
Capítulo 105
Família Moderna: Nova Vida
Andrew estava sentado no chão do seu quarto, com uma pilha de HQs abertas espalhadas pelo tapete.
Willa, por outro lado, estava deitada de bruços na cama dela, com as pernas cruzadas no ar, folheando uma revista em quadrinhos de Star Wars com uma expressão crítica.
— Você fala sério que gosta de *A Ameaça Fantasma*? — perguntou Willa sem erguer os olhos.
Ela se referia a *Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma*, o filme de 1999 que marcou o retorno de George Lucas à saga e também o mais polêmico de todos.
— Já disse que sim. E você não vai mudar minha cabeça — respondeu Andrew, folheando outra edição sem encostar os olhos nela.
— Ah, por favor. É um filme com mais diplomacia do que ação, um pirralho sem carisma fazendo corridas chatas e o personagem mais irritante da galáxia — debochou Willa.
— O Jar Jar? — perguntou Andrew, erguendo uma sobrancelha e lançando um olhar para ela.
— Obviamente — disse Willa.
— Eu acho ele carismático, leal e de boa índole — falou Andrew com um sorriso de canto, daqueles que irritavam Willa na hora.
— Ele é insuportável! Exatamente igual a esse seu sorrisinho — retrucou ela, apontando um dedo em direção ao rosto dele.
Andrew sorriu ainda mais. — Gosto mais dele do que do C-3PO, por exemplo. Além do mais, a estética do Episódio I é incrível. O Conselho Jedi, o Obi-Wan, o Qui-Gon...
Willa o encarou como se tivesse acabado de ouvir uma heresia: — O que você acabou de dizer?
— C-3PO. Não sou muito fã dele. Vive reclamando, não serve para muita coisa e, ao contrário do R2, nem parece tão leal assim — disparou Andrew sem hesitar, sustentando o olhar dela sem medo.
— O C-3PO é um clássico. Ele é história. Faz parte da alma da trilogia original. Leal? O R2 literalmente arrasta o coitado em todos os filmes! Cortam os fios dele, o abandonam, e ele ainda vai com o robô para todo canto! — retrucou Willa.
— O R2 é a alma. O C-3PO é... aquele cara que ninguém quer convidar, mas que mesmo assim aparece — disse Andrew, dando de ombros ao vê-la explodir.
Willa o fuzilou com o olhar. — Por que você é tão teimoso? — apontou ela de novo.
— Teimoso, eu? — Andrew ergueu as sobrancelhas.
— É... e você? O que é, compreensivo? Você não tolera que discordem de você. É igualzinho àqueles fãs das antigas que repetem que tudo que é novo é lixo. Age como se fosse entrar em curto-circuito se as pessoas não aplaudirem tudo o que você diz — acrescentou Andrew com um sorriso desafiador.
Willa bufou, cruzando os braços. — Não sou como esses velhos que se acham superiores. Meus argumentos são válidos. Quem não quer entender é você.
— Não concordo. Não é que eu não entenda — devolveu Andrew, dando de ombros outra vez.
Willa revirou os olhos. — Beleza, e quanto aos midi-chlorians[1]? Vai defender isso também?
— Essa eu te dou a vitória — admitiu Andrew, fazendo Willa abrir um leve sorriso.
— Obrigada. Porque reduzir a Força a um exame de laboratório é uma traição total ao que a tornava especial — argumentou Willa, e Andrew concordou.
A Força, antes do filme de 1999, era algo místico, espiritual. Mas naquele episódio, introduziram os midi-chlorians: microrganismos vivos no sangue que determinavam o nível de conexão de uma pessoa com a Força.
Para muitos fãs, tanto os antigos quanto os novos, aquilo era o equivalente a transformar uma lenda mágica em um diagnóstico clínico.
Reduzia a grandeza do destino a uma simples contagem biológica.
A pessoa já não era escolhida por causa do seu espírito, mas sim por causa das suas células.
Para muitos, isso destruía a poesia mítica da Força, transformando algo abstrato em algo mensurável.
— Mas preciso admitir, *A Vingança dos Sith* é incrível. Tem drama, traição, tragédia... tudo o que uma boa história precisa — reconheceu Willa, deixando claro que não era uma hater cega da nova trilogia.
— E meio que apaga a bagunça que foi o Episódio II — completou Andrew.
Willa sorriu ao ouvir aquilo. — Viu? Consegui te ensinar alguma coisa — disse ela com um sorriso triunfante.
— Não. Só falei algo que eu já acreditava. Mas é fofo você estar encarando isso como uma vitória — respondeu Andrew.
— Você é insuportável — soltou Willa, incapaz de segurar uma risada rápida e genuína.
Foi bem nessa hora que a porta entreaberta se escancarou de vez.
— Estou atrapalhando alguma coisa? — perguntou Pippa ao entrar no quarto.
Willa, ainda deitada confortavelmente na cama de Andrew, nem se abalou. Sentou-se calmamente, mantendo o sorriso: — Eu só estava corrigindo o gosto duvidoso do seu namorado.
