Uma Jornada de Preto e Vermelho

Capítulo 211

Uma Jornada de Preto e Vermelho

A base se estendia abaixo de nós por quilômetros, um amontoado aleatório de barracas que não demonstrava a disciplina usual. O mau tempo fazia as lonas esvoaçarem e pouco eu podia fazer para mitigar o efeito. A Aurora tinha vontade própria.

“Temos trabalho para dar e vender, senhores,” disse aos meus mais novos capangas.

“Quer dizer que os lemures já se infiltraram nas fileiras deles?” disse um cortesão de Erenwald.

Moleque idiota. Loiro. Se sente obrigado a repetir tudo o que eu digo como o papagaio mais sem graça do mundo.

“Sim, como eu os avisei. Se houver feridos ou membros do esquadrão que perderam contato uns com os outros, então é provável que sejam lemures. A Corte de Verão tem ferramentas para detectá-los, mas teremos que proceder da maneira antiga.”

Os vampiros da Irmandade se aglomeraram em volta de mim como um bando de patinhos. Por alguma razão, eu esperava que os ‘Nacht Ritter’ reunissem seus guerreiros mais fortes em uma demonstração de força, mas em vez disso, eles me enviaram cortesãos descartáveis e jovens mestres. O quê, eles esperam que eu os mate? Contrário a… outras coisas, eu tenho um excelente histórico com estagiários. Argh.

Toquei meu nariz.

“Vocês terão que farejá-los.”

“Você está de brincadeira.”

“Temo que não. Posso perceber num relance que a aura deles está errada, mas já que seus superiores acharam por bem me enviar pessoas sem habilidades mágicas…”

“Eu consigo lançar magias.”

“…ou habilidade, vocês usarão seus narizes. Mas primeiro, vamos nos apresentar.”

Descemos a encosta, passando por uma ambulância que cheirava a sangue velho. Uma mulher descansava a cabeça no volante, exausta. Um par de soldados se escondiam atrás dela numa tentativa de fumar em paz. Um deles me encontrou. Em seu olhar, não havia mais alma do que a de um gado. Este homem tinha sido mastigado e cuspido por qualquer coisa que enfrentou mais a oeste. Ele nem sequer reagiu à Aurora.

“Onde fica a tenda do comando?”

O homem gesticulou com a mão em direção ao centro do acampamento improvisado. Segui sua direção através de soldados em movimento e oficiais gritando. Não fomos parados. Aqueles que tinham autoridade para isso reconheceram os uniformes dos meus acompanhantes. Quanto a mim, um olhar bastou para me classificar na categoria ‘acima do seu salário’. Encontramos os comandantes sem impedimentos. Até mesmo as sentinelas não bloquearam nosso caminho.

Desleixado, mas mal posso culpá-los.

Lá dentro, a tenda do comando era a imagem da desordem desenfreada. Ah, os mapas estavam na posição correta e os oficiais adequadamente sérios, mas eles conversavam em pequenos grupos enquanto dois homens de alta patente discutiam bastante alto sobre os próximos passos em algum lugar no centro. Puro caos para alemães. Se fosse França, um soco já teria estourado. Alguém poderia estar mijando nos mapas.

“Parabéns!”, gritei, silenciando a todos de uma vez.

“Seu acampamento foi selecionado como ponto de encontro para as frotas combinadas da Europa, que começarão a chegar nas próximas horas. Vocês colocarão o acampamento em ordem e estabelecerão posições defensivas. Fortificações devem ser construídas a oeste, por ordem do próprio imperador.”

Acendi meu decreto como uma bandeirinha. Ah, momento glorioso em que eu exerço o poder máximo, mas tenho que usá-lo para cavar valas. Ai de mim, ai da maturidade. Pelo menos eu posso assistir aquele cara gordo e barbudo ter um ataque de apoplexia.

“Ousa?”, ele explodiu. “Você sabe quem eu sou?”

