Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 113

Família Moderna: Nova Vida

Long Island, Nova York

A grama recém-cortada e as árvores projetavam sombras sobre uma casa de dois andares, com venezianas brancas e vasos de flores transbordando de floração.

No andar de cima, em um quarto no segundo andar, uma jovem saiu do banheiro enrolada em uma toalha, com seu cabelo preto e molhado colado ao pescoço. Ela entrou no quarto, fechou a porta atrás de si e se jogou na cadeira da escrivaninha.

Ela ligou seu notebook branco e abriu o YouTube automaticamente. O primeiro vídeo que apareceu fez seus olhos se arregalarment em surpresa ao ler o título:

📺 PASSAMOS DE 1 MILHÃO! | ENCONTRO COM INSCRITOS + OBRIGADO POR TUDO

'O quê!? Um encontro!?' ela disse em voz alta, como se alguém pudesse ouvi-la.

Ela clicou rapidamente, e o vídeo começou.

O garoto na tela tinha uma aura que irradiava confiança e segurança, daquelas que a gente não aprende. O fundo era simples: um quarto, uma camisa pendurada, luz natural vindo de uma janela ao lado. Ele falava com uma voz calma e clara, agradecendo a todos por um milhão de inscritos em seu canal e dizendo o quanto aquilo significava para ele.

A garota mal piscava enquanto ouvia o que seu YouTuber favorito dizia:

'...então, no próximo domingo, às quatro, estarei no Shopping Citrus Grove, na Califórnia. Se puderem ir, adoraria conhecer vocês. Preparei algumas coisinhas, surpresas...'

Ao ouvir aquilo, ela deu um tapa no vídeo para pausá-lo. Ficou imóvel por um segundo, como se seu cérebro estivesse processando devagar uma oportunidade que parecia boa demais para ser verdade.

Então ela deu um pulo, ainda com a toalha enrolada, e começou a revirar as gavetas com extremo cuidado, mas com urgência. Calças, camisas, tênis. Ela se trocou em menos de um minuto, prendeu o cabelo úmido em um rabo de cavalo meio bagunçado e saiu correndo do quarto.

Ela parou em frente a uma porta fechada e bateu forte várias vezes. 'Abre essa porta! Anda, logo!'

Silêncio. Nenhuma resposta do outro lado, o que a fez franzir a testa e perder a pouca paciência que tinha com o irmão.

'Não me faça arrombar essa porta, seu idiota! Tá dormindo!? Abre!'

'Tá bom, tá bom... para de gritar', veio uma voz sonolenta de dentro.

A porta se abriu devagar e um garoto da idade dela, talvez um pouco mais velho, apareceu. Seu cabelo preto estava bagunçado e ele tinha olheiras.

'O que você quer?' ele perguntou, coçando a cabeça.

'A gente tem que ir pra Califórnia este fim de semana!' respondeu a garota com uma mistura de urgência e empolgação.

'Opa, opa... devagar', disse ele, dando um passo para trás. 'Não me diga que você comeu cereal de marshmallow e sorvete de sobremesa de novo?'

Ela o encarou impaciente, cruzando os braços. 'Eu não ando comendo essas porcarias venenosas, isso não tem nada a ver com isso.'

'Sério?' disse o garoto, sem parecer convencido. 'Com o seu metabolismo atual, se você comesse tanto açúcar como antes, tecnicamente estaria tendo um pico de glicose seguido de euforia, suor e tremores, igualzinho agora', acrescentou ele, apontando para o rosto suado dela.

'Isso não é suor! Acabei de sair do banho!' ela rosnou. 'Estou perfeitamente bem e firme na minha dieta. Só estou animada porque o Andrew vai fazer um encontro com os inscritos!'

'Andrew... o cara do futebol americano?' ele perguntou, estreitando os olhos.

'É! Quem mais? E nós vamos!' ela falou como se estivesse escrito na pedra.

O garoto se apoiou no batente da porta com resignação. 'Você lembra que ele é da Califórnia? E a gente mora em Nova York. Fica do outro lado do país.'

'Eu sei. Precisamos de passagens de avião. E para conseguir, precisamos da permissão da mãe e do pai, e dinheiro. E eu preciso da sua ajuda para convencê-los', disse ela com um sorrisinho confiante.

O garoto ergueu uma sobrancelha, intrigado.

'Minha ajuda? E o que eu ganho em troca?' perguntou ele, adotando um tom de negociador cansado. Entre irmãos, cada favor envolvia uma pequena transação. Era a lei não escrita.

