Forja do Destino

Capítulo 172

Forja do Destino

“Agradeço a ajuda”, disse Ling Qi sinceramente, encontrando o olhar de Bai Meizhen do outro lado da mesa.

“E mesmo assim você vai discordar dos meus métodos”, respondeu Meizhen friamente.

Ling Qi assentiu relutantemente. “Eu não sei exatamente o que você pretende, mas provavelmente vai dar uma raspadinha nas regras da Seita, certo?” Quando Meizhen não discordou, Ling Qi continuou, brincando com a xícara em suas mãos. “Eu não quero que você se arrisque assim por mim, mesmo que seja um risco pequeno, dado seu status. Por que não levamos Yan Renshu para a Senhora Cai? Deixa ela transformar isso numa vitória e enfiar ele num buraco até o fim do ano.”

Meizhen franziu os lábios, não gostando da ideia. “Isso é um assunto pessoal. Embora eu não duvide da habilidade de Cai Renxiang nem de sua capacidade de criar uma narrativa convincente, para que incomodá-la com isso? Conter um cultivador do terceiro reino não é nem barato nem fácil.”

“Eu só não acho que ir além disso seja necessário. A Seita... tudo é supostamente um grande jogo, certo?”, disse Ling Qi. Soou como cinzas na boca, mas realmente parecia ser assim. “Mesmo que Yan Renshu tenha feito algumas coisas muito desagradáveis, eu não-”

“Um jogo?”, perguntou Bai Meizhen secamente, a interrompendo. Foi surpreendentemente rude para a garota normalmente reservada. “Vamos visitar aquela sua criada, para que você possa dizer a ela que a perda de seu olho foi apenas parte de um jogo? Que ela deveria parar de tentar arruinar sua rival?” Cui encostou o rosto carinhosamente na bochecha de Meizhen enquanto esta fechava os olhos em frustração. “Embora a corte Imperial tenha transformado as seitas num playground para as famílias menores, isso não é verdade para cultivadoras como você.”

Ling Qi fez uma careta, a lembrança da situação de Li Suyin fazendo seu temperamento explodir. “Talvez eu não queira ser o tipo de pessoa que aleija alguém e depois inventa alguma desculpa meia-boca”, ela retrucou. “E eu quero ainda menos pedir isso a você. Não me entenda mal; eu vou te ajudar. Mas eu quero realmente seguir as regras, e não apenas a letra delas.”

“... É a sua vingança”, concordou Meizhen infelizmente. “Você está sendo muito mole, mas não vou contrariá-la nisso.” Embora Meizhen claramente quisesse. “Eu pretendia resolver a questão daqui a três noites. Isso é aceitável?”

Ling Qi assentiu. Ela não gostava de desagradar sua amiga assim, principalmente quando ela estava apenas tentando ajudar. “Sou grata por você ter se disposto a se esforçar tanto por mim.”

Bai Meizhen simplesmente assentiu, levantando-se elegantemente de sua cadeira. “Obrigada pelo chá. Temo que tenho cultivo para colocar em dia. Se me der licença?”

Ling Qi suspirou, levantando-se também. “Eu também. Nos vemos em algumas noites, Meizhen.”

“Até lá, Qi”, disse Meizhen enquanto parava na porta, olhando por sobre o ombro brevemente antes de se dirigir para seu quarto.

Ling Qi esperava não ter ofendido muito sua amiga com sua recusa. Olhando para os restos de chá em sua xícara, ela esvaziou o restante com um gole deselegante e se levantou. Ela tinha três dias para finalizar o restante de seus planos para a semana.

Ling Qi começou indo para o telhado para cultivar sob as estrelas e trabalhar em decifrar o enigma que a Lua, ou talvez Xin, havia lhe deixado. As ripas de madeira polidas e laqueadas se moveram facilmente sob seus dedos enquanto ela meditava sob as estrelas, absorvendo o qi estelar e lunar. As bordas tilintaram umas contra as outras silenciosamente enquanto ela alinhava os padrões pintados nos lados da caixa. Levou algum tempo, mas ela conseguiu completar com facilidade. Tinha sido quase decepcionante em sua facilidade.

