
Capítulo 369
Forja do Destino
Threads 103 – Descida 5
Havia hora e lugar para pressa, para bravatas e ameaças. Ling Qi não achava que aquele era o momento. Liao Zhu não havia relatado movimentos ameaçadores dos inimigos, e seu grupo não estava sob ameaça imediata. E se ela estragasse tudo e começasse uma luta, ambas as coisas poderiam mudar rapidamente.
Ling Qi olhou para o enxame de olhos que zuniam, inumanos, a harmonia silenciosa de suas artes ecoando em seus pensamentos. Ela precisava entender aquela coisa se fosse falar com ela, e ainda assim, quando estendeu seus sentidos espirituais e tentou submergir nos fluxos do qi da criatura, ela encontrou...
Caos. Imundície. Podridão. Ling Qi quase engasgou quando seu espírito roçou na essência pútrida e agitada da criatura. Sem o filtro do Sixiang, a voz da criatura era como mil animais gritando em meio a um massacre. Ela cambaleou sobre os pés, e apenas um pulso rápido de segurança através de sua ligação impediu Zhengui de avançar com ira em seus olhos.
– Ei, calma. Não tente roubar meu trabalho – brincou Sixiang nervosa, a “água” a seus pés ondulando.
Ling Qi pensou, fazendo uma careta.
E seus esforços não foram em vão. Ela agora entendia por que Zhengui estava tão nervoso. O núcleo daquela criatura era algo totalmente repulsivo. Não era morte, nem consumo, mas [Estagnação][1]. Era uma besta das trevas, uma coisa de fome e desejo, mas não se movia. Não agia. Só reagiam. Alimentava-se das coisas que por acaso vagavam por ali. Não havia outra motivação além disso.
Ling Qi era temida porque não era alimento. Ela era veneno, um veneno que a criatura nunca havia encontrado antes. A criatura era forte, provavelmente mais forte que ela, dado seu tamanho enorme e o poço de não-qi, mas não era uma criatura acostumada ao que ela consideraria combate.
pensou. Ela não queria tocar naquela coisa de novo. Só de pensar em seu corpo físico tocando nela a fazia arrepiar.
– Entendo que a caça é escassa – disse ela, escolhendo suas palavras com cuidado. – Mas meus companheiros e eu não tiramos sustento de tais coisas.
Sixiang ondulou sob seus pés, e Ling Qi inclinou a cabeça, ouvindo os ecos oníricos de suas próprias palavras e a maneira como a musa alterava sutilmente as conotações imprecisas geradas pela linguagem falada. Não era exatamente a mesma coisa que transmitir algo com música, se apenas porque ela não tinha certeza se realmente conseguia entender a perspectiva da criatura bem o suficiente para transmitir seus sentimentos a ela.
Mas ela observou e ouviu os ecos do Sixiang do mesmo jeito.
[Intruso não fome? Mentiras/engano/presa?]
Olhos alienígenas se estreitaram e giraram, zumbindo enquanto as pupilas se dividiam em dentes afiados e se fechavam, apenas para gritar de dor ao roçar o perímetro do ser de Sixiang. Ela podia sentir a confiança da criatura crescendo, novos olhos nascendo no turbilhão onírico enquanto ela começava a se encher em uma demonstração arrogante.
– Não! – gritou Ling Qi, e um frio se espalhou pelo sonho. A criatura gritou quando imagens de picos de montanhas congeladas e ventanias uivantes, de ruas congeladas e vozes chorosas na escuridão, se contorceram na tempestade de cores.
Ao lado dela, Zhengui soltou um berro, e o verde surgiu, empalando olhos em raízes e galhos contorcidos, e Hanyi inflou o peito, juntando sua própria voz à de Ling Qi em um uivo invernal.
