
Capítulo 205
48 horas por dia
— Como você entrou nesse navio? — perguntou Anne.
Harry ficou em choque quando o encontraram no porão de lenha. Havia um pedaço de pão duro e uma salsicha meio comida ao lado dele. Além disso, havia dois baldes de madeira por perto. Um deles era usado para guardar água limpa e o outro para suas necessidades.
Harry coçou a cabeça, sem saber o que dizer em uma situação dessas.
— Não é à toa que você ficou me implorando pra te trazer no navio esses dias! Você estava planejando entrar escondido o tempo todo, né?
Anne agarrou Harry pela gola e o levantou.
— Nada mal. Você soube se virar e me usar direitinho, hein? Tô vendo que você tá ficando esperto, — rosnou ela.
Harry começou a tremer de medo com a bronca de Anne.
— Calma, chefe. Eu implorei tanto pra você me deixar ir com você. Toda vez você dizia que ia falar com o Capitão Zhang Heng. Mas eu sei que você nunca falou com ele, mesmo prometendo de novo e de novo, por isso tive que achar um jeito de entrar. Sempre foi meu sonho trabalhar nesse navio.
— Você só tem sete anos, moleque! Você precisa entender que não tem idade pra trabalhar em um navio!
— Chefe, eu tenho doze. Olha meu corpo. Impossível eu parecer um guri de sete anos, né?
— É mesmo? Aí, por que eu tenho a impressão de que seu cérebro parou de crescer aos sete? Capitão, segundo as regras do navio, o que a gente costuma fazer com intrusos? — perguntou Anne, se virando para olhar Zhang Heng, que estava perto.
— Ah. Pra evitar problemas, a gente geralmente mata.
— Então parece que essa é a única solução.
Enquanto falava, Anne tirou o sabre da cintura com um sorriso malicioso.
— Você sabe o que aconteceu com o Esqueleto, né?
Harry ficou atordoado com o tratamento bruto. Quando Anne colocou o sabre em seu pescoço, Harry sentiu que estava a um passo da morte. Finalmente, sua última linha de defesa desmoronou, e ele desabou, começando a chorar histericamente, com o nariz escorrendo.
— Chefe, me salva, por favor! A culpa é toda minha. Juro que nunca mais faço isso.
— Hmm. Se for assim, então, que outras maneiras a gente pode puni-lo?
Anne se virou e olhou para Zhang Heng; o sabre ainda grudado na garganta de Harry. Harry estava tão apavorado que não conseguia mexer um músculo.
— Vamos ver quanto ele vale. Podemos trancá-lo como prisioneiro primeiro. Depois, a gente troca ele por algo mais valioso, — sorriu Zhang Heng, entrando na brincadeira com Anne.
— Você ouviu? Você acha que vale alguma coisa pra gente? — perguntou Anne, chutando Harry.
— Não. Eu não valho nada! Tô morando com minha tia. Ela não vai pagar um tostão pra vocês, mesmo que me matem na frente dela!
— Então não me culpe por não te dar uma chance de se redimir.
— Espera... espera... na verdade, eu sou valioso à minha maneira. Eu não como muito, sou muito ágil. E também sou trabalhador. Faço qualquer coisa que vocês pedirem! Tô disposto a limpar o convés, escalar o mastro e aprender a ser um bom timoneiro. Faço de tudo! — disse Harry, batendo no peito.
— Tudo bem. Você pode ficar no navio.
Harry ficou radiante ao ouvir aquilo. Depois, viu Anne rindo dele.
— Não era isso que você mais queria ouvir? Não tem punição pra você. Seu desejo acabou de se realizar.
Sabendo que tinha sido enganado, Harry coçou a cabeça, sem graça.
— Você vai limpar o banheiro e ajudar na cozinha. Vou garantir que você desça do navio quando voltarmos a Nassau, — continuou Anne.
— Ei!!! Isso não é justo! Eu sempre te fiz companhia quando você não encontrava emprego. Nunca te abandonei. Agora, eu…
Mas antes que pudesse continuar, Harry viu Anne estalando os dedos e mudou imediatamente o que ia dizer.
