Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 96

Família Moderna: Nova Vida

Andrew já havia tomado sua decisão. Antes de ir ao aeroporto buscar a Pippa, ele precisava de clareza. E, para isso, pediria conselho a cada membro de sua família, um por um.

Uma ideia maluca, talvez, mas pelo menos ele teria todas as perspectivas possíveis.

De todos os conselhos que recebesse, ele decidiria qual era o melhor.

— Quero o conselho de vocês sobre algo... importante — disse Andrew, que tomava café da manhã na cozinha com Mitchell e Cam.

Cam e Mitchell trocaram um olhar e depois voltaram os olhos para Andrew.

— É sobre futebol? — perguntou Mitchell, erguendo uma sobrancelha.

— Ou sobre o seu canal no YouTube? Você recebeu alguma oferta de patrocínio? Nike? Adidas? — acrescentou Cam, visivelmente animado, já imaginando todo tipo de coisa na cabeça.

Andrew balançou a cabeça enquanto dava um gole em seu copo d'água. Poucas semanas antes, ele havia recebido seu primeiro patrocínio direto de uma marca de calçados esportivos. Eles lhe pagaram 1.500 dólares para destacar os tênis em um de seus vídeos.

É claro que ele não fez um vídeo inteiro só sobre os tênis, não era o estilo dele.

Ele os incluiu naturalmente em sua rotina habitual: saiu para correr como sempre, mostrou os tênis no começo com alguns enquadramentos bem tirados, comentou brevemente sobre como eles se sentiam nos pés, o conforto ao correr, etc., tudo isso enquanto continuava seu treino.

Ele mostrou o modelo e a marca exatos e deixou o link da loja na descrição. Também os elogiou, obviamente, dizendo que eram confortáveis e estilosos. Não era mentira, ele não promoveria um produto de que não gostasse.

E funcionou. O vídeo teve bastante cliques no link.

A marca até mandou uma mensagem para ele depois, agradecendo e dizendo que esperavam trabalhar com ele de novo.

— É sobre a Pippa — disse Andrew.

Houve um breve silêncio até que Cam reagiu, com um entusiasmo exagerado para o gosto de Andrew.

— Um problema de amor!?

— Eu nunca pensei que esse dia chegaria! — exclamou Mitchell, igualmente surpreso, ajeitando-se na cadeira.

— Achei que teria de esperar a Lily crescer para ter uma conversa sobre o amor e finalmente dar algum conselho de verdade! — Cam assentiu, ficando cada vez mais animado.

Andrew olhou para eles com cautela, imaginando se aquilo tinha sido uma boa ideia afinal.

[Comentário de Mitchell e Cam]

— Quando Andrew disse que queria falar sobre seu relacionamento... foi como se os portões do céu tivessem se aberto. Finalmente... algo que não fosse sobre futebol ou videogames — disse Mitchell com um sorriso. Ele finalmente poderia ajudar o filho com algo adolescente e emocional.

— É verdade. Embora eu achasse que o Andrew nunca pediria conselhos amorosos, venho me preparando caso o momento chegasse. Estou pronto! — disse Cam com um sorriso confiante.

[Fim do comentário]

— Conta pra gente, qual é o problema? — disse Cam, acalmando-se e pronto para ouvir com atenção. Mitchell assentiu e ficou quieto, esperando Andrew abrir o jogo.

Andrew, sabendo que não havia mais volta, começou a explicar a situação o mais rápido possível, certificando-se de que eles entendiam os pontos principais.

Que ele e Pippa tinham tido sua primeira discussão, e a raiz do conflito era que a Regina vinha acompanhando Andrew em suas corridas alguns dias por semana. E a Pippa não estava feliz com uma garota mais velha correndo com ele durante as férias.

Andrew disse a ela que a Regina era apenas uma amiga e, para resolver a situação, convidou a Pippa para correr com eles para que ela pudesse ver que não havia nada de estranho rolando.

A Pippa concordou e correu com eles por alguns dias. Viu que não havia nada de estranho, era apenas amizade, mas ainda assim não se sentia à vontade, embora nunca tivesse dito ao Andrew que ainda estava chateada.

E, embora ela não dissesse mais nada, nos dias seguintes seu comportamento mudou: ela ficou distante, amuada, e a última discussão deles, antes de ela viajar de férias com a família, foi confusa, amarga e sem um motivo claro... embora Andrew soubesse que ainda tinha a ver com a Regina.

