
Capítulo 103
Família Moderna: Nova Vida
Pippa foi a primeira a chegar. Como sempre. Ela nunca se atrasava. Pontual, meticulosa, obsessivamente organizada. Se a reunião era às 21h, ela já estava tocando a campainha às 20h59.
Ela cumprimentou Mitch e Cam com um sorriso e deu um beijo em Andrew.
Alguns minutos depois, os outros chegaram: Willa e Haley vieram juntas, trazidas por Claire; Howard e Leonard apareceram juntos, Zach chegou com um amigo e, finalmente, Kevin apareceu com Archie, que tinha uma missão esta noite.
Archie já tinha ido a esses encontros antes. E foi lá que ele conheceu Willa pela primeira vez.
Sarcasmo afiado, olhar direto, confiante, sem filtro e totalmente geek. E se isso não bastasse, ela era muito bonita, com um tipo estranho de elegância que a fazia parecer intocável.
Archie tinha ficado completamente caidinho.
Tanto que toda vez que eles se cruzavam na casa de Andrew, tudo o que ele conseguia era um "oi" nervoso e um aceno sem jeito quando ela retribuía o cumprimento.
Mas esta noite… esta noite ele estava determinado.
Ele ia tentar falar com ela. Dizer algo além de olá. Algo com intenção.
Ele sabia que Willa gostava de quadrinhos, videogames e filmes de super-heróis. E mesmo não sendo um nerd, pelo menos ele tinha visto *Homem de Ferro*, os filmes do *Homem-Aranha* com Tobey Maguire e a trilogia do *Batman* do Nolan.
Isso tinha que contar para alguma coisa, né?
A noite começou com energia.
Andrew contou a eles que tinha alcançado um milhão de inscritos, e a reação foi imediata: aplausos, abraços, piadas, travesseiros voando pelo ar.
'Você é oficialmente da elite do YouTube agora!', exclamou Howard, erguendo o copo com entusiasmo.
'Bem, tecnicamente ele já era… ele estava no top dez', acrescentou Leonard, ajeitando os óculos.
'É, mas isso é diferente!', retrucou Howard. 'Agora são sete dígitos, Leonard! Sete! O número mágico.'
'Quero um aumento!', acrescentou em tom de brincadeira, apontando para si mesmo.
Todo mundo também parabenizou Andrew.
Conforme a noite avançava, Archie viu sua chance.
Willa estava sentada na borda do sofá, com uma perna cruzada sobre a outra, conversando com Howard e Leonard.
Archie respirou fundo, apertou com mais força seu copo plástico de refrigerante e se aproximou.
'Ah… oi', disse Archie, forçando um sorriso. 'Tudo bem?'
Willa fez uma pausa, virou a cabeça para olhar para ele. 'Tudo', respondeu de forma neutra e voltou a atenção para Leonard e Howard, retomando a conversa.
Archie ficou parado por um segundo, percebendo que tinha levado um fora monumental, mas não desistiu.
'Vocês estavam falando do Batman? Eu vi os filmes do Nolan, são muito bons', disse Archie, tentando soar casual.
'Sim, estávamos falando de *Batman: O Cavaleiro das Trevas*. O Coringa do Heath Ledger. Você viu?', perguntou Willa, mal virando a cabeça.
'Sim, claro. A cena do hospital… brutal', disse Archie, sorrindo, animado por ter algo em comum.
'E *Batman Begins*? As pessoas sempre esquecem desse, mas é fundamental', acrescentou Howard.
'Totalmente', disse Leonard. 'O arco do Bruce Wayne, a Liga das Sombras, Ra's al Ghul…'
Willa assentiu, cruzando os braços: 'E visualmente era muito mais pé no chão do que o que veio depois. Eu gostava disso.'
'É, com certeza…', disse Archie, sem saber o que mais acrescentar. Ele tinha visto *Batman Begins* há muito tempo e não se lembrava o suficiente para participar de forma significativa.
'Pense… Ah, é!'
'Eu gostava do Batmóvel. Bem diferente dos anteriores, né?', disse Archie.
Ele falou tentando soar confiante, lembrando de algo que Andrew havia mencionado em uma conversa rápida. Ele tinha tentando absorver a informação como uma esponja, mas não lembrava de muita coisa.
Mas assim que ele terminou a frase, Willa o olhou de canto de olho: 'O Tumbler?'
A voz dela soou inquisitiva.
'O quê?', perguntou Archie, confuso.
