
Capítulo 561
48 horas por dia
Quando Zhang Heng voltou, encontrou Akane agachada perto de uma bacia de madeira preparando nigiri sushi.
Nigiri sushi, arroz de sushi prensado à mão coberto com fatias de peixe fresco, era considerado um prato mais luxuoso. Diz a lenda que Tokugawa Ienari, o décimo primeiro shogun do shogunato Tokugawa, era um homem ganancioso e lascivo. O pai adotivo de sua concubina favorita era um homem chamado Sekio Nakano. Graças à multidão de pessoas querendo se tornar altas autoridades por meio de Sekio, muitas lojas de luxo foram instaladas perto de sua residência. O dono de um restaurante de sushi teve a ideia de montar um negócio vendendo nigiri sushi ao lado da casa de Sekio. (Francamente, não era tão sofisticado assim, mas a moda logo pegou e barracas começaram a ser montadas nas ruas).
“É o jantar de hoje?”, perguntou Zhang Heng, colocando os macarrões soba e as bolinhas de arroz glutinoso assadas na mesa. Ele já havia comido o oden no caminho de volta.
“Não. Vou visitar Kiyomizu-dera amanhã. Isso é para amanhã”, respondeu Akane.
Zhang Heng já tinha ouvido falar do famoso templo localizado na Montanha Otowa, a leste de Kyoto. Construído em 778 d.C., era o templo mais antigo de Kyoto. Embora o edifício tenha resistido a incêndios e reconstruções, a paisagem de lá não era menos deslumbrante. Os visitantes subiam a encosta da montanha para admirar as cerejeiras em flor na primavera e as folhas de bordo no outono. Em gerações posteriores, Kiyomizu-dera foi incluído no Patrimônio Mundial e, desde então, tornou-se uma das atrações imperdíveis de Kyoto.
“Você vai ver as cerejeiras? Posso ir junto?”
“Hum, algo assim.” Akane assentiu lentamente. De alguma forma, a pergunta a fez corar um pouco. “Você não precisa fazer seu trabalho de tradução?”
“Tudo bem. Meu empregador geralmente não levanta antes do meio-dia. Se você vai ficar lá por um tempo, eu só saio antes.”
“Ah, ok. Então me ajuda a fazer mais nigiri.”
“Obrigado.”
Zhang Heng tinha viajado muito por Kyoto com Gabriel, mas o comerciante francês tinha preferência por lugares que ofereciam comida, bebida e diversão – ele não estava interessado em santuários e templos. Em contraste, Zhang Heng, que nunca tinha estado em Kyoto, estava muito interessado em ver como era o Kiyomizu-dera, com seus séculos de história. Já que Koyama Akane ia, ele pensou que podia muito bem ir junto.
Na manhã seguinte, antes do sol nascer, Akane bateu na porta do quarto de Zhang Heng.
Quando ele abriu a porta, Akane carregava uma lanterna e a caixa de nigiri sushi que eles tinham preparado na noite anterior.
Como iam ao templo, ela estava com um quimono formal com vermelho, azul, amarelo e branco, preso com um obi. Nos pés, usava tabi* e zori*.
Como passava a maior parte do tempo no dojo, ela sempre estava vestida com o dogi* e hakama*. Era a primeira vez que Zhang Heng via Akane fora do uniforme. Ela realmente parecia feminina, e ele não pôde deixar de olhar um pouco.
A encarada deixou Akane um pouco desconfortável. “O quê?!”
Ela abaixou a lanterna, tentando esconder o rosto na escuridão, e disse severamente: “Apressa-se e se arrume. Vamos sair em breve.” “Tudo bem. Vou me trocar.”
Zhang Heng desapareceu em seu quarto novamente. Akane começou a exalar, mas Zhang Heng de repente se virou novamente e perguntou: “Er... o que devo usar no templo?”
“O que você quiser. Só não leve sua espada.”
“Ok.”
