Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 118

Família Moderna: Nova Vida

A festa continuava. Risadas, música, grupinhos conversando.

Howard ainda tentava flertar, sem sucesso, se aproximando de qualquer garota que estivesse respirando. Suas táticas variavam entre o adoravelmente desajeitado e o clinicamente desesperado. Incrivelmente, ele não havia levado um tapa sequer naquela noite.

A certa altura, Andrew foi ao banheiro e, quando saiu, deparou-se com uma cena inesperada.

Ali, na mesa de pingue-pongue do quintal, vários copos plásticos meio cheios estavam dispostos em um triângulo. Bem ao lado deles, prestes a lançar a primeira bolinha no clássico jogo de *Beer Pong* [1], estava Pippa.

Ao seu lado, como sua dupla, estava Cara, animada, sorridente e com a energia competitiva de quem levava aquilo muito a sério.

Do outro lado, o time rival: Regina e Karen.

Ambas com os olhos brilhando, o equilíbrio levemente cambaleante e um riso fácil que entregava algumas rodadas anteriores.

— Como diachos a Pippa foi parar jogando isso? — Andrew pensou, surpreso.

Ela não bebia. Sempre evitava esse tipo de jogo em festas. E, no entanto, lá estava ela.

Focada, divertindo-se, até com um leve espírito competitivo.

Andrew se aproximou, ainda incrédulo. — Desde quando você joga *Beer Pong*? — perguntou em voz baixa, parando ao lado dela com os braços cruzados.

Pippa virou a cabeça e o encarou com calma, um sorriso nos lábios. — Desde mais ou menos dois minutos atrás.

— A Regina convenceu você? — ele perguntou, suspeitando de um lance estratégico. Não seria de se estranhar.

Pippa balançou a cabeça. — Não, nada disso. Elas estão invictas — disse, apontando para Regina e Karen. — Estão procurando novos desafiantes para defender a invencibilidade.

— E você se voluntariou? — Andrew perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— É... A Cara se empolgou e me convenceu. Além disso, nunca tinha jogado um desses jogos... e pensei: por que não tentar algo novo? Um pouco de cerveja não vai fritar meu cérebro — respondeu Pippa.

Andrew a encarou por alguns segundos. — Quem é você e o que fez com a minha namorada metódica e autocontrolada?

Pippa lançou-lhe um olhar afiado e divertido.

— Você também é metódico e autocontrolado, Sr. Dieta-Rotina-Eficiência. Esqueceu da sua noite de bebedeira em que tentou destruir o Um Anel?

Andrew ficou em silêncio por um instante. Abriu a boca. Depois fechou.

— *Touché* [2] — admitiu, erguendo as mãos em rendição. — Mas aquela noite... foi um caso à parte.

— Hoje à noite eu sou o caso à parte. Embora eu não vá tão longe quanto você, o Leonard e o Howard foram naquela noite — disse Pippa, pegando a primeira bolinha de pingue-pongue.

Andrew soltou uma risada fraca enquanto dava um passo para trás. — Bem jogado. Ficando registrado, não estou reclamando. Eu adoro essa sua versão.

— Obrigada... agora torce por mim. A gente vai esmagar o império loiro — disse Pippa com um sorriso maroto, mirando em Regina e Karen, que responderam com um sorriso desafiador.

A partida começou com uma multidão se reunindo para assistir ao confronto épico entre as duas líderes de torcida mais populares da escola e a famosa namorada de Andrew, conhecida por ser uma das melhores alunas e co-criadora do *Flappy Bird*.

Para a própria surpresa, Pippa era muito melhor do que esperava.

O problema era a mira de Cara.

Na verdade, cada vez que ela arremessava, era uma ameaça em potencial aos olhos tanto dos espectadores quanto das oponentes.

— Ei! Não mira no meu olho de novo! — alguém gritou do fundo.

Mas havia uma vantagem: Regina e Karen já não eram as titãs invictas de mais cedo na noite.

O álcool estava fazendo seu trabalho; as risadas delas estavam mais altas, as mãos menos firmes, e elas erravam tacadas que antes acertariam de olhos fechados.

Isso não impediu que Pippa e Cara tivessem que beber vários copos de cerveja, especialmente no começo.

Pippa, que nunca havia bebido álcool na vida, subestimou completamente sua tolerância. Achara que a cerveja não seria grande coisa, mais leve que bebidas fortes, mas estava redondamente enganada.

— Isso tem gosto horrível — pensou Pippa após o segundo copo, com as bochechas já levemente coradas.

Lá pelo quarto... ela estava zonza, ruborizada e estranhamente feliz.