Mitchell e Cam trocaram um olhar de soslaio. Já não com a confiança que tinham minutos antes.

— Ah... — disseram os dois em uníssono.

— E então? Como eu resolvo isso? — perguntou Andrew, esperando por uma resposta.

— Isso é mais complicado do que eu pensava — sussurrou Mitchell, aproximando-se de Cam.

— É, é... — Cam assentiu.

[Comentário de Mitchell e Cam]

— Isso não era o que eu tinha em mente. Pensei que fosse algo como... sei lá, um encontro ruim, uma discussão bobinha, um beijo desajeitado... — disse Cam, acariciando o queixo enquanto tentava pensar em uma solução possível.

— Nós somos um casal gay. Será que sabemos mesmo lidar com uma crise de ciúmes heterossexual adolescente? Uma que envolve uma líder de torcida super popular e atraente? — perguntou Mitchell em voz alta, com a testa ligeiramente franzida.

[Fim do comentário]

Cam e Mitchell o observaram em silêncio, ambos profundamente pensativos sobre como responder.

A torrada de Cam continuava esquecida no prato, e o café de Mitchell já estava esfriando.

Andrew estava prestes a falar, mas parou quando Mitchell se pronunciou primeiro.

— Andrew, eu sei que isso pode parecer extremo... mas se essa história toda com a Regina está causando tantos problemas com a Pippa... talvez você deva considerar. Vale mesmo a pena continuar vendo ela? Ela é só uma garota com quem você corre.

— Eu não concordo! Que tipo de mensagem é essa, Mitchell? "Parar de ver suas amigas porque sua namorada não gosta"? Isso não é saudável! — Cam entrou na conversa imediatamente, levantando a mão como se estivesse bloqueando uma jogada de futebol.

— Eu não disse que é o ideal. Eu disse que pode ser uma opção se ele realmente quiser salvar o relacionamento. Às vezes, a gente faz sacrifícios — respondeu Mitchell, franzindo a testa.

Cam cruzou os braços, claramente chateado.

— Claro, casais fazem sacrifícios, mas não desse jeito! Abrir mão de uma amizade só porque a outra pessoa não sabe lidar com as próprias emoções? O que vem depois? Mandar ele não respirar perto de outras garotas?

Andrew olhava de um para o outro como se estivesse assistindo a um debate presidencial que ficava cada vez mais intenso a cada segundo.

Mitchell apoiou-se na mesa, batucando os dedos com impaciência.

— A Regina não é sua melhor amiga. Vocês nem têm um vínculo assim tão profundo. Não é como se ela fosse sua alma gêmea — disse ele com firmeza. — Às vezes, o caminho mais seguro é o melhor. A Pippa é sua namorada. Esse relacionamento deve vir em primeiro lugar agora.p>

Cam abriu a boca como se tivesse acabado de ouvir uma heresia pura.

— Então quer dizer que ele nunca mais vai poder ter amigas!? O que vem depois? Um rastreador GPS?

— Para de falar "o que vem depois"... — murmurou Mitchell, irritado.

Andrew apertou os lábios para não rir ao vê-los entrar cada vez mais na discussão.

Cam continuou, com o tom cada vez mais dramático:

— E quanto à Willa? A gente sabe muito bem que eles viraram amigos! Ela é uma atriz de Hollywood! Bonita, brilhante, CDF! Quando a Pippa descobrir, você vai mandar ele parar de ver ela também? Chutar ela do grupo?

— Isso é diferente. A Willa está no grupo de amigos dele. Ela anda com o Leonard e o Howard. Não é uma dinâmica um a um como com a Regina. A Pippa provavelmente não vai pirar porque não é algo tão pessoal, é mais social — disse Mitchell, erguendo a mão como se quisesse parar a tempestade que vinha de Cam.

— Tem uma dinâmica um a um com a Willa sim. Quem convidou o Andrew para passear na Comic-Con?[1] Foi ela! A relação dela com ele é mais próxima do que com os outros dois — disse Cam, apontando o dedo para Mitchell.

— Não aponte o dedo para mim — bufou Mitchell e, com calma e compostura, deu um leve tapa no dedo de Cam para afastá-lo, como quem espanta uma mosca.

Andrew ergueu as mãos em uma mistura de resignação e alarme, como um árbitro tentando mediar uma luta entre dois lutadores.

— Ei! Eu só pedi um conselho, não estou tentando começar uma guerra entre vocês dois — disse Andrew, erguendo as mãos como um árbitro tentando parar uma briga.

