
Capítulo 95
Família Moderna: Nova Vida
Já fazia uma semana desde o fim da San Diego Comic-Con, mas para Andrew, parecia que muito mais tempo havia passado.
Muita coisa tinha acontecido: o torneio, a identidade falsa, o encontro com Arik, Derek e outras futuras estrelas e, é claro, Willa Holland.
Para a surpresa de Andrew, Willa tinha se enturmado no grupo sem o menor esforço.
No começo, tanto Howard quanto Leonard pareciam desconfortavelmente conscientes da presença dela. Era compreensível; não é todo dia que uma garota como ela — deslumbrante, confiante e com aquela áurea inconfundível de jovem atriz de Hollywood — se junta a um grupo de nerds para falar sobre quadrinhos e teorias de ficção científica.
Mas os dias na Comic-Con foram suficientes para que aquela timidez inicial se transformasse em intimidade. Willa era direta, sim, mas também sarcástica, engraçada e, acima de tudo, profundamente geek.
Howard não admitia, mas já não a via apenas como uma garota bonita; agora a via como uma forte concorrente no reino do conhecimento geek.
Leonard, por sua parte, tentava manter a compostura, embora fosse óbvio que conversar com ela o empolgava mais do que o habitual. Especialmente depois de passarem mais de uma hora discutindo as camadas morais da literatura de Tolkien e se Tom Bombadil deveria ou não estar nos filmes.
Andrew observava tudo aquilo. Ele percebeu que Willa não tinha amigos — ou, pelo menos, não amigos com quem pudesse compartilhar esse tipo de nerdice.
Era muito parecido com o que havia acontecido com ele em sua vida passada.
Ele entendeu que Willa o havia convidado para explorar a Comic-Con não porque tinha interesse romântico nele (pelo menos, era isso o que Andrew havia concluído), mas porque precisava de uma companhia. Uma igual. Alguém com quem pudesse conversar sobre o que a apasionava fora da atuação e de Hollywood.
E isso lhe trouxe um certo alívio.
Não porque tivesse medo de ser infiel; Andrew tinha certeza dos seus sentimentos por Pippa. Mas conhecer Willa e descobrir que, além de tudo, eles compartilhavam tantas coisas geeks, tantas obsessões e referências, parecia que o universo estava tirando uma com a cara dele.
Como se tivesse colocado bem na frente dele a garota nerd perfeita. Atraente. Direta. Geek. E, para coroar tudo, ela havia sido sua paixão platônica em sua vida passada.
Mas ele gostava de Pippa. Apesar da discussão deles, ele gostava de verdade dela.
Eles tinham tido uma pequena briga, nada grave, mas o suficiente para criar certa tensão.
Durante os primeiros dias da viagem de Pippa, as mensagens foram frias. Escassas. Ela demorava para responder. Mas, conforme os dias passavam, as conversas começaram a melhorar: mais piadas, papos mais longos, sem longas esperas e assim por diante.
A tensão ainda estava lá, pairando no ar, mas havia diminuído em comparação aos primeiros dias.
Quanto ao vídeo no YouTube, Andrew já o havia postado. Ele ointitulou:
[Especial de 500.000 inscritos – Infiltrei-me em um torneio de futebol americano com uma identidade falsa e dominei]
Levou apenas algumas horas para o vídeo viralizar e quebrar todos os recordes anteriores de Andrew em termos de visualizações, comentários e engajamento.
Mas antes disso, é claro, houve uma conversa inevitável.
Ele contou a verdade a Cam e Mitchell. Sobre o porquê de ter ido para San Diego tão cedo naquele primeiro dia.
Cam ficou em silêncio a princípio, de braços cruzados e testa franzida. Mitchell franziu os lábios como se estivesse mentalmente preparando um sermão disciplinar... mas nada aconteceu.
Bem, quase nada.
'Não acredito que você fez tudo isso sem nos contar', disse Cam primeiro, sem parecer irritado... apenas com um ar de falso desconfiamento.
'Você tem noção de que perdemos o jogo? Poderíamos estar lá assistindo você destruir aquele monstro de dois metros de altura!', acrescentou Cam, com os olhos arregalados como se aquela fosse a parte realmente revoltante de toda a situação.
'O quê...?' Andrew murmurou entre os dentes, confuso com as prioridades emocionais de seu pai.
