Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 94

Família Moderna: Nova Vida

A Noite de Prévia da San Diego Comic-Con de 2009 havia aberto suas portas.

O contraste não podia ser maior: do calor sufocante do campo de futebol para o enorme e refrigerado centro de convenções repleto de pôsteres, luzes, telões, telas de LED e estandes.

Ainda não estava lotado; a Noite de Prévia era restrita a quem havia comprado o passe completo, o que lhes permitia caminhar livremente pelos corredores sem serem empurrados ou se perderem na multidão.

Mesmo assim, a energia era palpável. Havia cosplayers em cada esquina, fotógrafos capturando momentos, música tocando em alguns estandes e boatos circulando sobre painéis surpresa para o fim de semana.

Na primeira hora, Andrew já havia comprado vários quadrinhos autografados, alguns bottons de edição limitada, uma pequena réplica do capacete de Darth Vader e uma camiseta com o próprio Lorde Sombrio estamparia nas costas.

Enquanto caminhavam por uma das alamedas principais do centro de convenções, Howard apontou para a frente empolgado.

— Ali! Estão fazendo a demonstração de Batman: Arkham Asylum! É um daqueles estandes da Warner — disse Howard.

— Vamos lá! Dizem que tem a melhor atmosfera já feita em um jogo de super-herói! — acrescentou Leonard com entusiasmo.

Os dois se viraram para Andrew, esperando que ele os acompanhasse, mas ele apenas balançou a cabeça.

— Vão vocês. Quero dar uma olhada noutra seção — disse Andrew com um sorriso relaxado.

— Beleza, a gente se encontra depois — disseram Howard e Leonard enquanto seguiam em direção ao estande da Warner.

Eles assumiram que Andrew só queria explorar outros estandes.

O que eles não sabiam era que Andrew já havia jogado Batman: Arkham Asylum. Ele conhecia o jogo muito bem e o havia zerado algumas vezes em sua vida passada.

E embora o jogo fosse uma obra-prima para a sua época, ele já havia vivido experiências de videogames muito mais avançadas, intensas e complexas — jogos que nem sequer existiam nessa realidade ainda.

Para ele, a demonstração não guardava muito mistério.

— Humm, para onde ir? — pensou Andrew enquanto vagava pela multidão sem um destino certo.

Enquanto caminhava, absorvia tudo ao seu redor: grupos de pessoas rindo, tirando fotos, carregando sacolas cheias de bonecos colecionáveis.

Apenas algumas horas antes, ele estava em um campo de futebol, cercado por atletas, técnicos e arquibancadas majoritariamente cheias de adolescentes com uniformes escolares.

E agora... ele estava cercado por cosplayers, colecionadores, nerds orgulhosos, adultos vestindo camisetas de quadrinhos, caras debatendo sobre edições limitadas e muito mais.

Ele acabou se aproximando de um dos estandes mais renomados de todo o evento: a Sideshow Collectibles, famosa por suas estátuas altamente detalhadas de personagens de quadrinhos, filmes e videogames. Mesmo sendo a Noite de Prévia, vários fãs já estavam reunidos, hipnotizados pelas figuras em escala do Homem-Aranha, do Coringa e de Darth Vader, todas com seus próprios sistemas de iluminação.

Andrew avistou uma figura especial do Arqueiro Verde. Era raro ver uma estátua de tão alta qualidade do Arqueiro Verde, já que ele não era tão rentável comercialmente quanto o Batman, o Superman, o Homem-Aranha ou o Coringa.

Ele não pensou duas vezes e esticou a mão para pegar a caixa, mas, ao mesmo tempo, outra mão a agarrou também.

Andrew virou a cabeça e a viu. Willa Holland.

Ela usava uma jaqueta curta de couro preto bem ajustada, uma camiseta branca básica e uma calça jeans justa. O cabelo solto, levemente ondulado, caía sobre os ombros com um tipo de naturalidade calculada que não parecia acidental. No ombro, uma bolsa de grife que claramente não era de nenhuma loja comum.

Ela não estava vestindo nada relacionado ao mundo geek, mas, de alguma forma, destacava-se mais do que qualquer cosplayer em um raio de cinco metros.

Enquanto todo mundo ao redor vestia trajes geeks, ela parecia ter acabado de sair de uma passarela de moda.

E talvez fosse por isso que ela chamasse mais atenção do que qualquer outra pessoa.

— Você de novo? — disse Willa, sem surpresa, sem sorriso, apenas com um toque de ironia na voz.

Andrew piscou, confuso. — Como é?

— Andrew Pritchett-Tucker. O cara que finge ser o McLovin Yasuo Yamagata e se inscreve em torneios com identidades falsas — disse Willa em tom neutro, embora a leve curva no canto de seus lábios traísse um pingo de diversão.

