
Capítulo 127
Família Moderna: Nova Vida
Mitchell dirigia em silêncio.
Cam viajava no banco do passageiro, lançando olhares ocasionais para a fantasia de Willa como um diretor de elenco orgulhoso.
No banco de trás, Andrew e Willa sentavam-se juntos, separados apenas pela cadeirinha de Lily.
Ele tinha sua máscara de Michael Myers apoiada no colo; ela ajustava a gola da fantasia enquanto conferia o próprio reflexo na janela.
'Só para você saber', disse Andrew, virando-se levemente para ela, 'a Claire faz isso todo ano. É tipo... o Super Bowl dela. Todo Halloween ela escolhe um tema novo para a casa, decora tudo durante dias e distribui papéis para todo mundo.'
'Papéis?', perguntou Willa, erguendo uma sobrancelha.
'É. Às vezes você é um espírito preso. Ou um monstro escondido. Ou uma vítima gritando no armário. Depende do ano. É como uma peça de teatro... mas com doces e trauma psicológico para crianças', explicou Andrew.
Willa olhou para ele, meio achando graça, meio confusa: 'Eu não sabia que vocês levavam isso tão a sério.'
'A Claire leva. O bairro inteiro sabe. Para as crianças, é como um rito de passagem: se você sobreviver à Casa dos Horrores dos Dunphy, ganha seus doces e sua honra.'
'Mmm, agora eu entendo de onde vêm as peças de psycho [1] entre você e sua tia', murmurou Willa, soltando uma risadinha abafada.
'A parte boa', acrescentou Andrew, olhando pela janela, 'é que a Claire não sabe que você está vindo... então você não vai ter um papel definido. Provavelmente vai acabar improvisando alguma coisa durante o tour.'
'Perfeito', disse Willa, cruzando os braços. 'Uma atriz sem roteiro. O que poderia dar errado?'
'Tudo', respondeu Cam, virando-se do banco da frente. 'Mas se alguém pode tirar isso de letra com estilo, é você, querida.'
Do banco do motorista, Mitchell suspirou ao fazer uma curva: 'Eu só queria que nenhuma criança saísse chorando. É pedir demais?'
Andrew inclinou-se para a frente com um sorriso fraco, como alguém acostumado com aquele tom derrotado do pai.
'Não seja chato estraga-prazeres. Além disso, você nem está de fantasia este ano, então está no banco de reservas. E nos anos anteriores não foi tão mal... é, a gente assustava, mas sabia a hora de parar. A gente tem regras, não somos maníacos incivilizados.'
Então, fazendo uma pausa, ele recitou as regras:
'Proibido traumatizar crianças menores de dez anos. Proibido encostar. Proibido gritar a menos de um metro. Proibido assustar pais superprotetores', concluiu ele, como se citasse um manual já estabelecido.
Mitchell virou a cabeça por um segundo, incrédulo. 'Vocês sério que têm um código?'
'Claro, você não sabia depois de todo esse tempo?', disse Cam. 'A Claire escreveu anos atrás. Acho que ela até plastificou.'
Mitchell fez uma careta leve de seu lugar ao volante. Ele não podia acreditar que sua irmã havia criado um código de regulamentação de sustos... embora, como advogado, tivesse que admitir que ter regras não era uma má ideia.
Willa, que até aquele momento olhava pela janela, virou-se para Andrew com uma expressão entre divertida e perigosa. Sua maquiagem de palhaça distorcia qualquer emoção real.
'O que acha de irmos um pouco além este ano, Myers?', ela perguntou, baixando o tom de voz para Andrew.
Andrew inclinou a cabeça para ela, intrigado: 'Mande ver.'
Willa encarou-o sem piscar: 'Sabe... assustar eles um pouco mais. Eu me alimentam do medo das crianças.'
'Uau, ela já está incorporando o personagem', pensou Andrew, divertido.