— …acho que sua sugestão é perfeita pra mim.
…
Assim que Harry se ajoelhou à supremacia de Anne, o ‘problema de ratos’ no navio foi finalmente resolvido. Depois disso, Anne levou Harry pelo barco e o apresentou aos outros piratas. Ela enfatizou para todos que Harry era apenas um marinheiro temporário. No entanto, a tripulação ficou descontente ao ver o menino. Nos dois dias anteriores, eles tinham procurado o rato por toda parte, e tinha sido uma situação caótica e cansativa. Foi um milagre que eles não tivessem espancado Harry ao vê-lo.
Anne também não tinha intenção de ficar do lado dele. Ela queria que Harry experimentasse a realidade da vida em um navio pirata. Fazendo isso, ela esperava fazê-lo mudar de ideia sobre ficar. Anne tinha mencionado a Zhang Heng antes sobre o desejo de Harry de trabalhar na Jackdaw, mas depois de muita consideração, ele não concordou. Era demais. Um menino de doze anos era muito jovem para trabalhar em um navio. Se fosse o mundo moderno, Harry deveria estar na escola primária.
Apesar de tudo isso, Zhang Heng não se importou com o clandestino extra em seu navio. Afinal, todos eram piratas e arriscavam suas vidas todos os dias a bordo. Uma vez que um ataque contra eles começasse, os inimigos não se importariam se Harry ainda era criança ou não. Eles o matariam, de qualquer maneira. Ele queria fazer Harry esperar mais dois anos ou mais antes de deixá-lo entrar para seu navio. Infelizmente, Harry pensava diferente.
Anne voltou ao convés depois de arrumar um camarote para Harry dormir. Foi então que o Quidah içou sua bandeira para sinalizar todos os outros navios, um sinal que convocou os cinco capitães para se reunirem. Ao receber a indicação, Zhang Heng levou dois piratas com ele e remos até o Quidah. Erik, o timoneiro, era um bom amigo dele, e automaticamente cumprimentou Zhang Heng quando o viu.
— Capitão Zhang Heng, como você tem estado? Sam está no camarote do capitão. Todos os outros já estão aqui. Você é o último a chegar.
Um jovem marinheiro levou Zhang Heng ao camarote do capitão do Quidah. Além de Sam, outros quatro capitães de quatro navios diferentes cercaram a mesa, olhando para um mapa náutico. Zhang Heng fechou a porta ao entrar no camarote.
— Deixa eu explicar o plano, já que todos estão aqui. Por enquanto, sabemos que duas corvetas estão protegendo o navio espanhol. Cada corveta deve estar armada com pelo menos 50 canhões. Agora, o navio espanhol é ainda mais poderoso que as corvetas. Se todos nós atacarmos os três ao mesmo tempo, podemos durar apenas duas rodadas, mais ou menos. Vamos perder muita gente mesmo que ganhemos a batalha.
— No entanto, eles também têm suas fraquezas. Embora seu casco seja resistente o suficiente para suportar nossos canhões e proteger sua carga, é difícil para eles manobrar seu navio. Se conseguirmos desviar dos ataques de seus canhões laterais e, em vez disso, atirar em sua proa e popa, acho que devemos obter bons resultados.
— Como vamos fazer isso? — perguntou o capitão do Guerreiro.
— Eles não são tão ágeis quanto nós, e o mar é vasto. Quando eles nos virem vindo de longe, ainda terão tempo suficiente para mudar de direção, a menos que nos dividamos e os cerquemos de todas as direções. Ainda assim, não se esqueçam das duas corvetas que o guardam. Elas podem afundar nossos navios um por um se fizermos isso.
— Boa observação. A Ilha do Papagaio fica a apenas três dias de viagem. Se não me engano, a galeão deve cruzá-la em cerca de cinco dias. Podemos emboscá-los de lá, — disse Sam, apontando para uma ilha no mapa náutico.