A boca de Andrew se abriu levemente. Ele ficou surpreso por ela o ter reconhecido.

— Você... me conhece?

— É, lembra que eu li seu RG? Além disso, conheço o seu canal no YouTube — disse Willa.


— Haja ego, por sinal — acrescentou ela.

Andrew ficou surpreso por ser reconhecido por Willa e por ela saber do seu canal no YouTube.

— Não foi ego, o que eu fiz no torneio foi... intencional. Planejado. Um personagem que criei com meus amigos. Você nunca fez nada só por diversão com os seus amigos? — defendeu-se Andrew.

Willa ergueu uma sobrancelha.

— "Eu não quero continuar humilhando os mesmos times por 50 pontos de diferença." Essa foi a sua frase, não foi? A que você enviou para a CIF [1] quando pediu para subir de categoria — disse ela.

[1] - CIF: California Interscholastic Federation, órgão que rege os esportes escolares na Califórnia.

— Isso não é ego. É ser realista. Se você visse os resultados da temporada passada, saberia que não é mentira. Nós vencemos todos os jogos por uma lavada. E se você realmente assistisse aos meus vídeos... saberia que eu não fico por aí me achando o último pacote de bolacha do pacote — disse Andrew.

Willa não respondeu, porque Andrew tinha razão. Ela o havia julgado com base em comentários de terceiros, na fama dele no YouTube e nos recordes que ele havia quebrado. Ela assumia que qualquer atleta com um histórico como o dele só podia ser um idiota arrogante e insuportável.

— Tem um ponto — admitiu Willa no fim. — Acho que vou ter que assistir de verdade aos seus vídeos inteiros se quiser ter uma ideia clara. Quem sabe você não me surpreende e acaba sendo mais do que apenas um atleta estereotipado e cheio de si — acrescentou.

— Essa era a sua imagem de mim...? — pensou Andrew, com uma expressão esquisita.

— Embora eu tenha que admitir, não esperava te ver aqui — acrescentou Willa, encarando-o como se ele fosse algum tipo de espécime raro.

— Diz a atriz de Hollywood tentando comprar um colecionável de edição limitada — retrucou Andrew com um leve sorriso.

— Sabe quem eu sou? — perguntou Willa, erguendo uma sobrancelha.

— É, *Gossip Girl*, né? Segunda temporada — respondeu Andrew.

Willa estreitou os olhos de leve, claramente surpresa.

— Nossa... Eu não esperava que um atleta famoso do YouTube soubesse qualquer coisa sobre *Gossip Girl* — disse ela, incapaz de esconder a mistura de ceticismo e confusão que a resposta dele provocou.

Willa não era uma estrela de Hollywood, longe disso. Ela havia feito papéis coadjuvantes: primeiro em *The O.C.* como Kaitlin Cooper, depois em alguns episódios de *Gossip Girl*, interpretando Agnes, uma modelo rebelde que causava o caos na vida de uma das personagens principais. Não era um papel de protagonista. Nem mesmo um fixo; ela só havia aparecido em cinco episódios durante a segunda temporada.

E *Gossip Girl* não era exatamente o tipo de série que se esperaria que alguém como Andrew assistisse: homem, jogador estrela de futebol americano e ainda por cima nerd. Ele era o oposto do público-alvo principal da série.

— Você está me dizendo que assistiu a *Gossip Girl*? — perguntou Willa, incapaz de se conter.

— Não por livre e espontânea vontade. Minha prima é obcecada pela série e me obrigou a assistir com ela — respondeu Andrew.

— E você realmente deu ouvidos à sua prima e assistiu à porra toda? — perguntou Willa.

— Assim que eu começo uma série, tenho que terminar, mesmo que isso destrua a minha alma — disse Andrew com um sorriso resignado.

— Hum, entendo...

— Embora eu tenha que dizer, a sua atuação foi muito boa. A personagem era caótica, rebelde e irritante às vezes — acrescentou Andrew, como se fosse apenas um pensamento passageiro.

Willa piscou, um pouco surpresa. Não porque não esperasse um elogio, mas porque soava sincero, sem segundas intenções, sem puxação de saco no tom dele.

— Obrigada — disse Willa, com um sorriso que não aparecia em seu rosto com muita frequência, um sorriso de verdade.

Os dois silenciaram.

Seus olhos voltaram lentamente para a figura do Arqueiro Verde que ainda seguravam nas mãos. Nenhum dos dois soltou, como se, apesar de tudo o que acabavam de conversar, a única coisa que realmente importasse fosse aquela figura de edição limitada.

— Eu peguei primeiro — disse Willa.

— Não, eu peguei primeiro — retrucou Andrew.

— Você não vai dar esse alívio para uma garota? — perguntou Willa, com um olhar afiado.

