
Capítulo 627
Forja do Destino
Fios 338 Caçadores 3
“E qual é o propósito disso?”
“Vamos, me ajuda aqui. A Princesa deu o aval. A baronesa quer conversar com alguns de nós porque…”
Ji Rong lançou um olhar para ela, levantando as sobrancelhas como a dizer “continue”.
“Entre nossos convidados, há uma facção que vive ao sul da Selva Vermelha. Eles têm conhecimento de uma criatura que chamam de ‘Demônio das Flores’, que afirmam ter derrotado e afugentado para o norte”, disse Ling Qi pacientemente. Ela tinha as mãos juntas respeitosamente à frente do corpo. “Tenho algumas preocupações de que sua presença possa assustá-los.”
“Entendo.”
A pessoa com quem eles estavam falando era a oficial encarregada da guarda da casa, uma mulher com uma armadura de escamas pretas e flexíveis, feita da pele de alguma besta reptiliana. Era reforçada com ombreiras e peitoral de aço, mas o resto das partes mais rígidas, as braçadeiras e as grevas, eram feitas de ossos verdes esculpidos que exalavam um cheiro ácido e ameaçador. Enbainhadas em seus quadris estavam duas machadinhas curvas, o aço de um vermelho-sangue.
“Eu esperava poder ouvir suas próprias palavras sobre a Selva Vermelha e o que o povo do Oeste está realizando lá, para que eu possa fazê-los entender que vocês não são todos discípulos daquela deusa bárbara”, continuou Ling Qi.
A mulher resmungou, observando Ji Rong. Para sua surpresa, ele abaixou a cabeça em sinal de respeito.
“Minha avó, que marchou sob o comando do Rei Shao no início, teve seis irmãos e irmãs. Ela teve muitos tios, muitas tias e ainda mais primos. A selva levou todos os seus irmãos até que ela atingisse a minha idade e reino. Isso era normal o suficiente. Era esperado por nossos mestres que daríamos nossas vidas pelos Senhores dos Lagos. Não era nosso destino envelhecer”, disse a mulher. “A avó não estava satisfeita com isso. Vivemos para matá-la, a selva. Para matá-la e tomá-la, em vez de nos escondermos atrás de muros e sermos pegos um a um. O Oeste morre de pé, em vez de de joelhos, e nós tomamos mais do que damos. A avó faleceu em seu quarto de meditação. Eu tenho cinco irmãos e uma irmã. Apenas dois deles morreram. Podemos ainda morrer, mas é melhor ser predador do que presa. Melhor sair para caçar do que se esconder em nossas tocas como vermes.”
A mulher falou de forma seca e objetiva. Ling Qi fez uma pausa para ver se ela iria se aprofundar mais e, em seguida, abaixou brevemente a cabeça em agradecimento.
“Essa resposta é suficiente?”
“Gostaria de saber se você tem algum conhecimento da própria deusa.”
“Um espírito vil, nascido da discórdia na campanha final do Sábio, onde a Rainha Sacerdotisa dos bárbaros fingiu submissão para matá-lo. Ela vive em toda a selva, mas especialmente nos campos de flores e nas videiras. O Rei Shao desmantelou os métodos dos bárbaros e criou novas artes que usamos para tomar dela, assim como ela um dia tomou de nós.”
“Obrigada”, disse Ling Qi. “Não vamos ocupar mais seu tempo.”
Ao deixarem a sala de planejamento e voltarem aos corredores da embaixada, Ji Rong olhou para ela.
“Provavelmente não dá pra esperar que eles sejam amigáveis. Você é amiga das cobras.”
“Eu sabia disso desde o começo”, disse Ling Qi.
No final das contas, os Mares Esmeralda estavam alinhados com o clã Bai, e Meizhen era sua amiga. O simples fato de ser compreendida e sincera não podia superar todos os obstáculos. Não conseguia realmente alterar essa situação em que os fatos e a realidade significavam que eles e o Sol eram irreconciliavelmente opostos.
Essa também foi uma lição na marcha dos Reis das Feras. Até mesmo Tsu, o Divino, tão talentoso em falar como era, nunca tentara fazer as pazes com os Reis das Feras. As palavras eram poderosas, mas para algumas coisas, só existiam mesmo espada, presa e garra. Fingir o contrário era tão infantil quanto imaginar que todos os problemas poderiam ser resolvidos com socos.
Quando se olhava para a verdade mais profunda de alguém, às vezes, só se via uma lâmina exposta ou o salto de uma bota. Entender isso era essencial para compreender a comunicação, suas forças e seus limites.