Aquele havia sido um pensamento tolo. Quando a última ripa caiu no lugar, a caixa tremeu em suas mãos, emitindo uma única nota alta e clara. A camada externa de madeira então se desfez, transformando-se em folhas despedaçadas que caíram de suas mãos surpresas, apenas para serem levadas pela próxima brisa.

Restou uma caixa menor, desta vez de prata polida e trabalhada com padrões profundamente incrustados de ônix. Curiosa, ela moveu a primeira peça, deslizando-a suavemente para uma nova posição. Uma canção suave e cintilante começou a tocar e, surpresa, ela parou para examinar a caixa aparentemente musical.

Então a melodia parou, e a peça que ela havia movido voltou para sua posição inicial, quase prendendo seu dedo.

Para sua crescente frustração, Ling Qi se viu incapaz de acompanhar as reposições cronometradas da segunda caixa, e quando o sol começou a nascer no horizonte, ela estava mais do que pronta para guardar a caixa irritante. Ela voltaria a ela amanhã à noite, mas por enquanto, ela iria encontrar Su Ling, sem mencionar que primeiro tinha que levantar Zhengui e colocá-lo em movimento. Seu espírito ainda era terrivelmente preguiçoso de manhã.

Na verdade, com Zhengui acordado novamente, talvez ela pudesse se divertir um pouco com sua amiga...


Depois de pensar melhor, Ling Qi admitiu que surpreender sua amiga com Zhengui pode não ter sido a melhor ideia.

Ainda era muito engraçado, no entanto.

“Me desculpa!”, ela chamou, de onde estava em cima de Zhengui, equilibrada nas pontas de sua carapaça. “Por favor, não fique brava. Foi só uma brincadeira.” Poeira e areia ainda flutuavam pela clareira, levantadas quando Zhengui havia irrompido do chão.

Su Ling a olhou furiosamente de cima, ainda agarrada aos galhos mais altos da árvore para onde havia subido, orelhas e rabo eriçados como um gato assustado. “Ha. Ha”, ela declarou secamente. “Que diabos te fez pensar que isso seria engraçado!”

Gui olhou para ela ingenuamente. “Irmã Mais Velha? Por que a garota peluda subiu na árvore daquele jeito?”

“Por que as presas fogem quando você pula, Gui bobo?”, sibilou Zhen por trás. Ele olhou com superioridade para Su Ling por cima do ombro de Ling Qi. Pelo menos alguém achou a brincadeira engraçada.

Gui piscou e pareceu estar pensando muito por um momento. “Ah! Me desculpa! Não se preocupe. Irmã Mais Velha não vai deixar Zhen morder.”

“É melhor que não”, resmungou Su Ling sombriamente, lançando um último olhar furioso em Ling Qi antes de descer da árvore. Ela pousou em posição de agachamento, levantando-se facilmente. “Sério, deixe as piadas para outras pessoas, ok?”

“Acho que não sou muito boa nisso”, murmurou Ling Qi. Ela imaginava que Su Ling não seria enganada pela artimanha de Zhengui, mas a guarda da outra garota devia estar baixa. “Sem mal, né?”

Su Ling passou os dedos pelo cabelo emaranhado e deu um suspiro frustrado. “Claro, não adianta ficar brava com você. De qualquer forma, eu tinha algo para te dar, se você terminou de tentar me dar um ataque do coração.”

Ling Qi pulou das costas de Zhengui, deixando o espírito discutir entre si. Levaria algum tempo até que terminassem. “Ah, vocês conseguiram fazer alguma coisa com aquele líquido da abertura?”, ela perguntou curiosa.

“Sim. Fizemos uma pílula que vai dar um impulso bem forte no seu cultivo espiritual e facilitar o trabalho com as Artes Argentinas.” As orelhas de Su Ling se mexeram enquanto a outra garota jogava para Ling Qi um pequeno estojo de pílulas. “Não consigo refinar mais de uma por mês, então use bem, ok?”