— Ela me agrediu verbalmente só porque disse que gosto menos do C-3PO do que do Jar Jar — acrescentou Andrew, encarando Pippa com uma expressão de falso coitado.
Pippa estreitou os olhos, sem saber se ria ou suspirava.
*C-3PO... acho que era o robô dourado*, pensou ela, franzindo levemente a testa.
Quanto ao tal do Jar Jar, ela fazia ideia zero de quem fosse.
Um nome ridículo, por sinal.
Andrew havia lhe dito que eles deviam assistir à saga inteira juntos. Mas ela só tinha conseguido chegar até o Episódio IV. Não porque fosse ruim, mas porque... simplesmente não a cativara.
Nem a história, nem os personagens, nem o ritmo à moda antiga.
E, mesmo tentando continuar, faltava-lhe motivação para aguentar outros cinco filmes.
— U-hum... é. Coisa muito séria, esse robô e o tal do... Jar alguma coisa — comentou Pippa, sem saber muito bem o que dizer.
Willa a encarou por um instante. Sem zombaria, apenas observando.
Andrew riu fraco, percebendo a confusão de Pippa. — Depois eu te resumo. Um resumo curto.
— Minha mãe está a caminho para me buscar — avisou Pippa.
Andrew levantou na mesma hora. — Eu te acompanho até a porta.
— Não precisa — disse Pippa com um sorriso singelo. — Seu pai sempre abre para mim. Fica aí e continua discutindo, parece que vocês estão se divertindo.
Ela não falou isso com ciúmes ou frieza. Então deu um passo em direção a ele.
E, antes que Andrew pudesse dizer qualquer outra coisa, ela o beijou.
Não foi um selinho rápido. Foi um beijo apaixonado e demorado.
Willa, ainda sentada na cama, não conteve o impulso de olhar no início.
Só por um segundo; logo depois, abaixou os olhos de volta para a revista em quadrinhos em suas mãos.
Andrew se afastou, olhando para Pippa com uma expressão curiosa; aquilo não era muito o estilo dela. Ela geralmente não era do tipo que dava beijos apaixonados, muito menos na frente dos outros.
— Me manda mensagem quando chegar em casa.
— Pode deixar — disse Pippa com um sorriso discreto. Antes de ir embora, virou-se para Willa: — Tchau, Willa. Boa noite para você.
— Para você também — respondeu Willa em um tom neutro, sem tirar os olhos do gibi.
Conforme Pippa saía do quarto, não pôde deixar de notar que a dinâmica de Willa com Andrew era diferente.
Com Howard e Leonard, ela não ria daquele jeito, não ficava jogada à vontade nem discutia com um meio-sorriso nos lábios.
Sentiu um nó estranho no estômago que não soube muito bem explicar.
Não era ciúme, tampouco a insegurança que sentia com Regina.
Parecia mais uma premonição.
Depois que Pippa foi embora, Andrew continuou debatendo Star Wars com Willa por mais um tempinho. Em seguida, voltaram para a sala e, em menos de uma hora, todo mundo já tinha ido para casa.
Andrew deu uma geral e arrumou a bagunça antes de se deitar.
Na manhã seguinte, o sol mal filtrava pelas Persianas quando Cameron anunciou que precisava de uma camisa nova.
Naquela noite, eles jantariam na casa de Jay, e Gloria prepararia comida colombiana — o que, para o Cam, era praticamente um evento solene, já que era uma homenagem à falecida avó de Gloria.
Portanto, algumas horas depois de acordarem, lá estavam eles: Cameron, Mitchell, Lily no carrinho e Andrew, todos sentados em um longo sofá no interior de uma loja de roupas.
Ou melhor, Andrew estava jogado no sofá, com os braços cruzados e uma expressão que gritava: *Como vim parar aqui?*
O celular dele tinha ficado sem bateria. Deus o havia abandonado.
— Nem sei quando foi que concordei em vir — resmungou Andrew, encarando o teto com resignação.
— Você já deveria saber quanto tempo o Cam demora... — respondeu Mitchell, jogando *Flappy Bird* no celular.
— Ei, me deixa jogar um pouco, vai? — pediu Andrew, reparando que o celular do pai ainda tinha carga.
— Usa o seu — retrucou Mitchell, afastando o aparelho de leve.
— Tsc, pão-duro — resmungou Andrew, antes de se distrair brincando com Lily, que estava sentada no carrinho.
Depois de longos minutos, Cameron finalmente saiu do provador vestindo uma camisa branca estampada com pequenas bolinhas azul-marinho.
Ele estava tãaaao concentrado no próprio reflexo que nem reparou na cara de Andrew.
— E então, o que achamos? — perguntou ele.
— Eu gostei — disse Mitchell com um tom sincero, mas econômico.
Andrew limitou-se a erguer um joinha do sofá, sem mover um centímetro sequer.
— Mas você não *amou* — pontuou Cam, olhando direto para Mitchell com um pingo de decepção.
— Sim, sim, eu amei — corrigiu Mitchell na mesma hora, ajeitando a postura no assento.
— Mais do que a outra?
Aquela pergunta gerou uma pausa.