“Silêncio.”

Um silêncio mortal se espalhou pela tenda, silenciando até mesmo o clamor das vozes lá fora. O homem falou, mas nenhum som saiu.

“Isso é melhor. Agora, eu nunca matei um general antes…”

Parei e reconsiderei minhas palavras.

“Bem, pelo menos não um de tão alta patente, mas o farei sem hesitação se você me opuser. O decreto me dá total autoridade para transformar este esgoto miserável em uma base avançada funcional. Se você se opuser ao meu trabalho, eu o aposentarei. Permanentemente.”

O general ficou num tom interessante de tulipa, mas um de seus ajudantes pegou o papel e ficou pálido ao reconhecer o selo. Eu levantei a interdição sonora.

“Senhor… isso é genuíno.”

Infelizmente, isso deixou o homem roxo. Ele precisava de um momento e um copo de schnapps. Eu fiquei lidando com subordinados.

“Vocês irão limpar o campo na direção de… qual é a cidade mais próxima?”

“Baden-Baden.”

“Sim. Aquela. E estabeleçam um perímetro ao redor para preparar-se para as embarcações de pouso.”

“Madam… não existem campos grandes o suficiente. Esta é a Floresta Negra.”

Suspirei.

Eu já usei minha Magna Arqa para limpar terras antes. Só que parece um uso tão vulgar de um poder incrível. Remover floresta vai contra seu próprio princípio. Pah, seja o que for.

“Então vocês me levarão a um lugar adequadamente plano. Enquanto isso… há a questão dos lemures.”

Agarrei uma das sentinelas que estava observando com olhos vazios. O homem se debateu enquanto seus camaradas assistiam em choque, inseguros de como proceder.

Então meu cativo se transformou numa criatura fina e fantasmagórica, toda pele esticada sobre inúmeras extensões ósseas, uma mistura entre um homem e um lagarto. Dentes estalaram em minha direção.

Os vampiros ficaram ali parados.

“Bem, esta é a oportunidade perfeita para se acostumarem à essência deles.”

“Errr.”

“CHEGUEM MAIS PERTO.”

Sacudi a besta enquanto ela me mordia. Irritante. E ligeiramente malcheiroso, embora a essência seja rica. Argh. Eu sei exatamente o que fazer. Abri a aba da tenda e causei um pequeno pânico entre os soldados.

“Milady?”, repetiu o homem com alguma dúvida.

“Tenho uma tarefa para você. Vá pegar!”

Joguei o lemure fisicamente no poste mais próximo. Ele caiu, atordoado, e então tentou fugir.

Isso foi tudo o que foi necessário para que os instintos dos vampiros entrassem em ação.

“E me tragam de volta os cadáveres dos outros! Há pelo menos sete!”, gritei para a matilha sibilante.

Os elementos principais se jogaram sobre o metamorfo para comê-lo, deixando os mais lentos se espalharem para ganhar sua refeição. Pelo menos isso os tiraria do meu pé.

“Onde estávamos? Ah sim, desmatamento.”


“E pensar que este é o exército que manteve o nosso em xeque por mais de dois anos”, disse o homem que acabara de entrar.

O indivíduo irritante que tão casualmente esqueceu a contribuição dos franceses e o poder dos alemães só poderia ser o Marechal Aéreo Jacobi, o chefe da frota da Tríplice Entente. Ele era um senhor mais velho com costeletas impressionantes e um bigode perfeitamente aparado. Seu ajudante correu ao seu lado, envergonhado por alguma razão.

Eles me avistaram.

“E você deve ser a vampira.”

“Senhor?”

“O que entregou?”, perguntei, mostrando um vislumbre de presa.

“Falta de respeito pelos mais velhos, o que às vezes significa que eu não sou, de fato, seu mais velho.”

“De fato não.”

“Que época problemática. No mínimo, você deveria ter sido um homem.”

