Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 111

Família Moderna: Nova Vida

Enquanto Claire saía da sala de estar tentando abafar uma risada, Gloria foi até Cam e o ajudou a se levantar para o sofá.

— Oh, Cameron, o que aconteceu? Num minuto você estava de pé lá, e no outro tudo o que podíamos ver eram os seus sapatos — disse Gloria, começando a tirar batatas fritas do cabelo dele.

Andrew, Pippa e os outros se abaixaram para pegar os petiscos espalhados pelo chão.

Do seu assento, ainda meio descabelado, Cam respirou fundo e declarou:

— Querem saber o que aconteceu?

Ele ergueu a mão dramaticamente, apontando para Mitchell.

— O Mitchell tem vergonha de me beijar na frente dos outros.

— Isso não é exatamente verdade! Você me pegou de surpresa! — defendeu-se Mitchell.

Nesse instante, Claire voltou com um pano e um balzinho:

— Não é pessoal, Cam. No colegial, o Mitchell namorou a Robin Schiller e também nunca beijou ela.

— Isso foi porque eu sou gay! — protestou Mitchell, virando-se para a irmã.

— E qual é a sua desculpa agora? — perguntou Cam, sem perder o ritmo.

Um silêncio constrangedor pairou por um segundo, até que Gloria voltou a falar:

— A culpa não é do Mitch, Cam. Ele aprendeu com o pai — disse ela, apontando direto para Jay, que estava num canto da sala, com um colar de sapatos pendurado no pescoço, encarando o chão como se fosse a coisa mais fascinante do mundo.

— O Jay também não é carinhoso em público — acrescentou Gloria, dando de ombros.

Jay ergueu o rosto, ofendido.

— Não acredito que você está me atacando — respondeu Jay, abrindo os braços. — Estou com sapatos pendurados no pescoço. E por quase meia hora eu gritei com a sua carne para espantar a morte. O que mais vocês querem de mim? —

Dito isso, ele tirou os sapatos cerimoniosamente e os jogou no chão.

— Não está vendo? A culpa é sua que seu filho não consegue beijar o namorado em público! — disse Gloria, elevando o tom de voz.

— Não diga namorado.

— A gente não gosta da palavra namorado.

Cam e Mitch disseram quase em uníssono.

Jay, erguendo uma mão como quem pede um cessar-fogo, falou:

— Dá para a gente acabar com isso agora e continuar comendo nosso sorvete em silêncio?

— Não! Diga para o Mitch que não tem problema beijar o Cam na frente de vocês. Só fala — insistiu Claire.

— Por que a gente tem de fazer isso? — perguntou Jay, exasperado e confuso.

Enquanto isso, nos sofás, Andrew, Pippa, Manny, Alex, Haley e Luke assistiam à cena como se fosse uma peça de teatro.

Os olhos deles seguiam cada adulto por vez, vidrados em cada fala enquanto aproveitavam o sorvete junto com o espetáculo gratuito.

— A gente não tem de fazer nada — disse Mitch de brazos cruzados, balançando a cabeça. Nessa situação, ele estava do lado do pai.

— É claro que não — falou Cam do seu assento, esbanjando sarcasmo.

— Desculpa por não querer agarrar você na frente da família inteira — disse Mitch, com a paciência por um fio.

— Não peça desculpa — disse Jay, como se lhe desse a bênção e confirmasse que não era preciso fazer nada daquilo.

— Não. A Gloria tem razão — retrucou Claire, ainda metida na história e encarando Jay fixamente. — Pai, o fato de você ser emocionalmente fechado dificulta que seus filhos demonstrem afeto.

— É mesmo? — perguntou Jay, travando contato visual com Claire.

— É — respondeu ela, convicta.

— Tem sido difícil para você demonstrar afeto em lugares públicos? — insistiu Jay.

— Tem — repetiu Claire, tentando soar igualmente firme.

— Você? — perguntou Jay de novo, como se precisasse ter certeza absoluta.

— É… — respondeu Claire, com a voz caindo um pouco.

Jay hesitou por um segundo e disparou:

— Isso foi antes ou depois da polícia trazer você até a minha porta vestindo só cueca e um cobertor que eles te deram?

Os olhos de Claire arregalaram-se.

— Ai, meu Deus! — exclamou Haley, saltando do sofá. — Eu sabia! Eu sabia que você não era santa nenhuma — acrescentou com tom vitorioso.