Ling Qi inspirou profundamente o vapor medicinal que escapou quando ela abriu o estojo para olhar para dentro. Ela já estava no pico do Amarelo, então não ia adiantar muito no momento, mas uma vez que ela quebrasse, uma pílula como essa poderia ser uma verdadeira bênção.

“Isso é impressionante”, ela elogiou. “Fico feliz que vocês tenham conseguido fazer algo com isso. Tem certeza que só quer me dar?”

“A primeira é de graça”, disse Su Ling, mostrando um pouco dos dentes em seu sorriso. “Suyin também tem usado bem a coisa no projeto dela, e você foi quem encontrou o ingrediente principal.”

“Obrigada.” Ling Qi guardou o estojo em um bolso. “E você? Já pensou no que vai fazer ainda?”

Su Ling franziu a testa, seus olhos rapidamente passando por cima do ombro de Ling Qi. Ela olhou para trás, apenas para ver que Zhengui tinha ido cavoucar um tronco caído, o barulho alto da madeira ecoando pela clareira.

“Eu te disse que não estou preocupada com isso”, disse Su Ling com desdém. “Não mudei de ideia.”

Ling Qi assentiu, sem surpresa. “Certo. É por isso que eu queria te perguntar algo.” Ela estava preocupada com sua amiga. Se as coisas corressem bem, Ling Qi e Li Suyin entrariam no Círculo Interno, deixando Su Ling sozinha na Montanha Externa. O lembrete de Meizhen sobre o que pode ser feito por nobres de alta patente a plebeus sem proteção acentuou ainda mais essa preocupação. “O que você acha daquelas garotas que têm me seguido?”

Su Ling franziu o nariz. “Eu entendo por que você as deixa. Você irritou muita gente.” Ling Qi simplesmente continuou a olhá-la; a garota sabia que não era isso que ela queria dizer. “Elas são boas, eu acho? Parece ser legais. Não troquei mais do que uma ou duas palavras com elas, no entanto.”

“Então você não se importaria que elas se juntassem a nós para treinar?”, perguntou Ling Qi alegremente. “Não aqui”, ela acrescentou, gesticulando para a abertura, “mas em geral.”

“Eu... acho que sim?”, Su Ling levantou uma sobrancelha. “Elas não são como aquela esnobe com quem você sai em particular, certo?”

Ling Qi franziu a testa com o insulto dirigido a Xiulan, mas deixou passar. Não estava errado. “Não. Ma Jun é um pouco espinhosa em relação à polidez, mas isso parece ser uma briga pessoal com a irmã dela.” Ela fez uma pausa para encontrar a melhor maneira de articular seu raciocínio. “Eu só acho que você poderia usar mais amigos.”

“Eu não preciso desse tipo de babá”, disse Su Ling, irritada com a implicação.

“Talvez não”, respondeu Ling Qi. “Mas você realmente pensou em como vai ser se Suyin e eu formos aprovadas?”

Su Ling franziu a testa, as orelhas achatadas contra a cabeça. “Sim, já pensei. Não muda o fato de que eu não quero ser compadecida.”

“Só dê uma chance a elas, garota teimosa”, disse Ling Qi, exasperada. “Estou oferecendo apresentar você a algumas amigas, não te dando um tesouro.”

“Tudo bem”, Su Ling cedeu. “Agora, vamos treinar ou o quê?”

“Claro”, respondeu Ling Qi alegremente. “Já pensou no que quer me dar em troca da Corrente Argentina?”

“... Sim”, respondeu Su Ling relutantemente. “Uma segunda daquelas pílulas vai servir como entrada?”

Pagaria em cheio, considerando que ela queria dar de graça, pensou Ling Qi, mas qualquer discussão só faria Su Ling insistir em pagar mais. Em vez disso, ela assentiu, feliz que sua amiga estaria um pouco melhor armada.

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