O mais perceptível: sua mente afiada e seu autocontrole de sempre tinham... entrado em pane.

— Vai logo, Cara! — Pippa gritou aberta e despreocupada após um arremesso desastroso da colega de equipe. — Por que você é tão ruim assim? Sua mira parece... parece que você tá arremessando com os cotovelos. Até um cara aleijado seria uma dupla melhor.

Cara a encarou, levemente ofendida por cerca de um segundo... e então caiu na gargalhada. Por alguma razão, a palavra "aleijado" lhe pareceu hilária, provavelmente devido ao seu estado.

Do outro lado, Regina e Karen ficavam mais atrapalhadas a cada minuto.

Entre risadas e arremessos desajeitados, mal conseguiam acertar um a cada quatro tiros.

Pippa, por outro lado, estava em modo franco-atiradora eufórica.

Ela arremessava com convicção, risadas e uma mira surpreendentemente boa — parte habilidade, parte sorte.

Quando a bolinha caiu no último copo do time rival, Pippa ergueu os braços como uma campeã olímpica e deu um passo em falso para trás.

Andrew, que a observava de perto, entrou em ação e a segurou antes que ela caísse.

Como vencedora, a multidão inteira irrompeu em aplausos, vivas e gritos.

— A gente ganhou? — Pippa perguntou, olhando para Andrew.

— De algum jeito, você conseguiu vencer com uma parceira pior que um aleijado — respondeu Andrew com um sorriso de canto.

— É! E agora? Eu ganho um troféu? Uma entrevista pós-jogo? — disse Pippa, tentando se manter erguida com certa dificuldade.

— Agora você bebe água. E depois disso... mais água — disse Andrew, passando um braço pelos ombros dela e guiando-a para longe do epicentro da festa.

— Nossa, que mira. Como se sente sabendo que uma garota bêbada arremessa melhor que você, Leonard? — perguntou Howard.

— Cala a boca. Você não é melhor do que eu — resmungou Leonard, franzindo levemente a testa.

Ali perto, Kevin, que havia assistido à partida do início ao fim, acrescentou: — Precisão de casal impressionante... por pura sorte.

— Quase cinquenta para a meia-noite — Andrew pensou, checando o celular.

Ele precisava garantir que Pippa voltasse para casa em segurança. O padrasto dela viria buscá-la à meia-noite, assim como Mitchell viria para pegá-lo.

Enquanto isso, Pippa circulava pela festa como uma versão destravada de si mesma.

Ela não estava fora de si ou fazendo nada de que fosse se arrepender amargamente.

Mas tinha aquele tipo de euforia que só alguém que nunca havia bebido álcool antes podia experimentar, percebendo que seu filtro interno era incrivelmente fácil de desligar.

Andrew a seguia de perto, como um guarda-costas, certificando-se de que ela não acabasse subindo em uma mesa para gritar ou fazendo alguma loucura.

Nada que a fizesse acordar no dia seguinte arrependida dos seus atos.

A bem da verdade, nada do que ela estava fazendo se comparava àquela vez em que ele, Howard, Leonard e Steve vagaram por Los Angeles ao amanhecer convencidos de que eram a Sociedade do Anel, tentando destruir o Um Anel...

E de como confundiram uns tipos suspeitos num beco com orcs. E Howard confundiu um sem-tetinho com o Gollum; Andrew chegou a oferecer um dólar ao homem para convencê-lo a guiar o grupo até Mordor, o que só fez o sujeito correr atrás deles, forçando-os a fugir.

— É, isso definitivamente é bem mais leve — pensou Andrew, bem na hora em que Pippa se virou com determinação e foi direto na direção de Howard.

— Howard — disse Pippa com firmeza, exibindo um meio-sorriso, como se soubesse que ele já estava com medo.

— Pois não? — respondeu Howard, com a expressão tensa. Ele já tinha ouvido comentários diretos demais daquela nova versão de Pippa sem filtro.

Se você fosse apenas um espectador, era engraçado de assistir, mas se ela mirasse em você, estava frito.

— Suas tentativas de flerte são um lixo. E eu não digo isso por ódio. Digo com esperança, esperança de que você melhore. É quase assédio sexual — disse Pippa seriamente, apontando para ele com sua garrafinha de água quase vazia.

Howard piscou várias vezes. — Como é que é?

— Eu fiquei sabendo que você disse a uma líder de torcida hoje à noite que o corpo dela tem mais curvas que o circuito de Mônaco. Você tá tentando seduzir a garota ou chamar a segurança?! — acrescentou ela, indignada.

— Eu... eu achei que foi espirituoso. Sabe, garotas gostam de caras que entendem de carros — disse Howard, encolhendo-se um pouco.

