Família Moderna: Nova Vida

Capítulo 91

Família Moderna: Nova Vida

Andrew, que se espreguiçava calmamente, olhou para as arquibancadas, que estavam muito mais lotadas do que ele havia imaginado.

Levou um momento para avistar seus amigos, mas finalmente os encontrou: Leonard e Howard, sentados à direita, em uma das fileiras mais altas.

Howard segurava a câmera, pronto para gravar, já que, quando Andrew comemorasse, isso precisava ser visto de um ângulo de terceira pessoa. Caso contrário, o vídeo não faria o menor sentido.

Quando Howard percebeu que Andrew o havia visto, fez um gesto positivo com o polegar, abrindo um sorriso largo e com uma expressão travessa, daquelas que, em sua linguagem não verbal, diziam: 'Crie o caos.'

Andrew abaixou levemente a cabeça. Ele sorriu por dentro.

Nesse momento, um cara do seu time, esguio e segurando o capacete em uma das mãos, aproximou-se trotando. Ele vestia a camisa número 11.

— Você é o running back[1]? — perguntou ele em tom amigável.

Andrew deu um leve aceno de cabeça.

— Legal. Sou o Noah. Wide receiver[2]. E, caso você não saiba... bem-vindo ao time preto. Ou, como eu gosto de chamar: o grupo de apoio emocional para jogadores azarados — disse ele, lançando um olhar para os outros times que se aqueciam.

Andrew quis perguntar por que ele estava sendo tão pessimista, mas ficou quieto.

Noah arqueou uma sobrancelha para ele. — Você não fala ou só está nervoso?

Andrew balançou a cabeça negativamente e fez um gesto com as mãos: *Sou mudo.*

— Mudo? Sério? — perguntou Noah, arregalando os olhos de surpresa.

Andrew assentiu, um pouco surpreso por o cara tê-lo entendido.

— Que loucura. Eu sei linguagem de sinais. Minha irmã é surda — disse Noah, formando as palavras com as mãos de forma fluida.

— Por que tanto pessimismo? — perguntou Andrew através da linguagem de sinais.

Noah soltou uma risadinha e respondeu: — Porque estamos em um torneio com três times que parecem ter saído de um videogame.

Ele fez uma pausa e inclinou a cabeça para a direita.

— Olha só para eles. Time vermelho: Davante Adams. Wide receiver de elite. Vi alguns lances dele no MaxPreps[3]... ele está em outro nível. É como se tivesse turbo nos pés. Muda de direção sem o menor esforço — disse Noah, antes de emudecer, observando Davante focado em seu aquecimento.

— Eu também sou recebedor. Do segundo ano. E sei que não tenho metade da explosão dele. Nem o controle. Você vê o jeito que ele se mexe e já sabe que é um daqueles caras que vão longe — acrescentou ele, com os ombros caídos de leve.

Andrew, por trás da viseira, observava-o em silêncio.

Ele percebeu aquele olhar sutil nos olhos de Noah. Um lampejo de inferioridade. Mas o que mais chamou sua atenção... foi o nome.

— Davante... Davante Adams?! — pensou Andrew, contendo-se para não falar e expor seu alter ego.

Andrew conhecia aquele nome; o havia visto jogar na NFL. Um dos melhores wide receivers de sua geração.

Com Aaron Rodgers em Green Bay, eles formaram uma dupla mortal. Mais tarde, ele se transferiu para o Las Vegas Raiders.

Em 2022, ele assinou com os Raiders por US$ 140 milhões em um contrato de 5 anos! Um dos maiores contratos da história para um WR.

Enquanto Andrew estava no ensino médio, Davante era uma estrela na NFL, ainda em atividade. Ele foi convocado para o Pro Bowl[4] seis vezes e selecionado como All-Pro[5] três vezes.

O Pro Bowl é o jogo das estrelas da NFL. Todos os anos, os melhores jogadores de cada posição de ambas as conferências (AFC e NFC) são escolhidos com base nos votos de torcedores, jogadores e técnicos.

