48 horas por dia

Capítulo 45

48 horas por dia

“O que você fez depois disso?”, perguntou Zhang Heng.

“Eu... nada.” Um olhar de remorso cobria os olhos de Takeda Tetsuya. “Eu não devia tê-lo deixado ali. Queria... descer do carro para ver como ele estava, mas ouvi sirenes de polícia vindo do sentido contrário. Me assustei, então, virei o carro e saí da rodovia.”

“O que aconteceu com os dois?”, perguntou Ameko, perturbada.

“Só fiquei sabendo do que aconteceu com eles nas notícias. O repórter disse que dois menores infratores estavam fazendo corrida em alta velocidade na contramão da rodovia e bateram em um caminhão. Um morreu e o outro ficou ferido. O motorista ferido estava recebendo os primeiros socorros no pronto-socorro... mas faleceu três dias depois.”

“O ferido era o Kobayashi ou...”

“Era o Asano Naoto. Além de ser conhecido como o melhor piloto de Nerima, ele tinha outra identidade — seu tio era o vice-presidente da maior gangue yakuza de Tóquio, a Oni Hitomi[1]. ”

“Ah, não admira! É por isso que você abandonou o mundo das corridas e mudou de nome?”

“Sim. Aquela não era uma corrida pública. Ninguém além de nós três sabia. Mesmo havendo outras testemunhas na rodovia, a visibilidade estava péssima, e estávamos na contramão. Com todos aqueles depoimentos confusos, a polícia não conseguiu determinar se havia um terceiro veículo. Com medo de ser preso e de a Oni Hitomi se vingar, eu... preferi ficar calado de novo.

“Não houve alegria em escapar da punição. A cada dia depois daquele, vivi culpado pela morte do Kobayashi. Se eu não tivesse deixado minhas emoções afetarem minha decisão, e mantido minha decisão de que a corrida nunca deveria ter começado, nada disso teria acontecido! Eu era quem tinha um pé na cova! Mas a ironia é que a primeira pessoa a morrer entre nós três foi a única que votou contra a corrida... Fui até a casa dele em segredo depois disso. O pai dele faleceu quando ele era mais novo, e ele só tinha a mãe e uma irmã. Depois do que aconteceu, eles se mudaram de Tóquio.”

“Você conheceu a mamãe depois disso, certo? Se for esse o caso, por que você não ficou?”, perguntou Ameko.

“Fiquei sempre ansioso depois do acidente; nem conseguia dormir, e mantinha um bilhete de suicídio no meu travesseiro. Mas com o tempo, quando percebi que nem a polícia nem a Oni Hitomi me encontraram, achei que tudo tinha acabado. Então, retomei uma vida normal. Foi então que conheci a mulher que eu amava. Éramos como qualquer outro casal feliz — formamos uma família. Um ano e meio depois, nós tivemos você. Jurei que nunca mais dirigiria e abri uma peixaria.

“Depois de dificuldades iniciais, a loja foi bem. No começo, parecia que eu estava no caminho certo; tinham se passado 6 anos desde o incidente, tempo suficiente para esquecer muitas coisas. Nunca imaginei que um dia, naquele ano, meu pesadelo me encontraria de novo.”

“O que você quer dizer?”, perguntou Ameko.

“Uma noite, enquanto eu estava separando os pedidos sozinho na loja, uma pedra voou pela janela, quebrando o vidro! Achei que era alguma brincadeira de mau gosto, mas quando saí para espantá-lo, não vi ninguém. Quando voltei para a loja depois disso, percebi que a pedra estava embrulhada em jornais velhos. A manchete era sobre o acidente na rodovia naquele ano. Ao lado da manchete, havia palavras escritas em sangue — Você realmente pensou que poderia escapar?”

Takeda Tetsuya sacudiu as cinzas do seu cigarro. “Ninguém além de nós três sabia o que realmente aconteceu naquele dia. Kobayashi... morreu na hora. Asano Naoto ficou na UTI por três dias. Seus ferimentos eram graves. Os jornais disseram que ele estava inconsciente, mas isso não eliminava a possibilidade de que ele pudesse ter acordado por algum tempo... De qualquer forma, do momento em que a reportagem apareceu, minha vida acabou.”