– Nós não somos presas – disse ela asperamente, deixando sua voz soar com um toque de ameaça. Ela havia sido muito gentil e conciliadora, e a criatura havia tomado isso como um sinal de fraqueza. – Nós não buscamos devorá-lo, porém. Nossa presa está em outro lugar. Queremos passar, e nada mais. – O vento frio parou de soprar, e Ling Qi se retraiu, a névoa gelada repousando sobre seus ombros como um manto. – Não precisamos lutar um contra o outro – acrescentou mais suavemente, sua mente correndo enquanto ela trabalhava para imergir seus pensamentos na mente austera da criatura.
Foi mais fácil do que ela gostava de admitir.
– Nós apenas... [gastaríamos/cansaríamos/feriríamos] sem [ganho/sustento]. – Ling Qi quase se assustou ao ouvir sua voz vacilar nas estranhas não-palavras que às vezes pontuavam a fala de um espírito.
Os olhos em enxame recuaram, e o grande olho semelhante ao de uma cabra a encarou enquanto girava. Alguns olhos beliscaram lembranças de frio mortal, e outros se retiraram quando dentes congelados se estilhaçaram. Ocorreu a ela que ali, nas cavernas tépidas e temperadas, nem a criatura nem suas presas jamais haviam experimentado extremos de temperatura.
[Não presa/alimento/sustento], a coisa concordou de má vontade. [Entropia/Veneno/Vazio e Prata. Procure em outro lugar?]
Ling Qi conteve um suspiro de alívio ao contemplar suas próximas palavras. Embora ela quisesse manter a amizade, precisaria ter certeza de não falar de uma forma que implicasse incerteza ou fraqueza.
– Buscamos ir abaixo de onde os... – ela franziu a testa e fez o possível para imaginar e transmitir a imagem da coisa assassina que havia enfrentado. – ... habitam. Precisamos que você pare de obstruir o caminho.
[O Sonho de Prata nos Faminto!] A voz zumbidora da coisa estava ficando mais clara em sua mente, embora ainda parecesse um lodo pegajoso na superfície de seus pensamentos. [Sem luta/luta/matar, mas vá. Vá em volta. Procure a Terra dos Ossos e Vermes. Deixe-NOS.]
– Não – discordou Ling Qi, – você só precisaria se retirar por um curto período. Precisamos descer. – Ela pensou em Bao Qian e montanhas em movimento, em rios orgulhosos e dragões ainda mais orgulhosos. – Não somos presas, mas podemos... fazer uma troca.
Suas palavras se espalharam pelo reino dos sonhos, carregadas por Sixiang para propagar-se como sussurros entre os olhos em enxame.
– Você tem certeza de que foi uma boa ideia, irmã? – perguntou Hanyi baixinho. – Essa coisa parece gananciosa.
Zhengui resmungou em concordância, observando os olhos nadando com suspeita.
Ling Qi flexionou a mão, fazendo pequenos sinos soarem, e recorreu à [Névoa][2], engrossando o manto nebuloso ao redor de seus ombros. – Não há necessidade de fazer isso chegar à violência. Precisamos economizar nossa energia para inimigos reais.
[Alimente-NOS o fragmento de Entropia/Desejo.]
Como para refutar suas palavras, a exigência da coisa e a maneira como seu olhar se voltou para Hanyi quase fizeram seus lábios se contraírem em um rosnado. – Não. Você não terá ela ou qualquer um dos meus companheiros – disse ela furiosamente.
A mente fúngica soltou um uivo lamurioso e desaprovador. Hanyi a encarou.
– Não há necessidade de conflito. Isso não significa que não possamos – disse Ling Qi. Recorrendo às lições da arte de Rapport da Musa Brincalhona, ela encarou o grande olho e colocou poder e sinceridade em suas palavras. – Minha líder é muito mais forte do que você ou eu.
Era um blefe. Guan Zhi não podia se dar ao luxo de lutar ali, mas também não era uma mentira. Era simplesmente uma omissão. Não era culpa dela que a criatura não tivesse aquela parte do contexto. Dessa forma, ela poderia ser totalmente sincera e ainda não revelar toda a verdade.
