
Capítulo 758
O Caçador Primordial
Pietra examinou o estoque recém-chegado, selecionando as melhores sedas que restavam. A maioria já havia sido escolhida pelas outras costureiras, e Pietra se sentiu sortuda por ter encontrado algo com que pudesse trabalhar.
Caso contrário, seria difícil juntar dinheiro para comprar a liberdade delas, sem falar nas taxas mensais.
Colocando tudo o que conseguiu em sua bolsa espacial, ela pagou na saída do depósito antes de ir para casa. Alugar uma bolsa espacial havia ficado bem mais barato recentemente, já que seu clã tinha muito menos membros do que antes.
A caminho de casa, ela não conseguiu evitar espiar a pequena residência de sua vizinha. Ela parecia pior a cada dia, devido à falta de manutenção, mas Pietra não podia dizer nada. Elas haviam perdido o patriarca da família e, consequentemente, sua posição, apesar dele ser o filho mais novo de um ancião… enfim, tudo isso era coisa do passado.
Chegando em casa, Pietra sorriu assim que abriu a porta, lutando contra o cansaço.
“Mamãe!”, gritou sua filha mais nova, levantando-se do pequeno banco e correndo em sua direção.
“Oi, meu amor”, Pietra disse com um sorriso radiante, ajoelhando-se e abraçando a filha.
Abraçando forte sua filha, ela olhou pela pequena janela para a casa da vizinha e, lá dentro, viu uma elfa alta, mas muito magra, sentada diante de uma pequena mesa de trabalho, com os olhos sem vida. Pietra não pôde deixar de suspirar ao ver aquilo, abraçando sua filha ainda mais forte.
Deliah era realmente uma alma infeliz. Ela havia perdido não apenas seu marido, mas também sua filha mais velha, devido a uma infeliz coincidência quando a Ordem do Maléfico assumiu o controle. Já faziam alguns anos que isso havia acontecido, e mesmo que houvesse havido algumas mudanças para o clã, isso não havia afetado muito os membros comuns. Eram mais os líderes que tinham que lidar com as novas regras.
As coisas estavam bem ruins no início. Assim que a Ordem assumiu, eles exigiram que o clã enviasse um certo número de indivíduos de graus E e D para a Ordem a cada mês e ano, respectivamente. Isso acabou bem rápido, porém, e desde então, eles só eram obrigados a pagar impostos.
Claro, se eles não pagassem os impostos exigidos, a Ordem compensaria a diferença pegando algo de valor equivalente – na maioria das vezes, alguns escravos. O que, honestamente, era sair barato, considerando que todos eram escravos da Ordem para começar, embora Pietra imaginasse que eles eram considerados tipos diferentes de escravos daqueles levados para a Ordem? Afinal, os membros do clã não tinham nenhum contrato.
Por isso todos tinham que contribuir, e como viúva, Deliah tinha que contribuir a mais, já que seu marido não podia. Seus filhos restantes não eram velhos o suficiente para contribuir muito ainda, e como ela era responsável por eles, ela tinha que pagar a parte deles.
Honestamente, era um milagre ela ainda não ter entregado nenhum deles para a Ordem. Pietra já tinha dificuldades suficientes como mãe solteira, pagando para sua filha e para si mesma, e mesmo que Deliah fosse uma joalheira talentosa que podia usar algumas das muitas gemas brutas encontradas nas minas, ela devia estar tendo dificuldades para sustentar quatro pessoas sozinha.
“Mamãe?”, sua filha interrompeu seus pensamentos.
Pietra sorriu e balançou a cabeça enquanto se levantava e olhava para sua filha. “Eu estava só pensando em coisas de gente grande. Agora, o que você quer para o jantar?”
Deliah tossiu, contendo a dor. As crianças ainda estavam na pequena academia que o clã havia estabelecido, então ela tinha que terminar o trabalho antes que elas chegassem em casa. Depois de um momento de hesitação, ela pegou uma poção em uma gaveta de sua escrivaninha. Era a última, mas ela estava com poucos recursos para continuar.
