
Capítulo 102
Família Moderna: Nova Vida
Andrew encarou a contagem de inscritos — um milhão — e ainda não conseguia acreditar. Nem em seus sonhos mais malucos ele havia imaginado que seu canal de esportes no YouTube, o qual criara quase por capricho um ano atrás, alcançaria aquele patamar.
Ele o havia lançado mais por curiosidade do que por qualquer plano real. Dava para dizer até que seu canal de jogos tinha tido mais preparação por trás, já que ele pensara nisso com antecedência e já tinha alguns vídeos editados prontos para subir, só precisando daquele empurrãozinho de Leonard e Howard na época.
Seu canal de jogos ainda continuava ativo e havia crescido bem, batendo recentemente 85 mil inscritos. Um número alcançado em mais ou menos um ano, muito respeitável para a época.
Mas nada se comparava ao seu canal de esportes, que havia se transformado em um fenômeno viral.
Ambos os canais eram pioneiros à sua maneira:
No canal de jogos, Andrew enviava vídeos de gameplays comentadas de forma casual de Call of Duty e, ocasionalmente, testava jogos aleatórios.
A edição era simples, sem grande esforço técnico. Ele gravava, cortava e enviava. Seu rosto nem aparecia. Era puro entretenimento, sem grandes ambições.
O canal de esportes, por outro lado, havia explodido por motivos bem diferentes.
Além de ser pioneiro em seu formato, seus vídeos eram editados com estilo, ritmo e emoção, muito acima dos padrões da época. Quase sem intenção, ele havia se tornado o primeiro influenciador adolescente de fitness no YouTube.
Ele postava vídeos mostrando suas rotinas de treino, dicas de nutrição, desafios físicos e análises de jogadas a partir de sua própria perspectiva como o quarterback titular da sua escola, ostentando um nível de atletismo que chocava muitos para a sua idade.
Ele havia levado sua equipe a um campeonato estadual com apenas 14 anos, algo quase inédito para um calouro no ensino médio, carregando o time e quebrando recordes.
E, em seus vídeos, ele sempre falava diretamente para a câmera com um carisma natural, mostrando seu rosto e sua vida cotidiana. Isso criava um tipo único de conexão.
Seu conteúdo não era apenas divertido para fãs de futebol americano ou entusiastas de esportes.
Seu vídeo especial de 500 mil inscritos, no qual ele narrava a história de uma infiltração em um torneio de verão usando um alter ego, foi um verdadeiro sucesso.
Com um tom entre o documentário e o filme adolescente de espionagem, ele descrevia como entrou secretamente em um torneio de 7-on-7[1] sob um nome falso, fingindo ser um running back[2]. Ele acabou vencendo o torneio inteiro e revelando sua verdadeira identidade no final do vídeo, fazendo-o viralizar ainda mais.
Até mesmo pessoas que sabiam pouco ou nada sobre futebol americano assistiam pela narrativa, pelo carisma e pela reviravolta no final.
Ele já havia ultrapassado 2 milhões de visualizações.
Por outro lado, seu canal continuava a cumprir seu propósito: ajudar aqueles que queriam melhorar seu estilo de vida, treinar melhor ou simplesmente assistir a algo inspirador, divertido e relacionado a esportes ao mesmo tempo.
Era um canal único: uma mistura de vlog, esportes, fitness, entretenimento e desenvolvimento pessoal.
«Um milhão em um ano…», pensou Andrew, engolindo em seco.
Onde isso o colocava no ranking?
Ele teve que parar um segundo para processar aquilo.
Com esse número, ele estava facilmente entre os 10 canais com mais inscritos em todo o YouTube.
Fred (em 1º lugar), Nigahiga (2º) e Smosh (3º) eram nomes gigantescos na época. Mas todos eles focavam em esquetes de comédia, paródias e vlogs para a família.
Nenhum deles fazia conteúdo como o dele.
Nenhum deles era um atleta adolescente, mostrando seu progresso na vida real como um quarterback, treinando, ensinando, compartilhando suas vidas diárias e a paixão pelo jogo.
Não havia outro canal de esportes juvenis com aquele tipo de impacto.
É claro que, conforme foi ficando mais popular, o formato começou a ser copiado.
Novos canais surgiram tentando imitá-lo: caras filmando trechos de treinos, jogadas, análises… alguns até imitavam os títulos de seus vídeos ou o jeito como ele falava com a câmera.
Mas nenhum deles conseguia rivalizar de verdade com ele ainda.
Primeiro, porque pouquíssimos atletas adolescentes de elite estavam disposição para fazer algo assim.
Ser um quarterback titular não é trabalho fácil, especialmente com um futuro nos profissionais. Exige tempo, treino, jogos, pressão...
Além disso, você tinha que gravar, editar, falar na câmera e ter carisma, empatia e a visão para construir uma comunidade. Era trabalho demais.
E aqueles que faziam não eram jogadores tão bons assim no futebol americano.
Porque Andrew não era apenas um pioneiro ou carismático. Ele era um prodígio.
Ele quebrou recordes em touchdowns e jardas, brilhando em absolutamente todas as partidas.
Mesmo em uma divisão inferior, seu talento chamou a atenção de treinadores, ex-jogadores e comentaristas esportivos.
Todo mundo no mundo do futebol amador sabia quem era Andrew, mesmo sem saber que ele tinha um canal no YouTube.
«Top seis…», pensou Andrew, abrindo rapidamente uma aba para conferir o ranking atual de inscritos do YouTube.
Ele estava sentado logo abaixo dos Shaytards: um canal de vlog familiar liderado por Shay Carl, um pai carismático que filmava a vida cotidiana com seus filhos. O canal era amado por seu aconchego e postagens consistentes. Estava prestes a bater 1.100.000 inscritos.
