Forja do Destino

Capítulo 625

Forja do Destino

Fios 336 – Caçadores 1

Ling Qi piscou e conseguiu manter para si a reação ao significado obtido após um momento em que escutou tão atentamente aquela batida cardíaca.

“Terceiro, são suas reivindicações territoriais. Já falamos disso publicamente, é claro.”

“É, é, você quer colocar todo mundo na mesma página para que a gente não vá esfaqueando seus amiguinhos e estragando seu show aqui.”

E embora as cicatrizes tivessem sido removidas do rosto de Sun Liling, Ling Qi podia sentir, na densa névoa de sangue que enchia o sonho ali, a presença de cascas endurecidas, feridas nunca curadas. Elas pareciam ter sido abertas recentemente.

O sangue não estava apenas jorrando. Sun Liling estava sangrando.

Era difícil andar na linha tênue entre o material e o liminal. Difícil manter o foco. Difícil não entregar nada. Havia um limite para o que ela conseguia controlar, sabendo que aquela conversa não poderia durar para sempre.

Na névoa de sangue, ondulando com a força de um coração batendo, Ling Qi viu três feridas com mais clareza. Ela as viu, se conectou a elas e compreendeu por meio de sua própria prática de cultivo.

Ela viu a ferida do coração, a fenda aberta na comunidade.

Ela viu a ferida da mente, as cicatrizes doloridas do isolamento.

Ela viu a ferida da alma, os olhos cegados pelo poder.

Se o que ela estava fazendo fosse percebido, então, mesmo deixando de lado todas as outras consequências, todo esse esforço seria em vão. Parte dela estava fascinada pela teia interligada de dores que ela mal conseguia perceber entre as feridas mais proeminentes. Era um quebra-cabeça que ela teria gostado de desvendar para dar a Ji Rong a melhor resposta, mas fazê-lo estava além de sua capacidade e além do que ela estava disposta a tentar.

Comunidade. Esse era o conceito que ela via com mais clareza. A visão de Sun Liling sobre isso era dura. Para ela, uma comunidade era uma fortaleza cercada. Não havia espaço para incerteza ou difusão nela. Alguém estava ou dentro de um muro ou fora dele. Mas ali, o muro externo era poeira e entulho, os muros internos estavam rompidos e sangue escorrecia pelas pedras da cidadela.

“Bah. Você não está errada de qualquer forma. Tem gente que estuda essa porcaria, mas, francamente, não temos tempo nem recursos para tirá-los de suas oficinas agora”, disse Sun Liling no mundo real. “Rong pode conversar com você sobre a passagem e sobre nossas reivindicações e planos. Não temos obrigação de investigar o resto.”

“Entendo. Você se oporia se eu pedisse qualquer conhecimento superficial que seu pessoal aqui possa ter?”

“Você quer pegar boatos dos quartéis e histórias mirabolantes dos rapazes e moças? Pft, vá em frente. Não vou dizer que você não pode”, disse Sun Liling arrastando as palavras. “Tem mais alguma coisa que eu preciso ouvir?”

“Há mais uma questão…”

Seu olhar investigativo passou pelo muro externo no limiar. Ali estava a confiança quebrada no império. O ar estava carregado com o cheiro amargo da traição. Silêncio do trono. Silêncio de parentes distantes. Ela ouviu os pés apressados de ratos e vermes, famintos e oportunistas.

Ling Qi podia entender isso. Para Sun Liling, aqueles que haviam se afastado do Sol no momento em que os Bai começaram a se firmar não eram melhores do que vermes. Mas, apesar de sua ousadia naquele primeiro ano, ela não acreditara nisso até sua perda e roubara toda a pretensão de dedicação deles à causa de sua família.

Ratos correriam, e ratos mordiam. O que ratos nunca fariam era se levantar e lutar. Mas ela os ignorava por sua conta e risco. Ela os alimentava bem, para que não roessem sua fundação até a ruína a mando de outra pessoa.

