
Capítulo 117
Família Moderna: Nova Vida
A festa na casa de Liam ainda estava bombando.
A noite estava no ponto: nem caótica demais, nem calma a ponto de ser chata.
Havia pessoas rindo, música tocando ao fundo, grupos conversando em diferentes cantos e uma vibe leve que fazia todo mundo esquecer, pelo menos por um tempo, a pressão da escola ou dos próximos jogos.
Andrew e Pippa estavam se divertindo muito, mesmo não sendo exatamente os maiores fãs de festas. Eles conseguiam conversar sem precisar gritar, o que já era uma grande vantagem para uma festa de adolescentes.
Como era ao ar livre, a música não era ensurdecedora. As caixas de som estavam bem posicionadas e dava para manter uma conversa normal sem perder a voz no processo.
Não havia cheiros fortes daqueles que costumam pairar em festas fechadas, sem suor rançoso, sem fumaça estranha, nada disso. Apenas ar fresco, cheiro de grama e o aroma ocasional de pizza vindo das caixas abertas que alguém tinha trazido.
Também não havia comportamento selvagem.
Apenas cerveja, o que dava a tudo uma vibe de "adultos, mas responsáveis". Claro, todo mundo sabia que conseguir álcool sendo menor de idade não era tão difícil assim, mas Liam tinha deixado claro desde o início que não queria uma festa destruída.
Havia energia e gritos, estudantes dançando, alguns casais se beijando nos cantos mais escuros, mas nada fora de controle.
Depois de conversar com amigos e outros colegas de classe, Andrew e Pippa encontraram um cantinho com dois sofás infláveis, onde se sentaram e começaram a falar sobre várias coisas. Um desses tópicos: Flappy Bird e a próxima atualização.
"As vendas caíram este mês", disse Andrew, olhando de relance para o celular antes de colocá-lo virado para baixo em sua perna.
"Quanto?" perguntou Pippa.
"Cerca de mil dólares a menos que no mês passado. Mas se comparar com o nosso melhor mês, quando faturamos quinze mil, este aqui rendeu apenas seis", respondeu Andrew.
Três dólares mil para cada um não era ruim, mas durante o melhor mês deles, eles tinham faturado sete mil e quinhentos cada.
Além disso, Andrew sabia que o Flappy Bird tinha muito mais potencial, ele só tinha lançado o jogo cedo demais.
"Li uma pesquisa outro dia. Muita gente ainda nem tem um celular com tela sensível ao toque. Não é totalmente maluco que as vendas estejam estagnadas", comentou Pippa.
Andrew assentiu. Ela tinha razão.
Mesmo que ele tivesse lançado o jogo em 2009 antes da hora (graças à sua vantagem de vir do futuro), ele sabia que o mercado não estava totalmente pronto.
"Ainda gastar dinheiro de verdade em um jogo de celular parecia estranho para muita gente.
O boom ainda não tinha acontecido.
"Temos que continuar atualizando para mantê-lo vivo", disse Andrew, "até que os celulares virem tipo... sei lá, uma extensão do corpo humano".
"Isso não soa meio apocalíptico?" brincou Pippa.
"Acredite em mim, vai acontecer..." pensou Andrew.
"Talvez... mas também vai ser lucrativo para nós", disse ele com um leve sorriso.
Pippa riu baixinho, mas seu tom ficou mais sério ao responder: "Ainda assim, o que ganhamos até agora não é pouca coisa. Já separei minha parte, parte foi para um fundo de faculdade, outra parte para uma poupança líquida e o resto em investimentos em títulos do Tesouro dos EUA".
"Caramba... você realmente tem tudo planejado. Você é oficialmente mais madura e tem uma visão de futuro melhor do que 99% dos alunos de Palisades", brincou Andrew, embora houvesse respeito genuíno em seu tom.
"Eu sou cautelosa..." respondeu Pippa com um leve sorriso, claramente lisonjeada com o elogio de Andrew.
"Por falar em investimentos", disse Andrew, com um sorriso misterioso nos lábios.
"Ah? Tem uma dica quente para mim, Lobo de Wall Street?" perguntou Pippa, erguendo uma sobrancelha.