Mitchell, que já havia assistido ao vídeo editado de Andrew depois que tudo foi explicado, limitou-se a acenar com a cabeça, de braços cruzados.
'Você podia ter sido mais sincero... mas foi incrível a forma como você passou por cima daquele zagueiro. O nome dele é Arik, certo?', perguntou Mitchell para confirmar.
'É. Arik Armstead. Pleasant Grove High School, Divisão 1. Um dos zagueiros mais cobiçados do país. Ele tem mais de dois metros de altura e pesa mais ou menos o equivalente a uma máquina de lavar industrial', disse Cam, assentindo com uma expressão séria.
Mitchell ficou em silêncio por um momento, processando a informação com uma expressão de orgulho quase exagerada. Então, virou-se para Andrew com um sorriso pequeno e satisfeito.
'Você tem noção do que fez? Nós deveríamos estar naquelas arquibancadas. Com um cartaz ou algo parecida. Você derrubou um cara da Divisão 1, um dos maiores talentos do futebol americano do ensino médio. Imagina a cara dos outros pais, ou dos amigos dele que foram assistir', disse Mitchell, fechando o punho e franzindo a testa, como se estivesse mais chateado por ter perdido a chance de ver o filho passar o cerol nos outros jogadores.
'Eu... desculpa. Prometo que convido vocês na próxima vez', disse Andrew com uma expressão estranha. Ele não esperava levar uma bronca por não tê-los convidado para o torneio onde usou uma identidade falsa.
'É bom mesmo! Nós poderíamos ter levado a Lily com algum tipo de máscara, ela teria ficado adorável', disse Cam.
'Então... eu não vou ficar de castigo?', perguntou Andrew, percebendo que Mitch e Cam já estavam conversando animadamente sobre o vídeo que ele havia gravado no torneio.
'Não. Não desta vez', respondeu Mitchell, cruzando os braços. 'Excluindo aquela noite terrível em que você decidiu perambular bêbado por Los Angeles, você não aprontou nenhuma confusão grave, e eu acho que isso aqui também não chega a ser uma.'
'Além do mais, o organizador do torneio, Brady, te deu permissão para postar o vídeo, e ele nem ficou bravo depois de descobrir que você falsificou sua identidade. O que, vale lembrar, tecnicamente seria uma contravenção se você fosse adulto. Mas como você é menor de idade e um prodígio do futebol...'
'...todo mundo te perdoa', concluiu Cam com um sorriso orgulhoso.
Mitchell assentiu e se aproximou de Andrew. 'E o mais importante: você conversou com o Brady por uma hora inteira. Uma hora. Sabe quantos garotos da sua idade matariam por cinco minutos com um técnico universitário? Essa conexão pode valer ouro', disse ele, colocando uma mão no ombro de Andrew.
'Embora, com o seu nível, assim que você se formar no ensino médio, as melhores universidades vão estar saindo no tapa por você', disse Cam, e Mitchell concordou com a cabeça.
Andrew também assentiu e, depois de trocar mais algumas palavras, seguiu direto para o quarto. 'Foi melhor do que eu esperava', pensou ao fechar a porta atrás de si.
Alguns dias depois.
A mansão do diretor Brian De Palma não era nada parecida com o que Andrew havia imaginado quando Willa disse casualmente: 'Quer vir jogar D&D lá em casa?'
Ele nunca imaginou que seria uma casa tão gigantesca e absurdamente elegante.
Howard e Leonard estavam completamente fora de si, especialmente depois de descobrirem quem era o padrasto de Willa.
'Ele dirigiu *Carrie*? O do Stephen King original? Aquele de 1976?', repetiu Leonard pela terceira vez, olhando em volta como se esperasse que Sissy Spacek saísse de algum corredor.
'E *Missão: Impossível*. O primeiro! Com o Tom Cruise. Isso é história do cinema!', exclamou Howard, com os olhos brilhando.
Willa, por sua vez, estava sentada em uma enorme poltrona de veludo, folheando sua ficha de personagem com um leve sorriso. Suas roupas não indicavam nem de longe que ela estava prestes a começar uma longa sessão de D&D.
Andrew sentou-se ao lado dela, revisando sua ficha de personagem com um olhar concentrado. O personagem dele era um clérigo com poderes de fogo.