Ela sempre desconfiava do passado supostamente impecável da mãe no colegial.

— Você foi presa? — perguntou Alex, escandalizada e lançando um olhar crítico.

— Irado — murmurou Luke, claramente impressionado.

— Não tem nada de irado! E não, eu não fui presa! O seu avô está brincando — rebateu Claire na mesma hora.

— É, claro. Só uma brincadeira — disse Jay com um sorriso falso… que não convenceu ninguém.

A seguir, sussurrou baixinho para Claire: — Eu tenho um milhão dessas —.

Claire fuzilou-o com o olhar.

Mas, antes que o assunto morresse, Gloria voltou à carga, recusando-se a desistir da situação de Mitch e Cam.

— Você é fechado emocionalmente, Jay. Admite. O Phil passou quatro horas te ajudando com aquela impressora, trabalhando feito formiguinha. Quatro horas! E o que você disse para ele quando finalmente funcionou? Obrigado. Um obrigado seco e sem graça —.

Todos olharam para Phil, que deu de ombros com um sorriso tímido.

Mesmo que ele não dissesse nada, sua expressão trazia um tom sutil e apagado que Andrew notou de imediato.

Era sutil… mas definitivamente estava lá.

Jay zombou, erguendo as mãos:

— Ah, por favor! Eu dei a todos vocês o dobro do que meu pai jamais me deu. Vocês deviam ser gratos.

Então Jay olhou para Andrew:

— Né, garoto? Você me entende. Você nunca reclamou de nada.

Andrew, ainda sentado ao lado de Pippa, olhou para ele e acenou naturalmente:

— É, vovô. Eu já me acostumei. A gente se adapta — disse Andrew, sem nenhum drama.

Claire virou-se para ele, sem parecer totalmente convencida:

— Você se adaptou a não receber carinho do seu avô?

— Não é o tipo de carinho tradicional. Eu tive orientação, regras claras. Mas eu sei que ele está lá. O carinho, digo. Fica nos gestos. Não preciso que ele me abrace toda vez que eu entro em casa para saber que ele se importa — respondeu Andrew, dando de ombros, sem saber muito bem como explicar.

Jay apontou para ele misturando orgulho e satisfação:

— Aí sim! Um jovem com bom senso.

— Isso pode funcionar para vocês, homens desta família… mas pode causar problemas num relacionamento, tipo com o Mitch e o Cam — ponderou Gloria, e Claire concordou com a cabeça.

— A gente não é homem para você? — pensou Mitchell, meio ofendido, mas ficou calado.

Andrew franziu levemente a testa, sem entender aonde aquilo ia dar.

Gloria cravou os olhos nele:

— Estou falando isso porque, quando eu te disse que a Pippa era joia rara[1] e para você não perdê-la, você só respondeu 'É, eu sei' e continuou comendo. Isso não foi muito… expressivo.

— Está dizendo que eu não sou carinhoso ou algo assim com a Pippa? — perguntou Andrew, erguendo uma sobrancelha, claramente irritado.

— Só estou dizendo que você não demonstrou muito afeto naquele momento — respondeu Gloria, levantando as mãos em sinal de paz.

— Sério?! Eu pedi ela em namoro na frente da escola inteira e a beijei bem ali. Eu não tenho problema nenhum em demonstrar afeto em público. Até tenho foto de perfil com ela e a Lily — disse Andrew, meio indignado enquanto tirava o celular do bolso.

E mostrou para todo mundo: uma foto dele com Pippa e Lily.

Pouco tempo antes, ele até havia pedido conselhos para a família inteira sobre como consertar uma pequena briga que tivera com Pippa. Estava aberto a sugestões e tudo o mais, sendo bem mais expressivo verbalmente do que jamais fora.

Andrew ia continuar, mas Pippa colocou a mão no joelho dele para pedir a palavra.

— Gloria, acredite, o Andrew é muito carinhoso. Ele me abraça quando eu menos espero e não tem problema nenhum em mostrar o que sente. Ele só… nem sempre faz isso com discursos longos e grandiosos. Mas é nítido — explicou Pippa com calma.

Gloria assentiu, com a expressão suavizada:

— Tá bom. Fico feliz em saber. Sabe como eu sou… eu me preocupo.

Andrew soltou o ar, relaxando os ombros.

— Bom, talvez você tenha razão. Não me afetou tanto o vovô ser assim, porque ele é meu avô, não meu pai. E além disso, eu tenho meu pai, que é super carinhoso — disse Andrew, olhando para Cam.

