48 horas por dia

Capítulo 18

48 horas por dia

Zhang Heng não se surpreendeu, principalmente porque sabia que aquilo era apenas um jogo, e não teria ficado surpreso se tivessem encontrado o Ursinho Pooh na floresta.

Mas, naquele momento, Zhang Heng não podia negar que tudo ao seu redor era incrivelmente realista. Se não fossem as vinte e quatro horas extras causando uma grande complicação e alongando a duração do jogo, ele não teria detectado nenhum bug.

Além das cabanas e ferramentas de pedra, a dupla também encontrou um pequeno lago, com quase um hectare, por perto. Bell provou a água e disse: “Está potável. É um lago de água doce. Não admira que eles tenham construído a aldeia perto daqui.”

O olho de Zhang Heng, no entanto, foi atraído por algo semienterrado na lama, à beira do lago.

“Essa tribo... Eles já tinham a técnica para fundir metais?”

Zhang Heng retirou o objeto e percebeu que era um pedaço de ferro enferrujado. Parecia ter sido preso a um pedaço de madeira, mas o cabo estava irreconhecível.

Após uma inspeção, Zhang Heng ficou sem saber para que servia o objeto.

Bell não era onisciente: ele também não sabia para que a coisa servia. Então, só pôde analisar. “Pelo jeito do trabalho, eles provavelmente ainda estão na era da pedra. Esse pedaço de metal pode não ter pertencido a eles.”

Estava ficando tarde, então eles não continuaram, mas encontraram um lugar próximo e fizeram uma fogueira para cozinhar.

Quanto mais se aproximavam do seu destino, Zhang Feng se via em meio a uma confusão de emoções.

No último ano, ele havia se baseado no objetivo de explorar o centro da ilha para se manter trabalhando duro, aprimorando suas habilidades de arco e flecha e se exercitando para manter a forma, até que isso se tornou quase que automático. Mas dizer que ele estava preocupado com o que havia lá dentro também não era totalmente verdade.

Diante disso, Zhang Heng muitas vezes invejava Ed, Bell e o cara de bermuda. Eles podiam se consolar pensando que talvez no dia seguinte um navio atracasse na ilha, ou talvez houvesse algo na ilha que pudesse levá-los para casa. Ao contrário, o jogador Zhang Heng sabia muito bem que, a menos que o tempo acabasse, ele não iria a lugar nenhum.

Quando pensou em como iriam resolver o mistério no dia seguinte, sentiu-se ao mesmo tempo emocionado e ansioso — afinal, ele havia pensado nesse dia pelo último ano —, mas, acima de tudo, estava perdido.

Depois que tudo isso terminasse, em que ele se apoiaria para sobreviver?

Graças a Deus, quatro quintos do tempo já haviam passado, restando apenas mais cem e poucos dias. Mesmo que não tivesse um objetivo para trabalhar, ele conseguiria "segurar a onda" e superar.


Na terceira manhã da expedição, Zhang Heng levantou cedo, mas ao abrir os olhos, viu que Bell já estava acordado.

“Bom dia, Zhang”, o explorador o cumprimentou animado. “Acabei de dar uma volta ao redor do lago. Adivinha o que eu achei?”

“Hum... um novo café da manhã?”

“Isso também é verdade. Eu peguei um bagre, para variarmos o sabor. Mas além disso, achei outra coisa.” Bell colocou duas pequenas bolas enferrujadas na palma da mão de Zhang Heng.

“O que é isso? Bolinhas de gude?”

“É uma bala.”

“Como balas sólidas são disparadas?”, perguntou Zhang Heng. Ele não era fã de armas, mas tinha algum conhecimento básico sobre elas. As armas modernas dependiam da ignição da pólvora nas balas para serem disparadas. Sem pólvora, a bala não perfurava nada.

“Lembra daquela coisa que você encontrou perto do lago? Eu sei o que é.” O explorador estava radiante de entusiasmo. “É uma arcabuze — muito usada na Europa dos séculos XV e XVI. A pólvora e o cartucho para esse tipo de arma são carregados separadamente, e então o pavio é aceso... Naquela época, o tráfico de escravos estava em alta, e os aborígenes daqui devem ter sido atacados e capturados pelos traficantes de escravos e depois vendidos para fazendeiros.”

