
Capítulo 114
Família Moderna: Nova Vida
Andrew permaneceu esticando o corpo no campo de Palisades, junto com Archie, Kevin e o restante dos companheiros de equipe.
— Vai pra festa do Liam? — perguntou Archie, soando mais como uma afirmação do que uma pergunta.
Andrew encarou-o sem responder. "Como ele sabe?", pensou, confuso. Havia apenas dez minutos que tinha dito a Regina que iria.
— Como você sabe disso? — perguntou Andrew finalmente, sem conseguir disfarçar totalmente a surpresa.
— A Regina postou no status do Messenger há poucos minutos — respondeu Archie, e Andrew se lembrou de tê-lo visto com o celular na mão antes de começarem os aquecimentos.
— E você sabe como é — acrescentou Archie, dando-lhe um tapinha nas costas. — Se você vai a festa, todo mundo em Palisades vai ficar sabendo. Fofoca viaja rápido.
— Caramba, toda essa pressão só por ir a uma festa — disse Andrew, suspirando e balançando levemente a cabeça.
— A Pippa aprovou isso? — perguntou Kevin de trás, com um meio-sorriso.
— Com certeza. Nós dois vamos à festa — respondeu Andrew. — E, para deixar claro, não é como se eu precisasse da permissão dela, nem ela da minha. Decidimos ir a uma festa por mês. É o nosso compromisso mínimo com a sociedade — acrescentou com um sorriso.
— Caramba, vocês são antissociais profissionais — disse Reggie, entrando na conversa com um sorriso.
— Obrigado — respondeu Andrew com uma leve mesura teatral. — A gente se esforça. O suficiente para não virar ermitão completo.
Todos riram.
A conversa continuou enquanto se esticavam sob a luz do sol, envoltos na confiança que cerca as equipes vencedoras... até que uma voz grossa e grave cortou o ar bruscamente.
— Você chama isso de chegar na hora, Steve? — rosnou o técnico David a alguns metros de distância.
O grupo virou-se instantaneamente.
David estava com os braços cruzados, encarando diretamente Steve, um dos recebedores titulares da linha ofensiva. Sua voz era baixa e fria, sem gritar, mas claramente irritada, com a paciência por um triz.
Steve permaneceu ali segurando o capacete, com uma expressão impassível, como se não entendesse qual era o grande drama por chegar dez minutos atrasado.
Steve era o único que não entendia. Todos os outros, até os mais desligados, como Reggie, sabiam que ele estava pisando em ovos.
No ano passado, Steve havia conquistado sua vaga de titular com muito trabalho e talento, desbancando os recebedores veteranos. Ele era o melhor parceiro de Andrew e teve uma ótima temporada.
Mas, desde então... ele tinha se acomodado. As vitórias esmagadoras, a invencibilidade, a fama crescente da equipe. Tudo subiu à cabeça.
Chegadas atrasadas. Menos foco. Uma atitude que, para Andrew e para o técnico, estava se tornando insuportável — ou melhor, já era.
— Este é o terceiro treino em que você se atrasa, e só tivemos seis! Isso é cinquenta por cento! — disse David em um tom gélido, franzindo a testa para ele.
Se tivesse outro recebedor talentoso e experiente, Steve já teria esquentado o banco. Mas David já tinha uma solução.
Steve ergueu uma sobrancelha e suspirou. Nenhuma culpa real, nenhuma vergonha.
— Cinco voltas ao redor do campo. Agora.
Steve fez uma careta de resignação e começou a caminhar em direção à pista. Ele percebeu que Andrew e os outros o observavam.
Incomodado pelas broncas do técnico, Steve levantou a mão e acenou como se não fosse nada demais: — Ei, galera! O jogo de hoje vai ser moleza! O retrospecto do adversário é de uma vitória e quatro derrotas. Vitória fácil, mano — disse ele com um meio-sorriso.
— Dez voltas em vez de cinco! — rugiu David ao ouvir aquilo. — E pare de subestimar seus adversários, está me ouvindo?
A veia na testa do técnico David pulsava.
Steve engoliu em seco e não disse mais nada. Apenas colocou o capacete e disparou a correr, sem olhar para trás.
O grupo ficou em silêncio por alguns segundos. Até Reggie, o brincalhão e descontraído, manteve a boca fechada. Ele podia ter ego, mas não era tão arrogante quanto Steve, e sempre levava os jogos a sério.
— Desse jeito, ele vai virar banco — disse Kevin, de brazos cruzados, observando Steve correr as voltas como um atleta punido.
Archie e Reggie balançaram a cabeça quase em sincronia.
— Isso vai ser um baque para o ego dele — murmurou Archie. — Mas, enfim... quem planta colhe.
Andrew ficou em silêncio por um momento, com os olhos fixos no amigo que corria. Depois, balançou devagar a cabeça e disse:
— Não.
— Não? — perguntou Reggie, virando-se para ele. — O que você quer dizer?
— Steve vai esquentar o banco. Hoje à noite — disse Andrew sem rodeios.
Os três o encararam surpresos.
— O quê? — soltou Kevin. — Como você sabe?
— A gente vem treinando uma formação secundária há duas semanas, lembra? — disse Andrew, e os outros assentiram lentamente, relembrando os treinos táticos recentes.
