recuou instintivamente. — É bem feia — murmurou, já puxando o celular e tirando uma foto de Cam.
— VOCÊ TIRANDO FOTO?! MITCHELL, TIRA ISSO DE MIM!! — gritou Cam, se debater como se a aranha estivesse viva e tramando o mal.
— Já vou, já vou... — disse Mitchell, tentando não rir enquanto guardava o celular.
Andrew apareceu logo atrás dele, descalço, de pijama, mas com o sorriso de um artista aguardando críticas após uma apresentação. — Funcionou? — perguntou, já sabendo a resposta pelo grito e tentando não rir.
Com total calma, Mitchell agachou-se e puxou a aranha do rosto de Cam. Cam sentou-se devagar, respirando fundo, com os olhos arregalados. Seu olhar foi da aranha falsa para Mitch, depois para Andrew... e voltou para Mitchell.
— Não... não acredito. Foi você? — disse ele, incrédulo.
— Ép — respondeu Mitchell com um sorriso de vitória.
— Traidor! Você me disse que o Andrew provavelmente não tinha feito nada! Você me mandou para o banheiro como um cordeiro para o abate!
— E você me disse que eu nunca conseguiria armar uma pegadinha de Halloween decente — disse Mitchell, erguendo-se com dignidade e cumprimentando Andrew com um toque de mãos.
O queixo de Cam caiu, piscando em confusão. — Do que você está falando?
— Há duas noites. Na cozinha. Estávamos falando sobre o Halloween, sobre a Claire, o Andrew, o quão criativos eles são com as pegadinhas... e você, no seu tom casual de sempre, disse: 'Ah, Mitchell, você não tem esse tipo de graça. Você é sério demais. Não conseguiria armar uma pegadinha dessas nem se te pagassem'.
— Eu não falei desse jeito!
— Sim, falou. Talvez não quisesse soar ofensivo... mas foi.
— Foi só uma observação, baseada no seu tipo de humor, nada ofensivo — Cam tentou se justificar.
— Bom — respondeu Mitchell, apontando orgulhosamente para a aranha falsa —, essa foi a minha resposta. E tive a ajuda do mestre — disse ele, indicando Andrew.
Andrew ergueu as sobrancelhas com falsa modéstia. — A ideia foi toda do Painho[1]. Eu só ajudei com o Howard para a aranha ter um sensor de movimento. Ela reage ao calor corporal e cai sozinha quando alguém passa por baixo. Maneiro, né?
— Aquele maldito gremlin de tigelinha... — resmungou Cam entre dentes, imaginando o rosto de Howard.
— Não desconte no amigo do nosso filho — disse Mitchell, divertido.
Andrew soltou uma risadinha abafada. Mas Cam, ainda despenteado e respirando com dificuldade, virou-se para ele com um olhar firme.
— E por que você não faz essas pegadinhas com a Pippa, hein? — perguntou, indignado. — Quero ver se a sua namorada gosta de ter uma tarântula peluda caindo na cara dela às três da manhã.
— Uau... pegou pesado com ele — pensou Andrew, encarando Cam com uma expressão estranha.
Em sua mente, a resposta era clara:
Não teria graça ver a Pippa assustada. Simplesmente não teria. Nem de longe como com os outros.
Quando Cam gritava, pulava, se debatia no chão, era pura comédia física. Suas expressões exageradas, os braços rodopiando no ar, aquela voz desafinada: ouro da comédia pastelão.
A Claire, por outro lado, era um troféu de alto nível. Se ele conseguisse arrancar dela que fosse um pequeno sobressalto, parecia estar vencendo uma batalha psicológica.
Com a Alex e a Haley, a diversão estava nas consequências: elas sempre tentavam correr atrás dele, bater nele com um travesseiro ou dar o troco.
O Phil ria junto com ele. Depois do susto, ele o abraçava e dizia coisas como: "Foi genial! Coisa de profissional de verdade! Essa eu não vi chegar!".
O Jay... bom, assustar o Jay era mais difícil do que assustar a Claire. Então conseguir qualquer reação dele parecia uma verdadeira conquista.
Mas com a Pippa... não.
Só de imaginar ela sobressaltada, assustada, tremendo ou confusa, isso mexia com algo desconfortável em seu peito. Uma urgência automática de protegê-la.
— Não... — disse Andrew, dando de ombros.
— Não o quê? — perguntou Cam.
— Não teria graça assustar ela... — respondeu Andrew. Em seguida, virou-se e começou a caminhar pelo corredor em direção ao próprio quarto.
— Você está apaixonado! Apaixonado de verdade! — gritou Cam, dando um passo em direção à porta para ver Andrew sumir no corredor.
Andrew nem sequer parou.
Exatamente quando virava para entrar no quarto, ergueu uma das mãos no ar como quem não tem tempo para aquilo, entrou e fechou a porta atrás de si.
— Bancando o valentão... não quer admitir — disse Cam com um sorriso fraco.
— Bem, tenho que admitir, você se recuperou da pegadinha muito bem — comentou Mitchell.
-------------------------------------------------
___________________________________________________
[1] Painho - Termo carinhoso usado em algumas regiões do Brasil (especialmente na Bahia) para se referir ao pai, equivalente a "papai".