'Um fim de semana divertido na Califórnia com o pai', respondeu ela, mexendo as sobrancelhas. 'Além disso, você também assiste aos vídeos do Andrew. Eu sei que você faz a rotina de treinos de 30 dias dele. Te vi fazendo agachamento na frente do espelho com a camisa dos Knicks.'

'Ei, não me espiona!' o garoto rosnou, corando levemente.

'Não é espionagem se você deixa a porta entreaberta.'

Ele soltou um suspiro longo, apoiando-se no batente da porta: 'Tá legal... topo. Mas com uma condição.'

'Qual?'

'Para de malhar na sala. Seus burpees[1] às seis da manhã estão assustando meus amigos.'

'Seus amigos são uns frotes. Um deles tentou levantar um dos meus kettlebells[2] e não conseguiu... Que tipo de cara não aguenta isso?' disse a garota, estalando a língua em frustração.

'Ele tem asma e pesa quarenta e cinco quilos...' retrucou o garoto.

'Chega de papo furado! Vamos falar com a mãe e o pai', disse a garota, agarrando o braço do irmão e começando a empurrá-lo em direção à cozinha.

'Ugh... essa vai ser uma batalha longa', pensou o garoto, sem ter escolha.

...

6 de outubro de 2009

Era sexta-feira, dia de jogo. E na Palisades High School, isso significava tudo.

O ar nos corredores da escola estava cheio de entusiasmo e energia. Vários armários estavam enfeitados com águias, cartazes feitos à mão pendurados nas paredes: 'Vamos, Águias!', 'Invictos!', '#12 é o GOAT!'[3] — e a maioria dos alunos usava as camisas do time.

A escola inteira vibrava com uma energia difícil de descrever, uma mistura de expectativa coletiva para os jogos de sexta à noite e um orgulho profundo por sua identidade.

O time vinha com uma campanha perfeita nesta temporada: cinco vitórias em cinco jogos, dominando cada partida com um ataque afiado e uma defesa sólida.

Ainda faltavam quatro jogos para o fim da temporada regular, mas, sinceramente, para Palisades ficar fora dos playoffs regionais, eles teriam que perder todas as partidas, e não por pouco. Estamos falando de derrotas acachapantes, com uma diferença de pontos tão grande que nem os calculistas mais otimistas dos times rivais conseguiriam fazer os números fecharem.

Se contassem a invencibilidade do ano anterior, Palisades vinha de uma temporada de 2008 quase perfeita. Eles venceram todos os jogos na D5[4], terminando como campeões regionais e estaduais.

Tinham perdido apenas uma partida: a primeira daquela temporada. O motivo? Naquela época, Andrew não era o quarterback titular. Ele conquistou a titularidade logo no jogo seguinte àquela derrota e, desde então... não tinham perdido uma única partida.

Desde que ele assumiu o comando, Palisades não sabia o que era a derrota.

Essa trajetória não só impulsionava o time, mas elevava a escola inteira. Andrew havia se tornado o orgulho local. Seu canal no YouTube, com mais de um milhão de inscritos, era assunto diário de conversa, e muitos alunos o seguiam como se ele fosse uma celebridade.

Para Andrew, acostumar-se a isso não foi tão fácil quanto pensava. Ainda assim, ele dava um jeitinho. Afinal, ninguém o obrigara a criar um canal no YouTube ou a se tornar quarterback. Ele escolheu aquilo e, com isso, vieram os olhares, as expectativas e as opiniões.

Ele sabia que ser quarterback não era exatamente um papel discreto. É a cara do time, o líder, a referência. E mais ainda quando suas estatísticas são absurdas e você está invicto desde o ano passado.

'Este domingo finalmente é o dia', disse um aluno do primeiro ano, caminhando pelo corredor junto com seu amigo, rumo à lanchonete.

'O encontro de fãs?' perguntou o amigo, e ele acenou com a cabeça.

'Citrus Grove. Não é muito longe. Acho que ele escolheu um lugar mais afastado por segurança. Vou levar minha camisa para ele autografar.'

O amigo o olhou com uma cara estranha. 'Por que você não pede para ele assinar aqui mesmo? Você o vê nos intervalos, nos corredores...'

'É, claro', resmungou o primeiro. 'Você acha que é tão fácil se aproximar dele? Ele está sempre cercado. Não quero parecer um idiota pedindo autógrafo na frente de todo mundo.'

'No domingo você também vai estar cercado de fãs...'

'É, mas aquele evento é para isso', retrucou ele.

'Bom ponto', admitiu o amigo, bem na hora em que passavam por uma das portas do banheiro.

A porta se abriu e Andrew saiu exatamente naquele momento. Ele estava com a mochila jogada em um ombro, o celular na mão e um ar levemente sério no rosto. Ele tinha ouvido parte da conversa e não conteve um sorriso fraco enquanto andava.

