
Capítulo 562
48 horas por dia
Akane se abaixou e mergulhou a mão na água da piscina, gelada e revigorante.
A cachoeira Otowa do Templo Kiyomizu era famosa em todo o Japão. Dizia-se que a água da fonte possuía *reiki*, ou energia curativa, e era excelente para o preparo de chá. Havia uma casa de chá não muito distante, pertencente a uma senhora idosa gentil e agradável.
“Você está com fome? Caminhamos bastante. Vamos comer alguma coisa”, disse Akane, mantendo a expressão mais séria que conseguiu. “Boa ideia.”
Zhang Heng estava perplexo. O que ele havia feito de errado? Por que ela estava tão distante durante a caminhada até ali? Ele ponderou por um instante e disse: “Já que você está me oferecendo sushi, deixe-me oferecer um chá.”
Akane não respondeu enquanto o casal seguia para a casa de chá com cortinas *noren* azuis.
Um garçom os recebeu.
“O que desejam hoje?”
Zhang Heng procurava um lugar para sentar quando Akane deu um grito. “O que você está fazendo aqui?!”, ela exclamou.
Zhang Heng se virou e viu que Akane estava falando com um jovem.
Zhang Heng o reconheceu imediatamente. Ele era exatamente como Akane o havia descrito – realmente tinha um brilho e uma ingenuidade únicos. Considerando sua idade e o sangue em suas mãos, essas qualidades eram ainda mais preciosas, algo além da lógica e da razão.
No entanto, sob o olhar de Akane, o jovem parecia nervoso e envergonhado; seus olhos imploravam que ela não o pressionasse mais.
Akane ergueu uma sobrancelha, alheia ao seu pedido. “O que a Shinsengumi está fazendo aqui? Este é um lugar sagrado. É melhor não causar problemas aqui.”
“Não, não, não. A senhora está enganada”, o jovem gesticulou em negação, lançando olhares nervosos para a entrada da casa de chá. “Isso não tem nada a ver com a Shinsengumi. Vim aqui sozinho.”
“Hã?”
Sua resposta só aumentou a suspeita de Akane. Sua atitude a fez pensar que ele planejava emboscar alguém. Será que a Shinsengumi descobriu que algum líder importante do *Tobaku* estava visitando o local?
“Ah, não é bem o que a senhora pensa”, protestou o jovem. No minuto seguinte, como se tivesse visto algo do lado de fora da casa de chá, suas bochechas ficaram vermelhas e ele desviou rapidamente o olhar. Akane queria interrogá-lo mais a fundo. Ela não se importava com a má vontade entre a Shinsengumi e os anti-shogunato, mas se eles iriam cruzar espadas, era melhor não ser aqui no templo, ou o antigo santuário seria pego no fogo cruzado.
Mas antes que ela pudesse fazer mais perguntas ao pobre rapaz, alguém a agarrou pelo braço.
“Vamos procurar um lugar para sentar primeiro. Não sei que tipo de chá devemos pedir”, interrompeu Zhang Heng.
“Ah!”, Akane quase pulou da cadeira; sua mente ficou em branco e o calor em sua palma fez com que todas as emoções confusas que ela tentara suprimir aflorassem. Sua cabeça parecia que ia explodir.
Atordoada, ela seguiu Zhang Heng até uma mesa desocupada. Naquele momento, uma jovem e uma senhora idosa entraram. Se a resolução de Akane era como uma espada forjada ao longo dos séculos, a jovialidade da jovem era o sol de março. Quando ela entrou na pequena casa de chá, o lugar inteiro se iluminou.
O jovem da Shinsengumi abaixou o rosto, parecendo embriagado, embora a casa de chá não servisse álcool.
A jovem não olhou para o estabelecimento, mas pediu um bolo de arroz para viagem ao garçom. Depois, agradeceu em voz suave e gentil e saiu.
Só depois que sua figura desapareceu pela porta o jovem se sentou novamente, olhando fixamente para a xícara de chá diante dele, com expressão desanimada.
Akane se divertiu. “Quem é ela?”
“Ah?” O jovem balançou a cabeça, parecendo envergonhado. “Eh, eh... nunca perguntei. A vi na casa do Dr. Tezuka.”
Entre uma coisa e outra, ele tampou a boca e tossiu. O rubor em seu rosto só aumentou. Ele tinha ouvido dizer que a garota viria à cachoeira Otowa, então foi até lá escondido e esperou.
Para sua surpresa, Akane não criticou suas ações.
Depois de um minuto, o jovem perguntou: “Ele é seu homem?”
Foi a vez de Akane ficar nervosa.
“Que absurdo você está falando?!”, ela rosnou ameaçadoramente.
O jovem ficou surpreso, pois Akane parecia que o despedaçaria. Ele não pôde deixar de compará-la à Srta. Saya, que era muito mais gentil e doce.
“Okita Sōji?” Alguém chamou seu nome.
“Hm?” ele respondeu instintivamente. Ao ver o homem que veio com Akane o chamando, perguntou: “Como sabe meu nome?”
“O melhor espadachim da Shinsengumi. Há muitos boatos sobre você circulando em Kyoto”, respondeu Zhang Heng. Interiormente, ele suspirou aliviado.
Okita Sōji era provavelmente a única pessoa sensata em toda a Shinsengumi. Não quer dizer que ele matou menos pessoas, mas, na verdade, aqueles que morreram por sua espada não eram menos importantes do que seus camaradas. No entanto, ele era favorecido pelo comandante Kondo Isami, disposto a fazer tudo o que seu líder o mandasse sem fazer perguntas, e, como resultado, conseguiu permanecer ileso.
Ele era a espada mais afiada de Kondo Isami, e as espadas não faziam distinção entre o bem e o mal. E para citar Hijikata Toshizō, isso poupa o trabalho de se angustiar com assuntos triviais.
Infelizmente, este espadachim número um da Shinsengumi, apelidado de “espada divina de Bakumatsu”, não tinha muitos dias de vida. Não havia cura para sua tosse crônica (tuberculose) nessa época. Se Zhang Heng se lembrava corretamente, no ano seguinte, no 30º dia do quinto mês, no calendário lunar, seria o dia de sua morte.
Mas agora, ele era como qualquer outro jovem, apaixonado secretamente por garotas e vindo até o templo Kiyomizu apenas para dar uma olhada nela.
“Eu não sou nem de perto o melhor espadachim... o senhor é muito gentil. Sensei de Kendo, Hijikata e Oishi Kuwajirō — todos são melhores do que eu”, disse Okita humildemente.
“Quando você está livre? Passe no dojo e teremos um duelo”, disse Zhang Heng.
Gerações posteriores pintaram Okita Sōji como um gênio talentoso que morreu jovem. Embora ele tivesse apenas pouco mais de vinte anos, muitos acreditavam que ele era o melhor espadachim da Shinsengumi e de todo Kyoto. Como Zhang Heng poderia perder a chance de ter um duelo com alguém como Okita? Além disso, ele também estava interessado em descobrir o que significava ser o melhor espadachim dessa época.
“Claro”, Okita concordou prontamente. “Mas temo que não seja em breve. Tenho alguns assuntos importantes para resolver. Mas assim que estiver resolvido, irei vê-lo no dojo.”
“Tem algo a ver com aquela mulher agora mesmo?”, perguntou Akane. “Ah, não, não. Era tudo negócios.” Okita corou.
Nota do tradutor:
Cortinas *noren*: divisórias de tecido tradicionais japonesas penduradas entre cômodos, em paredes, em portas ou em janelas.