— Duvido que você seja o tipo de garota que espera favores só por ser mulher. E eu sou um grande defensor da igualdade — respondeu Andrew calmamente.

— Você é muito teimoso — resmungou Willa, franzindo a testa.

— Digo o mesmo de você — falou Andrew.

A alguns passos de distância, o atendente do estande, um homem na casa dos trinta anos, usando uma camiseta preta da Sideshow, óculos grossos e um cordão com crachá pendurado no pescoço, os observava de brazos cruzados.

De onde estava, ele vinha observando aquele rapaz e aquela garota conversando em silêncio por quase três minutos, nenhum dos dois largando a figura do Arqueiro.

O cara alto e atlético, com uma postura naturalmente confiante. E a garota que parecia ter saído de uma revista de moda. Jaqueta de couro ajustada, bolsa cara, cabelo perfeitamente arrumado e uma áurea intimidadora.

— Por que dois modelos estão discutindo no meu estande geek? Eles estão espantando os compradores de verdade — pensou o atendente, coçando a cabeça.

Ele viu dois rapazes com o visual nerd estereotipado e mochilas cheias de bottons se aproximarem, darem uma olhada na cena... e darem meia-volta rapidamente.

— Licença — disse o atendente do estande enquanto se aproximava com um sorriso paciente. — Não quero interromper o duelo mental, mas... vocês vão comprar isso, ou estão esperando o Arqueiro Verde sair andando sozinho?

Andrew e Willa se viraram para encará-lo.

— Eu peguei primeiro! Você viu isso, né? — exclamou Willa rapidamente, elevando o tom de voz e olhando para o atendente.

— Isso não é verdade. Eu peguei primeiro — retrucou Andrew com a mesma firmeza, também olhando para o homem.

O atendente os encarou por um segundo, entre confuso e divertido, como se ainda estivesse tentando processar o fato de que dois adolescentes com cara de capa de revista estavam discutindo por causa de um boneco do Arqueiro Verde como se suas vidas dependessem disso.

— Não... eu não vi quem pegou primeiro — disse ele por fim, dando de ombros. — Mas, se isso importa tanto para vocês, tenho uma proposta.

Os dois o encararam atentamente.

— Um quiz de conhecimentos gerais. Turnos alternados. Perguntas sobre o universo DC, especificamente sobre o Arqueiro Verde. O primeiro a errar uma pergunta... perde.

Andrew e Willa se entreolharam, depois olharam para o boneco e finalmente acenaram em conjunto.

— Beleza. Uma pergunta para cada um. Se ambos acertarem ou ambos errarem, continuaremos. Se um acertar e o outro não, fim de jogo. Prontos? — Prontos — respondeu Andrew com confiança.

— Sempre — disse Willa com um sorriso pequeno e desafiador.

O atendente assentiu e começou olhando para Andrew.

— Qual é o nome verdadeiro do Arqueiro Verde?

— Oliver Queen — respondeu Andrew instantaneamente.

— Em qual cidade fictícia o Arqueiro Verde combate o crime? — perguntou ele, olhando para Willa.

— Star City — respondeu ela sem hesitar.

As perguntas continuaram, nenhum dos dois errando, até que uma finalmente empacou Andrew.

— Qual versão alternativa do Arqueiro Verde aparece como sobrevivente na série *Kingdom Come*?

— Humm... Oliver Queen mais velho? — respondeu Andrew, incerto.

O atendente deu a ele um olhar neutro... e balançou a cabeça.

— Incorreto.

Willa soltou um pequeno suspiro, não bem uma risada, mas definitivamente um som de satisfação contida. Andrew olhou para ela com o cenho franzido de leve, mas não disse nada.

— Se você acertar essa, ganha — disse o atendente, olhando para Willa, que assentiu com uma expressão séria.

— Na continuidade clássica, a morte de quem leva o Arqueiro Verde a se tornar mais violento, chegando a se distanciar de outros heróis?

Willa inclinou a cabeça levemente. Por um momento, Andrew achou que ela não sabia a resposta.

Mas então ela respondeu calmamente: — Connor Hawke.

— Correto! Temos um vencedor! — disse o atendente após alguns segundos de suspense.

Willa abriu um sorriso satisfeito, puxando a figura do Arqueiro Verde das mãos de Andrew com um puxão suave, porém firme.

— Estude mais para a próxima — disse Willa em tom de zombaria, dando um leve tapinha no ombro de Andrew.

Andrew ficou parado por um momento. Seu maxilar tencionou levemente. Ele não gostava de perder... especialmente não para uma pergunta de história em quadrinhos. Mas, ainda assim, resmungou: — Bem jogado.