Era uma maneira feia de ver o mundo, mas Ling Qi não podia discordar totalmente. Havia tantos que mordiam a mão aberta na primeira oportunidade. Eles fariam isso por reflexo ou por malícia, mesmo que isso os ajudasse apenas por um momento em troca de anos de sofrimento.

Ver além da névoa da fome imediata era o primeiro passo para ser mais do que uma besta.

Os muros internos eram diferentes. Rompidos e desmoronados, o sangue jorrava pelas brechas. Ali estavam os homens e mulheres do Oeste. Olhando para eles de cima, ela podia senti-los se desfocarem diante de seus olhos, defensores e atacantes, em uma névoa de sangue e medo fétido. Incerteza jazia ali. Ela ainda os amava. Eram tolos? Ela era?

O sangue era uma mentira. Nunca importou de onde ele fluía.

Havia o grande portão da cidadela. Era algo maltratado. Ele havia caído uma vez, mas havia sido reconstruído com cuidado meticuloso. Ela podia ver a cinza nas paredes onde os portões haviam queimado antes, suas formas pairando nas queimaduras.

Um homem alto, de peito largo, com cabelo vermelho-carmesim e um sorriso gentil e fácil. Um caixão de madeira silencioso, carregado de flores, leve demais para conter um homem inteiro. Uma mulher, distante e desfocada a princípio e ficando cada vez mais, de costas e nunca olhando para trás.

Nas muralhas do novo portão, brilhava a estrela relâmpago, pequena e cuspindo fúria. Ela queimava a névoa sangrenta em cinzas negras e vomitantes, recusando-se a desaparecer.

Mas além dos portões jazia a cidadela sangrando, e ali, havia a ferida derretida em seu estado mais fresco.

A cidadela era um homem. Um avô, rosto enrugado envolto em uma juba de leão de cabelos brancos. Forte e imóvel. A montanha firme que sustentava o céu e prendia a terra.

O homem tinha olhos que eram poços abertos de sangue. Uma mão reconfortante se tornava um aperto implacável. Raízes se contorciam sob sua pele. Soldados marchavam ao som de um tambor, nunca ouvindo sua batida.

Tudo pela Família. Família é Tudo.

Havia uma melodia amarga em palavras que deveriam ter sido a base do domínio de Sun Liling. A comunidade podia esmagar e matar. Não havia nada no mundo que não pudesse ser uma arma.

“...E o que é?” perguntou Sun Liling.

Ling Qi piscou e tentou abafar os tambores batendo. “Minhas desculpas. Me perdi nos pensamentos por um momento.”

Mesmo com todo o seu preparo, ela quase se perdera ali, desvendando até mesmo aquelas visões confusas. Sun Liling a olhava com os olhos semicerrados.

Ela continuou: “Eu queria saber se a família Sun planeja coordenar com os Mares Esmeralda em suas operações militares.”

“Sua chefe realmente fica de fora do circuito por causa da mãe dela, não é? Triste, isso”, provocou Sun Liling.

“Sua Graça prefere que Lady Cai se prove a cada passo.”

“Claro, claro. Eu sei que o vovô falou com ela. Nós não estamos exatamente planejando operações conjuntas, mas não estamos planejando nos mover mais para o sul até que sua duquesa faça sua jogada. Não sou generosa?”

“Você é”, reconheceu Ling Qi. “Muito obrigada. Acredito que o Barão Ji poderá responder ao resto das minhas perguntas.”

“Ele bem que deveria”, disse Sun Liling arrastando as palavras, levantando-se de seu assento. “Depois de me fazer vir até aqui. Você concorda, Rong?”

“Sim, eu sei com o que tenho que trabalhar agora. Obrigado, Princesa”, disse Ji Rong, parado na porta com os braços cruzados frouxamente.

Sun Liling bufou. “Não use esse apelido comigo.” Ela passou por Ling Qi um pouco mais bruscamente do que era apropriado e o cutucou no lado com o cotovelo. “Cuide disso e me encontre lá fora. Quero desabafar um pouco.”

Havia várias interpretações para aquela declaração, algumas das quais eram extremamente inadequadas. Isso demonstrava muita falta de cuidado, desrespeito por Ling Qi… ou simples confiança.