Em seus pensamentos, um pequeno conflito entre suas percepções e deveres pareceu se encaixar. Honestidade não era ingenuidade, e sinceridade não significava mostrar toda a sua mão. Ela poderia ser uma negociadora sincera enquanto mantinha suas vantagens.
– Claro – continuou ela – há muitas coisas que eu poderia oferecer a você, sonhos que você nunca experimentou. Estou tentando ser generosa, mas se você me testar, talvez eu não consiga continuar fazendo isso.
A coisa ao seu redor trovejou e sussurrou, sua incerteza retornando. Ling Qi se inclinou para frente, pressionando sem dar à criatura muito tempo para pensar.
– Se você se preocupa com sua barriga ao recolher suas redes, pode acelerar as coisas oferecendo o caminho mais curto para sua saída mais inferior. Isso seria apenas para seu benefício, e talvez mais presas possam nos seguir de volta – ela bajulou, as ondulações de Sixiang acelerando para acompanhar suas palavras mais rápidas. – Ambos teríamos a ganhar.
A coisa sibilou violentamente como dúzias de chaleiras explodindo. Ling Qi sabiamente parou de falar antes de pressionar demais.
[Um sonho. Um sonho forte por um caminho claro e o caminho para a Terra dos Ossos e Vermes], o fungo zuniu. [Esta é nossa oferta, criatura do Céu e das Estrelas.]
– Irmã mais velha, você não pode deixar essa coisa mastigá-la! – reclamou Gui, finalmente quebrando o silêncio para olhá-la com incredulidade. – Pelo menos deixe-a pegar um pouco de Gui! Ele se cura rapidamente!
– Eu, Zhen não gosto disso – disse sua outra metade sem rodeios, lançando um olhar feio para os olhos. – Mas se a Irmã Mais Velha precisa disso, eu obedeço.
[Sangue-de-terra também está bem], os olhos cantaram famintos.
Ling Qi franziu a testa. Seu instinto imediato era recusar e fazer isso sozinha, mas...
Sixiang sussurrou para ela.
Ling Qi respirou fundo pelos dentes. Naquele lugar na fronteira do Sonho, isso não fazia nada. O corpo que ela percebia não era mais do que uma construção de sua mente. Mesmo assim, parecia estabilizador. – Você tem certeza? – perguntou ela. Parecia que ela estava arrastando as palavras de seus pulmões à força.
– Sim – Zhen e Gui falaram como um só. Não havia dúvidas.
– Sixiang, quero estar conectada enquanto você vigia – disse Ling Qi secamente, sem se dar ao trabalho de ocultar suas palavras do espírito fúngico que escutava e observava com fome cautelosa.
– Farei isso – murmurou Sixiang.
– Você terá seu sonho em um momento – disse Ling Qi, dirigindo-se à criatura. – Você não levará nada que não seja oferecido.
O coro sibilante de concordância do enxame arranhou dolorosamente seus ouvidos. – Zhengui, você sabe o que quer oferecer? – perguntou ela baixinho.
Gui esticou o pescoço para olhar para Zhen, e Zhen sibilou de volta irritado, estalando a língua. – Gui pensa que sim.
Ao lado dela, Hanyi mudou de pé para pé, infeliz.
– Posso ver? – perguntou Ling Qi gentilmente. – Sixiang e eu precisamos ter certeza de que ele não tentará pegar mais nada.
Gui acenou com a cabeça, e ela estendeu a mão, a névoa multicolorida de Sixiang saindo de sua manga. Ela tocou sua cabeça, e o mundo girou em um fluxo de imagens.
As percepções de Zhengui eram difíceis de analisar para ela. Foi apenas sua prática com artes de clarividência que lhe permitiu entender os múltiplos pontos de vista com os quais ele viveu toda a sua vida. A visão de Zhen era nebulosa e sem cor, construída mais a partir de som, cheiro e gosto do que de visão.