Ela não havia conseguido regenerar totalmente sua energia e mana há vários meses, e isso estava começando a afetar sua saúde. A curandeira havia dito que ela corria o risco de sofrer danos menores na alma devido ao esforço excessivo, mas ela não tinha escolha. Assim, ela rapidamente bebeu a poção, ignorando o gosto ligeiramente rançoso de um produto de baixa qualidade. Produto de baixa qualidade, mas barato.
Seu marido tinha sido um D de nível máximo, o que havia dado à família uma posição respeitável na hierarquia social, sem mencionar quem era o pai do seu marido. O fato de seu sogro ser um ancião do clã havia ajudado, pelo menos, a permitir que as crianças entrassem na academia para aliviar um pouco a pressão sobre Deliah, e se tudo corresse bem, todos tinham grandes chances de atingir o grau D. Supondo que a própria Deliah pudesse continuar a sustentá-los… algo que ela faria de tudo para conseguir.
Não importava quantos anos se passassem, ela ainda não conseguia se perdoar pelo que havia acontecido com sua filha mais velha. Seu marido insistira que Meira seria a saída deles do clã e um caminho para uma vida melhor, e Deliah não havia feito o suficiente para tentar convencê-lo do contrário ou proteger sua filha.
Apesar de sua relutância inicial em concordar com o marido, talvez a própria Deliah tivesse começado a acreditar que casar com um jovem mestre do Conglomerado Enxofre seria um destino melhor do que ficar no clã pelo resto de sua vida. Ela seria escrava nos dois lugares, mas pelo menos tinha uma chance, por menor que fosse, de um futuro brilhante como noiva de um jovem influente. Meira era inteligente e uma curandeira talentosa, então, contanto que o jovem mestre gostasse dela, ela definitivamente poderia atingir o grau D.
Agora, nada disso importava. Deliah concordara em deixar seu marido levar Meira para conhecer o jovem mestre, e o resto era história. O Conglomerado Enxofre havia sido destruído, deuses haviam caído, e ela havia perdido sua filha mais velha e seu marido. O que piorava tudo era que ela só conseguia se culpar, pois culpar facções tão poderosas e inexplicáveis como a Ordem era totalmente inútil.
Então Deliah ainda não havia se perdoado por deixar Meira partir naquele dia. Na noite anterior a Meira e seu marido irem ao ramo do Conglomerado, Meira dissera a sua mãe que não tinha certeza se queria ir e se não podia simplesmente ficar em casa e trabalhar como curandeira para os mineiros… e Deliah foi quem a convenceu de que era melhor seguir o pai.
Ela efetivamente enviou sua filha para a morte. Sem querer, mas foi o que ela fez. Pelo menos se ela tivesse ficado no clã, ela ainda estaria viva. Principalmente agora que a Ordem pelo menos oferecia uma maneira de ganhar a verdadeira liberdade comprando uma passagem para outro lugar…
Por isso Deliah não desistiria de nenhum de seus filhos. Ela não havia lutado o suficiente por Meira, e não havia como deixar seus irmãos mais novos e suas duas irmãs mais novas na mesma situação. Quem sabe, talvez ela pudesse até tirá-los do Grande Planeta e levá-los para um lugar seguro um dia.
Então ela trabalhou. Tudo o que ela podia esperar agora era que seu corpo aguentasse até que os três pudessem começar a se sustentar, e o resto era apenas esperança. Mas por seus filhos, valia a pena pelo menos tentar.
Tanyl e Sakala eram suas duas caçulas. Eles eram gêmeos, um menino e uma menina, ambos tendo acabado de completar vinte anos naquele ano e ambos no nível intermediário E. Elfos tendo gêmeos era incrivelmente raro, e embora Deliah soubesse que isso era considerado relativamente comum entre humanos e até mesmo meio-elfos, isso havia sido uma grande surpresa para ela e seu marido. Eles nunca tinham planejado ter mais de três filhos, mas acabaram tendo quatro. Apesar das dificuldades que isso trouxe, Deliah nunca havia visto os dois como algo além de bênçãos.
Kythela era a irmã mais velha. Ela era apenas quatro anos mais velha que seus dois irmãos e também estava no nível intermediário E. Meira era bastante mais velha que os gêmeos e sua irmã, e sendo mais talentosa, estava próxima do grau D antes de falecer. Deliah também sabia que nenhum de seus filhos havia superado completamente a perda do pai e da irmã mais velha, o que era parte da razão pela qual eles trabalhavam tanto ultimamente.