“Temo que não possa assumir a responsabilidade pela minha condição.”

O almirante resmungou. Outro homem, este com um uniforme azul, se aproximou.

“Ah. Mademoiselle, você deve ser a Mão dos Acordos, não é?”

“Em pessoa.”

“É verdade que eles a chamam de Donzela Vermelha também?”

“Você afundou o navio do meu tio perto de Gibraltar”, disse o Almirante Jacobi, com reprovação.

“Ah sim, foi muito divertido”, observei.

Eu me lembrava bem. Sinead estava comigo.

“Ele disse que você tinha homens nus dançando na sua ponte!”

“Bastante divertido.”

“Escandaloso.”

“Qualquer pessoa que afundou um navio britânico e não é alemã tem meu respeito imediato, madame. Meu nome é Almirante Gireaud. Represento a frota francesa. Você é americana, sim? Trazemos seus minotauros. Por favor, mantenha-os em boa forma, pois ainda temos que pagá-los totalmente.”

“Tenho certeza de que vocês têm um bom contrato”, respondi gentilmente.

“Uma concepção capitalista.”

“Se vocês pudessem se concentrar no assunto em questão…” Jacobi repreendeu.

Nos reunimos em torno da mesa onde os mapas aguardavam. Eu recebi atualizações constantes do Rosenthal nas últimas horas. Sua rede de inteligência está trabalhando horas extras para acompanhar a invasão de perto.

“Aqui está o que tenho”, comecei. “A frota alemã foi infelizmente derrotada em Colmar. Apenas o Scharnhorst ainda está totalmente operacional, mas eles trouxeram todo o seu complemento de biplanos de todas as frentes e podemos contar com eles para proteger nossa aproximação. Os italianos enviaram fragatas rápidas, doze delas, e já estão aqui. E vocês?”

“A Entente envia vinte e uma cruzadores e cinco fragatas. O almirantado se recusa a comprometer mais com a defesa de uma potência inimiga, mesmo uma que se rendeu. Devemos defender nossa terra.”

Ele me lançou um olhar significativo.

“Também nos recusamos a lhe dar o comando de nosso contingente. Formalmente solicitamos que você me dê o comando geral, já que trazemos o destacamento mais numeroso e poderoso.”

“Tudo bem”, respondi com um encolher de ombros.

Jacobi piscou, provavelmente esperando protestos.

“Não tenho experiência comandando uma frota”, expliquei, “Sem mencionar que minha presença será necessária em terra no final da operação. Estou mais do que disposta a deixar um líder competente dirigir a frota, contanto que todos os nossos objetivos sejam completados.”

“É mesmo? E você vai comprometer seu navio pessoal?”

“Claro. Afinal, ele me levará para a batalha. Por favor, certifique-se de que ele fique coberto, porque, você sabe, não há mais ninguém capaz de derrubar o príncipe.”

“Então você não se opõe a enviarmos um observador para o navio?”

Eu poderia recusar, é claro, mas isso não seria divertido.

“Vocês podem enviar alguém, contanto que respeitem nossas regras, começando pela mais importante.”

“Sim?”

“Eles devem usar o chapéu.”


O sol do final da tarde brilhava sobre o campo recém-feito entre Baden-Baden e a barreira natural do Reno. Milhares de tropas em vários níveis de preparação embarcavam em seus navios designados para a primeira, e provavelmente não a última, união da humanidade contra um invasor estrangeiro. Balões reforçados brilhavam com glifos e placas protetoras enquanto os marinheiros carregavam a última munição disponível. Baden-Baden nunca foi destinada a ser um grande centro de suprimentos.

Da segurança do meu sarcófago, observei o desgaste em muitos cascos e velas dos navios. Todos eles carregavam as feridas de um conflito prolongado. Até mesmo o navio mais novo mostrava sinais de reparo extenso. A guerra grassou impiedosamente e as embarcações voadoras sofreram o peso de cada grande batalha devido à sua capacidade de voar para onde são necessárias, tanto uma bênção quanto uma maldição.