A de Gui, por outro lado, era indescritivelmente vibrante, tumultuando com cores que ela não tinha palavras para descrever, mas sua audição era opaca e abafada, e seu olfato quase alienígena, misturando-se com seu senso de vibrações captadas pelas raízes que brotavam sob seus pés onde quer que ele fosse. Ali embaixo, cercado por pedras, Gui se sentia meio cego e havia contado com Zhen para se locomover corretamente.
Seus pensamentos eram tão difíceis de categorizar. Uma mente com duas expressões criava um trem de pensamento alienígena, mas... Ela o entendeu no momento em que se imergiu, mesmo que processar as informações de seus sentidos levasse mais tempo. Ela sentiu seu orgulho e determinação. Ela sentiu sua teimosia e afeição. Ela sentiu as cicatrizes enterradas do medo.
Apesar de tudo isso, a mente de Zhengui era jovem e simples. Ele queria ser forte. Ele queria ajudá-la e impressioná-la, a pessoa que o havia criado. Ele queria comida saborosa e brincar com Hanyi. Ele sentia falta de passar tempo com Cui e Linhuo. Ele queria conhecer novos amigos quando começassem suas sessões com Wang Chao. Ele queria pisar ou comer o shishigui porque eles a haviam machucado e assustado sua família. Ele estava animado para ter outra chance de lutar ao lado dela e apoiá-la.
Seus sentimentos fluíam ao redor e através dela, mil imagens fugazes passando a cada segundo. Como um cardume de peixes assustados, os fragmentos de pensamento e memória se espalharam quando ele colocou algo mais em primeiro plano. Era um projeto com o qual ele estava lutando, algo que ele queria fazer, mas não tinha o conhecimento para fazer corretamente. Era algo que ele havia evitado compartilhar com ela porque queria que fosse uma surpresa.
Seu próprio jardim. Zhengui havia sonhado em criar um lugar bonito, um lugar onde todos que ele gostava pudessem vir e relaxar e brincar. A imagem beatífica em seus sonhos era marcada por flashes de suas tentativas reais, clareiras supercrescidas que eram tumultos de crescimento excessivo e desordem, contidas e removidas por seus fogos. O sonho ainda brilhava, um belo vale de jardim cheio de árvores ordenadas e esculpidas, um riacho de águas cristalinas, e flores e frutas e abundância, não algo que foi encontrado, mas algo que ele havia feito.
Isso a fez se sentir péssima ao aceitar o sonho e jogá-lo na tempestade faminta de olhos e dentes que pairava como uma nuvem de tempestade sobre a cabeça. Mas ela podia sentir a certeza e a determinação de Zhengui.
E ela havia prometido não ser a única a se sacrificar nessa família.
Dentes rasgaram o céu azul brilhante. Eles despedaçaram a grama verde e as águas cristalinas. Eles mastigaram as árvores e roeram rostos sorridentes. O sonho foi arrastado para o pântano de pensamentos perdidos em que a criatura nadava, e Ling Qi voltou a ser ela mesma. Um tentáculo chicoteante de água colorida disparou, afastando uma boca de um fragmento flutuante da memória de Zhengui.
– Você recebeu seu pagamento. Limpe o caminho agora – disse Ling Qi. Ela pousou a mão na concha de Zhengui. Ele parecia bem. Ele se sentia bem. Mas ela podia dizer que ele se sentia esgotado e taciturno. Zhen caiu, e Gui abaixou a cabeça.
Por um segundo, apenas um segundo, o fungo a ignorou, zumbindo, sussurrando e enxameando. Sua voz rachou como uma rajada repentina de vento congelado, ecoando com o uivo da nevasca. – Agora!
[1] Estagnação: Refere-se a uma energia estagnada e corrompida, diferente da energia vital (Qi) normal.
[2] A Névoa: Provavelmente uma técnica ou habilidade mágica de Ling Qi, relacionada à manipulação do elemento gelo ou névoa.