“Você disse que havia outras pessoas que poderiam dar respostas úteis?” perguntou Ling Qi.
“Sim. Vamos lá.”
A próxima pessoa com quem eles falaram foi um homem aparentemente muito mais velho, com bigodes grisalhos eriçados e uma armadura pesada feita de ossos e sangue cristalizado. Ele parecia menos rígido que a mulher, e olhou para Ji Rong com o olhar que se daria a um sobrinho irritante, mas pelo qual se tinha afeição.
Era estranho imaginar que Ji Rong tinha um tipo de carisma grosseiro com certos tipos. Ela supôs que aqueles homens e rapazes que se pavoneiam nas ruas e afirmam ser donos delas deveriam ter suas próprias maneiras de se manterem unidos.
Quando questionado, o velho mastigou o cachimbo por um tempo e respondeu brevemente.
O Oeste estava transformando a selva em um lar. Era a única casa que eles poderiam ter. Nenhum deles poderia voltar, mesmo que desejassem.
Ling Qi podia reconhecer isso, por mais que não gostasse. Bai Meizhen era sua amiga, mas a reputação do clã Bai era bem-fundada. Mesmo Meizhen não piscaria ao pensar que o clã Bai mataria todos que seguiram Sun Shao se pudesse, não importando se eles nem sequer tinham nascido na época da divisão.
Outro soldado foi questionado. Este estava mais próximo da idade deles, segundo seu cálculo, um jovem com uma armadura que parecia ser feita de lâminas afiadas de vidro vulcânico presas a algum tipo de suporte de fibra vegetal. Ele parecia sentir pena de Ji Rong, como se sua companhia fosse uma grande provação.
Para ele, os do Sol estavam construindo a força marcial do Império. Eles eram a prova de que o Império não era uma força esgotada, satisfeita apenas em roer sua própria cauda, que os bárbaros na fronteira poderiam e iriam cair, e que poder e virtude marcial não estavam amarrados e cativos apenas às tradições mais antigas.
Os ocidentais eram pessoas, um pouco arrogantes e beligerantes, mas no final, não muito diferentes.
Ela pensou em ratos novamente, os vermes que corriam aos pés dos poderosos. O terceiro reino parecia tão distante disso, e a cultivção tornava fácil ser orgulhoso, mas no final, eles não viviam apenas ao prazer daqueles ainda mais poderosos?
Não, esse era um pensamento inutilmente cínico. A estrutura da sociedade nunca foi tão simples. Os cultivadores mais poderosos eram ideias manifestadas. Eles dependiam dos vastos recursos que somente um império poderia reunir. Havia poucas ideias úteis que se poderia ter sozinho.
Mas aquele pensamento inicial, aquele impulso de acreditar que tudo e todos existiam apenas para si mesmos, e portanto, tudo bem se você também o fizesse, era lá que os ratos viviam, não era?
O fio condutor que permeava os soldados ocidentais resumia-se a algo próximo disso. Havia uma certeza profunda de que não tinham verdadeiros aliados. Que estavam cercados por inimigos, na pior das hipóteses, e por oportunistas, na melhor. Que viveriam e morreriam uns com os outros, sozinhos.
Havia um fio a mais com os mais jovens deles. Nos mais jovens, acreditavam que outros poderiam ver sua virtude e que, embora estivessem sozinhos, não precisavam estar.
“Você realmente estava ouvindo?”
“Eu estava. Barão Ji, posso lhe fazer uma pergunta?”
“Pode falar.”
“Como você convenceu essas pessoas a aceitá-lo tão completamente? Eles não confiam muito em estranhos, eu acho.”
Ji Rong grunhiu, cruzando os braços. Eles estavam se dirigindo para a beira do complexo.
Eles haviam conversado com vários outros e obtido pouco mais. Mitos e lendas da Deusa Vermelha. Aquela que ansiava pelo sangue de dragões. Aquela que exigia que seus adoradores a alimentassem com sangue, sangue sem fim, e tomassem a carne e as almas dos demônios para seus próprios corpos e se tornassem demônios. Houve alguns outros fragmentos de informação que poderiam ser úteis, mas ela pensaria neles mais tarde.
Ele levou algum tempo para responder, deixando-os caminhar em silêncio. “Eu me inscrevi. Fiz o que eles pediram. Estou ficando na selva. Percebi que eles não conseguem muita gente disposta a se comprometer.”
“E isso é suficiente?”