'O veículo. Esse é o nome dele. Tumbler [1]. Tecnicamente, não é um Batmóvel clássico, é um protótipo militar. O Lucius Fox diz isso no filme', respondeu Willa, levantando uma sobrancelha.
'Ah… é. O Tumbler, claro', disse Archie, engolindo em seco. Ele nem lembrava quem era Lucius Fox.
Willa desviou o olhar, como se já estivesse perdendo o interesse: 'Você já leu *Batman: Ano Um*?'
'Isso é outro filme?', perguntou Archie, intrigado. Talvez fosse um daqueles filmes antigos do Batman.
'Não. É um quadrinho importante. Dá para dizer que o Nolan usou de base para os filmes dele', explicou Leonard, ajeitando os óculos.
'Então... você é daqueles que só assistiu aos filmes', disse Willa, balançando a cabeça com um meio-sorriso que não tinha nada de amigável.
O tom dela carregava aquele desdém oculto típico de fãs quando encontram alguém que consideram um fã modinha.
Leonard e Howard não disseram nada, mas não conseguiram evitar sorrir um para o outro.
Não por maldade, mas porque, mesmo sem demonstrar, eles compartilhavam aquela mesma sensação silenciosa de superioridade em relação a quem só consumia conteúdo mainstream.
'Hã… ? Não leio muito', disse Archie, logo inventando uma desculpa para ir embora, sentindo os olhares superiores dos três nerds.
Ele atravessou a sala e foi para a cozinha, onde Andrew, Kevin e Zach estavam se servindo de mais refrigerante.
Por algum motivo que só eles entendiam, estavam no meio de um debate sobre a Terra ser plana ou não.
'Eu só estou dizendo que parece plana. Eu não vejo a curvatura. Você vê?', disse Zach com um tom completamente sério.
'Você é um desses… ?', murmurou Andrew com um sorriso divertido, derramando um pouco de refrigerante por estar olhando para Zach em vez do copo.
'Qual é, cara! Como você explica vozes de aviões? Satélites? Compra um telescópio e você vai ver um planeta no nosso sistema e o formato dele!', disse Kevin, meio divertido, meio impressionado com a convicção de Zach sobre a Terra ser plana.
'Parece tão plano de um avião! Eles mentiram pra gente a vida inteira', disse Zach, sem dar indícios de que ia recuar.
Nesse exato momento, eles viram Archie entrar a passos lentos e com cara de quem tinha acabado de ser totalmente derrotado.
'O que aconteceu?', perguntou Andrew, abrindo espaço para ele no balcão.
Archie soltou um longo suspiro e serviu-se de uma bebida como se fosse uísque ou algo mais forte.
'Eu fracassei. Completamente, logo na primeira tentativa. Eu não sabia que o Tumbler era o Batmóvel, versão militar ou sei lá o quê, e aí ela me liquidou com um quadrinho que parece calendário escolar: *Batman: Ano Um*', respondeu Archie.
Zach riu, quase cuspindo a bebida.
Kevin deu um tapinha nas costas dele: 'Não desiste, isso foi só a primeira tentativa. A noite é uma criança.'
'E isso não é nem a pior parte', acrescentou Archie, olhando para Andrew.
'A pior parte foi ver a cara do Leonard e do Howard. Eu sei que eles são seus amigos, mas aqueles sorrisinhos presunçosos… Ugh. Te juro que, por um segundo, deu vontade de socar eles.'
Archie tinha se aproximado dos dois amigos nerds de Andrew, mas não os considerava amigos íntimos como considerava Andrew.
Andrew ergueu uma sobrancelha, surpreso: 'Sério?'
'É. E não é por orgulho. É que você nunca foi assim', disse Archie.
'Você também manja de um monte dessas paradas, mas quando a gente fala de super-heróis e eu só conheço os filmes, você nunca me fez sentir burro. Nunca falou com desdém comigo', explicou Archie.
Andrew ficou em silêncio por um momento, absorvendo aquelas palavras.
Então sorriu, lisonjeado, baixando levemente o olhar como se não soubesse bem o que dizer.
'Nossa… Então eu sou… perfeito?', disse Andrew por fim em um tom pensativo.
Ele disse isso com uma expressão de falsa revelação, como se tivesse acabado de descobrir algo profundo sobre si mesmo.
'Perfeitamente insuportável', respondeu Kevin sem hesitar. 'Você seria perfeito se não fosse tão viciado em treino, dieta, disciplina, controle… sabe, todas essas paradas.'
Andrew fez cara de ofendido, erguendo o copo na mão: 'Isso aqui é refrigerante!'
'Diet', murmurou Zach, lindo o rótulo.