Akane observou Zhang Heng entrar no quarto – ele tinha esquecido de fechar a porta atrás de si, e por um minuto, ela não sabia o que fazer. Embora não pudesse ver nada de onde estava, ela podia ouvir o farfalhar do tecido enquanto ele vestia suas roupas. Seu rosto corou, e ela queria se afastar da porta, mas temia que isso a fizesse parecer suspeita.
Na verdade, ela estava um pouco estranha. Sua mãe havia morrido jovem, então Akane cresceu no dojo; além do pai, ela sempre esteve cercada por alunos do dojo – a maioria deles homens. Ela treinava com eles, inevitavelmente, havia algum contato físico, mas ela nunca se incomodou com isso. Mas por que ficar aqui na porta a deixava tão nervosa?
Será que sua roupa de hoje estava um pouco incomum?
Mas quando seu pai ainda estava vivo, quando eles visitaram Kiyomizu-dera juntos pela última vez, ela estava com a mesma roupa, e tinha o hábito de visitar o Templo Kiyomizu nessa época do ano.
Este ano, porém, era diferente porque alguém mais iria com ela.
Zhang Heng rapidamente trocou de roupa e lavou o rosto com a água fria do poço. Comparado à Akane bem vestida, ele não parecia diferente do que costumava fazer, realmente fazendo o que ela disse e vestindo suas roupas de todos os dias.
“Vamos.”
Akane abriu caminho, e Zhang Heng a seguiu de perto.
Como ambos eram artistas marciais, eram leves nos pés, e em pouco tempo, já estavam em Niomon. Zhang Heng olhou para cima e viu o portão laqueado de vermelho-vivo. O primeiro raio de sol da manhã caiu no canto da torre do portão, e ele emanava uma aparência solene, porém divina.
Daqui, o caminho de pedra sinuoso se estendia para cima até o portão oeste. Atrás dele ficava a pagoda de três andares e o kaisan-do, e através de um corredor, ficava o famoso Palco Kiyomizu construído em um penhasco.
De lá, se tinha uma vista de tirar o fôlego das cerejeiras em flor. Embora houvesse uma no lugar onde Zhang Heng estava morando, nada se comparava à visão das árvores quando agrupadas. A partir deste ponto, a cidade imperial de Kyoto com o salão atrás dela sustentado por 139 enormes pilares de madeira era claramente visível, tornando-a uma visão extraordinária. “A vista daqui é espetacular”, disse Zhang Heng. “Ouvi pessoas falando sobre as cerejeiras no templo Kiyomizu, e agora que vi, tenho que dizer que certamente faz jus à sua reputação.”
Akane murmurou um acordo, mas seu corpo ainda parecia um pouco rígido.
Sua jornada até lá tinha sido irritante. Sempre que ambos caminhavam lado a lado, ela se sentia sem jeito, e sempre que acelerava o passo, ela se perguntava se Zhang Heng estava a observando. Quando ela se virou e o viu admirando a vista, ela se sentia um pouco desapontada. Ela sentia que estava ficando louca o caminho todo.
Felizmente, eles chegaram rapidamente ao salão principal onde ela pôde orar a Guan Yin, resolvendo suas emoções caóticas. Akane se perguntou o que estava errado consigo mesma naquele dia, até mesmo tentando meditar para acalmar os pensamentos perturbadores em sua mente.
Depois disso, os dois passearam pelo palco, desceram pela trilha da floresta até o vale abaixo. Caminhando por uma floresta de bordo, os dois logo chegaram a Otowa-no-taki, que literalmente se traduz como Som de Penas.
Embora fosse chamado de "taki", na verdade não era uma cachoeira. Em vez disso, havia apenas três pequenos riachos de água fluindo pelas rochas. Era só o amanhecer, mas algumas pessoas já estavam lá, pegando a água.
Nota de rodapé do tradutor:
Tabi: meias japonesas usadas com calçados com tiras.
Zori: um estilo tradicional japonês de sandálias, originalmente feitas com sola de palha.
Dogi: uniforme para treinamento em artes marciais japonesas.
Hakama: um tipo de roupa tradicional japonesa.