
Capítulo 100
Família Moderna: Nova Vida
29 de setembro de 2009
Palisades High School – Estádio da Escola
O relógio marcava 7:42, e a partida estava no último quarto.
As luzes do estádio despencavam sobre o gramado. O placar mostrava vantagem para o Palisades, mas não a lavagem [1] a que estavam acostumados. 34 a 21. O suficiente para ficar confortável.
Na linha lateral, os tambores da banda da escola batiam como um batimento cardíaco constante. A torcida da casa comemorava, embora agora suas vozes estivessem mais baixas; eles observavam de perto, esperando.
Andrew se alinhou atrás do *center* [2], com os olhos fixos e o corpo agachado. Sua voz clara cortou o ar:
'Prontos… VALENDO!'
A bola voou para suas mãos em um espiral perfeito.
O *pocket* [3] estava se sustentando, por enquanto. Dando-lhe tempo para dar alguns passos para trás e escanear o campo.
O *pocket* é o espaço protetor formado no *backfield* quando a linha ofensiva protege o *quarterback*. Isso lhe dá tempo para encontrar um recebedor e lançar a bola.
Ele olhou para a direita; seu recebedor mais confiável, Steve, estava correndo sua rota, exatamente como haviam praticado mil vezes.
Mas, mais uma vez, a rota de Steve foi fraca. Sem explosividade. Sem fome de jogo. O *cornerback* o cobriu com facilidade.
'A mesma coisa de novo… Ele está jogando em câmera lenta', pensou Andrew, franzindo a testa.
Desde que venceram o campeonato estadual no ano passado, Steve não jogava com a mesma garra ou seriedade. Ele parecia satisfeito com o que haviam conquistado, como se o auge tivesse chegado cedo demais. No entanto, ele ainda se gabava de cada vitória como se tudo fosse fácil, como se seu desempenho ainda fosse intocável.
Andrew desvio o olhar e conferiu os outros dois recebedores. Ambos eram novos titulares, promovidos após a formatura de Jason e Alan. Mas eles não estavam à altura da tarefa.
'Nunca pensei que acabaria sentindo falta de Jason e Alan', Andrew admitiu para si mesmo, com uma mistura de resignação e frustração rastejando em seu peito.
Não era como se ele jamais tivesse gostado deles. Ele sempre os tratou com respeito, mas, no fundo, sabia que eles não eram talentos especiais. Apenas jogadores medianos e confiáveis.
Em sua vida passada, Andrew havia jogado com atletas de alto nível no ensino médio. Ele enfrentou defesas de elite e venceu jogos sob forte pressão.
E agora ele estava em sua forma física máxima. Desde os cinco anos de idade, ele treinou seu corpo e sua mente com um foco que a maioria não alcançaria em uma vida inteira. Seu físico, sua visão de jogo, seus reflexos, tudo estava no auge.
Pensando nisso, ele percebeu de repente que um defensor externo havia rompido o bloqueio. E, pelo meio, um *linebacker* vinha avançando com tudo.
Sem outra escolha, Andrew abandonou o *pocket*. Ele se moveu para a esquerda, ainda permanecendo atrás da linha de *scrimmage*. Moveu-se horizontalmente, procurando uma abertura.
O *linebacker* se aproximou. Andrew deu uma finta de ombro e girou rapidamente. O defensor errou o *tackle* e perdeu o equilíbrio. Isso deu espaço a Andrew.
O *safety* desceu da cobertura profunda para bloqueá-lo. Andrew encarou-o, finto para a esquerda e fez um corte seco para a direita. O defensor caiu na farsa.
Outra brecha se abriu. Andrew continuou correndo.
Outro defensor apareceu rapidamente. Desta vez, não havia espaço para desviar.
Mas Andrew não parou. Ele segurou a bola com uma mão e estendeu o outro braço em um movimento firme e enérgico, direto no peito do defensor.
Ele empurrou com força, tirando-o do equilíbrio e derrubando-o com um *stiff arm* [4] preciso.
O estádio foi ao delírio.
Mais dois jogadores mergulharam nele em ângulos opostos. Correr mais para frente era impossível.
Andrew ergueu os olhos e viu aquilo.
Um dos novos recebedores, Jack, havia cortado sua rota original e disparado em direção ao canto direito do campo. Finalmente, alguém reagiu.