Horas se passaram, e Deliah finalmente conseguiu terminar seu trabalho do dia. Sua cota era alta, mas ela conseguia. Além disso, recentemente, ela até subiu alguns níveis. Ela acreditava que já havia esgotado todo o seu potencial, então isso havia sido uma surpresa bem-vinda e a ajudou a fazer seu trabalho mais rápido e melhor. Ela ainda estava apenas no nível intermediário D, mas isso já era considerado muito bom dentro do clã.
Olhando para o céu lá fora, ela ainda tinha um pouco de tempo antes das crianças chegarem em casa, então ela foi tirar uma soneca rápida. Ela receberia outra encomenda por volta da noite e tinha mais joias para completar enquanto todos dormiam, então ela tinha que tentar restaurar seus recursos agora para poder fazer seu trabalho mais tarde.
Ela mal havia conseguido se deitar e fechar os olhos quando ouviu uma confusão na porta. Com um breve olhar pela janela, ela viu que havia passado cerca de uma hora, mas ela ainda se levantou apressadamente assim que a porta se abriu.
“Chegamos!”, Kythela gritou alto o suficiente para que até os vizinhos ouvissem. Não era como se a casa delas fosse grande, tendo apenas três quartos no total, então gritar era totalmente desnecessário.
Deliah não a repreendeu, porém, e foi rapidamente até a porta, onde viu seus três filhos entrarem com um homem mais velho. Ele era alto e bem-construído, com sobrancelhas espessas e barba curta, transmitindo uma certa aura de poder. Era seu sogro. Claro, mais importante do que isso, era um dos anciãos do clã e um C-grade.
“Saudações, ancião”, Deliah fez uma reverência enquanto o homem entrava com suas crianças.
“Não precisa ser tão formal, Deliah”, o homem mais velho sorriu.
Ela levantou a cabeça e viu seu sogro olhar ao redor da casa enquanto reprimia um suspiro. Deliah sentiu-se um pouco envergonhada com o estado dilapidado de sua casa, e ela teria limpado se soubesse que teriam visitantes. No entanto, ela também sabia que o ancião não estava suspirando por decepção, mas sim por impotência.
Alguém poderia pensar que, como ancião, ele teria o poder de mudar as coisas ou ajudar, mas na realidade, era um título vazio que quase não fazia nada. Uma única palavra de um membro da Ordem da Víbora Maléfica superaria qualquer coisa que ele dissesse ou fizesse, e as regras da Ordem eram muito claras de que cada família tinha que contribuir por conta própria, nem mesmo permitindo que ele pagasse seus impostos.
Ele ainda ajudava onde podia, mas era incrivelmente limitado.
Deliah os convidou para entrar e se preparou para pegar algo para beber quando um arrepio repentino percorreu sua espinha. Ela congelou no meio do movimento, toda a sua família fazendo o mesmo. Na verdade, em todo o clã, eles experimentaram isso ao mesmo tempo.
Uma aura havia caído sobre o clã.
“Saiam!”, o ancião gritou enquanto Deliah fazia exatamente isso, conduzindo suas crianças para fora com ela. Lá fora, ela viu sua vizinha Petria também sair correndo, segurando a mão de sua filha. Em uníssono, elas olharam para cima e viram o que parecia ser a chegada do apocalipse.
O céu se abriu quando o espaço se estilhaçou, o mundo inteiro tremendo. Era uma visão semelhante ao que o clã também havia visto alguns anos atrás, e todos sabiam o que isso significava… alguém poderoso estava chegando. Alguém influente.
Sairam várias pessoas, e antes que Deliah tivesse chance de fazer ou dizer algo, seu sogro já havia disparado para o ar junto com outras oito figuras de diferentes lugares do clã. Eram os nove anciãos, seus únicos C-grades. No entanto, eles não tinham subido para lutar.
Em vez disso, eles pararam no meio do ar, não muito longe do buraco no espaço, enquanto uma única figura saía depois de vários que pareciam ser guardas. De baixo, Deliah não conseguia ver quem ou o que havia aparecido, mas palavras pareciam ser trocadas, e apenas um minuto depois, uma ordem em todo o clã foi dada.
