
Capítulo 187
Forja do Destino
“Você está triste, Irmã Mais Velha?”, Gui perguntou, esticando o pescoço para olhá-la. Apesar de não prestar atenção no caminho, seu passo vagaroso não vacilou, provavelmente porque Zhen, com os olhos brilhantes, mantinha o olhar fixo na trilha, mesmo com a cabeça apoiada em seu ombro.
Ling Qi apenas sorriu, abaixando a mão do seu poleiro entre os espinhos do casco para acariciar a cabeça do irmãozinho. “Estou apenas pensando em algumas coisas. Não se preocupe comigo.”
“Irmã Mais Velha deveria passar um tempo na Piscina Abissal”, Zhen sibilou baixinho, sua língua rápida a fazendo cócegas na orelha. “Ou nas Brasas do Sol Morto. Ela ficaria mais feliz assim.”
“Meizhen ou Xiulan?”, Ling Qi perguntou, divertida. “Talvez. Não vejo Meizhen faz um tempinho.” Recentemente, ela só vira Xiulan na Sala Branca, mas era difícil lembrar o que aconteceu lá.
“Ah! Eu sei!”, Gui chilreou. “Bai Cui disse que a irmã dela ia sair para aprisionar outro espírito!”
“Sério?”, Ling Qi se surpreendeu. “Quando isso aconteceu?”
“Quando Irmã Mais Velha se trancou naquele quartinho”, Zhen respondeu, parecendo satisfeito consigo mesmo. “Um passarinho de papel veio carregando uma caixa para a Piscina Abissal.”
“Eu não gostei”, Gui resmungou, finalmente voltando os olhos para a frente. “Parecia frio e maldoso.”
“Hmph. O Gui medroso se assusta fácil demais”, Zhen disse, levantando o focinho.
“Eu não estava com medo!”, Zhengui retrucou com irritação infantil. “Zhen idiota, você só estava tentando impressionar…”
Ling Qi fechou os olhos enquanto as duas metades de seu irmãozinho brigavam, recostando-se na superfície rochosa do casco dele. Ela perguntaria a Meizhen mais tarde. Desde sua conversa com Cai, ela vinha refletindo sobre seu futuro. Um dia, ela pensou que ficar forte tornaria as coisas menos complicadas e difíceis, mas essa ideia tola já havia sumido de sua cabeça.
Cai dificultava as coisas para ela. Ling Qi pensava que queria ser uma pessoa melhor, mas será que realmente queria? Será que queria ser o tipo de pessoa que poderia seguir Cai Renxiang e defender seus ideais, sua justiça, na verdade?
Ela queria um lar e uma família. Ela queria se cercar de amigos… mas o quanto ela realmente se importava com aqueles que estavam fora de seus círculos, aquela massa cinzenta de “outros” para os quais ela achava difícil lembrar rostos, muito menos nomes?
Pensando em seu tempo na cidade, para cada rosto que ela lembrava, cada pessoa que ela deixara para trás, não havia duas ou três a mais que ela havia magoado sem pensar? Ela realmente se arrependia de suas ações ou simplesmente ressentia a situação que a levara a esses atos? Ela realmente se arrependia de ter arruinado duas, quase três, pessoas por um favor ou simplesmente se sentia culpada porque sabia que alguns de seus amigos não aprovariam?
Ela não sabia.
“Irmã Mais Velha, eu vejo.” A voz de Zhen a tirou de seus pensamentos, e ela abriu os olhos.
À frente delas, destacada na luz tênue da meia-lua no céu acima, estava a silhueta de uma torre graciosa se elevando no céu. Era o local do pontinho brilhante que ela vira no mapa da caixa de quebra-cabeça.
A estrutura parecia estranhamente orgânica no perfil, como o tronco de uma árvore antiga. Misteriosos pontos prateados e azuis de luz dançavam suavemente ao redor da torre, lançando luz em seus lados lisos, sem marcas de ferramenta mortal. Apesar das paredes imaculadas, porém, era óbvio que o que ela via era uma ruína. A cerca de vinte metros de altura, a torre simplesmente terminava em um ângulo agudo, como se algo a tivesse cortado. Além disso, ela podia ver os destroços do que ela supunha ser o resto da estrutura.
“A música é tão bonita. Podemos entrar, Irmã Mais Velha?”, Gui perguntou, com uma sonolência atordoada em sua voz.
Ling Qi olhou bruscamente para Zhengui e viu a cabeça de Zhen balançando para frente e para trás, hipnotizado. Se ela se concentrasse, poderia ouvir também, os sons suaves de uma música alegre vindo da torre quebrada. Ela sentia a música tanto quanto a ouvia, carregada como era por raios de lua e estrelas mais do que qualquer som físico.