'Eu não estou cercado agora...' pensou, com um toque de ironia. Mas ele não parou.

Ele apurou o passo, como costumava fazer quando sentia a atenção se acumulando como nuvens de tempestade. Cada aluno que passava o cumprimentava:

'Vamos lá, Águias! Acabem com eles!' gritou um grupo de quatro caras em coro, causando um alvoroço ao vê-lo.

'Hoje você vai lançar oito passes para touchdown!'

'Oito passes? Isso é fé demais', pensou Andrew com um sorriso discreto, dando um leve aceno em agradecimento pela confiança.

'Andrew, eu te amo!' gritou uma garota de um grupo de amigas antes de esconder o rosto em meio a risadas nervosas. As outras a empurraram de brincadeira, rindo.

'Eu tenho namorada...' pensou Andrew enquanto acenava de leve e continuava andando.

Para cada comentário, Andrew respondia com um aceno rápido, um sorriso fraco, um pequeno gesto com a mão. E seguia em frente.

Não era arrogância, nem achava que era melhor do que os outros. Era experiência. Ele sabia que, se parasse, nem que fosse por um segundo, mais gente se aproximaria, e o treino começaria em menos de dez minutos.

E embora, como prodígio, ele tivesse certos privilégios, e os técnicos o perdoassem mais do que admitiriam, ele nunca se atrasava. Só tinha se atrasado uma vez no ano anterior, e por causa de um problema familiar.

Ele acelerou o passo, cortando por um corredor lateral até finalmente alcançar as portas duplas que davam para os vestiários e o campo.

Ali, duas garotas esperavam: Regina e Karen.

Ambas usavam as jaquetas da equipe de cheerleaders[5], impecáveis, como se nem o vento pudesse desarrumar o cabelo delas.

Karen mascar chiclete preguiçosamente, com o olhar um tanto vago. Regina, por outro lado, estava com os braços cruzados e batia o pé esquerdo com impaciência, como quem espera por alguém.

Parece que estavam esperando por ele.

'Fugindo dos seus fãs, quarterback estrela?' perguntou Regina, erguendo levemente a sobrancelha com um sorriso discreto.

'Será que todos nós não estamos fugindo de alguma coisa?' retrucou Andrew, devolvendo a pergunta.

Karen deu uma risadinha. Regina inclinou a cabeça: 'Essa foi uma resposta bem filosófica para alguém que joga futebol americano.'

'Não é só músculo. Vocês duas precisam de alguma coisa?' perguntou Andrew, empurrando a porta e saindo, com as garotas logo atrás.

'Um autógrafo no anuário[6]', disse Karen, entre a brincadeira e a seriedade.

'Você vai à festa na casa do Liam depois do jogo?' perguntou Regina casualmente, mas com clara intenção.

Andrew não respondeu de imediato.

Até Liam, o capitão da defesa e veterano, de vez em quando dava festas em sua casa.

Andrew e Pippa não eram chegados a festas. Preferiam noites tranquilas na casa de um deles, com o círculo íntimo de amigos. Música em volume razoável, pizzas, lanches, jogos de tabuleiro, piadas internas.

Ainda assim, tinham feito um acordo entre os dois: uma festa por mês. Só para não serem totalmente antissociais nesse aspecto, especialmente porque até amigos deles, como Leonard e Howard, às vezes queriam ir a uma festa de colegial de verdade e mudar de ares.

'Sim, eu vou. Contanto que a gente vença o jogo de hoje', respondeu Andrew.

Um sorriso se formou no rosto de Regina, mas logo ela franziu levemente a testa: 'Perder? Tá brincando?'

Até Karen o encarou como se ele tivesse dito algo impossível.

'Eu não subestimo ninguém. Até mais', respondeu Andrew com um sorriso de canto.

'Sempre tão profissional. Às vezes ele é irritantemente correto', comentou Regina assim que Andrew sumiu de vista.

Andrew chegou ao campo para o treino faltando um minuto.

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Link: https://[email protected]/Nathe07


[1] - *Burpees* - Exercício físico de calistenia que combina agachamento, flexão de braço e salto vertical.

[2] - *Kettlebells* - Peso em forma de bola de ferro com uma alça, usado para exercícios de força e condicionamento.

[3] - *GOAT* - Sigla para *Greatest of All Time* (O Maior de Todos os Tempos).

[4] - *D5* - Divisão 5, categoria de classificação em ligas esportivas escolares nos EUA.

[5] - *Cheerleaders* - Líderes de torcida.

[6] - *Anuário* - Livro de recordações escolar tradicional nos EUA com fotos e assinaturas dos estudantes (*yearbook*).

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