
Capítulo 144
48 horas por dia
“Eu ouvi dizer que eles planejam estabelecer cinco níveis de preço. As grandes e poderosas tripulações vão para o primeiro nível, se assinarem o contrato com eles. Já as de médio porte, ficam no terceiro ou quarto. Um grupo pirata novato como o seu só começa lá embaixo.”
“Claro, se você conseguir um montão de tesouro e vender tudo para eles, com certeza eles aumentam o preço de compra. Talvez você chegue ao quarto nível em três anos, se tiver sorte. Imagino que esse seria o menor tempo. Mas, convenhamos, isso não é justo com a sua tripulação”, disse Carina, tentando mexer nos pulsos levemente inchados, ainda amarrados.
Vendo aquilo, Zhang Heng desenbainhou a adaga e cortou as cordas que prendiam os pulsos e tornozelos de Carina.
“O que você quer dizer com negócios?”
“Quero trabalhar com você a longo prazo. Estou disposta a comprar todo o saque que você conseguir dos navios mercantes. Não se preocupe, meu preço é bem maior do que o que a aliança oferece. Posso te dar o preço do quarto nível já de cara.”
Carina tinha certeza de que Zhang Heng aceitaria na hora. Para sua surpresa, ele recusou sem pensar duas vezes.
“Sinto muito, não estou interessado.”
“Por quê? No momento, você precisa de um parceiro estável para negociar. O preço que estou oferecendo é pelo menos 40% maior do que o da aliança. Minha proposta é só para um capitão como você. Aceitar esse acordo vai te ajudar a garantir sua posição. Além disso, você não tem nada a perder.”
“Você calculou o dinheiro que vou ganhar vendendo o meu saque para você, mas não calculou o risco que vou correr. Com certeza, minhas ações vão irritar toda a aliança comercial se eu trabalhar com você. Em outras palavras, se acontecer alguma coisa com você, nenhum comerciante do mercado negro nessa ilha vai mais negociar comigo.”
“Você não precisa se preocupar com isso. Moro em Nassau há muito tempo. Nada de ruim aconteceu comigo até agora.”
“É mesmo? Então por que você não se juntou à aliança? Pelo que você descreveu, você devia ter inúmeros parceiros comerciais antes deles formarem a aliança, certo? E agora? Quantos capitães ainda estão dispostos a vender o saque para você?”
Essa era a pergunta que Carina não conseguia evitar. No caminho para a casa de Zhang Heng, ela havia criado várias versões da história na cabeça. Para ela, Zhang Heng era só um cara com sorte que tinha conseguido um navio de guerra, e achava que convencê-lo a trabalhar com ela seria fácil. No entanto, assim que começaram a conversar, Carina percebeu que tinha sido muito ingênua ao pensar que Zhang Heng concordaria. Para sua surpresa, o raciocínio de Zhang Heng e sua capacidade de manter a calma não condiziam com a idade dele. Ele era mais assustador do que todos os piratas com quem ela já havia negociado.
Foi naquele momento que Carina percebeu que a história que havia inventado era totalmente ridícula. Ficou sem palavras. O clima na sala de estar ficou estranhamente silencioso. O único som era o ronco alto de Anne, obviamente desinteressada na conversa entre Zhang Heng e Carina.
Zhang Heng então se levantou e jogou o casaco sobre Anne.
“Não vou trabalhar com você se você não me contar a verdade.”
“Bem, tenho medo de que você não vá trabalhar comigo se eu contar a verdade.”
“Tente-me.”
Zhang Heng serviu dois copos de chá e deu um para Carina.
“Na verdade... eu não sou uma comerciante do mercado negro dessa ilha”, disse Carina depois de hesitar bastante.
Enquanto falava a verdade, aproveitou para observar a reação de Zhang Heng ao que estava prestes a dizer. Mais uma vez, ela percebeu que ele não ficou surpreso com a verdade.
“Você sabe que eu não sou uma comerciante do mercado negro? Será que pareço uma palhaça para você?”
“Não exatamente. Quanto tempo você está nessa ilha?”
“Dois meses.”
“Não é fácil fazer o que você está fazendo agora, já que você está aqui há pouco tempo. Sua roupa e comportamento eram muito convincentes. Mais importante, você parece conhecer bem a ilha. Você não teria levantado minhas suspeitas se sua pele fosse mais escura. Os comerciantes do mercado negro dessa ilha precisam checar suas mercadorias sob o sol forte. Por isso, eles são mais bronzeados que a maioria. Você parece alguém que não sai muito de casa.”
“É por isso? Antes disso, eu morava em New Hampshire. Meu pai era um comerciante do mercado negro aqui em Nassau. Quando eu era criança, ele me contava histórias sobre essa ilha. Dizia que era a terra do dinheiro, onde só os destemidos sobreviviam. Claro, eu não me interessava pelo que ele tinha para me dizer.”
“Então, por que você está aqui agora?”
“É por causa do meu pai. Seis meses atrás, ele foi preso em New Hampshire, condenado por trabalhar com piratas. O jogaram na cadeia e confiscaram seu navio. Ironicamente, o chefe do porto e o fiscal da alfândega receberam um suborno enorme dele uma semana antes.”
“Minha mãe assumiu o trabalho dele assim que soube da condenação. Ela ofendeu um poderoso empresário local ao vender um lote de produtos similares. Eu pedi para alguém me ajudar a tirar ele da prisão. Infelizmente, o cara pediu uma quantia astronômica. Eu nem consigo chegar perto desse valor, mesmo que venda tudo de valor que tenho em casa. Por isso estou pensando em assumir o negócio dele para ganhar mais dinheiro e pagar a fiança.”
“No momento em que você chegou aqui, a aliança tinha acabado de ser formada.”
“Sim. Eu não consegui me juntar à aliança porque simplesmente não estou qualificada. Tentei procurar vários capitães que trabalhavam com meu pai, na esperança de trabalhar com eles. Infelizmente, os contratos dele são inválidos porque ele não apareceu por muito tempo. Seus antigos amigos me disseram que não podiam me ajudar mesmo que quisessem. Não me restou opção até ver seu navio hoje à tarde. Tudo o que pensei foi tentar a minha sorte e convencê-lo a trabalhar comigo.”
“Meu pai me deixou um navio para transportar seus produtos. Depois de anos trabalhando como comerciante do mercado negro, ele estabeleceu várias conexões. Ele me contou todos aqueles nomes quando o visitei na prisão. Além disso, ele tem uma licença que permite a passagem livre pela alfândega na maioria das colônias. Embora eu não possa acessar Nova Jersey agora, ainda posso vender minhas coisas em outros portos que ele costumava frequentar.”