A especulação parecia razoável e de acordo com o que haviam visto. Zhang Heng decidiu aceitar a afirmação do amigo como verdade. No entanto, mais tarde naquele dia, quando finalmente chegaram ao coração da ilha, depararam-se com uma estrutura que se assemelhava a um altar com uma montanha de ossos empilhados em cima.

Zhang Heng se virou para o companheiro. “Seus traficantes de escravos europeus dos séculos XV e XVI eram tão implacáveis assim?”

“... Isso não é obra dos traficantes de escravos. Foi um período negro e sangrento. Pelo que sei, os traficantes de escravos matam, sim, aqueles que resistem à captura para assustar os outros. Às vezes, eles também matavam os muito velhos ou muito jovens, aqueles que eram inconvenientes para transportar.” Bell caminhou até o altar e pegou um crânio. “Mas isso... isso não é prática deles.”

“Se não foram os traficantes de escravos que mataram os aborígenes da ilha, quem fez? Teriam sido eles mesmos?”

A pergunta de Zhang Heng deixou os dois perplexos.

O estilo arquitetônico do altar era muito semelhante às ruínas em que haviam se deparado perto do lago.

“Tudo bem, digamos que os traficantes de escravos chegaram à ilha, e esses aborígenes viram que não eram páreo para o inimigo, então vieram ao altar e acabaram com suas próprias vidas... É um pouco forçado.”

Bell caminhou até o centro do monte de ossos, abaixou-se e limpou a poeira do chão de pedra. “Isso é outra coisa. É um totem representando uma criatura meio humana, meio serpente. Parece que pode ser o deus que esses aborígenes adoravam.”

Zhang Heng ficou um pouco desanimado. Embora não se importasse muito com o que quer que estivesse no coração da ilha, encontrar ruínas indígenas sem utilidade o deixou desapontado.

Ele havia se preparado para isso por um ano inteiro, e a viagem até lá foi perigosa. Ele quase foi engolido por uma píton. No fim, tudo o que encontraram foram um monte de ossos e um altar.

Mas vendo o quanto Bell estava animado com tudo aquilo, Zhang Heng guardou sua opinião para si.

A dupla tinha comida e água em abundância. Ainda restava mais da metade da comida que haviam trazido, e pelo caminho Bell matou vários “animais”, que, embora parecessem coisas que a maioria das pessoas relutaria em colocar na boca, eram surpreendentemente bons.

Zhang Heng estava pensando se deveria cortar diretamente pela floresta até a outra extremidade da ilha e depois seguir pela costa para voltar à sua morada quando uma sombra escura surgiu de trás do altar e se lançou sobre o explorador.

Zhang Heng pulou. Ele não precisava das explicações científicas de Bell para reconhecer o que era aquilo — uma onça, a rainha da floresta tropical, semelhante a um tigre, armada com dentes e garras afiados que poderiam dilacerar um jacaré. Era aquele grande predador no topo da cadeia alimentar.

O reflexo de Bell foi muito rápido. O explorador rolou pelo chão e escapou do ataque relâmpago da fera, então puxou a faca na cintura.

Zhang Heng rapidamente puxou seu arco e flecha, mas outra onça apareceu.

Desta vez, o rosto de Bell caiu.

O quê?! Zhang Heng sentiu uma onda de náusea. O correto era a morte do explorador ainda estar a quatro dias de distância. Por que essas onças haviam aparecido tão cedo? Eles erraram o roteiro?

Mas não havia tempo para pensar nessas coisas agora. Bell estava em grave perigo. Por mais bom que fosse, não havia como ele lutar contra duas onças sozinho. Zhang Heng levantou seu arco e atirou na segunda onça.

O felino desviou da flecha rapidamente. Zhang Heng já esperava por isso. Os dois estavam a cerca de 27 ou 28 metros de distância um do outro. Se ele tivesse atirado em um rato a essa distância, sua taxa de acerto seria de cerca de 50 a 60%. Mas a onça era muito mais ágil e esperta do que o dodô.

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