Ser escolhido para o Pro Bowl basicamente significa: 'Você foi um dos melhores da sua posição este ano.'

Embora seja uma honra, não tem tanto prestígio quanto ser nomeado All-Pro, já que o Pro Bowl às vezes pode ser mais sobre popularidade do que sobre o verdadeiro desempenho.

O título de All-Pro é mais exclusivo e respeitado. Ele é concedido pela Associated Press (AP) ao final de cada temporada.

Um grupo de especialistas seleciona os melhores jogadores de toda a NFL em cada posição — independentemente da conferência.

Existem apenas:

1st Team All-Pro (o melhor de todos)

2nd Team All-Pro (o quase melhor)

Ser All-Pro basicamente significa: 'Você é o melhor de toda a NFL na sua posição.'

Apesar de Davante nunca ter vencido um Super Bowl, ele era verdadeiramente um jogador de elite, um dos melhores da liga no que fazia.

'Vou enfrentar um futuro jogador de elite...' — pensou Andrew, incapaz de conter um sorriso. Isso podia ser bem mais interessante, e complicado, do que imaginava.

Ele tinha pensado em vencer aquele torneio apenas como uma formalidade, exibir seu alter ego, levar para casa o prêmio de US$ 1.000 e ir para a Comic-Con.

— Quem mais? — perguntou Andrew impaciente, gesticulando rapidamente com as mãos. Talvez houvesse mais futuras estrelas naquele torneio.

Noah se recuperou rápido. Ele puxou o ar pelo nariz e voltou a falar.

— Time verde, número 77: Arik Armstead. Defesa. Gigantesco. Parece um prédio com pernas. Eu o vi aquecendo e juro que até os próprios companheiros de equipe pareciam com medo dele. Se ele derrubar alguém, tenho quase certeza de que pode apagar o cara.

— Mais um nome conhecido — pensou Andrew.

Se tudo seguisse o mesmo rumo, Arik acabaria se tornando uma peça fundamental na linha defensiva dos 49ers, especialmente durante a campanha rumo ao Super Bowl LIV (temporada de 2019). Ele também assinaria um contrato astronômico: US$ 85 milhões por 5 anos.

Andrew assentiu para que ele continuasse. Era ótimo ter um companheiro de equipe com tanta informação; ele parecia uma enciclopédia ambulante de jogadores do ensino médio.

— O último, time dourado: Andrus Peat. Linha ofensiva[6]. Nem corra para o lado dele. Aquele cara deve ser duro como pedra — concluiu Noah, apontando para um garoto muito alto.

Andrew também reconheceu aquele nome. Parte de uma futura linha ofensiva de alto nível. Três futuras seleções para o Pro Bowl. Um contrato de quase US$ 60 milhões por cinco anos. Não era o jogador mais badalado pela mídia, mas desempenhava um papel fundamental no ataque dos Saints. Altamente respeitado por sua presença sólida na linha.

Depois de alguns segundos, Noah soltou um suspiro longo.

— E eu achava que daria sorte. Como os times são montados aleatoriamente, eu esperava cair em um grupo forte, com algum destaque ou futuro craque, sabe? — disse ele, fazendo uma pausa e balançando a cabeça.

— Não me leve a mal. Não estou dizendo que você ou qualquer um do nosso time seja ruim nem nada. É só que... nós não temos nenhum cara de divisão de elite, nenhum jogador de nome ou futuro craque, sabe? Tipo... Andrew Pritchett-Tucker.

Andrew arqueou uma sobrancelha ao ouvir seu próprio nome.

— Você conhece ele? O cara do YouTube. Anotou 72 touchdowns no primeiro ano. Uma loucura. Mesmo jogando na Divisão V, nenhum quarterback calouro consegue algo assim... — disse Noah, com evidente admiração na voz.

Ainda bem que o capacete, a viseira escura e o nome falso continuavam protegendo sua identidade.