Mitchell hesitou.
O tempo exato para Cam bufar, dar meia-volta e marchar de volta para o provador como se estivesse entrando no terceiro ato de um drama.
Andrew deixou a cabeça cair para trás e suspirou: — Você ainda não aprendeu que só existe uma resposta aceitável para isso? Um "Sim, eu amei" sem pensar duas vezes.
— Eu não consigo mentir descaradamente assim. Ele tem um radar para isso — defendeu-se Mitchell.
Alguns segundos se passaram.
Então Cameron ressurgiu, desta vez vestindo uma camisa cinza mais sóbria e de corte formal.
— Certo. Digamos que a casa pegue fogo e você só tenha tempo de salvar uma camisa. Qual você pega primeiro?
Mitchell piscou e respondeu sem pestanejar: — A resposta correta é a Lily.
— Eu pegaria meus gibis e meus bonecos — falou Andrew do sofá. — E pularia pela janela.
— Depois disso — insistiu Cam, revirando os olhos.
— Tá bom, a azul — cedeu Mitchell, dando de ombros.
Cam o encarou com uma sobrancelha arqueada, escandalizado. — A azul?! A cinza me deixa com cara de lavado? É isso que você tá dizendo?
— Não! Não tem escolha errada. Tudo fica bom em você — disse Mitchell, levantando-se depressa e se aproximando com um sorriso apaziguador. — Eu amo as duas.
Enquanto isso, Andrew se inclinou para olhar Lily, que o encarava de volta com seus olhinhos asiáticos atentos, aguardando alguma sabedoria fraternal.
— Você vai ter que se acostumar com isso — cochichou Andrew. — Nosso pai é pior do que garotas adolescentes. E olha que isso é pouco, minha namorada é uma... e ela escolhe as roupas em exatos três minutos.
Cam ouviu o comentário, mas preferiu ignorar. Tinha assuntos mais importantes para tratar.
Mitchell, ainda por perto, tentou amenizar o clima com mais um elogio, mas antes que pudesse escapar, Cam se inclinou, claramente mirando um selinho nos lábios.
Mitchell, com reflexos bem treinados, recuou com um sorriso sem graça e deu-lhe dois tapinhas esquisitos no ombro. — Obrigado por... provar as roupas — disse ele com um sorrisinho torto, recuando rumo ao sofá.
Cam congelou, com os lábios cerrados e os olhos estreitados, observando-o afastar-se.
[Comentário do Cam]
— O Mitchell tem sérios problemas com demonstrações públicas de afeto. No Réveillon, bem à meia-noite, ele tentou bater aqui comigo — começou Cam.
— Número um: homens gays não batem aqui. Número dois: homens gays não batem aqui[2].
[Fim do comentário]
Enquanto isso, Andrew continuava sentado ao lado do carrinho de Lily. Ela o encarava com uma expressão neutra, parecendo uma espectadora silenciosa do drama familiar.
Andrew inclinou-se e falou baixinho com ela, dando uma amostra do caos.
— Você vai se acostumar com isso, Lily — disse ele.
A bebê piscou, e Andrew chegou um pouco mais perto, como se conversar com a irmãzinha caçula — que não entendia uma palavra — fosse mais divertido do que encarar o teto.
— Sabe... o pai Mitch é meio complicado com essa coisa de carinho. E o pai Cam... bom, ele é super expressivo. E essa combinação aí...
Ele fez um gesto miúdo com os dedos, simulando uma pequena explosão.
— Mas você não vai precisar se preocupar com nada disso quando crescer. Não tem nada de estranho em ter dois pais. Na verdade, você é muito sortuda por tê-los — continuou Andrew.
Lily soltou um somzinho, como se estivesse respondendo. Andrew deu um riso abafado.
— E se um dia alguém, na escola, na rua, onde quer que seja, te olhar esquisito ou falar alguma besteira só porque você tem dois pais... — falou Andrew, ajeitando-se um pouco.
— Não se preocupa. Eu dou jeito nisso.
Lily o olhou com a seriedade de quem não entendia nada, mas intuía que era melhor ficar quieta.
— Prometo. Ninguém vai mexer com você, porque eu vou estar lá — garantiu Andrew, antes de fazer uma pausa de alguns segundos.
— A não ser que eu sofra um infarto daqui a um ano e meio, claro. Mas vamos cruzar os dedos quanto a isso, né? — Sorriu para si mesmo, um tipo de humor que só faz sentido quando você já morreu uma vez.
Vendo que Lily já não lhe prestava atenção e brincava com um de seus brinquedos, Andrew suspirou e olhou na direção do provador. Cam havia entrado com mais uma camisa.
Seria uma longa tarde.
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[1] - Midi-chlorians: Microrganismos microscópicos inteligentes que vivem em simbiose dentro das células de todas os seres vivos na franquia Star Wars, servindo como intermediários para a conexão com a Força.
[2] - N.T.: No original em inglês, Cam faz referência a "high five" (cumprimento de bater as mãos no ar). Na adaptação para o português, a piada foi adaptada para manter o tom cômico e cultural da cena.