'Refrigerante do mesmo jeito, né? E eu não sou tão extremista assim', insistiu Andrew.
Kevin olhou para ele com uma sobrancelha erguida.
'Eu te vi contando os lanches que você estava comendo agorinha pouco. Literalmente. Um, dois, três… parecendo que estava calculando mentalmente calorias, gorduras e carboidratos. Tenho certeza de que você tem uma meta máxima diária e compensa depois nos treinos', disse Kevin.
Andrew abriu a boca para responder… mas não disse nada.
Porque era verdade.
'Talvez… um pouco extremista', admitiu Andrew após alguns segundos, tomando um gole da bebida.
'Um pouco? É Eufemismo. Você fica contando calorias o tempo todo, seus passos diários, até a quantidade de água que bebe', disse Kevin, balançando a cabeça.
'Ei, é o mínimo recomendado beber dois litros e meio por dia se você for homem!', disse Andrew, erguendo um dedo como se estivesse dando uma palestra.
'Se você for um atleta de alto desempenho, até mais. Quer calcular direito?'
'Não, por favor…', murmurou Zach.
Andrew ignorou o comentário e continuou, apontando para o copo como se estivesse em um tutorial.
'Você multiplica seu peso por 35 mililitros. Ou se quiser algo mais simples: divide seu peso por 7, e esse é o número de copos de 250 ml que você precisa por dia. E ainda adiciona meio litro para cada hora de exercício.'
Todo mundo ficou em silêncio por um momento.
Os três continuaram conversando, mas antes de voltarem para a sala com os outros, Andrew, percebendo a aura de derrota de Archie, decidiu lhe dar um conselho.
'Você está abordando do jeito errado. Não dá para tentar falar de super-heróis com alguém que é claramente especialista no assunto. A Willa não é gentil com quem não entende do riscado. Você viu hoje, o tom dela, o jeito que te olhou quando você disse que não lê quadrinhos. Foi como se você tivesse insultado a religião dela.'
Archie suspirou: 'Eu só queria ter algo em comum.'
'Sim, eu entendo. Mas é um erro. Você não precisa compartilhar os hobbies dela para puxar assunto. Não com a Willa. Nem com ninguém, na verdade. Há outros caminhos. Os clássicos. Humor, atitude, confiança. Flerte básico, já ouviu falar?', disse Andrew, cruzando os braços.
Archie ergueu uma sobrancelha, como se a frase tivesse sido dita em uma língua estrangeira.
A verdade é que, embora fosse bastante popular na escola como o velocista titular do time, ele nunca se sentira particularmente confiante quando o assunto era romance. Ele só tivera uma namorada, e foi um relacionamento curto que terminou sem muita história.
Fora isso, sua experiência se resumia a alguns beijos em festas, momentos em que ele nem precisava tentar. Com música alta, um clima descontraído e sua jaqueta do time, as coisas simplesmente aconteciam.
As conversas eram mínimas. A iniciativa não era seu forte.
E também não era como se ele fizesse isso com frequência. Ele não era um garanhão, nem particularmente extrovertido. Embora carregasse uma certa confiança por ser um bom jogador de futebol americano e titular do time.
Mas Willa era diferente.
Dois anos mais velha. Atriz. Confiante. Rápida na fala e ainda mais rápida em detectar insegurança.
Com ela, não havia espaço para timidez ou frases genéricas. Você tinha que chegar do jeito certo, ou nem chegar.
'Flerte básico', repetiu Archie, forçando um sorriso para tomar coragem.
'Parece simples quando você fala', acrescentou sinceramente, sem um pingo de ironia.
Porque Andrew era… bom, era o Andrew.
O *quarterback* titular. E acima de tudo, um protegido. Parte da elite, todo mundo sabia que ele iria longe.
No time, eles não apenas o respeitavam: eles o seguiam.
Ele nunca parecia nervoso. Nem em jogos decisivos, nem em entrevistas, nem mesmo agora com um canal no YouTube ostentando mais de um milhão de inscritos.
'Não é simples. Eu só aprendi a não transparecer o nervosismo. E isso também exige treino', disse Andrew.
Archie olhou para ele, intrigado, e esperou que continuasse.
'Sabe quantas vezes eu fiquei nervoso com a Pippa no começo?', perguntou Andrew.
'Com a Pippa?'
'Sim. Você pode vê-la como calma, séria, estudiosa... mas ela é nerd, só que de um jeito diferente de mim. Uma nerd acadêmica. Ela sabe uma tonelada de coisas que eu nem entendo quando ela me explica. História, literatura, filosofia... ela consegue recitar trechos inteiros de autores obscuros que eu nem consigo pronunciar', explicou Andrew.