A voz de Sun Liling ecoou em sua mente, um último fragmento de sonho da conexão que se fechava.

“Você realmente vai fazer isso, vovô? Me negar isso?”

Ji Rong resmungou em sinal de concordância. Ela não se virou até Liling ter saído. Quando as portas se fecharam com um clique, ambos ficaram em silêncio por um instante.

“Podemos ir direto aos detalhes, Barão Ji?” perguntou Ling Qi.

“Sim, não adianta perder tempo.”

Algumas palavras que eles haviam combinado previamente. Não havia formações de escuta ou gravação à distância na sala naquele momento. Ling Qi relaxou um pouco.

“Você viu algo útil? Você tem sorte de já ter uma reputação de ficar aérea”, resmungou Ji Rong, passando por ela para desabar em uma das cadeiras ricamente estofadas. Ele parecia ter mordido um limão.

Ling Qi deslizou para outra e se sentou com mais pose. “De coisas que você provavelmente não sabe… Ela está ciente dos tambores. Ela está em conflito com eles. Algo neles a faz sentir que seu povo está sendo enganado.”

As sobrancelhas de Ji Rong se franziram tão profundamente que seus olhos quase se fecharam, e ele soltou um rosnado frustrado.

“…e ela sente que o Rei Sun traiu sua confiança, e profundamente. Eu não acho que você deva arriscar ela descobrir o que você me pediu para fazer.”

Ela não sabia como a princesa reagiria, mas não conseguia imaginar nenhum bom resultado, não importava que a intenção dele com esse acordo fosse ajudá-la. Pelos espíritos, se ela fosse uma pessoa pior, ela já poderia ver um caminho ali, um caminho para quebrar algo fundamental no domínio de Sun Liling.

Não havia conceito que não fosse também uma arma.

“Puta que pariu”, Ji Rong rosnou.

Ling Qi considerou dizer algo espirituoso e, em vez disso, apenas abaixou a cabeça. “Sim.”

Embora ele não pudesse estar ciente de sua própria posição, ela não pôde deixar de sentir simpatia, como uma desafiadora de soberanos para outra.

“Então não é só na minha cabeça, e ela sabe que é alguma notícia ruim”, Ji Rong resmungou. “Droga!”

“Se isso serve de consolo, acho que você está fazendo algo bom, só por estar onde você está”, Ling Qi ofereceu.

“Que diabos isso significa?”

“Ela confia em você.”

Pequena estrela, estrela celestial, cuspindo desafio e queimando sangue. Ling Qi deixou um pouco de qi penetrar em sua voz para transmitir a profundidade daquele sentimento que palavras simples não podiam.

Ele pareceu ter sido esfaqueado no estômago. Sua expressão se contorceu.

“Que diabos eu devo fazer com isso?” Ji Rong sussurrou.

“Eu não posso te dizer isso.”

“Droga”, Ji Rong repetiu.

“Estou surpresa que você não esteja se declarando o herói que vai resolver tudo com os punhos. Não é assim que as histórias costumam ser nos Rios Ébano?”

“Heróis são os idiotas que aparecem para bater em coisas depois que as pessoas já estão mortas e depois saem sem consertar nada”, Ji Rong cuspiu, e ela ficou surpresa com seu veneno. “Você quer lutar?”

Ling Qi fez uma careta. “Desculpe, eu estava tentando aliviar o clima.”

“E estamos contando com você para abafar os ânimos. O império está ferrado.”

Ela o olhou feio, mas a tensão havia sido quebrada. “Eu cumpri minha parte do acordo. Que tal a sua?”

Ele resmungou, endireitando sua postura. Ele claramente ainda estava perturbado. “Tudo bem, então por que não começamos com a forma como o exército está sendo posicionado primeiro. Liling e eu passamos para mostrar nossa presença a caminho daqui, então posso te dizer o que vi.”

“Isso seria muito útil”, disse Ling Qi, apoiando o queixo nas mãos. “Quais são exatamente as intenções do Sol para as montanhas?”

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