Em comparação, a Fúria parecia nova e bem diferente. Um observador leigo poderia pensar que a aeronave era projetada para corrida, e não estaria errado. Ela foi projetada para velocidade e manobrabilidade. O canhão massivo alojado na estrutura e as lanças mágicas podem estar escondidos. O casco é mais fino e oferece menos resistência ao ar do que o de um cruzador mais volumoso, à custa da armadura. É feita sob medida para minhas especificações. E agora, ela voa em formação com navios que, alguns dias antes, teriam atirado uns nos outros sem misericórdia.

Me pergunto para onde tudo isso está indo.

O mundo está mudando tão rápido, agora com a invasão do nosso segundo grupo de pragas. Felizmente, este vem de muito longe, e eles não deveriam ter a capacidade de ficar uma vez que cortarmos o portal.

Pensei nas esferas fae do outro lado de milhares de quilômetros de inferno. Nunca as alcançarei, mas às vezes, eu queria poder. Eu queria poder pedir ajuda para lidar com Nirari em vez de ter que pará-lo eu mesma. Eu queria que não dependesse apenas de mim.

Há tanto para explorar e tantas coisas para fazer, mas agora muito repousa sobre meus ombros e… eu não gosto. Uma parte de mim quer cruzar essa fronteira e lutar contra a corte de sangue por um século, até que me quebrem ou eu quebre o mundo deles. Apenas pela aventura que representa. A presença do meu sire paira como uma espada de Dâmocles, como tem sido desde que eu tive a chance de pará-lo.

Esta é apenas mais uma distração, mas desta vez vejo uma oportunidade de equilibrar ainda mais as chances: o sangue de um príncipe.

Não posso deixá-lo escapar.

Lá fora, um chifre soou. Um a um, os navios decolaram para o céu. A Fúria de Dalton não foi exceção.

“Por que eu tenho que usar o tricorno?”, perguntou o oficial “espião”, um pouco horrorizado.

“É a regra”, respondeu o capitão sem emoção, embora eu pudesse sentir seu divertimento.

“É verdade que sua chefe é chamada de ‘garota bomba’?”

“Você sempre pode perguntar a ela.”

“O que é aquele grande tubo ali?”

“O canhão principal.”

“Seu canhão principal é maior que uma bateria costeira!”

“O que mais você esperaria da garota bomba?”

“Eu achei que isso era uma piada!”

“Eu garanto a você, senhor, aqui nós não brincamos com explosões. Isso se liga à regra dezenove.”

“É a mesma lista de regras que cobre os tricornos?”

“Sim, e a regra dezenove afirma que nada é motivo de riso até depois que o inimigo tenha sido explodido.”

“Quero voltar para o Zéfiro.”

“Espere! Você ainda não viu nossos sistemas de magia antipessoal.”

Eu fechei a comunicação, deixando meu capitão se divertir. Ele era um dos homens de Loth. Ele morreria antes de trair minha confiança. Enquanto isso, eu observava a frota combinada se erguer em direção aos céus.

É um espetáculo e tanto.

Eu vivo há algum tempo agora, e estou feliz pelo espetáculo. Não supera a Corte Azul, mas… servirá. Cada navio ponderosamente entra em formação, os cruzadores no centro e os navios de escolta ao redor. Somos considerados um navio de escolta. A Fúria tem apenas trinta metros de comprimento com uma tripulação de setenta em tempo de guerra, como agora. Ao contrário de outros, não é alimentada por uma mistura de motores modificados e mana. O poder da Fúria vem da própria Aurora. Enquanto eu estiver a bordo, seu poder supera até mesmo o de um navio-bandeira.

Estou ansiosa para ver o que a Corte de Sangue pretende nos lançar.

