
Capítulo 497
48 horas por dia
Zhang Heng se aproximou do local da discussão, onde um músico cigano estava entre uma casa judaica e alguns homens brutamontes.
“Isso é demais! O homem dessa família acabou de cair de um andaime há pouco tempo. Olhem só o estado da perna dele! Ele está sem trabalhar há dois meses. Ele não pode atrasar o aluguel em meio mês? Vocês precisam mesmo despejá-los?”, perguntou o músico cigano, incrédulo.
Zhang Heng também notara que o homem tinha uma tala de madeira na perna. Os móveis e pertences da família haviam sido arrastados para fora da casa e jogados na rua, deixando toda a família em desespero. Seus pertences eram tratados como lixo: uma cama de madeira velha e surrada, panelas e utensílios gastos, e um sofá com uma perna quebrada. Ninguém sabia de onde eles tinham tirado todas aquelas coisas. O cavalinho de madeira sujo que a menina abraçava com força era provavelmente o único brinquedo que ela tinha.
“Pagamentos em dia, essa é a regra aqui”, proclamou o corcunda severamente.
“Somos todos gente razoável. Pode perguntar à família. Dei a eles uma semana de prazo. Acham que devo fazer isso de novo? Já disse que muita gente está procurando casas aqui. Alguém acabará alugando minha casa mesmo que não possa pagar. Não vou perder dinheiro de jeito nenhum.”
“Mas eles estão morando aqui agora...”
O corcunda interrompeu o músico com um gesto impaciente.
“Não me importo há quanto tempo eles estão morando aqui! Eu não tô dirigindo uma instituição de caridade. Se eles não conseguem me pagar, que vão dormir na rua!”
“Você é cruel! Eles têm uma criança aqui; eu imploro a você!”
“A criança é muito nova para trabalhar em fábricas ou minas. É por isso que perdi a esperança neles. Mesmo que façam tudo o que podem e consigam um empréstimo para cobrir o aluguel deste mês, e o mês que vem? Ao mesmo tempo, eles não conseguirão pagar a dívida. E se a dívida não for paga, os credores baterão na porta de novo. Isso certamente causará muitos problemas para meus futuros inquilinos.”
O corcunda continuou friamente: “Uma família do País de Gales está interessada nessa casa. Há dois homens adultos na família deles. O marido e o filho mais velho são muito fortes. Embora o filho mais novo seja magro, ele consegue entrar em chaminés e limpá-las. Por outro lado, a esposa do homem vende flores durante o dia e recebe convidados à noite. Não vai demorar muito para eles economizarem o suficiente para comprar essa casa! O que você escolheria se fosse eu?”
Desta vez, o músico cigano ficou sem palavras.
O corcunda olhou para ele novamente: “Ora, você é novo aqui? Você tem que ser novo aqui. Senão, você não estaria tão intrometido. Olhe para os vizinhos deles. Alguém está disposto a defendê-los? Deixe-me dar um conselho. Se você quer sobreviver aqui, é melhor cuidar da sua vida.”
“Não, já que eu vi, não vou deixar isso de lado.”
O músico cigano abriu a carteira e tirou oito xelins dela.
“Aqui está, são dois meses de aluguel. Vou ajudá-los desta vez.” Depois disso, apontou para o homem da família: “Ele poderá trabalhar novamente depois de dois meses e, naturalmente, poderá continuar pagando o aluguel.”
Foi a vez do corcunda ficar surpreso. Parecia estar hesitante, e ficou ali parado por um tempo, com os músculos contraindo. Depois de um tempo, pegou o dinheiro do cigano.
“Considere-se com sorte desta vez. Vamos”, disse ele, lançando um olhar raivoso para o homem manco.
Depois que eles foram embora, a família judaica agradeceu ao músico cigano com todas as suas forças. Eles tinham acabado de se conhecer e nem eram amigos. Era difícil para eles imaginar como um estranho pagaria o aluguel por eles.