"Dá para dizer que sim... Você já ouviu falar de algo chamado... Bitcoin?" perguntou Andrew.
Pippa franziu a testa. "Bit... o quê?"
"Bitcoin. É uma moeda virtual. Tipo dinheiro, mas... totalmente digital, sem bancos, descentralizada. Ninguém controla. É nova. Tecnicamente foi lançada há menos de um ano", explicou Andrew.
"Uma moeda virtual... Isso é legalizado?" perguntou Pippa.
"É... embora seja tão nova que ainda não existem leis que saibam como lidar com isso. A ideia é que ela roda em uma tecnologia chamada blockchain[1], que registra todas as transações de forma pública e segura. E sim, no momento é muito nova, até suspeita para muita gente... mas eu tenho um pressentimento de que pode ser o futuro", disse Andrew.
Pippa estreitou os olhos.
"Você investiu nisso?" perguntou ela.
"Algo assim... tem potencial", respondeu Andrew.
"Você parece muito confiante. De onde vem toda essa certeza?" perguntou Pippa, curiosa sobre como ele podia ter tanta certeza sobre algo que parecia um esquema de pirâmide suspeito.
Andrew hesitou por um segundo. "Tenho lido fóruns técnicos. Acompanho o desenvolvimento desde que a ideia surgiu... e simplesmente sinto que isso vai explodir".
Pippa cruzou os braços, não totalmente convencida. "Eu não investiria em algo que não tem uma base legal clara... E se sumir amanhã? E se for tudo fachada?"
Andrew suspirou.
Ele não podia simplesmente dizer: "Não se preocupe, daqui a alguns anos vai valer milhares de dólares por unidade e você vai ser milionária".
"Você está certa em ser cética... Não estou pedindo para você investir dinheiro de verdade. Dá para minerar bitcoin pelo computador, literalmente só com um programa. A gente pode pesquisar junto. E se te convencer, a gente começa a minerar, sem cavar de verdade, claro", explicou Andrew.
"Hmm, parece interessante estudar blockchain e o que é uma moeda descentralizada. Mas só isso. Não vou colocar dinheiro de verdade e espero que meu computador não pegue nenhum vírus", disse Pippa com um sorriso de canto.
Andrewriu: "O quê? Você não quer ser minha parceira na revolução financeira global?"
"Hmm... talvez eu pense nisso depois de pesquisar direito", respondeu Pippa com uma risadinha suave.
Uma voz conhecida os interrompeu.
"O que vocês dois estão fazendo escondidos aqui?" perguntou Cara em tom de brincadeira, segurando uma garrafa de refrigerante. "Procurando privacidade ou esperando começar a chuva de pétalas?"
Andrew e Pippa se viraram ao mesmo tempo. Atrás de Cara estavam Leonard, Howard e Zach.
"Estávamos falando sobre o futuro, investimentos e novas tecnologias financeiras em potencial", respondeu Pippa sem pestanejar.
Cara não pôde deixar de olhar para eles com uma expressão estranha. "Sério? Vocês dois são uns nerds fofinhos demais".
"Ah, vocês estavam falando de Bitcoin?" perguntou Howard animado ao ouvir as palavras novas tecnologias financeiras em potencial.
Pippa assentiu, e Leonard entrou na conversa, claramente empolgado. "Andrew nos explicou. É uma rede pública descentralizada que verifica transações através de prova de trabalho. É brilhante, matematicamente falando".
"Baixei o cliente há alguns dias e já estou chegando perto de 200 bitcoins!" acrescentou ele com um sorriso.
"Ha, eu já passei disso", disse Howard com um sorriso convencido.
Andrew assentiu, satisfeito por seus amigos terem lhe dado ouvidos.
Era ótimo que eles fossem tão nerds e, além de qualquer lucro, estivessem genuinamente empolgados com a tecnologia por trás do Bitcoin.
Eles estavam minerando por curiosidade, por diversão... completamente inconscientes do tesouro que estavam cavando.
Lá em outubro de 2009, minerar Bitcoin era ridiculamente fácil.