Enquanto Willa conversava com o atendente, que embrulhava cuidadosamente o boneco em uma sacola especial com o logotipo do estande, Andrew deu uma olhada no restante das figuras. Havia algumas boas: Batman, Superman, até um Hal Jordan bem detalhado, mas nenhuma realmente chamou sua atenção.

Ele se afastou, deu de ombros e começou a caminhar pelos corredores da convenção.

Ele não havia ido muito longe quando ouviu a voz de Willa atrás dele.

— Ei! Espera!

Andrew parou, virando-se com as sobrancelhas levemente franzidas. Willa caminhava a passos firmes em sua direção, segurando a sacola em uma das mãos.

— Veio continuar tirando com a minha cara ou exibir o boneco? — perguntou Andrew em tom neutro, embora, no fundo, estivesse claro que ele não estava tão incomodado quanto fingia.

— Ei, não leve para o lado pessoal. Eu ganhei de forma justa. E não estou aqui para me exibir — disse Willa com um meio-sorriso.

Andrew a encarou de soslaio, curioso. — Então... o que você quer?

Willa respirou fundo, como se precisasse forçar as palavras a saírem de sua garganta. Seu tom continuou firme, mas ela desviou o olhar por um breve instante, o suficiente para mostrar que dizer aquilo não estava sendo fácil para ela.

— Eu queria saber... se você gostaria de dar uma volta pela convenção comigo... — disse Willa, com evidente dificuldade.

Andrew ficou em silêncio por um segundo a mais do que o necessário.

— Você não veio com amigos? — perguntou ele.

Willa balançou a cabeça rapidamente, sem acrescentar mais nada. Ela não queria entrar em detalhes. Não disse que não tinha amigos nerds. Ou que, na verdade, não tinha muitos amigos. Não precisava. O leve encolher de ombros dela dizia o suficiente.

Por dentro, Andrew sentiu como se o mundo tivesse parado por um segundo.

— Willa Holland... Thea Queen... minha paixão platônica de adolescência por anos... E agora ela está me chamando para dar uma volta na Comic-Con com ela. Que tipo de linha temporal é essa? — pensou Andrew, sem palavras.

Seu cérebro disparou todos os alarmes de uma vez só.

— Eu tenho namorada. Eu tenho namorada. Isso é perigoso — repetia ele em sua mente como um aviso.

Mas deixar essa oportunidade passar também era perigoso. Não romanticamente, mas por causa de quão incrivelmente improvável era a situação toda.

O torneio. O alter ego. O fato de ela estar ali. De ela o ter reconhecido. De saber sobre o canal dele. De ela ter se interessado o suficiente por ele para vir atrás dele depois de vencê-lo por causa de um boneco.

— Depois eu encontro o Leonard e o Howard. Ficaremos em quatro. Nada demais — raciocinou Andrew, dando a si mesmo permissão mental para dizer sim.

— Beleza, se você não tem mais ninguém, a gente pode ir junto — respondeu Andrew por fim.

Willa assentiu rapidamente, mas Andrew percebeu como ela soltou o ar devagar, como se estivesse prendendo a respiração.

Foi sutil, mas estava lá: o alívio de não ter levado um fora.

— Perfeito. Tomara que você não canse antes de mim. Pretendo visitar muitos estandes e o tempo está correndo — disse Willa, voltando a caminhar com um ar casual.

— Não me subestime — disse Andrew, caminhando ao lado dela.

Enquanto abriam caminho pelos corredores cheios de luzes, vitrines e bonecos, Andrew percebeu outra coisa.

Willa falava. Muito.

E não era só isso, ela falava com profundidade. Ela entendia de quadrinhos, adaptações, todos os tipos de videogames, furos de roteiro nas linhas temporais e até de capistas e desenhistas.

Ela tinha fatos, opiniões, comparações e uma tonelada de paixão.

Andrew ficou genuinamente surpreso com o quanto ela era nerd, talvez até mais do que ele em algumas áreas. Ele não esperava que uma atriz de Hollywood fosse tão geek e tão estilosa ao mesmo tempo.

— Ela fala mais do que o Howard quando ele está empolgado. E isso já diz muita coisa — pensou Andrew com um sorriso discreto.

O que Andrew não sabia era que Willa falava daquele jeito porque nunca tinha tido com quem conversar sobre essas coisas.

Porque em convenções passadas, ela ia sozinha. E na escola, com sua carreira de atriz e aquela presença intimidadora, era provável que ninguém soubesse como se aproximar dela de verdade... ou sequer tentasse.

A certa altura, Andrew e Willa finalmente esbarraram em Leonard e Howard, e ambos olharam para o amigo e para Willa com visível confusão.

— Vai ser difícil explicar isso — pensou Andrew, enquanto começava a apresentar Willa para Leonard e Howard.


Você pode ler 15 capítulos antecipados no meu patreon.

Link: https://[email protected]/Nathe07

Comentários