[Comentário de Cam]

— O Mitchell sempre olha para tudo através da lógica. Como se a vida fosse uma grande planilha do Excel. A Regina sai machucada, o Andrew perde uma amiga. Essa é uma solução horrível! A vida não é uma planilha, Mitchell! Se o Andrew falar com o coração, a Pippa vai entender. Ela é uma garota inteligente! Ela provavelmente está sentindo ciúmes pela primeira vez, e isso é compreensível.

[Fim do comentário]

[Comentário de Mitchell]

— O Cam vive em um mundo onde tudo se resolve com um número da Broadway, um buquê de flores e um abraço. Às vezes, a gente tem de tomar decisões desconfortáveis e realistas! Claro que seria ótimo se todo mundo fosse amigo e ninguém ficasse com ciúmes, mas isso nem sempre funciona. Você tem de usar a cabeça. A Pippa já mostrou que tem orgulho demais para admitir que ainda está com ciúmes. A melhor coisa é cortar o problema pela raiz.

[Fim do comentário]

Mitchell e Cam encararam Andrew intensamente, como se ele fosse um juiz supremo prestes a proferir um veredito que declararia um deles o vencedor.

— E então... o que você vai fazer? — perguntou Cam, inclinando-se para a frente.

— Vai seguir o caminho mais lógico que resolve tudo, ou aquele onde tudo pode dar errado? — perguntou Mitchell, cruzando os braços.

— Não vou decidir nada agora — disse Andrew enquanto enfiava a mão no bolso e puxava o celular.

Ele o desbloqueou e, enquanto os dois homens o olhavam confusos, começou a digitar uma nota.

— O que você está fazendo? — perguntou Mitchell.

— Me organizando — respondeu Andrew.

Ele começou a escrever, lendo em voz alta sem tirar os olhos da tela:

— Opção um: conversar com a Pippa com emoção, explicar como me sinto, lembrá-la de novo de que não está rolando nada com a Regina e dizer que me machuca ela não confiar em mim. A sua opção — disse ele, olhando de soslaio para Cam, que assentiu com um sorriso. — Essa é a solução vencedora.

Em seguida, ele acrescentou:

— Contras: a Pippa pode não admitir que ainda está com ciúmes, mesmo estando. A gente já brigou por causa disso. Ela pode ficar ainda mais zangada se achar que estou acusando-a. Isso já aconteceu antes.

Cam mordeu o lábio, preocupado, mas assentiu em silêncio.

Andrew continuou:

— Opção dois: cortar os laços com a Regina. Desse jeito, eu mostro à Pippa que respeito os sentimentos dela e lhe dou paz de espírito. A sua opção — disse ele, olhando para Mitchell.

— Isso soa razoável — respondeu Mitchell com um leve aceno de aprovação.

— Contras — acrescentou Andrew, digitando mais rápido —, eu estaria recompensando o controle e o ciúmes. A Pippa pode ficar mais exigente no futuro. Além disso, a Regina não fez nada de errado. Ela nunca deu em cima de mim. Eu estaria machucando uma amiga por causa de uma insegurança que nem sequer é assumida.

— Agora vou pra casa do vovô, para ouvir o conselho dele e da Gloria — disse Andrew, levantando-se do assento.

— Você vai mesmo pedir conselhos amorosos para o meu pai? Meu pai? — perguntou Mitchell, erguendo uma sobrancelha, claramente cético. Cameron concordou com a cabeça.

— Sim, todas as opiniões serão ouvidas. Quem sabe? Talvez ele diga algo super sábio só pela idade avançada — disse Andrew, dando de ombros e caminhando em direção à porta.

— A gente pode ir com você? Nós dirigimos — disse Mitchell, e Cam olhou para Andrew cheio de esperança.

Andrew lançou-lhes um olhar desconfiado, como se já pudesse prever o caos à frente.

— Tá bom, mas não interfiram no começo. Quero a opinião sincera deles. Sem caras, sinais ou interrupções teatrais para influenciar as respostas da Gloria ou do Jay — disse Andrew.

— Certo! A gente nunca faria isso — disse Cam com um sorriso grande demais para ser confiável.

— Zero interferência — acrescentou Mitchell.

— Vou buscar a Lily pronta — disse Cam, levantando-se.

Quinze minutos depois, eles estavam parados em frente à casa de Jay. Andrew apertou a campainha e esperou.


[1] - Comic-Con: Convenção de cultura pop focada em quadrinhos, filmes, séries e entretenimento em geral.

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