— Não, não... isso nunca vai funcionar. Você não vai arrumar namorada se bancar o esquisito que só se interessa pelo corpo dela — disparou Pippa sem hesitar. — Mostre respeito ou pelo menos se atenha ao flerte básico que não envolva curvas, peitos ou bundas.

— Tá bom... entendi — assentiu Howard, engolindo em seco.

Leonard, que estava mais afastado, não pôde deixar de rir da cara de Howard, parecendo que tinha acabado de levar uma bronca da mãe.

Pippa virou-se para ele. — Não ri tanto! Se você continuar vivendo com medo existencial de qualquer coisa que ande sobre duas pernas, nunca vai chamar a Willa para sair.

— O quê? Eu nem olho para a Willa...! — protestou Leonard, sem jeito.

— Silêncio — Pippa o cortou, erguendo uma mão como se moderasse um debate. — Você está se sabotando. Você tem inteligência, bom coração e até um certo charme nerd trágico, mas precisa parar de agir como um esquilo assustado. Chamar ela para sair ou tentar um flerte básico não vai invocar um buraco negro! Só faz isso.

Leonard abaixou a cabeça, concordando como se tivesse acabado de receber um *feedback* acadêmico. — Valeu... acho.

Andrew apareceu ao lado de Pippa, colocando gentilmente uma mão na cintura dela. — Hora de sentar, atiradora de elite. Suas vítimas precisam de um tempo para refletir em paz.

Pippa virou-se lentamente para ele, com o mesmo olhar avaliativo que usara com Howard e Leonard, como se agora fosse a vez de Andrew enfrentar o julgamento final.

— Você... — disse ela, estreitando os olhos.

Andrew ergueu uma sobrancelha, divertido, mas levemente preocupado. — Eu... o quê?

Pippa o encarou por mais um segundo, e então sua expressão mudou completamente. Suavizou-se por inteiro.

— Nada. Você é perfeito — disse Pippa e, sem dizer mais nada, abraçou-o com força, encostando a cabeça no peito dele.

Andrew congelou por um momento, surpreso... então sorriu e a abraçou de volta.

— Eu sabia que você acabaria se rendendo aos meus encantos — murmurou ele em tom de brincadeira.

— Cala a boca — disse Pippa, sem soltá-lo. — Eu tô bêbada, não surda.

Andrew riu.

Ele não imaginava que a melhor parte da noite não seria o jogo, mas sim ver a Pippa daquele jeito.

Andrew conseguiu fazer Pippa sentar e cumpriu bem o seu papel: deu água a ela, manteve-a sentada, afastou-a do caos da festa e deixou o tempo fazer o seu trabalho.

Quando Pippa recebeu uma mensagem no celular, resmungou enquanto lia: — O Victor chegou.

— Beleza, vamos lá — disse Andrew, ajudando-a a se levantar, embora ela estivesse bem mais firme do que há uma hora.

Um carro preto estava estacionado em frente à casa de Liam.

Andrew a acompanhou até a calçada.

Victor abaixou o vidro e, ao vê-los, sorriu. — Como está a campeã de *Beer Pong*? — perguntou brincalhão.

Andrew piscou, surpreso. — Como você sabe?

Victor soltou uma risada fraca. — A certa altura da noite... recebi uma mensagem da Pip, anunciando com muito entusiasmo que era 'a melhor atiradora do planeta nesse negócio de pingue-pongue alcoólico', ou algo assim. A gramática estava horrível. O que diz muito vindo dela.

Andrew riu, balançando a cabeça. — É... ela estava bem eufórica. Mas bebeu água, agora está firme. Nada fora de controle, eu juro. Cuidtei dela o tempo todo.

Victor assentiu com um sorriso tranquilo. — Eu confio em você, Andrew. E além do disso... se eu tivesse a idade dela, teria sido muito pior. Então não se preocupe. Sem sermão hoje à noite.

Andrew abriu a porta de trás com cuidado e ajudou Pippa a entrar. Ela desabou no banco com um suspiro de satisfação.

— Tá tudo bem? — perguntou Andrew.

— Invictas — respondeu Pippa com um sorriso sonolento.

— Você só jogou uma partida... — pensou Andrew com uma expressão estranha, mas não disse em voz alta. Ele fechou a porta e olhou para Victor.

— Obrigado por cuidar dela, Andrew.

— Que nada. Ela já cuidou de mim uma vez — disse Andrew.

— Boa noite, Andrew — disse Victor ao dar partida no carro. O veículo arrancou suavemente, desaparecendo rua abaixo.

Andrew só teve que esperar mais alguns minutos até Mitchell chegar, e então foi para casa.

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