Ele deu de ombros. “Eu sou um deles agora. Me chama de bandido, mas eu derramei meu sangue, passei pela minha iniciação e vesti as cores deles. Nunca é muito mais complicado que isso quando você chega ao cerne da questão.”
Ela fez uma careta, sabendo que ele estava se referindo à vida de gangue. “Mas você é? Um deles. Ou você está apenas lá pela princesa?”
Ele a olhou feio, a testa franzida profundamente. Ele abriu a boca para responder e depois a fechou novamente. Eles chegaram à beira dos terrenos da mansão.
Ela se virou para encará-lo, e ele continuou a franzir a testa.
“... Eu sou, sim. Conheci gente mais decente em alguns meses do que em um ano e meio nessa seita de merda”, Ji Rong finalmente disse. “Nada disso mudou.”
A razão a mais para ele descobrir o mistério que ela lhe dera foi deixada sem dizer.
“Obrigada, Barão Ji. Acredito que posso construir uma imagem do oeste para nossos convidados agora. Entro em contato assim que as negociações sobre as reivindicações começarem de fato.”
“Sim, entendi”, Ji Rong dispensou. “Agora saia daqui. Você parece que vai estourar uma veia se não cultivar o que está passando pela sua cabeça.”
Ela o olhou feio enquanto ele saía. Ela sabia que não estava sendo tão óbvia. Mesmo sem a ajuda de Sixiang, ela era melhor do que isso.
… Eles devem ter muito em comum, no entanto.
Ela deixou a mansão Sun para trás e deixou sua mente divagar. Ela estava, após a correria de viagens e reuniões, finalmente livre do pior. As tarefas permaneciam, mas ela tinha um momento agora para, figurativamente, recuperar o fôlego.
E assim, seus pensamentos se voltaram para o conceito de poder. Suas formas e métodos. Seu significado e sua falta. Esse era realmente o cerne do Canto Selvagem do Rei das Feras, tanto a peça quanto a arte derivada dela. Era uma exploração e sátira sobre os poderosos.
O Deus Águia era poderoso, mas seu orgulho avassalador e cegante o fez cair diante de humanos muito inferiores a ele. Ele era o rei que só via sujeira, gado e presas quando olhava de seu alto e alto trono.
O Deus Lobo era diferente. Ele era o direito ao poder, a indignação indignada de um rei cujos súditos tinham seus próprios pensamentos e buscavam seu próprio caminho. Ele era o poder como direito ou o poder como herança. Ele representava o trono incontestado. Sua morte foi a morte da confusão, da incompreensão de que sua matilha poderia fazer algo além de obedecer.
Embora certamente tenham sido reais um dia, cada um dos Deuses das Feras representava uma faceta do poder. Mas os mortos sempre foram adereços para histórias e metáforas, não é?
Ling Qi caminhou pelos caminhos que iam para o norte, desviando-se da estrada principal de pedra para seguir uma trilha de terra que serpenteava pela floresta. Ela pensou nos ratos.
Não havia escassez de criaturas aqui sob seus pés, em tocas escondidas entre a vegetação rasteira e as raízes. Ratos eram um tipo de besta tão comum e difundida quanto os homens. Eles viviam onde os humanos viviam e onde eles não viviam. Vermes roubavam, comiam e se multiplicavam.
Havia uma razão pela qual a palavra era às vezes usada para insultar os mortais pelos tipos arrogantes. Mas onde estava então o Deus dos Vermes? Ele se destacava entre os outros não como um ser de pavor e medo terríveis, mas como algo que causava nojo. O que ele dizia sobre o poder, em comparação com os outros?
Ling Qi se viu parada perto de um pinheiro alto e apoiou a mão na casca áspera. Havia um conjunto de tocas sob seus pés. O padrão se quebrava aqui? Os vermes eram uma meditação sobre a ganância, sobre o desejo, a vontade e a fome?
Ela não achava que sim. Isso era parte disso, mas apenas na medida em que a vontade estava inextricavelmente ligada ao poder. Para se tornar poderoso, para que o fogo da cultivação queimasse alto, era necessário combustível. Isso poderia ser ambição, desespero, amor, ódio ou cem outras coisas. O poder por si só não poderia sustentar o pico mais alto da cultivação.
Então, qual lição então, o Deus dos Vermes? Seus pensamentos voltaram ao cinismo e ao Território Ocidental. Ela observou as pequenas vidas sob seus pés e sentiu os ratos correndo, vivendo suas vidas.
Eles não eram mais uma horda devoradora e viciosa do que uma aldeia humana era. O mesmo impulso que levava um rato a tais extremos levaria os humanos a fazer o mesmo.