“Então, você não era viciado em jogos de azar — você só queria fazer a mamãe se divorciar de você?”

“Cometi um erro 6 anos atrás, envolvendo Kobayashi na corrida. Não vou cometer o mesmo erro de novo.” Takeda Tetsuya disse calmamente. “Eu não tenho medo da morte — é o fim que eu mereço! O verdadeiro Yosuke Tsuchiya morreu com Kobayashi naquela estrada. O Takeda Tetsuya que seguiu em frente era apenas sua culpa e fraqueza.”

“Na verdade, estou mais curioso sobre como você conseguiu escapar da Oni Hitomi repetidas vezes”, disse Zhang Heng.

“Se você está perguntando sobre aqueles anos atrás, talvez eles esperassem me ver miserável, ou talvez quisessem prolongar meu tormento. A questão é que eles não vieram me procurar até nove meses atrás, quando recebi uma ligação misteriosa dizendo que a Oni Hitomi viria me pegar em breve. Ele me disse para me preparar, também me contando sobre o que aconteceu na noite passada.” Takeda Tetsuya fez uma pausa. “Tudo bem. Terminei de contar minha história. Como eu disse, isso não tem nada a ver com vocês! Essa tragédia aconteceu por minha causa, então é justo que eu a termine eu mesmo.”

“Você nem acredita nisso”, observou Zhang Heng. “Ou então, você não teria fingido ser um jogador novamente e forçado Ameko a terminar tudo com você.”

Takeda Tetsuya ficou quieto. Depois de um momento, ele sorriu: “Eu tenho que, pelo menos, tentar. Não posso simplesmente ficar parado, certo?”

O dono da peixaria parecia ter tomado sua decisão. Ameko começou a entrar em pânico. Ela abriu a boca para dizer algo, mas corou em vez disso.

Zhang Heng se levantou e pegou o casaco ao seu lado. “Você foi quem me ensinou a dirigir. Não importa que tipo de pessoa você seja, pelo menos deixe-me lhe dar o último adeus.”

Takeda Tetsuya pensou sobre isso, não recusando a oferta. Em vez disso, ele olhou nos olhos de Zhang Heng e disse: “Cuide bem da Ameko por mim.”

Os três saíram do restaurante com Takeda Tetsuya andando na frente. Ele acabara de abrir a porta da minivan quando seus olhos rolaram para trás da cabeça e ele desabou dentro do veículo.

Zhang Heng recolheu a tigela de sopa que estava segurando e disse à Ameko, atordoada: “A culpa pelo que aconteceu no passado está ofuscando seu julgamento. Ele não está pensando em controlar a situação. Ele só quer morrer. Me desculpe. Esta é a única maneira de mantê-lo calmo por um tempo.”

“Ah? Ah... Ah.” Levou um minuto para Ameko voltar aos sentidos. Ela ficou confusa sobre por que Zhang Heng tinha beliscado sua mão tão despretensiosamente quando ela estava prestes a falar. Aparentemente, ela o tinha entendido mal.

Mas a coisa estranha era... Ameko percebeu que não estava enojada com essas coisas. Não como ela havia imaginado inicialmente.

Ameko ainda estava imersa em seus pensamentos quando ouviu Zhang Heng dizer: “Este carro não tem seguro e não passou na inspeção. É melhor irmos embora daqui primeiro.”

“Mm.” Ela entrou na van e fechou a porta.

Zhang Heng ligou o carro, depois deliberadamente fez o mesmo trajeto duas vezes para garantir que ninguém os estava seguindo. Quinze minutos depois, ele estacionou a L300 no estacionamento de um supermercado. Ele abriu a porta e estendeu a mão direita.

“Há alguns problemas com a história do Takeda... do seu pai.”


[1] - Oni Hitomi: Nome de uma gangue yakuza fictícia.

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