Jay olhou para ele, num misto de confusão e traição:

— Você está me jogando aos leões agora?

— Quer que eu conte a história do único beijo que seu pai te deu? — perguntou Andrew, olhando para Jay, que não conteve uma careta.

Certa vez, assistindo a um jogo de futebol antigo e depois de tomar mais uísque do que o normal, Jay havia se aberto e contado a Andrew sobre o único beijo que recebera do pai.

— Conta! — pediu Gloria.

— Ah, não é muita coisa. Basicamente, o pai do vovô o beijou uma vez porque o confundiu com a irmã na hora de dar Boa Noite — respondeu Andrew.

— Que triste! Sinto muito mesmo, Jay — disse Cam, com o drama de sempre.

— Espera aí, quando foi a última vez que você beijou o Mitch? — perguntou Gloria, virando-se para Jay.

— O que isso tem a ver com alguma coisa? — retrucou Jay, franzindo a testa.

— Tudo! Mitch, quando foi a última vez que o Jay te beijou? — insistiu Gloria, olhando para Mitch agora.

— Sinceramente… não lembro — disse Mitch, dando de ombros.

— Não deve fazer tanto tempo assim — argumentou Jay.

— Eu tinha doze anos — respondeu Mitch.

— Doze? — repetiu Gloria, escandalizada. — Esse é o problema! O pai do Jay nunca beijou o Jay. O Jay não beija o Mitch. E agora o Mitch não consegue demonstrar carinho para o namorado dele.

— A gente não se chama de namorado… — resmungou Cam de novo.

— Beija ele — ordenou Gloria, encarando Jay.

Jay gemeu de frustração:

— Ah, qual é… —

— Você tem de fazer isso! — insistiu Gloria, já puxando Mitch para perto com uma mão. — Agora! —

Claire entrou no ataque:

— Vamos, pai. Faz isso. Na frente dos seus netos! Mostre que você é um avô amoroso —.

Ela agarrou Jay pelo braço e começou a empurrá-lo para a frente. Enquanto isso, todos os outros — Andrew, Pippa, Phil, Cameron e o resto — começaram a bater palmas no ritmo e a entoar em coro: — Beija! Beija! Beija! —

Jay ergueu as mãos, exasperado:

— Tá bom, tá bom! Calem a boca! —

A sala silenciou no mesmo instante.

— Vem cá — disse Jay, olhando para Mitch.

— Agora? Fico sem jeito — falou Mitch, piscando. Ele não gostava de ser o centro das atenções, muito menos por um motivo daqueles.

Jay bufou:

— Não seja fresco. Quer uma caixa de bombom também? Anda, vamos logo com isso! —

Mitch aproximou-se meio travado.

Jay foi na direção da bochecha direita de Mitch, Mitch virou para a esquerda, bateram levemente nos rostos e, após um rápido ajuste…

Muá!

Jay deu-lhe um selinho seco na bochecha.

Houve um instante de silêncio; logo em seguida, todos na sala começaram a aplaudir de leve.

— Essa é a coisa mais emocionante que eu já vi — disse Cam, secando uma lágrima invisível.

— Certo, e agora, para ninguém reclamar de novo, vem cá — disse Jay, olhando para Claire.

— Ah… — soltou Phil, que abraçava Claire achando que Jay finalmente ia lhe agradecer de verdade, mas sua ilusão durou pouco.

— Você não. —

Então Jay e Claire se abraçaram e trocaram um beijo na bochecha.

— Te amo, papai — disse Claire, apertando-o forte.

— Bem — disse Andrew, dando a última garfada no sorvete —, no fim das contas deu tudo certo e a gente conseguiu comer a sobremesa sem gritaria nem briga.

— Isso já é uma vitória para a sua família — sorriu Pippa.

Andrew soltou uma risadinha leve:

— Sinceramente… eu não achava que um jantar colombiano ia render tanto drama —.

Mais tarde naquela noite, com a louça lavada e a sala vazia, Cam, Mitchell, Lily, Andrew e Pippa se despediram de todos. Eles acompanhariam Pippa até a casa dela a pé.

Jay apenas ergueu a mão em adeus — dessa vez, sem nenhum sapato pendurado no pescoço.


[1] - Joia rara: Tradução adaptada para a expressão original "gold" (ouro), usada carinhosamente para indicar alguém de valor inestimável.

Comentários