À medida que a frota ganhava altitude, passamos por uma nuvem e o resto deles desapareceu de vista por um tempo. Ajustei os espelhos ao meu redor e aproveitei apenas descansando em nuvens fofas, imaginando que sair não me transformaria em uma tocha gritante do tamanho de Ariane. Perfuramos a cobertura e o cinza se tornou rosa e vermelho.

Por duas horas, nada de importante aconteceu. Estamos muito altos para sermos interceptados, uma superioridade da tecnologia humana. Eu relaxei e verifiquei os outros moradores noturnos a bordo do meu navio. Os pobres não têm acesso aos gravadores externos e parecem estar entediados. Isso mudará em breve.

Ao anoitecer, mergulhamos. A cobertura de nuvens diminuiu para revelar o que restou do campo de batalha ao redor de Verdun.

Começa com luz vermelha, como um campo de vaga-lumes visto de cima. Logo, porém, os pontinhos se resolvem em tantas fogueiras, queimando sem muito combustível em uma planície aparentemente sem fim de terra queimada e ensopada de sangue. Vermelho e marrom até o horizonte onde Verdun ainda se mantém, a terra pereceu. Encontrei o culpado sem muita dificuldade. O portal para a Corte de Sangue pairou no meio de uma cratera, sua superfície como um corte de bala na realidade, completa com bordas desfiadas que sangravam mana na terra. O solo além é mais carmesim que o nosso, mas não por muito. O processo já havia começado.

“Senhora, o Zéfiro ordenou que seguíssemos um curso para a planície em frente ao portal. Eles querem desembarcar os fuzileiros navais ali”, meu capitão me disse.

“Siga por enquanto”, respondi.

O príncipe deveria ter mordido a isca, mas ele pode estar mais longe. Suspeito que meus aliados humanos possam desembarcar algumas de suas tropas antes de serem dominados.

E então, somos inevitavelmente vistos. Uma nuvem de combatentes do tamanho de humanos decolou dos muitos recessos dessa terra estranha. Os raios do sol poente brilhavam em asas de libélula, asas de couro, estranhas partes do corpo segmentadas presas a espécimes muito, muito maiores.

“Pela grande, é um dragão?”, perguntou o espião.

Com certeza não é. Tem um bom tamanho, no entanto.

“O Zéfiro está sinalizando para nos prepararmos para um confronto. Não mudaremos de curso”, observou o capitão.

Ele se vira para seu comunicador e sua voz aparece mais claramente no meu sarcófago.

“Senhora, alguma instrução?”

“Faça o que quiser, Capitão. Apenas nos tire disso inteiros.”

“Sim, senhora, e até flutuando se eu conseguir.”

“DEFENSORES DA HUMANIDADE”, uma voz berrou com uma intensidade terrível.

Eu ouvi com atenção, considerando duas coisas. Primeiro, aqueles defensores da humanidade estão aqui porque eu, uma vampira, os trouxe aqui. Segundo, apenas uma fração desses defensores da humanidade realmente fala inglês. O Almirante Jacobi não se importa.

“Eu sei que vocês estão confusos. Eu sei que vocês olham para a esquerda e para a direita e veem os inimigos de ontem, contra quem vocês lutaram e para quem perderam amigos. Eu sei disso e peço que vocês olhem além disso para a paisagem infernal à sua frente. Este é o futuro do nosso mundo.”

Ah, o sabor doce do terror se espalha pela frota, embora eu saiba que Jacobi está apenas se preparando para uma entrega.

“Estamos enfrentando invasores de outro mundo. Esses invasores transformarão nosso planeta nisso a menos que os paremos aqui e agora. Então olhem para a esquerda e para a direita. Todos que vocês veem são a única chance do nosso mundo. E eu não tenho medo.