Andrew parou em cima da hora, girou o corpo e lançou em movimento, com o braço totalmente estendido, em um único movimento fluido e contínuo.
A bola voou pelo ar, traçando um arco perfeito em direção ao canto da *end zone*.
Jack se esticou e agarrou o passe com as duas mãos, bem antes de pisar fora dos limites do campo.
'*Touchdown*! Uma jogada incrível do nosso *quarterback* favorito, coroada com um lançamento perfeito sob pressão!', gritou o narrador, com a voz cheia de empolgação.
O estádio explodiu em aplausos e gritos de comemoração.
Andrew ficou parado por mais um segundo, observando. O suor escorria por sua testa. Jack celebrava de joelhos após a recepção, fazendo um movimento de *dab* [5]. Reggie e Archie correram até ele, pulando e o abraçando.
O técnico David aplaudiu com entusiasmo e imediatamente se virou para a defesa com instruções sérias; eles estariam em campo em um instante, após a conversão de dois pontos, a qual ele confiava plenamente que Andrew completaria.
David havia mudado muito. Um ano atrás, ele era um técnico desorganizado. Deixava os jogadores chegarem tarde sem consequências, os treinos eram confusos e as jogadas, improvisadas. Ninguém parecia se importar. Mas tudo mudou quando Andrew chegou.
David viu um calouro liderar o time com um nível de seriedade que ele próprio havia esquecido.
Um garoto que treinava com intensidade, estudava as jogadas com cuidado e exigia mais do que qualquer outro em campo.
Foi aí que David percebeu que, se não começasse a levar as coisas a sério, não perderia apenas o respeito do time… ele seria um completo idiota.
Alguém que merecia ser ignorado ou até mesmo levar um soco — como ele brincou uma vez com seus assistentes —, caso não fizesse seu trabalho com a mesma paixão.
É por isso que Andrew o respeitava agora, ao contrário de quando se conheceram. Ele até havia considerado sugerir que a escola procurasse um novo técnico. Mas, após ver a mudança de David, desistiu da ideia.
Steve trotava em direção à *end zone* com um sorriso confiante. Ele deu um tapinha no capacete de Jack e soltou uma gracinha em tom convencido:
'Bom trabalho, novato. Você está pegando o jeito… mas ainda tem um longo caminho a percorrer.'
Jack sorriu sem jeito, baixando um pouco o olhar.
Archie e Reggie se encararam, mas não disseram nada.
Andrew, caminhando em direção a eles enquanto tirava o capacete, ouviu aquilo.
Ele parou e olhou direto para Steve. Seu rosto estava sério. A testa franzida. Os olhos cravados nele com uma mistura silenciosa de decepção e aviso.
Durante o jogo, Andrew havia dito a Steve para correr suas rotas com mais intensidade. Ele apontou os ajustes. Ele o incentivou, sem sarcasmo, sem repreensão.
Mas Steve não ouviu.
Andrew não ia se repetir. Ele não estava ali para carregar ninguém nas costas, e, se continuasse insistindo, tudo o que conseguiria seria ficar com raiva da incompetência de Steve, perdendo a paciência e causando uma cena desagradável.
Se um recebedor melhor, mais forte, mais rápido ou mais comprometido aparecesse… Andrew não hesitaria em deixar Steve para trás.
A amizade não tinha espaço em campo. Apenas o desempenho.
A comemoração diminuiu. Ninguém disse uma palavra. O ar parecia mais pesado. Todos perceberam.
Eles converteram a tentativa de dois pontos com um passe certeiro de Andrew, mais uma vez agarrado por Jack.
Uma rota curta. Limpa. Sem firulas. Simples e eficaz.
O jogo continuou.
O Palisades marcou outro *touchdown*, ampliando a vantagem.
A escola adversária, West Valley, não desistiu e conseguiu seu próprio *touchdown*, mas o tempo não estava a favor deles.
O relógio chegou a zero.
50 a 28, vitória do Palisades.
Mais uma vitória. A quinta seguida nesta temporada. Invicto. O passaporte para os *playoffs* regionais estava praticamente garantido.
Os gritos da torcida ainda ecoavam enquanto Andrew desamarrava suas chuteiras no vestiário.