E bem no topo… estava o Fred.
O primeiro canal do YouTube na história a alcançar um milhão de inscritos, em 7 de abril de 2009.
Fred postava vídeos curtos de esquetes em que interpretava uma criança hiperativa com uma voz modificada digitalmente por um tom mais agudo, cenários absurdos e humor caótico. Por trás do personagem havia um adolescente de verdade, embora ainda não ficasse claro se Fred era apenas um personagem ou se o garoto era realmente daquele jeito.
A maioria dos inscritos eram pré-adolescentes, que levavam os vídeos ao pé da letra sem questionar muito.
Fred agora havia alcançado 1,5 milhão de inscritos.
«Esse é o número um do mundo?», pensou Andrew, apertando os lábios.
O fogo competitivo dentro dele acendeu instantaneamente.
Ele tinha que se tornar o número um.
E sabia exatamente por onde começar: o especial de um milhão de inscritos.
Ele já estava esboçando isso em sua mente.
Ele dividiria em duas partes.
A primeira parte já estava clara: um encontro aberto com os fãs. Ele escolheria um lugar público, filmaria o evento, bateria papo com os seguidores, tiraria fotos e transformaria tudo em um vlog divertido e emocionante.
Parecia estranho organizar um encontro com fãs… mas, em sua vida passada, ele havia visto dezenas de criadores do YouTube fazerem aquilo.
Ele sabia como funcionava.
E podia replicar perfeitamente.
A segunda parte ainda não estava totalmente formada.
Tinha que ser um vídeo que juntasse futebol americano, emoção e espetáculo.
Ele tinha algumas ideias soltas e sabia que, assim que sentasse com tempo, tudo se encaixaria.
Mas não agora.
Ele olhou de relance para o relógio e desligou o PC rapidamente. Pippa e os outros estariam chegando a qualquer minuto.
Ele saiu do quarto para ir compartilhar a grande notícia com seus pais.
Na sala de estar, encontrou Cam arrumando o espaço com lanches, refrigerantes e algumas almofadas extras no chão. Como toda sexta-feira, ele já estava deixando tudo pronto para a chegada do grupo de amigos de Andrew.
— Pai… você sabe que não precisa fazer isso toda vez — disse Andrew, sorrindo de leve.
— É claro que preciso! — respondeu Cam sem pestanejar, enquanto abria um pacote de pretzels. — Seus amigos adoram vir aqui, e eu gosto de garantir que eles se sintam confortáveis.
Andrew soltou uma risada fraca justamente quando Mitchell apareceu vindo do corredor. Ele acabara de sair do quarto de Lily; ela já estava dormindo.
— Acontecendo alguma coisa? Que sorriso é esse? — perguntou Mitch, percebendo a mistura estranha de entusiasmo e orgulho no rosto de Andrew.
— Eu bati um milhão — respondeu Andrew após uma breve pausa.
Não havia necessidade de especificar ao que se referia.
Os olhos de Mitchell se arregalaram um pouco, surpresos, mas não totalmente pegos desprevenidos. Ele já sabia que o canal de Andrew estava prestes a atingir esse marco.
Cam congelou por um segundo, e então soltou um grito longo, agudo e dramático.
— AI MEU DEUS! TEMOS UMA CELEBRIDADE EM CASA, MITCH! VOCÊ ESTÁ NO OLIMPO DO YOUTUBE, ANDREW! NO OLIMPO!
— Cam, fala baixo! — repreendeu Mitchell com um olhar nervoso. — Ou você vai ter que botar a Lily para dormir de novo se acordá-la.
Cam não deu ouvidos. Ele correu e abraçou Andrew como se ele tivesse acabado de ganhar um Oscar.
— Ah, por favor, Mitch! A Lily não acorda com o barulho que o Andrew e os amigos dele fazem, ela não vai acordar agora — disse Cam enquanto abraçava Andrew mais forte e o erguia alguns centímetros do chão.
— Temos uma celebridade em casa! Eu vi com meus próprios olhos. Quando vamos ao cinema, ao supermercado, ao parque… crianças pedem fotos com nosso filho! Adolescentes o cumprimentam como se ele estivesse em High School Musical! — exclamou Cam.
Mitchell abriu um sorriso. — É verdade. Eu não esperava que você chegasse a esse nível de fama… nessa idade. Eu sempre imaginei esse tipo de coisa quando você chegasse à NFL, não agora — admitiu ele.
— Não é para tanto… — disse Andrew com um sorriso modesto.
— Andrew, sim, é para tanto — disse Mitchell com firmeza, apontando um dedo. — Você está no top 10 de canais com mais inscritos no YouTube do mundo inteiro. Número seis, para ser exato. Um dos dez maiores canais do planeta.
Isso não era pouca coisa; Mitchell sabia o quão difícil era. E não só isso, ele também sabia que seu filho estava faturando milhares de dólares com seus vídeos no YouTube. Então, não, não era algo menor.
— Bem… é, acho que é verdade — disse Andrew, coçando a nuca.
Mitchell o observou por mais um momento, como se lesse algo nos olhos de Andrew que ele ainda não havia vocalizado.
— Você quer ser o número um, não quer?
Andrew ergueu os olhos e, por um instante, não disse nada.
— Tá tão na cara assim? — perguntou ele.
— Para mim tá, porque eu te conheço — respondeu Mitchell, com um tom de satisfação na voz, orgulhoso de quão competitivo Andrew era. Era um traço que ambos compartilhavam.
Nesse exato momento, a campainha tocou.
[1] - 7-on-7: Variante sem contato do futebol americano, disputada com sete jogadores de cada lado, muito comum em torneios de verão para aprimorar habilidades de passe e agilidade.
[2] - Running back: Posição no futebol americano cujo jogador é focado em correr com a bola após recebê-la.