'E quando eu percebi que gostava dela, soube que não podia chegar falando de livros ou escritores. Eu ia ser esmagado na mesma hora.'
Andrew fez uma pausa antes de continuar: 'Eu ficava nervoso o tempo todo. Mais do que em qualquer jogo. Eu ensaiava o que ia dizer a ela, como não parecer idiota. Porque a gente não tinha nenhum hobby em comum. Nada. Mas eu gostava do jeito que ela pensava, de como ela se expressava. Eu gostava dela. Então fui pela forma mais clara de flerte básico… conexão.'
Archie assentiu devagar. 'Faz sentido. Vou tentar isso.'
Ele tinha mais chances com essa abordagem do que tentando falar sobre os hobbies nerds de Willa, sobre os quais ele não sabia absolutamente nada.
'Não sabia que você era conselheiro amoroso', disse uma voz familiar atrás de Andrew.
Andrew virou-se lentamente e viu Pippa, parada na porta que conectava a cozinha ao corredor.
Ela segurava a bebida e o olhava com um sorriso suave.
'Há quanto tempo você está aí?', perguntou Andrew, um pouco nervoso. Seria meio embaraçoso se ela tivesse ouvido aquilo tudo.
'Desde: “ela consegue recitar trechos inteiros de autores obscuros que eu nem consigo pronunciar”', respondeu Pippa em tom divertido, aproximando-se.
'Ah…', disse Andrew, coçando a nuca, levemente envergonhado.
Pippa parou ao lado dele e deu-lhe um selinho rápido na bochecha: 'Eu sabia que você se esforçou para se aproximar de mim… mas não sabia que parecia tão difícil quanto uma partida de futebol americano.'
Andrew olhou para ela: 'Foi mais difícil. No campo, pelo menos, eu sei o que fazer.'
Pippa riu baixinho e o abraçou pela cintura: 'E você fez. Muito bem', disse ela com ternura, apoiando a cabeça no peito dele.
Archie os observava em silêncio, com um sorriso fraco.
Por muito tempo, ele vira Andrew como uma espécie de modelo. O capitão perfeito. Aquele que nunca duvidava. Aquele que sempre sabia o que fazer.
Mas agora, sabendo que até ele tinha ficado nervoso, que ele também temera dizer a coisa errada, que ele também precisara se esforçar para se conectar com alguém…
Talvez ele pudesse conseguir também.
Vendo que Kevin e Zach já não estavam na cozinha, e que Andrew e Pippa tinham um momento particular, Archie voltou para a sala, sentindo-se renovado.
'Então, você acabou ajudando ele', disse Pippa assim que Archie saiu do recinto.
'Sim… Fiquei com pena de vê-lo tão derrotado, e a forma dele abordar a Willa estava errada desde o começo', respondeu Andrew, já tendo se envolvido.
Pippa ergueu levemente a cabeça e olhou para ele: 'E você lembra do que conversamos quando você me disse que ele queria sua ajuda?'
'Sim… que eu não devia me meter em triângulos amorosos', disse Andrew com um suspiro.
'Exatamente', falou Pippa, arqueando levemente a sobrancelha. 'Já basta que, graças a vir aqui, ele ganhe a chance de tentar algo com a Willa. Você não precisa bancar o técnico de romance dele.'
Andrew não respondeu de imediato. Ele sabia que Leonard também estava interessado em Willa.
E mesmo que Willa não parecesse romanticamente interessada em nenhum dos dois, a tensão ainda existia, especialmente com dois caras do mesmo círculo orbitando em torno da mesma garota.
'Eu sei', disse Andrew. 'Mas eu não me envolvi tanto assim. Só dei uns conselhos. Uns bons conselhos, eu acho.'
'Só estou dizendo que, se você quer ajudar seu amigo, tudo bem, mas não quero você preso no meio de algo que pode explodir depois e acabar sem saber de que lado ficar', disse Pippa.
Andrew assentiu em silêncio. Sabia que Pippa não dizia aquilo por repreensão, mas por carinho.
'Eu sei', repetiu Andrew suavemente, passando os dedos pelos cabelos dela com delicadeza.
Eles ficaram assim por mais alguns segundos e depois voltaram para a sala, onde a conversa em grupo havia recomeçado naturalmente.
[1] - Tumbler: Nome dado ao protótipo do veículo militar usado como Batmóvel na trilogia de filmes *O Cavaleiro das Trevas* dirigida por Christopher Nolan.