Conectando-se a ele, ela desmaterializou Zhengui, esticando as pernas para pousar de pé enquanto ele soltava um grito assustado.
“Desculpa, irmãozinho”, ela pensou para ele, junto com um sentimento de desculpas. “Mas eu preciso que você fique seguro por enquanto.”
Ele era um bom menino, ela pensou com um pequeno sorriso enquanto ele resmungava em sua cabeça. Ela se esgueirou na sombra de uma árvore que ficava na beirada da clareira enquanto se concentrava na torre. Era hora de explorar as coisas.
Ling Qi cruzou a distância restante até a base da torre como pouco mais que um borrão de sombra líquida, voejando da sombra de uma árvore para a outra até que ela se agachou na sombra da entrada da torre. Qualquer porta que outrora barrava o caminho havia desaparecido há muito tempo, e lá dentro, havia apenas pedra fria e empoeirada. Mesmo em seus sentidos mais espirituais, não havia nada além dos fracos sons da música de cima.
Uma busca cuidadosa não revelou formações ativas nem armadilhas mais mundanas. Ela se esgueirou para dentro, observando cuidadosamente a câmara vazia lá dentro. Folhas velhas apodreciam nos cantos, e aqui e ali havia marcas de vermes que habitavam o lugar, alguns ratos de baixo nível e seus primos mundanos, nada mais. Enquanto ela se movia pelo resto do nível térreo, ela encontrou os mesmos cômodos frios e vazios, saqueados há muito tempo.
Isso a deixou incrivelmente nervosa enquanto ela se aproximava da escada que subia para o segundo nível. O teto desabado bloqueando seu caminho pela metade só aumentou sua sensação de desconforto. Ainda assim, com um pouco de esforço, ela conseguiu mover alguns pedaços quebrados de pedra, criando espaço suficiente para ela se esgueirar em forma de sombra.
No momento em que ela passou, ela sentiu. Havia um arrepio no ar como se ela tivesse acabado de atravessar um véu suspenso.
Ela não estava mais agachada em uma escadaria decrépita, mas sim na entrada de um corredor cintilante cheio de névoa. O chão era polido até o brilho de um espelho, e colunas prateadas e extravagantes se erguiam para sustentar um teto de vidro, expondo o corredor nebuloso à luz das estrelas e da lua acima. Mas a arquitetura não a prendeu a atenção.
Os habitantes sim. Para onde quer que ela olhasse, ela via espíritos. Nuvens de fadas, seus corpos pouco mais que formas vagamente humanas tecidas com fio de prata, flutuando em asas de luar, flutuavam perto do teto e esvoaçavam sobre mesas repletas de comida e bebida suculentas onde lírios azuis-claros e outras flores floresciam entre os pratos.
Em todo o piso espelhado, um grupo de outros espíritos festejava, mulheres bonitas e homens bonitos com asas etéreas e olhos felinos que ardiam com fogo prateado. No entanto, de um piscar de olhos para o outro, os espíritos mudavam. Um lobo bípede em uma túnica de cavalheiro dançava com uma coluna de prata líquida no contorno de uma mulher. Uma massa de mariposas esvoaçantes desceu de uma janela e se tornou uma figura andrógina, seu rosto velado atrás de antenas felpudas, enquanto um humanoide imponente de cristal áspero pegou sua mão para levá-la ao chão. Essas visões vertiginosas, juntamente com outras mil visões que se embaçaram diante de seus olhos, foram agravadas pelo reflexo perfeito do chão e pelos muitos espelhos pendurados nas colunas estreitas.
Ela se viu cambaleando, uma dor de cabeça se formando atrás de seus olhos ardentes enquanto tentava dar sentido à entrada constantemente mutável. Com a música crescendo em seus ouvidos e a intensidade avassaladora do qi lunar, seus sentidos espirituais ficaram quase cegos.
Ela apertou os olhos para eliminar o pior e rapidamente circulou qi por seus olhos e ouvidos, canalizando os efeitos de sua arte do Espelho de Prata. À medida que o qi calmante e sólido se espalhava por seus pensamentos, a dor de cabeça diminuiu, mas os cheiros e sons ao seu redor não desapareceram.
“Prima! Nós estávamos nos perguntando quando você viria!”