'Topo. E como eu disse antes, sabia que você tinha um quê de sádica', respondeu Andrew com um sorriso discreto.
Willa ergueu uma sobrancelha, girando o cordão de seu balão vermelho: 'Não tenho muitas chances de usar minhas habilidades teatrais para aterrorizar crianças. É revigorante. Libertador, até. Uma espécie de catarse artística.'
'Catarse artística... Curti o som disso!', disse Cam, tentado a participar dos sustos neste ano.
Mitchell apenas balançou a cabeça em silêncio. Ele tinha certeza de que este Halloween, mais do que doces... traria processos judiciais.
Eles chegaram à casa dos Dunphy. Ainda não havia crianças por perto. Faltavam apenas alguns minutos para o tour oficial começar.
Andrew e os outros saíram do carro e caminharam até a porta da frente.
Andrew vestia um macacão azul, máscara na mão e uma faca falsa na outra. Willa caminhava calmamente, segurando seu balão vermelho com elegância teatral.
Lembre-se', disse Andrew, virando ligeiramente a cabeça para ela, 'a pegadinha da Claire pode acontecer a qualquer momento. Até mesmo durante a casa mal-assombrada aberta ao público. É improvável... mas eu não confio naquela mulher. Então temos que ficar juntos o tempo todo, beleza?'
'Com certeza', respondeu Willa com um sorriso que não era exatamente tranquilizador. 'Serei sua sombra.'
O curioso era que um garoto pedisse algo assim a ela.
E mais curioso ainda: ele não tinha nenhuma intenção romântica. Não estava dizendo aquilo para flertar, protegê-la ou tentar seduzi-la.
Era pura estratégia. E, à sua maneira, Willa achou isso fascinante.
Eles tocaram a campainha, e a porta se abriu abruptamente. Phil estava lá usando um jaleco branco salpicado de tinta vermelha, óculos de laboratório e um sorriso alegre de cirurgião que não inspirava muita confiança.
'Bem-vindos à Clínica do Horror dos Dunphy!', ele os recebeu com seu entusiasmo habitual. 'O asilo está pronto para receber novas almas... quer dizer, pacientes!'
'E aí, Phil, já praticando, hein?', disse Andrew, cumprimentando o tio com um sorriso.
Eles entraram.
O interior estava decorado do chão ao teto: luzes piscando, móveis cobertos por lençóis, quadros tortos e uma gravação de gritos distantes ecoando de um canto.
Na sala de estar estava Claire, vestindo um jaleco médico impecável, cabelo preso com capricho, óculos redondos e luvas cirúrgicas pretas.
Ao vê-la, Andrew reconheceu instantaneamente aquela sua expressão clássica: uma varredura visual rápida, julgamento silencioso e uma decisão imediata.
Os olhos dela pousaram primeiro em Cam, que usava apenas uma capa preta simples.
Nada mais.
Claire estreitou levemente os olhos em desaprovação, mas sabia que discutir com Cam sobre fantasias era perda de tempo. Pelo que sabia, Cam tinha algum trauma de infância com o Halloween que ele nunca explicava direito, razão pela qual não gostava de se fantasiar elaboradamente ou de fazer muita coisa na data.
Depois, o olhar dela se dirigiu a Mitchell, que nem sequer havia tentado se fantasiar. Sem chapéu, sem máscara, sem maquiagem. Apenas... roupas normais.
Claire franziu os lábios: 'Onde está sua fantasia?', perguntou ela, encarando o irmão.
'Ah, não. Eu não vou me fantasiar este ano. Passei o dia inteiro fantasiado. Foi horrível', respondeu Mitchell.
'Isso não é nada comparado a quando eu—' começou Cam, mas Mitch o cortou rapidamente.
'Nem todo Halloween precisa ser sobre você.'
Willa ergueu uma sobrancelha e olhou para Andrew.
'É um trauma de infância que meu pai tem, por isso ele é apático com o Halloween...' sussurrou Andrew para Willa.