“Eu vi sua coragem, senhores, nos últimos dois anos. Amigos ou inimigos, vocês são todos orgulhosos marinheiros das frotas da humanidade. Esta noite, vocês me darão o seu melhor, pois amanhã os céus estarão azuis e serão nossos. Todos, postos de combate. Chegou a hora de recuperar nossa terra. Matem todos esses bastardos feios, e deixem que seus deuses os resolvam.”

Na nossa frente, o enxame se aproxima.

O Zéfiro foi o primeiro a abrir fogo, depois o resto dos cruzadores se juntou. As criaturas maiores foram imediatamente transformadas em pasta, rasgadas por projéteis projetados para matar um navio através de sua blindagem. À medida que os grandes inimigos semelhantes a dragões caíam, seus irmãos menores ainda se aproximavam. Eles pareciam humanoides alados horríveis com lâminas em vez de braços. Observei o Zéfiro sinalizar para projéteis tipo colmeia projetados para encher os combatentes com estilhaços. Em breve, o enxame estava perto o suficiente para que as metralhadoras abrissem fogo sobre eles.

Observei espécimes maiores agora que os combatentes estavam mais próximos. Eles tinham oficiais de um tipo, e um deles me preocupava mais do que a maioria. Ele parecia o duque que meus aliados identificaram, só que com asas.

Se eles têm um dos seus dois duques, podemos estar em apuros.

Um minuto depois, o enxame estava sobre nós.

Uma verdadeira saraivada de balas os atingiu, derrubando muitos. Sangue e partes do corpo caíram como chuva na terra desolada abaixo. A saraivada de tiros constantes era ensurdecedora e, lá fora, vi os canos das metralhadoras superaquecendo devido à atividade incessante. O céu se transformou em uma pintura confusa de formas pretas e os raios brancos de balas traçantes. Os guerreiros da Corte de Sangue morreram em massa, mas havia muitos deles, mais do que eu pensava ser possível. Talvez eles tenham cruzado a fronteira com prioridade. Em breve, os primeiros conseguiram pousar nos cascos das fragatas de escolta e pular nas pontes, onde foram recebidos por fuzileiros navais com armas curtas. Assim que o coração da formação se aproxima, um zumbido cobre até mesmo o estrondo dos canhões.

Uma armada inteira de biplanos mergulhou sobre o inimigo. Suas armas não são as melhores para eliminar alvos pequenos, mas há tantos deles e os guerreiros estão tão densamente compactados que não importa. Como tubarões caçando um cardume de peixes, os aviões de combate humanos esculpiram caminhos sangrentos através da formação, subindo antes de poderem entrar no alcance de seus muitos inimigos. O caos se espalhou pelas fileiras inimigas enquanto seus nobres tentavam ao máximo manter os guerreiros focados nas formas mais fáceis e perigosas dos navios de guerra, mas muitos falharam. Longos rastros de guerreiros voadores foram atrás dos biplanos em uma tentativa inútil de alcançá-los. Infelizmente, alguns dos caças eram lentos demais para ganhar altitude e caíram sob a maré de carne. Seu sacrifício nos deu tempo suficiente para infligir baixas devastadoras no enxame.

“O Zéfiro ordena que apertemos a formação”, meu capitão me disse.

“Vou assumir o controle dos sistemas frontais”, respondi. “Coloque todos os homens no convés.”

“Já está feito.”

Dentro do sarcófago, uma alavanca surgiu de baixo do espelho, cortesia da tecnologia de Constantine. Eu a usei para mirar no oficial mais próximo. Um assobio, um rugido, e a lança mágica gritou, enviando um raio azul de energia para a criatura alada.

Ela explodiu de forma bastante agradável.

Infelizmente, uma das fragatas italianas na nossa frente caiu em chamas, logo seguida por um cruzador francês. Fumaça densa seguiu os titãs feridos enquanto eles caíam até a morte. Com os navios mais próximos, o fogo intensificou. Uma boa metade dos navios foi abordada agora, mas eles nunca pararam de disparar. Observei o duque liderar o núcleo sólido de suas tropas moribundas em direção ao Zéfiro. Ir atrás do maior navio faz sentido, eu acho.