— É, aquela com apenas dois recebedores... — confirmou Kevin.
— Exatamente. Essa formação muda o jogo de passes. Apenas dois recebedores abertos são usados. E o técnico me confirmou isso hoje de manhã: essa é a nossa formação base para o jogo de hoje à noite — disse Andrew.
Houve uma pausa.
— Então... a gente sabe quem vão ser os recebedores titulares? — perguntou Archie, com uma mistura de curiosidade e tensão na voz.
— Jack e Nico — respondeu Andrew diretamente.
Jack era o calouro do primeiro ano do ensino médio que havia agarrado vários passes de Andrew no último jogo. E Nico era um novato do segundo ano que havia se transferido para Palisades naquele ano.
— Os técnicos tiveram coragem de colocar o Steve no banco? Vão botar um calouro no lugar dele? — perguntou Reggie, erguendo as duas sobrancelhas em descrença.
— Sim. O Jack vai ser titular porque eu sugeri — disse Andrew calmamente.
Os três o encararam, surpresos.
— Você? — repetiu Kevin.
— Sim. Falei com o técnico sobre isso há uma semana. Ele já estava considerando. Talvez desse ao Steve mais uma chance para ver se ele dava o gás. Mas eu lhe dei meus motivos — explicou Andrew.
Reggie estalou a língua, dessa vez sem sarcasmo: — E ele te ouviu? — perguntou, embora já soubesse a resposta.
— Sim. Sou o quarterback [1], e é meu trabalho garantir que o ataque funcione. Não tenho favoritos. E, bom... ter feito 72 touchdowns na temporada passada ajuda um pouco também — acrescentou Andrew.
Os garotos riram, mas havia um tom de respeito na risada.
Andrew ergueu o rosto, levantando uma sobrancelha e abrindo um sorriso travesso: — Então é melhor os três não começarem a fazer corpo mole... ou qualquer um de vocês pode ser o próximo a esquentar o banco.
Kevin, Archie e Reggie entreolharam-se com expressões de falso alarme.
— Agora fiquei com medo — disse Reggie, meio brincando, meio sério.
— É bom saber que não há favoritismo. A gente não quer acabar igual ao Jason e aqueles veteranos folgados da maioria dos times — acrescentou Kevin, mais seriamente.
— É, é reconfortante... e um pouco aterrorizante — concordou Archie.
— Relaxem. Desde que façam o trabalho de vocês, são os melhores nas suas posições. Mas se alguém começar a fazer corpo mole, eu mando regar as plantas junto com o Steve — disse Andrew, e as risadas voltaram.
O treino continuou sem grandes problemas.
A essa altura, não se tratava de intensidade física, mas de ajustar os detalhes: revisar rotas, sincronizar o tempo e afiar a estratégia.
Com o treino quase no fim, a equipe se reuniu em círculo perto da arquibancada para a última conversa tática do dia antes do jogo.
— Formação base: Pro Set. Dois recebedores abertos, dois running backs [2] em campo, um tight end [3] e a linha ofensiva de sempre — anunciou o técnico com firmeza, antes de começar a ler os nomes de cada posição nessa nova formação ofensiva.
É claro que Andrew era o quarterback titular. Reggie e Archie eram os dois running backs. Kevin também era um dos cinco homens da linha ofensiva, junto com o tight end e, por fim, os dois recebedores abertos.
Steve, que não tinha dúvida de que seu nome seria chamado, ergueu uma sobrancelha quando o primeiro nome que saiu da boca do técnico foi Jack: o calouro. E quando ouviu o segundo nome: Nico, ele congelou no lugar.
Achou que tinha ouvido mal. Mas não. O técnico repetiu a escalação mais uma vez para deixar tudo claro.
Tanto Jack quanto Nico pareciam surpresos por serem titulares no lugar de Steve. Especialmente Jack.
Andrew deu uma olhada de soslaio para Steve. Ele não era o único olhando para ele.
A expressão do rapaz era uma mistura perfeita de confusão, incredulidade e ego ferido.
Como se não conseguisse processar o fato de ter sido deixado de fora. Como se ninguém o tivesse avisado, embora, no fundo, ele soubesse que sim. Andrew havia lhe dito várias vezes para levar as coisas a sério e acordar pra vida.
Andrew achou que aquela cara merecia ser emoldurada e pendurada na parede para todo mundo ver e lembrar que a posição de ninguém está garantida.
Apesar de carregar parte da culpa pelo fato de Steve ter ido para o banco — já que, sem sua opinião, Steve talvez ganhasse mais um jogo —, Andrew não sentia culpa.
Eles eram amigos de infância, sim. Mas Andrew desejava que sua equipe fosse perfeita.
E na perfeição não há espaço para preguiça.
Você pode ler 15 capítulos adiantados no meu Patreon.
Link: https://[email protected]/Nathe07
[1] - Quarterback: Jogador responsável por comandar as jogadas ofensivas no futebol americano.
[2] - Running backs: Jogadores ofensivos especializados em correr com a bola.
[3] - Tight end: Posição híbrida no futebol americano que atua tanto bloqueando quanto recebendo passes.