Claire balançou a cabeça diante do comportamento de Cam e Mitch, e então seu olhar recaiu sobre Willa.
Claire piscou. Duas vezes. 'Ah...' foi tudo o que disse.
Phil, que só agora havia olhado bem para ela, exclamou: 'Uau! Foi algum estúdio de efeitos especiais que fez isso?'
Willa deu um sorriso fraco, o suficiente para parecer educada e perigosa ao mesmo tempo.
Claire, que demorava para elogiar, mas nunca ignorava a qualidade, assentiu com um toque de solenidade.
'A fantasia está perfeita. Melhor do que 80% do elenco dos anos anteriores.'
Todos conheciam Willa, não apenas como amiga de Andrew, mas também como amiga íntima de Haley.
'Obrigada', disse Willa modestamente.
Da cozinha, Luke e Manny se aproximaram.
Manny, vestido de Frankenstein, caminhava duramente com parafusos tortos no pescoço.
Luke, com um jaleco branco, óculos de laboratório gigantes e cabelo arrepiado com gel, gritou: 'Eu dei vida a ele! Mas acho que esqueci de ensinar como usar o banheiro!'
Manny, sem sair do personagem nem por um segundo, falou com uma voz grave e solenidade trágica: 'Eu não preciso de banheiro. Apenas atenção, reconhecimento... e amor.'
Houve uma pausa. Willa olhou para ele por um segundo... e assentiu.
'Nada mal', disse ela, genuinamente impressionada. 'Você conhece o personagem.'
Manny olhou para ela como se tivesse acabado de ver um fantasma recitando Byron. Por um momento, esqueceu que tinha parafusos no pescoço. Ele endireitou um pouco a postura.
'O monstro era incompreendido', acrescentou Manny suavemente. 'A tragédia dele foi existir sem ter pedido por isso.'
Luke, enquanto isso, estava perdido em seu próprio mundo, exagerando na atuação: 'Eu sou um gênio do mal com problemas de coordenação!'
'Victor Frankenstein não era assim. No romance original, ele não é um louco. É um jovem cientista idealista que brinca de Deus por desespero, não por maldade. Os filmes o retratam como louco, mas ele é trágico, não insano', disse Willa.
Manny, completamente enfeitiçado, sussurrou: 'Finalmente... alguém entendeu.'
Luke, ainda sem entender nada, parou por um segundo e focou no rosto pintado de Willa.
O brilho vermelho de seu balão faiscava sobre suas maçãs do rosto. Seus olhos contornados a faziam parecer um espectro.
Luke engoliu em seco, mas reuniu coragem para não recuar.
'Eu sou um cientista louco, não um cara chato que ninguém vai lembrar!'
Willa deu um sorriso de lábios cerrados. Não disse nada. Apenas manteve o olhar fixo em Luke por mais dois segundos.
'Quer flutuar, Luke?', perguntou Willa, dando um passo em direção a ele.
Luke deu meio passo para trás, erguendo as mãos como se tentasse conjurar um escudo protetor invisível.
'N-não chega perto! Eu tenho um monstro que me protege!'
Willa soltou uma risadinha suave: 'Estou brincando. Relaxa. Eu estou no seu time.'
Luke soltou o ar aliviado: 'Ah. Tá bom. Só atuação. Caramba, muito bom. Por um momento eu achei—'
Uma voz soou de repente atrás dele, inesperada.
'Bom trabalho, Luke. Esse diálogo... muito bem decorado.'
Luke virou a cabeça lentamente.
E lá estava ele.
Na altura dos olhos dele. Inclinado para a frente, perfeitamente imóvel.
Com a máscara branca e inexpressiva alinhada precisamente ao seu rosto: Michael Myers.
Luke soltou um grito curto e, por puro reflexo, desferiu um soco no peito do assassino mascarado.
'AAH! Não me mata, Tio Mike!'
Michael Myers endireitou-se com um movimento lento e fluído... e então tirou a máscara.