'Muito bem. Quem quer fazer a introdução da campanha?', perguntou Willa, erguendo o olhar.
'Eu!', gritou Howard, levantando sua ficha como se fosse um certificado.
E assim, a sessão começou.
Eles já estavam jogando havia mais de três horas. No combate final, o personagem de Andrew tirou um número ruim nos dados e acabou morrendo.
'Seu personagem... morreu', anunciou Howard, o Mestre do Jogo, com um tom solene e teatral.
'A gente pode reviver ele!', interveio Leonard, já correndo os olhos pela própria ficha. 'Eu tenho uma poção. Ou podemos achar um clérigo na cidade mais próxima. Não acabou!'
'Não. Tudo bem. Acho que foi um bom final para ele', disse Andrew calmamente, balançando a cabeça enquanto se recostava no sofá com um suspiro.
Willa o observava com curiosidade. Ele estava estranhamente calado naquela noite, mais calado do que o normal.
'Você já vai?', perguntou Willa ao vê-lo se levantar e juntar suas coisas.
'É. Tô cansado', respondeu Andrew vagamente, jogando a mochila no ombro.
Willa assentiu. Ela não disse mais nada, embora houvesse um lampejo de decepção em seus olhos.
'Você vem amanhã? Digo... a gente pode jogar outra coisa. Ou ver um filme. A gente ainda tá de férias', perguntou Willa.
'Acho que não vou poder...' respondeu Andrew, sem entrar em detalhes.
'Beleza. A porta tá aberta. Tchau', disse Willa em um tom neutro.
'Tchau, gente, aproveitem o resto da sessão', despediu-se Andrew ao sair. Leonard e Howard acenaram em resposta.
Alguns segundos depois que Andrew saiu da casa, Willa não conseguiu mais conter a curiosidade. Ela olhou para Leonard e Howard e perguntou:
'Qual é a dele? Ele tava mais calado e desanimado do que o normal.'
'A namorada dele volta da Europa amanhã. Eles meio que andam estranhos desde antes da viagem dela, acho que pode ser por isso', respondeu Howard após alguns segundos.
Willa assentiu sem dizer nada, disfarçando muito bem qualquer reação emocional. Ela não puxou mais o assunto e voltou sua atenção para o jogo.
Assim que chegou em casa, Andrew foi deitar logo depois, mas não conseguiu pegar no sono.
Pippa voltaria amanhã.
Ele vinha pensando naquele momento a semana inteira. Imaginava o rosto dela ao passar pelas portas do desembarque do aeroporto. Ele mal podia esperar para vê-la.
No entanto, ele sabia que ainda havia aquela questão mal resolvida com Regina.
Mesmo que Pippa não quisesse admitir, Andrew tinha certeza de que era esse o problema, o motivo de ela ter ficado chateada antes de viajar.
Ele havia convidado Pippa da primeira vez para que ela visse com os próprios olhos. E ela viu. Viu que não havia nada de estranho rolando e não quis voltar mais porque, nas palavras dela, 'correr não é muito a praia dela'.
Andrew aceitou isso. Ele não forçou a barra.
Mas ela... ela parecia ter esperado outra coisa.
A ideia de cortar os laços com Regina não lhe parecia uma boa solução. Regina era sua amiga. Acabar com uma amizade por causa de um ciúme que nem sequer havia sido expresso parecia coisa de covarde.
E depois, o quê? Toda vez que uma garota se aproximasse, ele teria que afastá-la?
'Tem que haver outro jeito... pensou Andrew, forçando a mente para encontrar uma saída, mas sem sucesso.
E então, como se uma ideia absurda se transformasse lentamente em algo lógico, ele tomou uma decisão.
Ele iria pedir conselhos para a família dele. É. Para todos eles.
Seus pais: Cam e Mitchell.
Jay e Gloria.
Manny.
Phil, Claire, Alex, Haley...
Andrew fechou os olhos e suspirou.
'Ai, meu Deus... Isso tem tudo para dar muito errado', murmurou para si mesmo.
Ainda assim, ele sabia que, em meio ao caos, talvez encontrasse uma resposta que o ajudasse a consertar aquele problema.
E com esse pensamento, ele finalmente fechou os olhos e caiu no sono.