Não havia concorrência, nem fazendas de servidores gigantescas, nem GPUs especializadas. Tudo o que você precisava era de uma CPU decente e deixar o computador ligado.
Cada bloco minerado premiava com 50 bitcoins, e um novo bloco era gerado a cada 10 minutos.
Era tão simples que, com um notebook razoável rodando por várias horas por dia, dava para faturar vários bitcoins diariamente.
Andrew, que realmente sabia o que esses números significariam no futuro, não deixou a oportunidade passar.
Por sorte, ele lembrou a tempo.
Nessa nova vida, desde os cinco anos, ele tinha focado tanto na família e no futebol americano que isso tinha escapado totalmente da sua mente.
O Bitcoin havia sido lançado em novembro de 2008... e por meses, tinha ficado fora do seu radar.
Mas agora, ele estava mais do que a tempo.
Com parte do dinheiro que havia ganhado com seu canal no YouTube e com as vendas do Flappy Bird, ele comprou um segundo computador dedicado exclusivamente à mineração.
Duas máquinas, minerando por horas todos os dias nas últimas duas semanas.
Naquela época, ele já havia acumulado quase 1.000 BTC.
Ele sabia que em poucos anos, essa quantidade seria quase impossível de alcançar.
A dificuldade aumentaria. Empresas gigantes surgiriam, hardwares especializados apareceriam, ASICs criados unicamente para a mineração.
Fazendas de servidores e eletricidade industrial seriam necessárias para fazer o que ele estava fazendo agora com um PC comum daquela época.
O que agora parecia um experimento inofensivo...
No futuro, seria um milagre impossível de repetir.
Cara, que estava ali com uma sobrancelha arqueada, cruzou os braços.
"É, legal, investimentos e toda essa papelada..." disse ela, claramente pouco impressionada.
"Pippa, podemos falar um segundo?" acrescentou ela, olhando de relance para a melhor amiga.
Pippa assentiu, sabendo exatamente do que se tratava.
Ela lançou um olhar rápido, mas direto, para Andrew. Ele entendeu imediatamente.
Cara havia pedido ajuda a Pippa alguns dias antes para falar com Reggie.
Nada complicado, apenas uma pequena assistência social.
Um empurrãozinho. E quem melhor para isso do que sua melhor amiga, namorada do quarterback e amiga do cara em questão.
"Claro, vamos", disse Pippa, e as duas se afastaram.
"Ela vai me mandar a mensagem quando a Cara estiver pronta..." pensou Andrew.
Assim que recebesse o sinal, ele avisaria Reggie.
"Você não se importa que a Cara esteja saindo com o Reggie?" perguntou Andrew de repente, olhando para Howard, que havia ocupado o lugar que Pippa tinha deixado vazio.
"Nah", disse Howard fazendo um gesto desdenhoso com a mão. Desde que ele tinha passado do limite com Cara, aquele beijo no banheiro, tinha acabado.
E Howard tinha desencanado de Cara rapidinho. Não tinha sido difícil.
Andrew conversou com seus dois amigos nerds e, a certo ponto, recebeu o sinal de Pippa e avisou a Reggie que era a hora.
Ele já havia mencionado algo antes, e Reggie tinha demonstrado interesse em Cara.
Cerca de vinte minutos depois, Reggie e Cara estavam em um canto, aos beijos.
"Mais um sucesso para o meu cartel de cupido", pensou Andrew, tomando um gole de seu refrigerante, embora desta vez, tivesse sido fácil e não exigido quase esforço nenhum.
...
Nota do Autor:
Olá a todos. Não sou especialista em Bitcoin, então não tenho 100% de certeza se o número que usei (1000 BTC minerados em outubro de 2009 com dois computadores em duas semanas) é totalmente preciso ou realista. Com base no que pesquisei, esses números parecem plausíveis para aquele período. Mas se alguém lendo isto souber mais sobre Bitcoin e perceber que a quantidade está incorreta, fiquem à vontade para me avisar e eu atualizarei com prazer.
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[1] - Tecnologia de registro distribuído que serve como uma base de dados segura e descentralizada para transações.