Mas aquele momento o fez perceber algo que ele não havia avaliado direito.

'Subestimei o alcance do meu canal' — pensou ele, levemente preocupado.

Se Noah o conhecesse, tirar o capacete na hora errada poderia ser um verdadeiro problema. Ele olhou de relance para sua mochila a poucos metros de distância. Tinha levado um boné, mas nada além disso.

Se não fosse por aquele boné, provavelmente teria sido reconhecido enquanto se trocava.

Noah continuou falando com entusiasmo sobre como um dos vídeos de Andrew o havia motivado a largar o refrigerante de vez e a começar a correr todas as manhãs antes da aula.

Ele não tinha a menor ideia de que estava compartilhando sua admiração justamente com o criador do canal.

Nesse exato momento, uma voz ecoou do outro lado do campo.

— Ei! Vocês dois! Venham aqui. Nosso líder convocou uma reunião de estratégia! — gritou um garoto, balançando o braço com impaciência.

Andrew e Noah viraram a cabeça ao mesmo tempo.

O jogador vestia o mesmo uniforme preto, com o número 81 branco no peito.

Ele era alto, magro, com um nariz comprido e ossudo e dentes saltados que ficavam mais evidentes a cada palavra.

Andrew o encarou por alguns segundos. *Tem algo... com cara de rato nele. Parece um homem-rato* — pensou.

O garoto não esperou por resposta, simplesmente virou as costas e caminhou em direção ao resto do grupo, sem se dar ao trabalho de disfarçar a irritação com a demora.

Andrew não disse nada. Noah também não discutiu. Apenas o seguiram em silêncio, sabendo que não valia a pena arrumar confusão antes mesmo de o jogo começar.

Quando chegaram, o resto do time preto já estava reunido, formando um semicírculo improvisado.

Cada equipe tinha 14 jogadores, sete para o ataque e sete para a defesa. Andrew havia se enganado antes; pelo visto, Brady Hoke estava oferecendo US$ 14.000 para o time vencedor, já que eram 14 jogadores.

— Certo, prestem atenção. Nenhum de nós se conhece, eu sei disso. Mas alguém tem que assumir o comando, e como sou quarterback, faz todo o sentido que seja eu. Meu nome é Edward — disse um garoto alto com um sorriso confiante. Ele vestia a camisa número 5. Suas ombreiras pareciam feitas sob medida, limpas e brilhantes. O capacete descansava sob seu braço, e seu cabelo estava perfeitamente penteado apesar do calor.

Antes que ele pudesse continuar, uma voz grave o interrompeu vinda da esquerda.

— Você devia ter tido essa toda essa confiança quando tentou pegar o número daquela garotinha... —

Risadas ecoaram rapidamente.

O comentário veio de um cara troncudo e de constituição forte, vestindo o número 96. Ele estava com a cabeça raspada, uma atadura no pulso esquerdo e um sorriso sarcástico no rosto.

Edward estreitou os olhos, claramente irritado. — Tem mais alguma coisa para dizer ou só vai falar de coisas que não te dizem respeito?

— Não, não. Só achei justo trazer isso à tona. Foi um momento inesquecível — respondeu o cara, ainda sorrindo.

— Meu nome é Malik. Eu vou liderar a defesa. Então, se você vai tacklear[7], interceptar ou marcar, venha comigo. Não precisamos falar com esse riquinho para fazer o nosso trabalho — disse ele, virando-se em seguida e caminhando em direção a uma área mais afastada.

Os outros jogadores da defesa se olharam e, em seguida, seguiram-no rapidamente.

Edward os ignorou. Embora ficasse claro que ele não havia gostado da divisão, não protestou.

Era óbvio que ele não teria autoridade sobre todo o elenco.

Noah soltou um suspiro suave. — Isso só melhora.

Toda a sua família tinha ido vê-lo jogar, e parecia que eles podiam ser eliminados logo na primeira rodada.