O músico cigano pensou por um tempo, tirou uma moeda de ouro no valor de uma libra e meia da carteira e colocou na mão da garotinha.
“Não se preocupe, a perna do seu pai vai melhorar em breve. E a sua vida também vai melhorar!”, disse ele, piscando para ela.
“Isso...”
A esposa do homem ficou totalmente atônita. Ela não conseguia entender como o músico cigano daria a eles tanto dinheiro.
Antes que ele pudesse dizer algo a ela, o gentil músico cigano já havia partido com o órgão às costas. Logo, ele desapareceu na multidão da rua. Zhang Heng testemunhou tudo o que aconteceu e, depois de pensar um pouco, decidiu seguir o músico cigano.
Ele viu o cigano se movimentando rapidamente pela multidão, aparecendo e desaparecendo de vez em quando. Parou na frente da banca de salmão para conversar rapidamente com o dono antes de se abaixar na frente de um bêbado, gesticulando enquanto amaldiçoava o dono de fábrica sem escrúpulos e a mulher gananciosa. Foi a última vez que Zhang Heng o viu.
Ele perdeu o rastro do músico cigano depois disso.
Zhang Heng ficou em frente a um cruzamento e levantou as sobrancelhas. Ele tinha que admitir que o traçado irregular do East End de Londres era de fato um excelente lugar para escapar sem ser notado. Zhang Heng não ficou bravo ao perceber que havia perdido o músico. Ele só queria lembrá-lo de que alguém estava de olho nele. Agora que ele tinha ido embora, isso poupou Zhang Heng do trabalho. Zhang Heng estava se virando para ir embora quando viu o músico cigano não muito atrás dele. Ele estava indo em sua direção e tinha os olhos fixos em Zhang Heng. “Você está me seguindo?”
“Vou ser direto. Só quero lembrá-lo de que alguém está lhe dando mole”, disse Zhang Heng.
“Por que eu deveria acreditar em você?”
O músico cigano deu de ombros. “Essa região está cheia de ladrões e vigaristas, é um fosso para aqueles com as piores intenções.”
Zhang Heng não se deu ao trabalho de se explicar. Em vez disso, fez um gesto de “por favor”.
O cigano, no entanto, não foi embora imediatamente e revirou os olhos.
“Ah? Alguma sugestão, então?”
“Meu conselho é... não se deixe pegar”, respondeu Zhang Heng. “Você revelou que é rico resolvendo os problemas da família. Eles estão de olho em você agora.”
“Eu sabia! O cara que cobrou o aluguel não é uma boa pessoa.”
“Ele pode não ser quem está atrás de você. Ele está muito familiarizado com esta área e conhece muita gente. Talvez você tenha chamado a atenção de um amigo dele ou de outra pessoa.”
“Isso é muito complicado! Eu só carregava uma libra comigo desta vez. O resto do dinheiro é para meu jantar e a passagem de carruagem.”
Um grupo de estranhos emergiu de repente de um pequeno beco do outro lado da rua. Um deles apontou para ele: “Não fuja, ladrãozinho! Me devolva a carteira que você roubou!”
O cigano ficou exasperado ao ouvir o que eles disseram. Essa gangue de patifes era boa em distorcer a verdade. Eles estavam realmente ali para roubar sua carteira. Ao dizer aquilo, era uma indicação para que outros não interviessem no assunto. Vendo que o haviam cercado, disse nervosamente a Zhang Heng: “Seu conselho parece ter chegado um pouco tarde. Você tem outras sugestões agora?”
“Sim”, disse Zhang Heng enquanto tirava o casaco e o entregava ao cigano, “guarde para mim.”
Este último franziu a testa e pegou o casaco que Zhang Heng havia comprado por dez pence na loja de roupas usadas.
“Como não vejo nenhum policial por aqui, vou nocauteá-los um por um.”
Zhang Heng soltou os punhos.