Cada membro de seu clã tinha que se reunir… pois estava prestes a ser feito um anúncio sobre seu futuro.
Não havia como questionar essa ordem, nenhum protesto. Tudo o que eles podiam fazer era obedecer. Nos minutos seguintes, todo o clã se reuniu na grande praça central da aldeia principal do clã. Mulheres, crianças, homens, jovens e velhos. Todos estavam presentes enquanto observavam o que acontecia no céu acima.
De uma grande rachadura no espaço flutuou uma grande plataforma de pedra cinzenta com centenas de pessoas nela e o que parecia ser um pódio no meio. Olhando para as pessoas ali, Deliah as reconheceu. Ela tinha visto uma antes.
Eram policiais da Ordem da Víbora Maléfica. No entanto, da última vez que ela viu um, só havia aquele. Mas… aqui, havia centenas. Cada um deles era um B-grade, capaz de dizimar qualquer um dos pequenos clãs nesta seção inteira do Grande Planeta. Além disso, havia o líder deste grupo. Um dragônico com escamas pretas e verde-escuras irradiando poder muito além de qualquer um dos outros.
Ela havia ouvido falar desses seres. Era um Dragônico Maléfico, um ser intimamente conectado e sempre abençoado pela própria Víbora Maléfica. Era também este homem a origem da aura que havia congelado todo o clã.
Por que alguém assim está aqui? Deliah se perguntou enquanto um arrepio percorreu sua espinha. Eles tinham feito algo errado… algum idiota havia provocado a Ordem do Maléfico de alguma forma?
“Seu… seu sogro disse alguma coisa?”, Pietra, que estava ao lado de Deliah e de seus filhos, perguntou em tom preocupado.
“Não… ele não sabia nem tinha ouvido falar de nada também”, Deliah balançou a cabeça e respondeu em um sussurro baixo sem tirar os olhos da plataforma acima.
“Então o que você acha que é-“
“Shh!”, uma terceira pessoa os silenciou, Deliah concordando que ficar em silêncio provavelmente era melhor. Chamar a atenção não era algo que ninguém queria, e embora Deliah estivesse curiosa, questionar em voz alta não ajudaria ninguém.
Na plataforma acima, o dragônico que parecia ser o líder deu um passo à frente.
“Hoje, estamos aqui para celebrar uma ocasião alegre. Uma mudança em seu estilo de vida. A única discípula e Escolhida do Grande Ancião Folhas-Sombrias reivindicou o Clã Bosquenevado a partir de hoje”, o Dragônico Maléfico disse em uma voz que ecoou tão alto que cada pessoa ouviu.
Deliah ficou ainda mais confusa ao ouvir isso. Por que uma Escolhida estava neste clã mineiro esquecido, e por que eles o reivindicariam? Havia algo que eles não sabiam?
Com um gesto de sua mão, o Dragônico Maléfico invocou um mar de gemas que rapidamente se reuniram para formar um portal retangular antes de se afastar.
Todos se ajoelharam quando o portal foi ativado. Até mesmo o Dragônico Maléfico se ajoelhou enquanto se preparavam para receber alguém claramente reconhecido como seu superior. Em uníssono, toda a multidão também se ajoelhou, com alguns até mesmo se prostrando completamente. Deliah naturalmente fez o mesmo, mantendo seu olhar firmemente direcionado ao chão.
“Todos bem-vindos, a honrada Senhora Folhas-do-Amanhecer!”
Uma nova aura apareceu naquele momento. Uma claramente amplificada pela plataforma acima.
“Uma alta elfa…” Pietra murmurou ao seu lado, sentindo a diferença qualitativa entre uma elfa comum e uma alta elfa.
No entanto, Deliah nem havia percebido o aspecto da alta elfa. Em vez disso, sua cabeça havia se voltado devido à familiaridade da presença da pessoa que acabara de sair do portal.
Ela era uma alta elfa alta, vestindo um vestido branco com joias mínimas. Deliah só olhou para o rosto desta elfa, e apesar da distância, ela a reconheceu… mesmo que uma ponta de dúvida ainda permanecesse.