Edward retomou o discurso exatamente de onde havia parado, como se nada tivesse acontecido.

— Vamos manter as jogadas simples. Nada complicado. Ninguém tente bancar o herói. Se jogarmos como uma unidade, conseguiremos avançar a bola. Entendido?

Noah e os outros assentiram.

Quanto a Andrew, ele permaneceu imóvel; não assentiu, não se moveu.

Edward não tinha a menor ideia de que por trás daquela viseira escura não estava apenas um jogador comum, mas um alter ego sem a menor intenção de seguir ordens, sem nenhum interesse em trabalho em equipe e com uma missão muito clara: dar espetáculo, vencer... e fazer isso com muita polêmica para um vídeo especial em seu canal do YouTube.

Uma voz estridente ecoou pelos alto-falantes do estádio, interrompendo a rodinha:

— Atenção, jogadores. Todos os times devem deixar o campo. É hora do sorteio dos confrontos do torneio.

O grupo se dispersou lentamente. Malik e os jogadores da defesa saíram andando sem olhar para trás. Edward suspirou, ajeitou as ombreiras e começou a caminhar em direção à linha lateral. Noah e Andrew o seguiram sem dizer uma única palavra.

O sol batia forte na grama do antigo Estádio Balboa, e a atmosfera nas arquibancadas já estava vibrante.

Famílias, técnicos, curiosos, companheiros de equipe, amigos... todos com bebidas geladas e lanches.

Em frente a uma longa mesa decorada com os logotipos do torneio e o emblema da Universidade Estadual de San Diego (SDSU), Brady Hoke pegou o microfone.

— Bem-vindos ao Torneio de Desenvolvimento de Verão Juvenil, trazido a vocês pela SDSU. Oito equipes. Formato de eliminação simples. Full-contact[8]. Vamos dar início ao sorteio.

Ao lado dele estavam assistentes do evento com uma urna transparente cheia de papéis dobrados.

Cada papel continha o nome de uma equipe.

Um por um, eles começaram a sortear os confrontos.

— Primeiro jogo... Time Preto... contra... Time Verde.

Um murmúrio percorreu o estádio. Vários assistentes se viraram para olhar o Time Preto.

Depois, olharam para o Time Verde, onde um número se destacava claramente: 77. Arik Armstead. Grande. Intimidautoprefixerador. Inabalável. Uma parede viva que se erguia acima dos outros como um arranha-céu em meio a casinhas.

Edward soltou um suspiro audível. — Ótimo. Logo tinha que ser o time com a defesa que parece um tanque — resmungou ele, lançando um olhar para Arik com um toque de medo.

Se aquela fera conseguisse passar por seus bloqueadores e o alcançasse para um tackle, ia doer, e muito.

Para piorar, o tempo que ele teria para lançar um passe seria reduzido, já que não confiaba em seus dois bloqueadores para segurarem o adversário por muito tempo.

Finalmente, havia chegado a hora do jogo.

O time de Andrew começaria no ataque.



[1] - Running back: Posição no futebol americano cujo principal objetivo é correr com a bola após recebê-la do quarterback.

[2] - Wide receiver: Recebedor afastado; jogador responsável por correr rotas e receber passes do quarterback.

[3] - MaxPreps: Uma plataforma digital e site americano especializado em cobrir esportes do ensino médio.

[4] - Pro Bowl: O jogo das estrelas da NFL, que reúne os melhores jogadores da temporada escolhidos por fãs, jogadores e técnicos.

[5] - All-Pro: Lista oficial que elege os melhores jogadores de cada posição em toda a NFL ao final da temporada.

[6] - Linha ofensiva: Grupo de jogadores cuja principal função é proteger o quarterback e abrir espaço para as corridas.

[7] - Tackle: Ação de derrubar o jogador adversário que está com a bola.

[8] - Full-contact: Estilo de esporte que permite contato físico total e bloqueios agressivos entre os jogadores.

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