“Nos aproxime do Zéfiro”, ordenei.

“Isso nos colocará ao alcance do enxame.”

“Você pode segurar a ponte?”

“Sim.”

“Então vá.”

A Fúria acelerou e mirou para cima e para a direita, indo em apoio ao navio-bandeira sitiado. Não fomos os únicos a fazer isso. Cruzadores e fragatas mais leves fecharam fileiras, arriscando o embarque para repelir os atacantes. Mais biplanos se viraram para outro mergulho. O fogo que caiu sobre o grupo do duque foi impressionante.

“Estamos os destruindo”, o espião exultou.

Não tenho tanta certeza.

O duque pousou na ponte do Zéfiro. Posso ver sua cauda daqui. Ele fala em voz baixa, invocando a magia primordial da Corte de Sangue. Fuzileiros navais reais afastam seus homens com sua coragem e suas baionetas, mas posso dizer que isso não será suficiente. Uma coroa de fogo se expande da forma alada e toda a frente do enorme navio de guerra é pega em um inferno furioso. As velas principais falham e o navio imediatamente mergulha para frente. O massacre recomeça na ponte danificada.

A Fúria se aproxima e os guerreiros agora se aglomeram em nossa direção, um alvo fácil que ousa se aproximar. Meus soldados cobrem a ponte e os matam tão rápido quanto podem se aproximar com seu excelente equipamento, uma parede disciplinada contra uma maré furiosa. Posso ouvi-los brincando enquanto matam. Boas pessoas. Eu atiro nas multidões o mais rápido que posso enquanto outros artilheiros usam os sistemas laterais. Apesar disso, o dano se acumula nas velas. Algo está roendo as cordas.

Uma sombra cai sobre nós e uma saraivada estrondosa derruba todos os inimigos que chegam. Me viro para ver a fragata italiana Sirio correndo para nos dar alguns segundos preciosos.

Limpamos a ponte do Zéfiro, dando-me uma visão completa do duque. Alinhei uma série de tiros e o ataquei enquanto ele invocava fogo novamente. O tiro o perfurou, para sua surpresa. Ele rugiu.

Agora posso ver que ele ainda estava ileso até agora. Ferro derretido repousa a seus pés em pequenas poças. Um problema de balas, como sempre com criaturas altamente mágicas.

Parece que ele nos identificou como uma grande ameaça.

“Temos algo chegando!”, avisei o capitão.

“Eu vejo.”

O duque se levanta, o torso devastado por nosso ataque. Ele voa direto para nós sob uma enxurrada de balas. Algumas delas conseguem machucar suas asas, mas o fogo o leva até nós.

“Vire para bombordo, agora. Acelere na minha marca”, disse o capitão.

Observei a criatura enorme se aproximar de nós com um grito de fúria ferida. Eu o acertei mais duas vezes, mas ele não pode mais ser parado.

“Impulsionadores, agora!”

Magia e gasolina são despejadas no motor e a Fúria desvia como nenhum outro navio, desviando do duque. Eu o ataco enquanto ele nos erra, na frente, depois no lado e depois nas costas. Ele cai e… não morre.

Um biplano vermelho vai atrás dele em um mergulho sem sentido. Bem, desejo-lhes boa caça. Com o duque fora, a maior parte de seu enxame se dispersa ou mergulha. Quanto a nós, seguimos a forma em chamas do Zéfiro enquanto ele mergulha em direção ao portal. Ele irá cair bem ao lado dele.

As nuvens baixas se separam diante de nós e percebo que… não somos os primeiros na cena. Engrenagens estranhas, mas brilhantes, que parecem carros blindados com armas lideram uma formação de infantaria em direção ao portal e, enquanto observo, os vampiros se engajam. Parece que Mask se juntou à luta do outro lado.

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