Era Andrew.
Havia um sorriso fraco em seus lábios, mal visível, como se aquilo tivesse sido apenas mais um ensaio.
'Sou eu, Luke. Relaxa', disse ele simplesmente.
Luke, respirando com dificuldade, encarou-o de olhos arregalados. 'Há quanto tempo você está aí?'
'Eu tenho o poder de teletransporte', respondeu Andrew com um sorriso singelo.
A poucos metros de distância, Mitchell, que vinha observando tudo, estreitou os olhos.
'Ótimo... Se a Willa e o Andrew acabaram de improvisar isso e conseguiram assustar o Luke, que é mais durão que 80% das crianças deste bairro depois de uma década de pegadinhas da Claire e do Andrew, então as crianças que vieram hoje à noite estão fodidas', pensou ele.
Nesse exato momento, Claire deu um passo em direção à escada e gritou: 'Haley! Alex! Descendam agora! Precisamos nos organizar antes que as primeiras crianças cheguem!'
Em seguida, ela voltou a se juntar aos outros. Seus olhos pousaram em Andrew, que estava parado com os braços cruzados e um sorriso fraco no rosto.
Aquele sorriso típico que ele exibia todo ano quando estava tramando uma pegadinha.
Um sorriso que Claire conhecia melhor do que ninguém.
'Então você está planejando me assustar de novo este ano?', perguntou Claire em tom desafiador, cruzando os braços exatamente como ele.
'Assustar você? Eu? Nunca', disse Andrew com total inocência, inclinando levemente a cabeça. 'E você? Tem algo planejado?', perguntou ele.
Claire estreitou os olhos como um general de guerra avaliando uma ameaça.
'É claro que eu não planejei nada contra você este ano. Como você pode ver, a casa mal-assombrada deu muito trabalho, está muito mais complexa do que nos anos anteriores', respondeu ela.
'Hmm, duvido', disse Andrew, sem acreditar em uma só palavra.
Normalmente, as pegadinhas entre Claire e Andrew aconteciam dentro da casa dos Dunphy.
Isso podia parecer uma desvantagem para ele, mas não era. Ele passava tanto tempo lá que conhecia cada canto. Tinha tempo para planejar seus truques, às vezes até com a ajuda de Haley, Alex e outros.
No entanto, este ano... ele não precisava de preparação.
Este ano, sua pegadinha era um ataque cardíaco, e para isso ele precisava que Claire fosse a primeira a entrar.
Claire desviou o olhar para Willa, que permanecia com seu balão vermelho e maquiagem demoníaca intacta, parecendo uma estátua tirada de um pesadelo.
'E ela?', perguntou Claire. 'Faz parte do seu plano?'
Andrew balançou a cabeça levemente.
'Não. A família dela não comemora o Halloween. Ela estava entediada, se interessou pela casa mal-assombrada, gostou da fantasia e curte atuar. Então eu a convidei', respondeu Andrew dando de ombros.
Claire manteve os olhos em Willa por mais alguns segundos.
Ela conhecia a garota.
Amiga de Andrew. Também próxima de Haley. Atriz profissional, personalidade forte, senso de humor afiado.
Ela poderia fazer parte de uma pegadinha? Com certeza.
Mas Claire não era paranóica. Bem... não muito.
Ela achava improvável que Andrew deixasse a pegadinha nas mãos da amiga, e mal conseguia imaginar que papel Willa poderia desempenhar em um susto daqueles.
Nesse instante, Claire percebilu algo com o canto do olho, virou-se rapidamente e gritou: 'Luke! Para de pegar doces! Isso é para as crianças que realmente gritarem!'
Luke, com a mão pega no flagra dentro do balde, respondeu: 'Eu levei um susto de verdade! Eu mereço!'
Logo em seguida, passos ecoaram pela escada e a campainha tocou.
...
Só por curiosidade: Pippa ou Willa?