Seu corpo estava quente pelo esforço e sua cabeça parecia cheia. Não por causa do placar — 50 a 28 era uma vitória sólida —, mas por causa de tudo o que ele teve que deixar passar durante a partida.
As rotas perdidas. Os recebedores que não renderam o esperado.
Steve, com sua atitude de garoto mimado, ignorando orientações claras.
Enquanto o time comemorava, Andrew se trocou em silêncio.
Ele vestiu uma camiseta cinza e se olhou no espelho, com o rosto sério, sem o menor vestígio de sorriso.
'De novo com isso?', pensou.
Ele passou a mão pelo rosto.
Sabia que estava sendo injusto. O time acumulava cinco vitórias seguidas, uma campanha muito boa.
Não podia exigir que todos os jogadores atuassem no mesmo nível que ele, nem que repetissem os resultados da temporada passada como se fosse uma tarefa fácil. Era absurdo esperar que todos tivessem a mesma mentalidade ou nível de preparação que ele.
Claro, Steve era um caso à parte. Ele iria colocá-lo no banco se não endireitasse o comportamento. Não havia mais desculpas para sua apatia, e Andrew não permitiria que a atitude dele puxasse o time para baixo.
Por outro lado, Jack e o outro novato, Marcus — um recebedor rápido, mas ainda inexperiente —, jogavam com garra. Cometiam erros, sim, mas eram erros de quem estava dando o melhor de si, e não de quem jogava de qualquer jeito ou sem vontade.
Uma vitória por 22 pontos de diferença era um bom resultado. Ele não podia esperar vencer todas as partidas como no ano passado, quando vencíamos por uma média de 50 pontos.
Eles não estavam mais na Quinta Divisão; aquele nível era muito mais difícil. E haviam perdido vários jogadores-chave, como Jason e Alan.
'Nós vencemos… Eu não deveria estar com essa cara. Fui eu que me coloquei nessa posição', pensou enquanto respirava fundo.
A poucos passos dali, Liam secava o cabelo com uma toalha, ainda usando suas luvas. Seu rosto era sério, mas havia um lampejo de satisfação em seus olhos. Andrew caminhou até ele.
'Bom jogo', disse Andrew, aproximando-se e erguendo o punho.
'Valeu, capitão. Você também, como sempre', respondeu Liam com um sorriso, batendo os punhos com ele.
Liam estava no último ano do ensino médio. Na temporada passada, ele já havia sido o líder da defesa daquele time. Neste ano, estava levando tudo duas vezes mais a sério, como se não houvesse margem para erros.
Ele treinava o dobro, estudava as formações adversárias obsessivamente e conversava constantemente com Andrew, o técnico e os assistentes, absorvendo qualquer coisa que pudesse aprimorar seu jogo.
Andrew o respeitava por sua mentalidade e ética de trabalho.
Liam estava no Palisades desde o primeiro ano, época em que a escola mal conseguia chegar aos *playoffs* com campanhas medianas ou até perdedoras.
Portanto, Liam podia ser considerado um talento de amadurecimento tardio, assim como Derek. Nem todo mundo atinge o auge aos 14 ou 15 anos.
Até Tom Brady passou despercebido no ensino médio. Ele jogou na Junípero Serra High School (San Mateo, Califórnia), uma escola com certa reputação, mas não de elite nacional. E embora tivesse talento, ele não era muito visado pelo recrutamento universitário.
Na verdade, ele recebeu apenas uma oferta real, de Michigan, onde passou anos como reserva.
Ele foi escolhido apenas na sexta rodada do Draft da NFL.
Depois de conversar mais um pouco com Liam, Andrew deixou o vestiário com o espírito muito melhor.
[1] - Expressão usada para descrever uma vitória esmagadora, um atropelo sobre o adversário.
[2] - Posição no futebol americano que fica no centro da linha ofensiva e é responsável por iniciar a jogada entregando a bola ao *quarterback*.
[3] - O espaço protetor formado no *backfield* pela linha ofensiva para proteger o *quarterback*.
[4] - Técnica em que o jogador com a bola usa o braço estendido para afastar e impedir que o defensor faça o *tackle*.
[5] - Dança comemoração popular na cultura pop onde o jogador abaixa a cabeça em direção ao braço dobrado.