Os olhos de Ling Qi se abriram em alarme, e ela percebeu que havia cambaleando até o chão enquanto era dominada pela sensação. Diante dela estava uma mulher com olhos como poços negros profundos, marcados apenas por faíscas agitadas de uma cor indescritível. Ela estava vestida com finas roupas prateadas que flutuavam ao redor de sua forma esguia como uma nuvem de renda e seda. Seu cabelo flutuava atrás dela em uma nuvem de névoa arco-íris, caótica e selvagem, de alguma forma sólida e não ao mesmo tempo. Ela sorriu acolhedora para Ling Qi, aparentemente imperturbada por sua presença.
Felizmente, o instinto assumiu o controle dos pensamentos ainda um tanto atordoados de Ling Qi, e ela lembrou-se do axioma fundamental de ser encontrada em um lugar onde não pertencia.
“Claro. Eu não teria perdido”, disse ela, mantendo a voz leve.
“Fiquei um pouco surpresa, honestamente.” Ling Qi sentiu um arrepio de alarme quando a mulher pegou sua mão, insistentemente a conduzindo para mais fundo na sala. Não parecia certo, mas, por mais que tentasse, ela não conseguia ver nada de errado com os dedos perfeitamente manicurados da mulher, exceto talvez o comprimento de suas unhas. Não importava no momento. Ela estava cercada, afinal. “A Xin raramente frequenta esse tipo de festa, afinal”, a mulher tagarelou, olhando para trás com um sorriso vulpino.
Isso pelo menos a aliviou um pouco. Xin lhe dera o mapa e conhecia este lugar, então talvez fosse realmente apenas que ela era esperada.
“Imagino que ela não esteja aqui então?”, Ling Qi perguntou educadamente. “Ah… posso perguntar para onde estamos indo?” A mulher a conduzia pela multidão em direção ao fundo do salão, onde a música pulsava mais alto em seu sangue. Ela podia sentir seus passos ficando mais leves, cheia de uma energia frenética.
“Ora, para o palco, é claro”, disse a mulher, soltando uma risada alegre enquanto tecia entre os espíritos em constante mudança. “Você vai se apresentar esta noite, afinal!”
“O quê”, Ling Qi disse secamente, seus olhos se arregalando de alarme. “Eu não tenho nada preparado para algo assim!”, ela exclamou, esquecendo suas preocupações mais sérias. “Eu não posso simplesmente…” A pegada da mulher era implacável, e ela sentiu seus pés deslizando pelo chão sem resistência, mesmo quando parou de andar.
“Silêncio, prima querida, e acalme seu medo.” A mulher olhou para trás, ainda sorrindo. “Um artista sempre deve ser capaz de improvisar.”
Os olhos de Ling Qi se arregalaram de alarme quando o espírito, que devia ser um avatar da Lua dos Sonhos, a puxou mais perto e depois a girou duas vezes, rindo enquanto o mundo borrava ao redor delas. Ling Qi soltou um grito deselegante quando foi arremessada para o palco, caindo em uma posição agachada apenas devido a um reflexo treinado.
Um tremor percorreu sua espinha quando ela encontrou os olhos do salão sobre si, e um murmúrio de palavras e aplausos começou a subir. Ela ainda se sentia desorientada, e seu sangue ainda martelava em seus ouvidos, o qi lunar transbordando seus meridianos e dantian, embebedando-a e enchendo-a de uma energia frenética. O que… o que no mundo ela devia tocar?
Já era tão difícil pensar, se concentrar. Mas Ling Qi se acalmou, forçando seu medo. Se tocar para um salão de concertos cheio de espíritos lunares era o teste… então tudo bem. Ela poderia fazer isso. Ela teria apenas que improvisar. Ela levou a flauta aos lábios, sem saber quando a tinha tirado, e começou a tocar. O mundo pareceu inclinar-se enquanto as notas ecoavam e a festa rugia.
As memórias de Ling Qi daquela noite nunca ficariam realmente claras. Havia apenas o borrão de rostos, humanóides e inumanos, sons de dança e canto, barulho e alegria e caos, o gosto de vinhos brilhantes doces e iguarias exóticas, e o cheiro de suor, incenso e flores. Ela se lembrava de estar em cima de Zhengui enquanto ele se equilibrava nas patas traseiras e “dançava”, rindo enquanto ela cantava e os espíritos batiam palmas. Ela se lembrava de dançar com dezenas de espíritos e de ser girada pela sala de baile pela própria Lua dos Sonhos. Ela se lembrava da sensação fresca de uma tira de jade sendo pressionada em sua palma antes que o avatar desaparecesse de volta para a multidão.
A última coisa de que ela se lembrava, porém, era cambaleando para casa, encostada no ombro de uma garota risonha com cabelos que brilhavam nas cores de um arco-íris.